Arquivo da Categoria: Valupi

Peripatéticos

Primeira figura

Barbara
Tudo o que Sócrates faz é ruinoso ou criminoso
Tudo o que a direita faz é ter inveja de Sócrates
Tudo o que a direita gostaria de fazer é ruinoso ou criminoso

Celarent
Nenhum membro do Governo é honesto ou competente
Todos os tipos da direita querem ir para o Governo
Nenhum tipo da direita é honesto ou competente

Darii
Todas as pessoas de bem votam Cavaco
Alguns escroques são pessoas de bem
Alguns escroques votam Cavaco

Ferio
Nenhuma realidade é fantasia
Algumas coelhas são reais
Algumas coelhas não são fantasia

«I’ve been to Sugar Town, I shook the sugar down»

João Pedro da Costa, o melhor blogger do Mundo e um dos melhores em Portugal, alguém que heroicamente moldou o destino para me permitir ser seu primo por afinidade antroponómica, voltou às lides com estrondoso aparato académico: mv flux

Para além do objecto da sua investigação, vídeos musicais na Web, ele está a desenvolver um estudo que abarca toda a cultura digital contemporânea. Absolutamente precioso para vários públicos, de cientistas a jornalistas, passando pelos simples (ou complexos) curiosos.

Escuta, Cavaco

MA – [atabalhoada, confusa, errada, inepta apresentação do caso das escutas]

JSCavaco Silva, quer responder?

CSQuero responder e mais do que isso… O sr. candidato anda muuuito distraído. Um candidato não pode andar distraído quando tem todos os seus meios à disposição. Pode ir consultar a página da Internet da Presidência da República e está lá tudo aquilo que eu devia dizer – e que é a verdade! Sabe, a verdade é muito fun-da-men-tal, principalmente para a resolução dos problemas de um país. Porque um cidadão in-for-mado, um povo informado, enfrenta melhor os problemas do País. A verdade gera confiança, enquanto a ilusão o que faz é gerar descrença.

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Debateminutos 20 e 21, a resposta de Cavaco dura 30 segundos e o assunto não volta a ser falado.

*

Um dos acontecimentos mais extraordinários da minha vida adulta, como cidadão para quem a política é parte constitutiva da identidade, é a Inventona de Belém. O espanto não está tanto no facto de ter acontecido, conhecendo nós cada vez melhor o calibre dos seus mentores e executantes, mas no facto de ter desaparecido sem qualquer consequência, seja ela qual for. E se o Governo, portanto o PS, nada podia fazer naquele contexto – com eleições daí a semanas quando a conspiração foi lançada ou a dias quando foi desmontada, e com a obrigação de formar um novo Executivo agora sem maioria parlamentar e no meio de uma desvairada crise económica – é inacreditável como o tema não foi aproveitado por nenhum dos candidatos presidenciais que se propunham derrotar Cavaco. Nenhum, pois o que fez Alegre no debate é igual a nada. E ainda se deixou tratar de forma ignóbil, como um farrapo onde se escarra e manda ao chão.

Qual a razão que justifique não ter o Ministério Público aberto um inquérito-crime neste caso? Não estaremos, deixa cá pensar meio segundo, perante um retinto atentado ao Estado de direito?

Continuar a lerEscuta, Cavaco

Esgoto a céu fechado

A questão dos comentários, nas caixas dos jornais… Quer dizer, eu acho que começa a ser preciso arranjar meios de meter mão naquilo, porque aquilo basicamente é ódio atrás de ódio… Quer dizer, já vai muito além de qualquer razoabilidade de liberdade de expressão.

João Miguel Tavares

Eu, nada que apareça nas caixas de comentários dos blogues, ou dos jornais, me espanta porque eu acho que é uma sarjeta. [Alguém lhe chamou “esgoto a céu aberto”! – Carlos Vaz Marques] Sim, sempre foi, e não percebo como é que os jornais continuam a defender isso.

Pedro Mexia

Eu não sei se é mau isto de haver sarjetas nos blogues e nos sites dos jornais. Eu acho que devia haver mais estudos sobre a utilização das novas tecnologias pelo homem de Neandertal. Isso é uma coisa que me surpreende sempre: gente que eu suponho que vive em cavernas, por aquilo que diz e pelo modo como o diz, mas que está com um computador à frente, com um teclado.

Ricardo Araújo Pereira

Fonte

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Vários jornalistas e publicistas, alguns deles acumulando com longa experiência como bloggers, neste período das reacções à morte de Carlos Castro voltaram à ladainha contra as caixas de comentários. Na sua entusiasmada opinião, as mais graves patologias psíquicas e morais que podemos detectar na sociedade correm soltas nessas fossas infectas a que se acede pela Internet para deixar conjuntos de caracteres.

Esta atitude, vinda daqueles que, por boas ou aleatórias razões, fazem parte da elite intelectual que intervém no espaço público, nasce de um triplo erro. Começam por não perceber o poder simbólico do crime em causa – onde a mutilação sexual, precisamente por ter sida feita por um homem noutro homem, cria uma situação de trauma colectivo que obriga a um difícil, e para muitos impossível, exercício de doação de sentido. Até isso acontecer, alguns homens, mais uma vez, ficarão predispostos para explosões de violência emocional, consequência do stress em que se encontram. Depois não entendem as noções básicas da comunicação na Internet, onde o vazio somático e o uso da linguagem escrita são factores inevitáveis de equívocos interpretativos (não temos a expressão facial e o tom de voz, o que pode levar a que uma piada seja tomada como uma ameaça, por exemplo e etc.) e de pulsões justiceiras (as flame wars como folclore das comunidades digitais desde o começo da Web). Há inúmera literatura científica sobre o fenómeno. Por fim, não compreendem que a sua verrina contra o povo abrutalhado que berra e larga caralhadas é uma declaração de desprezo pela democracia. Particularmente em Portugal, país sem tradição recente de cidadania, debate político elevado ou estima pela intelectualidade. Naturalmente, há milhões de portugueses que só agora estão a aprender a discutir com o vizinho, tenham eles 17 ou 71 anos. Os excessos, as falhas, a exposição crua das misérias que cada um de nós carrega, fazem parte do nosso destino comum. São a matéria de que somos feitos. A matéria com que se cresce.

João Miguel Tavares, publicista que fez do ódio a um governante a catapulta para a fama, mostra-se disponível para acabar com o ódio dos pestíferos anónimos que andam por aí a ameaçar o seu lugar. E não admira: é que o Correio da Manhã, para onde se mudou depois de ganhar o prémio Calúnia 2009, não pode acolher todos os que mostram ter algum talento para achincalhar figuras públicas. Aquilo é um esgoto a céu fechado e já está cheio de merda.

A foggy day in Lisbon town

Quinta-feira. Estupidamente cedo. O nano-anão dentro do rádio garante que Lisboa está coberta por nevoeiro. Penso que está a mentir. Penso que, a ser verdade, é noutro local. Penso que me quero levantar. Há nevoeiro à minha espera.

O único problema com o nevoeiro é a rapidez com que desaparece. Quase nunca chega ao meio-dia, poucas vezes aparece à noite. E não é possível acontecer em excesso. Que seria isso de um nevoeiro catastrófico? Algodão doce.

Quinta-feira foi um dia lindo. Porque o nevoeiro não partiu no final da manhã, ficando cada vez mais denso com o passar das horas. À noite, atravessando a cidade a pé, as luzes eléctricas abriam portões e fendas para a entrada em reinos encantados, ali mesmo ao virar da esquina ou por detrás daquela árvore. Tudo era outra coisa, humidamente irreal. Um tempo fora do tempo.

O nevoeiro existe para nos dar a ver o que está demasiado perto.

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Apelo à Direita

Bom povo da direita lusitana,

Sabemos como têm sofrido prejuízos colossais e indignidades atrozes por causa dos bandidos que usurparam a governação, oprimem quem trabalha, perseguem os que criam riqueza e roubam a fazenda pública. A vós, que guardais as nossas melhores tradições e as mais elevadas aspirações, que estudastes em famosos colégios e reputadas universidades, que possuis estantes repletas de tratados, ensaios e florilégios de moral, que sois os mais viajados e sofisticados, que exibis enciclopédico conhecimento sobre restaurantes sublimes, vinhos raros e perdizes de perder a cabeça, que tendes os pais mais cultos, os tios mais altruístas, os primos mais honestos, os amigos mais inteligentes e as amigas mais giras e liberais, em verdade vos digo: haveis uma vocação inata, um direito natural, para mandar nesta merda toda.

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Why deadlines don’t matter any more

Paulo Querido cita um artigo de Alan Mutter que está cheio de bons conselhos para quem gosta de fazer e ler jornais. O segredo para a captação da relevância perdida, acrescento às ideias do texto, será também a recuperação da ligação política à comunidade na sua universalidade, não aos grupos particulares que calhem estar a condicionar um dado órgão de informação (accionistas, directores, facções partidárias na redacção). Isso pedirá um tipo de jornalista que acredite no lado idealista da profissão, para além de ter a força para resistir às tentações narcísicas e venais do meio. Aves raras, pois.

Esperemos que um dia se faça essa experiência em Portugal. Para que volte a ter o prazer de comprar um jornal de referência. Um jornal de eleição. De paixão.

Clube dos amigos do FMI

Há longos meses que um grupo de portugueses acorda e vai para a caminha com a esperança de que o FMI já esteja a aterrar na Portela. Qualquer sinal que permita alimentar esse sonho internacionalista, sejam números ambíguos, notícias inventadas ou as vísceras frescas de um borrego, é festejado como uma vitória. E compreende-se bem o entusiasmo: se não for o FMI, eles não se salvam da bancarrota mental. Sozinhos, apenas com os seus partidos, os seus grupos de comunicação social, os seus empresários, os seus administradores públicos, os seus magistrados extrovertidos, estão condenados à indigência política que arrastam há décadas.

Não estávamos era a contar descobrir que o presidente deste clube acumulava com o cargo de Presidente da República, mas estes últimos dias, e estas últimas horas, obrigam a essa conclusão. Para quem ainda tinha dúvidas, aí está: Cavaco Silva é o chefe da oposição ao Governo e o cabecilha da próxima golpada institucional já em andamento.

Alice#5

A primeira Alice do ano oferece Pedro Mexia, Eduardo Salavisa, Tiago Albuquerque, Ricardo Miranda e Maria João Vasconcelos. E até final de Fevereiro oferecerá muitos mais.

Esta revista digital vive em permanente superavit de talento.

Good food for good thought

Faced with pandemics, security crises, threats of global terrorism and crime, climate change and many other looming threats, new approaches to global governance are required. This does not mean that nation-state governance will become less relevant, but rather that effective governance is required at both the national and global level. The stakes for getting global governance right have never been so high.

The omens, however, are not good. If past decades are any guide, new problems will be thrown at old and outdated institutions. Finance is the best equipped and most institutionally developed of the global governance regimes, yet the Bretton Woods, Central Banks and many other financial institutions failed to predict, prevent, or understand the endemic systemic risks in the system. Moreover, these institutions have yet to elicit the structural changes needed to proactively manage future systemic risks. Systemic risks ultimately require systemic responses. However, the pace of technological innovation may be expected to continue to outpace regulation, and even the best-equipped institutions will struggle to adapt to the rapidly evolving complexity of systemic risks.

On Systemic Risk

Internetismo

Quem quiser conhecer a verdade – repito: a verdade; insisto: a verdade – sobre aquilo que diz e faz o Presidente da República, basta ir à página da Internet da Presidência da República. Lá, está a verdade.

Cavaco Silva

*

Foi em Sobral de Monte Agraço, entre canhões e soldadinhos, que Portugal ficou a saber onde está a verdade presidencial: não nas palavras e actos do Presidente, não nas suas decisões políticas, muito menos nalgum porta-voz dado à frequência de pastelarias, mas num certo sítio da Internet. 6 meses após este oráculo, acumulam-se os sinais de que Cavaco terá mesmo fundado uma nova religião – o Internetismo. Perfeitamente adequado aos tempos celerados que vivemos, este novo credo já não se filia nas chamadas religiões do Livro e sua pesada herança veterotestamentária, antes inaugura uma nova categoria: as religiões da Página. A verdade cabe numa página, nem sequer precisamos de recorrer a uma folha, agradeçam e venerem uma das mais estonteantes revelações que nos foi transmitida pelo profeta Cavaco.

Contudo, não se pense que esta modernice da verdade paginada diminui o aparato exegético e hermenêutico necessário à plena fruição da mesma. A verdade continua a ser para poucos, apesar de muitos serem chamados. Tomemos como exemplo algo simples, com três letrinhas apenas: SLN. Onde se encontra, no corpus digital do Internetismo, essa misteriosa trindade? Recordemos as palavras do profeta:

Recentemente foi noticiado que eu tinha tentado esconder que da minha carteira de títulos e da minha mulher faziam parte acções da SLN. Não é verdade. E se eu digo que não é verdade é porque estou perfeitamente seguro que o posso dizer.

Eis uma das mais valiosas bênçãos para quem funda uma religião, a capacidade de separar a verdade da mentira com perfeita segurança. E a faculdade que permite o acesso à contemplação da verdade é a simples leitura:

Quem diz que procurei ocultar que da carteira de títulos minha e da minha mulher faziam parte acções da SLN não está a dizer a verdade ou então não soube ler o comunicado que eu fiz.

A alternativa é entre a falta de carácter ou o analfabetismo e a iliteracia, no Internetismo não há espaço para mistelas. Estamos perante um socratismo, por mais paradoxal que possa parecer, em que se admite uma via racional para a verdade a partir do próprio ser cognoscente e sua natureza ontológica. Há só uma condição: saber ler comunicados. Pois bem, no comunicado em causa, guardado no templo da verdade, vemo-nos face a 2.199 caracteres que, curiosamente, em nenhuma das suas configurações acabam por formar a troika SLN. Será isto causa suficiente para dizer que se ocultou a fugidia sigla? Nada mais longe da verdade, a tal verdade verdadeira, visto a chave do enigma consistir no que o profeta Cavaco indicou claramente: saber ler.

Por exemplo, tomemos este passo do comunicado:

As aplicações feitas pelos bancos gestores constam, detalhadamente, da referida Declaração de Património, entregue no Tribunal Constitucional – assim como o número de todas as contas bancárias do casal, excepto uma, aberta no Montepio Geral, por acolher apenas depósitos à ordem – a qual, repete-se, pode ser consultada.

Aqueles que sabem ler comunicados – portanto, os ungidos que não mentem – encontram aqui a SLN em tudo o que é palavra ou espaço entre as letras. E a mensagem é a seguinte: a SLN foi despachada numa Declaração de Património para as masmorras do Tribunal Constitucional. É lá que ela se encontra e até pode ser visitada pelos familiares ou curiosos. Mas porquê tal triste fado? Porque a SLN não cabe numa página, aquilo são caixotes e caixotes de revelações. Ora, se não cabe numa página, não faz parte da verdade.

O Internetismo, como se vê, ainda vai salvar muita gente.

Viva o Presidente da República Portuguesa!

Temos duas semanas para fazer destas eleições presidenciais algo que não nos envergonhe. Por exemplo, escolher em quem votar. Quanto a isso, a solução para o meu problema chama-se Defensor de Moura. Se existir uma segunda volta com Alegre, passaremos para uma nova eleição, um problema diferente. A bipolarização tratará de impor a sua lógica, acabando com as dúvidas para a enorme maioria; embora eu, nessa eventualidade, vote em branco. Cohérence oblige. Mas há muito em jogo para além da contagem dos votos.

A mais urgente tarefa é a de limpar a tralha que messiânicos, decadentes e patarecos lançam para o meio da rua. Eles repetem, sem mostrarem sinais de fadiga, que o Presidente da República, no actual regime, é uma figura sem poder, logo sem importância nem consequência. Quem assim fala não tem estado em Portugal desde Março de 1986, altura em que Soares começou o ciclo das magistraturas de influência. Mas quem primeiro mostrou toda a força que a Constituição deposita no Presidente foi Sampaio. Começou com a decisão de permitir a continuação de um Governo cujo anterior primeiro-ministro tinha fugido esbaforido, e consumou-se com a decisão de afastar um Governo cujo eleitorado tinha debandado assustado passados 120 dias de Santana Flopes. Para quem pensava que Sampaio apenas ambicionava pôr este Planeta a dormir com os seus indecifráveis discursos, as duas decisões fizeram História. E seguiu-se Cavaco, um Presidente que alimentou as mais variadas insídias contra o Governo, desde o permitir ensejos de aumento dos poderes presidenciais e formação de Governos nessa esfera até à obscena aliança com a estratégia negra do PSD no consulado de Ferreira Leite, passando por uma manipulação da comunicação social para efeitos de perversão de actos eleitorais. Coisinhas menores, como sabemos.

Para além de reconhecermos que os equilíbrios entre Presidente da República e Parlamento, estabelecidos na Constituição, permitem intervenções presidenciais de importância absolutamente decisiva para o nosso futuro colectivo, é também evidente que o papel do inquilino de Belém pode ser agregador de vontades e inspirador de coragem e liberdade. Para tal, porém, tem de dar o exemplo. Todos os meios e condições lhe são oferecidos em contrapartida. Não faltam oportunidades para um Presidente influenciar a comunidade, seja na relação com o Governo, seja na relação com o Povo. Se os concidadãos que chegam a essa tão alta honraria não realizam todo o potencial do cargo em favor do País, é só porque não o podem fazer por falta desse destino, não porque não o desejem. Da nossa parte, a melhor forma de os respeitarmos é permanecermos sem vacilar na muralha que os defende e julga – apesar de poderem ser figuras tão nefastas como, por exemplo, um Cavaco Silva, o valor da sua função continua intocável. Precisamos de um Chefe de Estado de quem nos orgulhemos e não podemos descansar enquanto não o encontrarmos.