Arquivo da Categoria: Valupi

Eventually, por fim.

Desde a adolescência que registo este erro de tradução: eventually como eventualmente. Mas não sou só eu a reparar. Toda a minha gente repara. Todinha. Porque o erro aparece em filmes, em séries, em documentários. E aparece há décadas, aparece todo o santo dia.

Eventualmente, um dia estes nossos tradutores farão um ultimately aos ingleses para eles desistirem dos seus territórios semânticos.

300_Zack Snyder

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A coisa cabe toda dentro desta americana palavra: comics. Sendo adaptação de banda desenhada (sub-especialidade: graphic novel), é tão denso quanto uma folha de papel. Talvez nem seja um filme. Seguramente, não se trata de cinema.

Dentro do chico-espertismo que molda a indústria do entretenimento, a equipa que produziu e realizou o 300 foi roubar descaradamente às fórmulas vencedoras na bilheteira. Pegou na fotografia de Gladiator, nas cenas de Braveheart, nos diálogos de Xena, e acrescentou a antropologia do hip-hop. Resultado: um produto adequado aos indivíduos cujos cérebros correspondam aos 12 anos de idade biológica. Esta característica neuronal, esclareça-se, pode encontrar-se em pacientes com 65 anos já gastos, ou mais.

A querela relativa aos espartanos versus persas, e à História da história, é totalmente irrelevante. Perder tempo a discutir o assunto é sintoma de grave falha cognitiva. Tais como irrelevantes serão as supostas alusões ao racismo, aos muçulmanos, ao Oriente, ao Irão, aos homossexuais, ao eugenismo, ao culto da violência, à estética gore, e sei lá que mais. Esses espasmos são pavlovianas manifestações do marketing que está na génese deste artigo de consumo. A questão que importa ao cinéfilo é bem outra: a que género pertence?

É que esta coisa não pode entrar no género Histórico, visto estar-se a marimbar para a dita. Não pode ser de Guerra, pois não se vê nenhuma guerra, apenas uns maduros a decepar tipos que avançam para eles dentro de umas vestimentas carnavalescas. E não pode ser de Acção, porque não tem o menor estremecimento emocional, é um acabado aborrecimento do princípio ao fim. Então?

Então, é uma comédia. Uma das mais hilariantes que me lembro de ver. O facto de ser involuntária, só lhe aumenta a graça.

E esta, hein?…

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No dia 23 do mês passado, Pacheco Pereira revelou ser um apaixonado por jogos de computador. Nenhum dos seus abruptos leitores comentou a nova, ou, se o chegou a fazer, não mereceu ser publicado em relação. E eu estranho, porque o facto é notável. Primeiro, porque Pacheco Pereira será um dos publicistas mais atarefados, desmultiplicando-se pelas regulares prestações mediáticas (jornal, revista e TV), mais as da investigação, mais as das leituras correntes, mais a manutenção do melhor blogue português, mais o resto, o tanto. Depois, porque de um usual vituperador do futebol, o qual recusa com desdém, não se esperam adesões a divertimentos (aparentemente) ainda mais alienantes. Por fim, porque seria fácil usar a informação para piadas imbecis e argumentos ad hominem.

Donde, a conclusão que retiro é a seguinte: mal estão os que ainda não jogam.

Cinco Violinos, do século XXI

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Embora Eusébio tenha sido roubado ao Sporting, e a Moçambique, é um herói de todo o português amante de futebol. O Pantera Negra, tanto excitou confrades benfiquistas como adeptos da Nação. Nessa lógica, é bondosa a analogia com os Cinco Violinos para um grupinho dentro do grupo que a Selecção vai manter durante os próximos 10 anos: Cristiano, Quaresma, Moutinho, Nani e Sabrosa (este, pela idade, a ceder futuramente o lugar ao Yannick, mantendo o conceito — e até o tornando potencialmente melhor) são criações leoninas. Será que alguma vez irão jogar ao mesmo tempo, sem carência de pontas-de-lança? Seria uma festa. Como ontem houve no Alvalade XXI.

Tavares da Silva — jogador de futebol, árbitro, jornalista e Seleccionador Nacional — foi quem cunhou a expressão Cinco Violinos. É uma belíssima metáfora, emanação de um outro tempo e de uma outra educação. Como curiosidade, é com ele à frente de Portugal que se regista a primeira vitória contra a Espanha, também com 4 golos marcados (tal como agora na primeira vitória oficial sobre a Bélgica). Esperemos que estas coincidências, muito afastadas, se afastem ainda mais, pois foi com ele que Portugal enfardou dez golos sem resposta da Inglaterra; e esta calamidade a acontecer no Jamor…

O futebol é importante pela importância que tem na colagem dos indivíduos à sua identidade colectiva, e por mais nada de relevante para a cultura. Só que a cultura depende da colagem dos indivíduos à sua identidade colectiva, por mais razões do que aquelas que cabem neste texto. Vai daí, temos de compreender a paixão pelo futebol, se queremos compreender a cultura. E até fazer nascer cultura onde só reina a animalidade.

Que toquem os violinos.

O Povo Certo

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Recebi gordas lágrimas neste sábado, 17 de Março. Foram oferta do Fernando Mendes, na comemoração da milionésima emissão d’O Preço Certo. No final duma rapsódia de edições anteriores, homenagem que antecedeu o epílogo do concurso, a qual foi embrulhada no enjoativo Tudo o que eu te dou do enjoativo Abrunhosa, os que enchiam o Coliseu do Porto prolongaram a salada de imagens com uma juliana de vozes. Continuaram a capella, e a câmara foi para cima do rosto do Fernando. Aquele rosto que, mesmo quando descontraído, parece sempre contorcido, atingiu uma nova capacidade plástica e enfiou-se todo por debaixo das pálpebras, tentando conter a solidão derretida. Nesses longos segundos em que ficou perdido e esmagado pela apoteótica alegria do povo, eu imaginei uma Nação a fazer as pazes com a sua gente.

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Les Anges exterminateurs_Jean-Claude Brisseau

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Este é um daqueles filmes que importa ver pelas piores razões. Aparentemente, trata-se de uma celebração do desejo feminino enquanto concreto intangível. Para tal, exibe-se a mulher a masturbar-se e ainda, num paroxismo do onanismo como anulação da alteridade, a mulher a ter relações sexuais com outra mulher ou mulheres. Para o homem ficam os papéis do inquisidor, primeiro, do contemplativo, depois, e da vítima, por fim. O homem é um ser, afinal, menor, residual, à mercê do Eterno Feminino ou acidente da sua demanda, culpado da hubris que já tinha castigado Psique. E deixa-se ver na sua miséria, de homem vazio.

Num segundo nível, este filme é autobiográfico, logo catártico. Contas acertadas com o destino. O artista sempre a transformar o seu mundo em arte. A arte como hiper-realismo jurídico.

Num terceiro nível, este filme é cartesiano. Todas as personagens são extensões da voz do protagonista, sendo este o alter-ego do argumentista, o próprio realizador. Trata-se de uma res cogitans que subsume todas as falas na mesmidade da mensagem monolítica. Ao lado, paralelo, a res extensa do suposto objecto temático. Mas é mentira, não há contacto entre paralelas, e os cartesianos têm horror ao salto para o outro lado. Não se filma o desejo feminino, antes a sua paródia. Estamos, apenas, perante um pretexto para mostrar corpos desejáveis, e desejáveis por serem jovens. É, pungente de tão patética e de tão pretensiosa, a visão de um velho homem que nunca amou seres femininos. Por isso, nada tem a dizer sobre eles.

Num quarto nível, este filme é uma merda. Mas é um filme, e por isso deve ser visto.

“É um prazer lembrarem-se do meu nome.”

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Foi assim que o novo Camões respondeu aos jornalistas aquando da notícia do Prémio. Há que reconhecer todos os prémios como justos, inquestionáveis. Como este. Porque consistem nessa operação que Lobo Antunes sintetizou com raro a-propósito. Alguém se lembra de um nome. É só isto. Mas isso tem o reverso. Aquilo de alguém se esquecer de todos os outros nomes. Levando a supor que um prémio é ocasião de dor, desprazer. Para quem foi esquecido. Eis porque me parece grave a resposta de Lobo Antunes, por ser obscena. Por ele se mostrar tão nu.

SMSteca

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Poderá ainda não ter acontecido a todos, nem a todos vir a acontecer. Mas já somos muitos, e já somos milhões, aqueles que ao trocar de telemóvel descobrem, desconsolados, que nos fogem preciosas mensagens escritas; algumas com anos de resistência às sucessivas vagas de limpeza mnésica. E que depois, numa dessas necessidades do acaso, ao voltarmos às carcaças dos telemóveis antigos, alma reencartada, insuflada de sopro eléctrico, encontramos, deslumbrados, mensagens que perdemos perdidas. Então, é como se elas tivessem acabado de chegar. E cresce um desejo insano de lhes responder. Mas pode não haver saldo nessas recordações, nem sabermos onde o carregar.

Forever Old

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Velhos são os trapos e a juventude está num farrapo, vincam-nos desde o bibe. A idade como problema dá pano para mangas, alimenta o corte e costura nos corredores, é pesadelo dos colarinhos brancos. Mas as linhas com que se cose o envelhecimento são o resultado do tecido social que nos cobre, sujeito às modas dos estilistas da idade. As concepções do que é ser velho ou jovem, do que seja deixar de ser jovem ou começar a ser velho, têm como pano de fundo uma tábua de valores onde cada um engoma a sua camisa-de-forças. Sem surpresa, no pronto-a-despedir da indústria criativa procede-se à estampagem dos mais sombrios preconceitos relativos à produtividade do geronte. Romper com as limitações, rasgar os medos, desembainhar a ignorância, pede tesouras visionárias.

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Blogues que marcam (2)

Em Novembro publiquei uma reflexão motivada por post do Luis. Tive a sorte de receber vários comentários interessantes, mas um deles foi especial. Assinado pelo sharkinho, figura conhecida no circuito, resumia o essencial desta cultura dos blogues: alguém dá um espectáculo à borla, alguém o aprecia por acaso. É de graça, no seu duplo sentido. Este espírito de jogral, pantomineiro, farsista, é o que reconheço em mim, aqui onde tudo pode ser ilusão e delírio, e é o espírito que cultivo nas interacções.

O Fernando fez questão de assinalar o 1º milhão de page views. Foi uma excelente lembrança pela oportunidade de fazer uma homenagem já atrasada. Cumpre destacar duas pessoas nesta ocasião: o Luis Rainha, que fundou este projecto e o viveu a seu modo, apaixonadamente; e o Fernando, não menos apaixonado, supremamente generoso, que nos honra com o seu saber e o amor a Portugal e à Galiza, irmã que guarda parte da nossa herança comum. Foi por causa do Fernando Venâncio, num certo e secreto sentido, que o Aspirina B ainda não se dissolveu nas banais neuroses centrífugas.

Por enquanto, não há resfriado que resista a esta sopa de letras.

Borralho do Referendo — “impor uma moral”

Dos variados sofismas que construíram a lógica do SIM, um deles ganhou especial popularidade. Por ser de simples entendimento, e de entendimento dos simples. Consistia na tese de que a criminalização do aborto era de origem moral (o que está certíssimo), logo deveria ser vista como uma imposição ilegítima (o que é de doidos). Os do NÃO, malvados, estariam a querer impor aos outros a sua moral, eis a denúncia que encheu peitos, papéis e ecrãs. E, se atravessássemos as meninges desses arautos, veríamos seres absolutamente convictos de estarem a descobrir a pólvora — indiferentes aos archotes que agitavam frenéticos.

Para lá do aborto como questão moral, temos aqui a moral como problema cultural e cívico. O argumento que detecta uma moral malsã, por confronto com o suposto direito à amoralidade, requer um sofisticado processo de reflexão. Implica que se recolham primeiro as definições propedêuticas da Filosofia e do Direito, sem as quais tudo o que se diga a respeito será apenas um psitacismo, uma verborreia — uma tanga no país da mesma.

Ora, se é um facto que Portugal é o pedaço mais estúpido da Europa — onde acima de 75% dos habitantes não foram além do Ensino Básico, e os licenciados não chegam a 10% da população; sendo que a cereja no cimo do esterco é a taxa de abandono escolar, a mais alta da União Europeia (a 25!) —, como esperar que desta mole de cabeças duras viesse uma decisão inteligente em questão que até confunde doutores e sábios das mais requintadas, e requentadas, academias? Não veio, mas a grei não tem culpa. Os culpados são alguns dos 10% que burilaram um argumento primário — ópio feito de cravos.

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Daltónicos

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Ninguém se surpreenderá com esta notícia. Porque já todos sabemos dela. Porque só acontece aos outros. E lá longe, parece.

Será mais uma das áreas cinzentas da vidinha; cujos cinzentos, parece, chegam para nos deslocarmos diariamente, sem chocar nas esquinas, sem precisar de contrastes cromáticos, sem ferir os olhos na luz. Achamos que não nos devemos incomodar, com tanta coisa já em que pensar, com tanto com que nos preocupar. Parece.

Zen it, criativo

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A ideia de aplicar os princípios do budismo Zen a uma agência de publicidade poderá parecer redundante, tendo em conta o número de criativos que já se consideram iluminados. Acresce ser a iluminação do criativo uma simulação perfeita do verdadeiro satori, estado em que se rompe com o pensamento lógico. Este é um fenómeno para o qual muito contribuem os briefings que recebe, repletos de absurdos, paradoxos e enigmas insolúveis — o que faz deles genuínos koans. Inevitavelmente, tal como na prática do zazen, um criativo tem de passar a maior parte do seu tempo sentado e a meditar sobre o vazio. Com sorte, com muita sorte, terá a ajuda de um mestre sempre atento à sua evolução, numa mistura de doçura e severidade; que no Japão dá pelo nome de Roshi ou Sensei, e que no mundo dos reclames é conhecido por Director Criativo. Até o espaço físico da agência em tudo simula um templo, com as suas zonas para o departamento de contacto e departamento criativo a demarcarem a separação entre o profano e o sagrado. Nem faltam os altares contendo as santas relíquias, estatuetas olhadas com devoção e de onde emana uma aura de pacificação cármica: os cobiçados prémios. De facto, o dia-a-dia numa agência está cheio de rituais e cerimónias, só compreensíveis para iniciados; como as compungidas conversas sobre a porcaria que as outras agências estão a pôr no ar ou a procissão de rostos em júbilo celestial aquando da aparição dos clientes.

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Morrer a cantar

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Mas um dos servos do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe: “Não te vi eu no horto com Ele?” Pedro negou Jesus de novo; e nesse instante cantou um galo.

João, 18:26

O galo estava num dos terraços do palácio. Todos os que se aqueciam ao redor das brasas, no pátio, olharam para cima, para os salões. O galo andava pela berma do terraço. Dava uns passos e inclinava-se para baixo, como se estivesse a pensar seriamente em saltar. Os servos diziam uns para os outros que nunca tinham visto um galo nos terraços. Os guardas trocavam piadas que misturavam ovos, fomes e as servas da cozinha. Pedro afastou-se do grupo e caminhou em direcção ao portão. Não queria ficar ali, mais, à espera de um homem que nunca tinha compreendido, em quem nunca tinha, sabia-o finalmente, acreditado. Ao sair, uma velha embrulhada na sombra, que Pedro não reconheceu, disse-lhe: “Aquele galo vale mais do que tu. Ele nunca mentiu, e quando morrer vai alimentar alguém.” Pedro respondeu: “Aquele galo não sabe mentir. Mulher, eu já só desejo morrer a cantar.”

Ironia e maiêutica socrática

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Sócrates não tem rivais. Nem na política, nem na opinião publicada. Não há uma única alma que consiga sequer ser credível na crítica ao Primeiro-ministro, quanto mais relevante. É a primeira vez que esta situação ocorre em Portugal. E é uma sorte estar a acontecer.

Os cães ladram e José Sócrates passa, a correr. Isto resume o principal da sua estratégia de comunicação. O episódio de maior notoriedade na aplicação desta filosofia do douto silêncio foi durante a crise da falta de quórum na Assembleia, em Abril do ano passado. De Sócrates, triplamente responsável perante os eleitores e a Nação, nem um vagido foi escutado. Falaram, pouquíssimo, os lugar-tenentes, nem sequer os coronéis deram a cara. E tudo passou, e rapidamente. Uma das maiores vergonhas na política portuguesa pós-25, sintoma de outros vícios debilitantes e letais para a democracia e a Justiça, foi anestesiada e varrida para debaixo do tapete. Em Portugal, a culpa morre solteira, e virgem.

Mas ele faz bem. Aliás, ele faz bem e o povo gosta; que ele faça, mesmo sem saber o quê. A oposição nada faz, e ainda consegue fazer mal esse nada. Do CDS ao BE, o que se exibe é um paradigma onde ser Oposição consiste em tentar, sempre e por todos os meios, prejudicar a actividade do Governo. Para os envolvidos, o processo é viciante, alienante. Quem aponta falhas imagina-se justiceiro, missionário da Verdade e do Bem comum. Contudo, como as falhas apontadas são invariavelmente demasiado técnicas ou insuficientemente legítimas, o resultado é o de suscitarem respostas suficientes da parte dos responsáveis governativos ou não captarem o interesse público. Porque insistirá a Oposição no seu suicídio?

Quanto aos jornalistas e publicistas, não se safam melhor. As críticas à pose e ao modo de Sócrates são a prova da falência da análise, agarrando-se ao despiciendo, ignorando o essencial. E o essencial é isso de Sócrates ser um chefe político que se decidiu a ser gestor do País. Há muito que a ideologia foi enterrada, só os zombies é que o ignoram, e, por isso, nenhum romantismo o move. Conhece a falibilidade e miséria moral dos seus pares de profissão, está vacinado contra o cinismo paralisante das elites portuguesas, e tem a coragem de ousar decidir a seu favor, a favor do futuro. Ou seja, é o primeiro político do século XXI, o século em que a própria política foi metida na gaveta.

Já temos um Sócrates, esperemos pelo Platão, sem o qual a coisa não fica composta, e o qual irá educar Aristóteles. Mas não o procuremos na Oposição; nem no PS, agora que mandaram o Cravinho dar a grande curva. Esses, todos, só têm cicuta para despejar na Cidade.

Os limites do infinito

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Estica-se o braço em direcção ao céu nocturno. Aponta-se ao calhas. E repara-se na porção coberta pela largura de um dedo, o mais à mão. Cabem aí 50.000 galáxias.

Não se sabe quantas galáxias há. Nem se sabe quantas estrelas tem cada uma. Fazem-se cálculos, tenta-se encontrar a média. As contas oscilam entre 200 a 400 mil milhões de estrelas por galáxia. Valor similar para o total de galáxias, 200 mil milhões delas, quentinhas. Se quiserem agora descobrir o número de planetas, façam favor, desatem a multiplicar estrelas por galáxias até que o pensamento saia fora de órbita. Nem deus, assessorado pelas legiões angélicas, conseguiria decorar os nomes dessas extraterras e respectivos apeadeiros.

Vertiginoso espaço cósmico. Dimensões que ultrapassam a nossa compreensão. A cultura ainda não enfrentou as consequências antropológicas e civilizacionais que resultam do conhecimento astronómico — ou do da física das partículas, que é simétrico na vertigem, no espanto. Mas existe no universo um fenómeno que supera em grandiosidade e mistério o conjunto dos átomos, estrelas e galáxias: é o aborrecimento. Aqueles que olham à volta e se sentem fartos ou vazios. Estupendos seres de fazer inveja às potestades celestes. Para eles, nem o infinito é suficiente.

Língua de fora

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Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco.

João, 18:10

Malco recuou dois passos e ajoelhou-se. Ficou a olhar fixamente para o tufo de ervas onde o sangue da sua orelha rasgada caía como bátegas dispersas de chuva negra. A imagem dos olhos alucinados de Pedro, no momento em que avançava de espada na mão, era a única dor que sentia. As vozes à sua volta ficaram sólidas, blocos de granito ondulando em círculo. Não percebia o que estavam a dizer, não queria saber. Surgiu-lhe, radiosa, a memória daquela manhã. Tinha brincado com a filha, fizeram corridas, ele deixou-a sempre ganhar. Quando se despediu, puxou-lhe carinhosamente a orelha. Ela riu, baixando o queixinho, sedoso como os pêssegos que crescem na margem do rio Jordão. E fez-lhe uma careta com a língua de fora.