Arquivo da Categoria: Valupi

Inquérito Nacional sobre Demência

«O Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde, em articulação com a Alzheimer Portugal e o CINTESIS - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (ICBAS-UP), promove um novo inquérito nacional sobre a consciencialização e a perceção pública relativa à Demência.

Este inquérito pretende melhorar a compreensão sobre as experiências, as expectativas e as preocupações da sociedade portuguesa sobre a Demência, bem como o conhecimento, a atitude e as crenças do público em geral.

Gostaríamos de conhecer a sua opinião sobre uma série de temas relacionados com a demência.

Os resultados deste questionário irão permitir um melhor conhecimento sobre a perceção que a população em geral tem sobre a demência e, no futuro, promover campanhas de consciencialização.

Aceda aqui ao questionário.»

Agora é que o Público vai ser do Carvalho?

David Dinis estava a fazer um bom trabalho no Público, dizem os direitolas na despedida deste artista da nacional-sonsaria. Ignoro quais são os actuais resultados comerciais e sociais do jornal, mas não ignoro que foi o mais estimulante projecto jornalístico aquando do seu lançamento, embora rapidamente o sonho tenha tropeçado na realidade. Depois transformou-se num pasquim quando José Manuel Fernandes o usou para levar a cabo a vingança da Sonae no desfecho da OPA sobre a PT. O desvairado Zé Manel não se limitou a pôr a carne toda no assador da calúnia, ainda conseguiu ser protagonista de uma das maiores e mais graves golpadas na história da Presidência da República e do regime democrático. Saiu de lá para fundar o Observador, cujo primeiro director foi o David Dinis vindo do Sol. Um circuito vicioso e viciante.

Chegado ao Público, DD transformou-o em assumido semipasquim. Os editoriais revelavam a sua parola auto-importância, imaginando-se a enviar recados e avisos em nome do PSD de Passos para Marcelo e Costa, e o alinhamento editorial não se distinguia do que é feito no Expresso e no Observador quanto ao tribalismo. Sobre questões que envolvessem a Justiça, calou-se bem calado; mas, nas colunas de opinião, Sócrates foi explorado com carta branca pelos carniceiros especialistas na matéria, usando João Miguel Tavares, Francisco Teixeira da Mota e São José Almeida para se promover abertamente a violação do Estado de direito e o triunfo dos assassinatos de carácter. Em suma, mais do mesmo do que sempre fez, apenas sendo de estranhar o que terá levado alguém a pensar que o seu perfil estaria indicado para a TSF (pese ser, nalguns pontos de preferência partidária, semelhante ao do Paulo Baldaia).

Agora, será a vez de Manuel Carvalho. Este jornalista, com vasto currículo caceteiro e persecutório contra o PS, surpreendeu-me recentemente ao mostrar que era capaz de assinar posições decentes em vez de alinhar sistematicamente pela baixa política. Se continuar por aí, se colocar o jornalismo à frente do sectarismo, se abdicar do ódio em favor do serviço público, então o jornal poderá recuperar parte da sua promessa original. Se deixar que as suas páginas continuem a ser o palco para os profissionais da indústria da calúnia, então a coisa ficará como está: um capricho da vaidade completamente inútil para quem procure jornalismo inteligente e corajoso.

Regime Geral das Infracções dos Chefes das Repartições de Finanças

A coima enviada nesta semana a quem não se inscreveu no Via CTT, para lá de não ter sido precedida de qualquer aviso para uma parte indeterminada de contribuintes, começa por levantar interrogações acerca do sentido desse serviço. Serve para quê se até aqui toda a gente agora multada passou tão bem sem ele na sua relação com o fisco? Admitindo a minha ignorância, salto para a questão mais importante, embora lateral: o poder arbitrário e não sindicado dos chefes das repartições de Finanças.

Recorrendo a uma experiência pessoal análoga ao que está aqui em causa, descobri que a invocação dos requisitos previstos no artigo 32.º do Regime Geral das Infracções Tributárias – (i) a prática da infracção não ocasione prejuízo efectivo à receita tributária: (ii) estar regularizada a falta cometida; (iii) a falta revelar um diminuto grau de culpa – não chegava para que a Lei fosse aplicada em favor do cidadão. Era ainda preciso fazer um requerimento ao chefe da repartição de Finanças, mesmo depois de tal já ter sido feito repetidamente por via digital ao longo de 3 anos. Assim fiz, entregando presencialmente e em papel esse pedido e ficando a aguardar a resposta. A resposta foi a de que a Lei não tinha mais poder do que o chefe da repartição de Finanças, o qual decidia em casos similares de acordo com critérios impossíveis de prever até para os funcionários fiscais que atendem os contribuintes nos balcões. Se eu quisesse, que fosse para tribunal – situação em que poderia perder; e situação em que, mesmo que ganhasse, os custos de iniciar o processo equivaliam ao valor da coima que pretendia ver anulada. Logo, saía mais barato pagar sofrendo a injustiça do que procurar a Justiça. Para além do saque, fiquei com a cristalina ideia de que esse tipo de decisões fiscais podia envolver múltiplos funcionários que imitavam o chefe da repartição na facilidade com que decidiam de forma arbitrária até em casos tão básicos como o meu na circunstância.

O cenário é de flagrante violação do Estado de direito. Se os chefes das repartições de Finanças e suas equipas exercem este poder de forma discricionária, se o Estado não faz um levantamento das respostas aos requerimentos (e aposto os 10 euros que tenho no bolso como não faz) com a intenção de proteger os contribuintes, então estamos perante uma cultura corrupta, haja ou não vantagens para os trabalhadores estatais envolvidos. Cultura corrupta porque, obviamente, se eu tivesse um amigo ou meia amiga na repartição de Finanças onde fui roubado teria saído de lá com um sorriso e uma assinatura do chefe a garantir que estavam respeitados:

“os requisitos previstos no artigo 32.º do Regime Geral das Infracções Tributárias – (i) a prática da infracção não ocasione prejuízo efectivo à receita tributária: (ii) estar regularizada a falta cometida; (iii) a falta revelar um diminuto grau de culpa”

Não sou votante do PS também à pala disto. É chato ser gamado por aqueles que recebem salários por causa dos meus impostos.

Cristiano Ronaldo Cabrão

Em 2004, a Selecção era treinada por um fulano especialista em bandeirinhas nas janelas e em ganhar por meio a zero. Chegou à final do Euro com uma equipa onde jogavam Figo, Rui Costa e Cristiano Ronaldo, entre outros artistas. Disputou a final num estádio português cheio de adeptos portugueses. Perdeu para a Grécia, uma equipa de quem ninguém consegue recordar seja o que for nesse torneio a não ser a consequência do último jogo que fizeram: sagraram-se campeões da Europa em futebol.

Em 2016, a Selecção era treinada por um fulano especialista em agradecer a seres divinos as respectivas intervenções a seu favor em jogatanas da bola. Chegou à final do Euro com uma equipa que perdeu a sua única estrela aos 25 minutos da primeira parte. Ganhou à França num estádio francês cheio de adeptos franceses com um chouriço de um jogador trapalhão de terceira categoria, tendo Portugal praticado ao longo do torneio um futebol tão feio que levou ao desespero os comentadores profissionais dos restantes países.

Em 2018, a Selecção continuava a ser treinada pelo tal fulano vencedor do Euro 2016. No primeiro jogo do Mundial, a única estrela da equipa fez um jogo espectacular, tendo marcado o último golo de forma miraculosa. Toda a gente, incluindo os seres divinos com responsabilidade directa nessa partida e a imprensa internacional, mergulhou de cabeça no pensamento mágico. A estrela tinha poderes que só as estrelas têm. Assim é que o universo ficava bem ordenado, com as estrelas no céu e os crentes a babarem-se frente aos ecrãs.

E depois vimos que a única estrela da Selecção estava a deixar crescer uma penugem no queixo. A manutenção dos folículos estaria relacionada com um acrónimo em inglês onde se misturavam o Messi, o Quaresma, o queixo do Cristiano e pelo menos uma cabra, embora não necessariamente por esta ordem. Foi nesse estado que a estrela partiu quando quis para um pontapé numa bola parada a onze metros de distância de um guarda-redes abandonado pelos seus companheiros de equipa e com 17,86 metros quadrados para cobrir só com o seu corpinho. Visto à distância de cinco mil e trezentos quilómetros, aquele pontapé parecia condenado a ter mais sucesso do que o anterior que conquistou o empate contra a Espanha. Todavia, para a completa surpresa do treinador especialista em agradecer a seres divinos as respectivas intervenções a seu favor em jogatanas da bola, a que se juntou a dolorosa desilusão dos tais seres divinos e da imprensa internacional, a única estrela da Selecção optou por chutar a bola com a força e a direcção apropriadas para permitir ao guarda-redes iraniano ficar com ela nas mãos. O universo voltava a mostrar que tinha sido feito muito à pressa, só um louco podia ter pensado que chegavam seis dias para garantir que merdas destas não se iriam passar.

Vale a pena querer ganhar por ganhar, por meio a zero e com idas a Fátima se um ressalto marado der uma vitória? Vale a pena encher o futebol de cinismo e desculpas ou sentidos irracionais para o que não passa da sorte? Ou não será melhor, bem melhor, e até mais democrático, abolir a regra burrocrática que excluiu o Senegal do Mundial e substituí-la por outra onde o desempate seja conseguido recorrendo a critérios artísticos relativos ao gosto de ver futebol por quem gosta de jogar e ver futebol pelo simples prazer de ver e jogar futebol?

De regresso a Lisboa, a Selecção tinha uma multidão à espera, apesar da banalidade da prestação no Mundial da Rússia. Cristiano não os foi cumprimentar e agradecer. Foi apanhar outro avião e bazou. Foi embora. Foi cabrão. Não lhe fica bem nem o ajuda na marcação de grandes penalidades.

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A santa Joana prepara-se para ser herdeira de si própria

Joana Marques Vidal foi perentória: depois da sua passagem pela Procuradoria-Geral da República nada voltará ao que era antes. "As instituições dependem muito das pessoas que têm à frente mas também têm vida por si mesmas. Há um Ministério Púbico que nunca voltará atrás, há hoje uma cultura e uma maneira de estar que prosseguirá caminho. Há questões práticas que podem ir ou não no sentido que eu lhes imprimo hoje, mas isso é da vida das instituições. E quero acreditar que não é fácil perder a minha herança", afirmou ontem à noite, num jantar-debate organizado pelo grupo Portugal XXI, no hotel Sheraton.

Garantindo que os processos não são marca de água dos procuradores, concedeu numa coisa: "O meu mandato pode ter posto a máquina a funcionar no âmbito do que é a justiça."

Questionada também sobre se entendia a nota de Marcelo - sobre a urgência em resolver o caso do roubo de armas em Tancos, no dia em que faz um ano sobre o acontecimento -, rejeitou essa ideia. "O Presidente da República exprimiu o verdadeiro sentido do que é a separação de poderes. A investigação compete ao Ministério Público e estamos a aguardar o resultado", disse, sublinhando estar a acompanhar o caso.


Joana Marques Vidal: “Não é fácil perder a minha herança”

Recusando-se a abordar a questão de um segundo mandato, Joana Marques Vidal recusou a ideia de que o Ministério Público atua de uma forma judicialista e que é por isso que hoje existem mais processos em investigação. "Durante muito tempo, era normal e tolerado pelas pessoas certo tipo de comportamentos censuráveis ética, deontologicamente e ao nível criminal. Era normal nos contratos - em qualquer contrato - ficar regisatada uma comissão. E há a prenda, a cunha, a cultura de tolerância face a comportamentos que não são admissíveis", frisou.

Joana Marques Vidal defendeu que é preciso discutir o tema da delação premiada e lamentou que o tema anticorrupção esteja "praticamente" ausente do discurso político. Relembrou que a Polícia Judiciária tem uma "gritante falta de meios" e que o trabalho produzido se deve a um esforço acrescido dos profissionais daquele órgão de polícia criminal.


Joana Marques Vidal descansa os mais preocupados: “O MP não voltará ao que foi”

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Nunca se tinha visto. Um procurador-geral da República em campanha aberta pela continuação do uso do Ministério Público como arma política sectária e persecutória. No caso, esta PGR assume que foi escolhida por um certo Governo e por um certo Presidente da República para fazer o que não se tinha ousado fazer antes: manipular o incomensurável poder do Ministério Público para influenciar a disputa política em Portugal.

Como é que é possível, ao seu nível de estatuto e na ocupação do cargo, declarar em público que outros magistrados cometeram crimes aquando do exercício das mesmas responsabilidades na Procuradoria-Geral da República? Esta é a matriz do discurso da politização da Justiça, que a direita decadente alimenta por nada mais ter a que se agarrar dada a inanidade da sua dimensão intelectual e o chiqueiro da sua dimensão moral. É a outra face da má moeda onde se cunhou o triunfo da caçada a Sócrates e a glória de o ter destruído publicamente e metido no calaboiço – graças a ilegalidades e violência infrene, graças à judicialização da política num plano que começa em 2004 com a criação do caso Freeport com Santana Lopes e se manteve com o apoio e impulso de Cavaco após 2007.

A santa Joana ambiciona liderar a direita. Tem currículo, políticos e impérios da comunicação social do seu lado. Só lhe falta um partido que acolha e celebre a sua herança. Um qualquer, talvez por inventar.

Manela no caminho de Damasco

2009

Esta crise foi um abalozinho.

Ferreira Leite – Entrevista

2018

Sobre as causas do endividamento excessivo, Ferreira Leite disse que contribuiu o custo barato do dinheiro após a entrada de Portugal na zona euro (devido às baixas taxas de juro) e o investimento em projetos de infraestruturas que considerou "muitos discutíveis".

"Num concelho com 13 freguesias, que haja 13 piscinas é discutível", afirmou, referindo ainda que nos custos de então não se contabilizou o custo de manter esses equipamentos, que é elevado.

A economista recusou, contudo, apontar o dedo a executivos específicos, afirmando que "há um conjunto de factos que ocorreram ao longo dos anos e que afetaram muitos governos", e criticou também as instâncias europeias que, aquando do início da última crise, pediram aumento da despesa e depois se tornaram rígidos nesse tema.

Ferreira Leite mostrou-se ainda preocupada com a arquitetura da zona euro por ser pouco adaptável a crises.

Manuela Ferreira Leite diz que não é possível pagar a dívida e defende reestruturação

Uma equipa que se fia na Virgem

Portugal é uma equipa que joga tão mal que acabou, devido ao convívio, por contaminar o Cristiano. Devia ter saído com um vermelho, como pediu usando a sinalética universal do cotovelo no focinho do adversário.

O treinador da Selecção não sabe o que se passa, daí ficar aborrecido, até chocado, com o que testemunha durante os jogos. É que ele já tem muito trabalho nos estágios, sendo ingrato ter de explicar o que acontece quando lhe enviam equipas estrangeiras para jogar com os seus meninos. Não é assim que Fernando Santos organiza os treinos, a FIFA anda a gozar com ele.

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Bruno de Carvalho, a maluqueira vai custar dezenas de milhões

Se o Sporting voltar a ter um presidente-adepto, acaba de vez. Como vimos com este bronco, o presidente-adepto é um ser que gosta mais do jogo da bola do que dele próprio. O resultado é inevitável: à medida que o acaso estilhaça as suas megalomanias, assim se esboroa o seu contacto com a realidade. Daí até anunciar no estádio que vai ser pai é um nada. Nada de separação entre a sua pessoa privada e o clube. E se ele passa a conceber-se, e a sentir-se, como uma entidade colectiva proprietária de um estádio e de um centro de treinos, então a agonia nascida da frustração resolve-se com actos de mutilação. Usa-se o corpo para atacar o corpo.

A paixão pelo Sporting levou o presidente-adepto a querer destruir o seu amor. É sempre assim com os malucos, como o próprio se definiu na sua declaração mais lúcida de que há registo.

Álvaro Domingues e a retórica da “Torne a pôr”

Apenas ostenta um comentário (inaproveitável em relação ao texto e suas temáticas). Se for esse o critério do valor mediático, a entrevista de Ana Sousa Dias a Álvaro Domingues é um fracasso ao lado das caudalosas peças despachadas pelos caluniadores profissionais para mastigação dos broncos. Mas se aplicarmos outros critérios, como os que se relacionem com valores culturais, intelectuais e políticos, então chegaremos a resultados diferentes. Que se faça a experiência de ganhar 15 minutos de vida a ler isto:

“A lei ainda diz que há uma divisão entre o rural e o urbano. É uma tontice”

O discurso político partidário, e até o presidencial, está esmagado pelos automatismos retóricos que reduzem os actos de fala à propaganda e à chicana para a enorme maioria dos agentes na enorme maioria do tempo. As mesmas figuras cultivam uma bipolaridade tomada não só como normal mas tacitamente normativa. Se estiverem na oposição, a retórica é catastrofista e belicista; se estiverem no Governo, a retórica é estadista e pragmática. Temos um Presidente da República que esteve anos em campanha eleitoral como estrela maior do comentário político sectário, cínico e intriguista. Chegado a Belém, transformou-se no pater familias da Nação em versão delico-doce para consumo popular, simulando ser um profeta da concórdia universal para melhor brincar aos palácios.

Neste panorama, há substantivas diferenças. A cultura do PSD e do CDS é retintamente caluniadora, também por razões antropológicas e cognitivas, e a cultura do PCP e do BE é invariavelmente demagógica, por razões ideológicas e históricas. Já o PS, como o maior e mais importante partido do regime, tem uma cultura paradoxal nascida da diversidade pensante interna e da vocação externa: governar ao centro. É nos socialistas que encontramos o melhor da tradição liberal onde a nossa Constituição e o próprio 25 de Abril encontram a matriz, as categorias e o sentido político. Esse legado perdeu-se na direita partidária há décadas, e nunca existiu na esquerda “pura e verdadeira”. A retórica dos socialistas, genericamente, é a mais cidadã, a mais salubre e a mais virtuosa para os interesses e necessidades da comunidade (daí ser o alvo preferido de todos os ataques vindos dos extremos e dos nichos). Porém, o PS não inovou o discurso político, mantendo-o preso a convenções propagandistas que cristalizam, apesar das pontes que formalmente exaltam, a separação de esferas entre a política profissional e a política como convívio de cidadãos interessados nas questões pátrias.

Nesta entrevista – onde a entrevistadora tem o especial mérito de deixar fluir o verbo ao entrevistado – encontramos um discurso sem qualquer novidade para estudantes, investigadores e eruditos no campo das Ciências Sociais. Ao mesmo tempo, aquilo de que se fala é essencialmente, teluricamente, político. Territórios, migrações, economia, categorias da abstracção sem a qual não se administra o Estado. E, misturado nos conceitos disciplinares, a vida como ela é lá onde só os habitantes dos lugares cuidam uns dos outros, esse concreto que respira e anda. É também uma forma retórica de falar sobre a realidade social, sobre um país. Mas é um tipo de retórica que nos dá o País com muito maior autenticidade e inteligência do que a retórica convencional no sistema político. O futuro da política irá, inevitavelmente, operar a substituição dos licenciados em Direito, Engenharia e Economia, com as suas técnicas tribunícias, por políticos com outras formações académicas e científicas muito mais eclécticas e vanguardistas. A retórica dos apaixonados pela curiosidade e pela ternura puxará a carroça da nossa preguiçosa vontade política.