A santa Joana prepara-se para ser herdeira de si própria

Joana Marques Vidal foi perentória: depois da sua passagem pela Procuradoria-Geral da República nada voltará ao que era antes. "As instituições dependem muito das pessoas que têm à frente mas também têm vida por si mesmas. Há um Ministério Púbico que nunca voltará atrás, há hoje uma cultura e uma maneira de estar que prosseguirá caminho. Há questões práticas que podem ir ou não no sentido que eu lhes imprimo hoje, mas isso é da vida das instituições. E quero acreditar que não é fácil perder a minha herança", afirmou ontem à noite, num jantar-debate organizado pelo grupo Portugal XXI, no hotel Sheraton.

Garantindo que os processos não são marca de água dos procuradores, concedeu numa coisa: "O meu mandato pode ter posto a máquina a funcionar no âmbito do que é a justiça."

Questionada também sobre se entendia a nota de Marcelo - sobre a urgência em resolver o caso do roubo de armas em Tancos, no dia em que faz um ano sobre o acontecimento -, rejeitou essa ideia. "O Presidente da República exprimiu o verdadeiro sentido do que é a separação de poderes. A investigação compete ao Ministério Público e estamos a aguardar o resultado", disse, sublinhando estar a acompanhar o caso.


Joana Marques Vidal: “Não é fácil perder a minha herança”

Recusando-se a abordar a questão de um segundo mandato, Joana Marques Vidal recusou a ideia de que o Ministério Público atua de uma forma judicialista e que é por isso que hoje existem mais processos em investigação. "Durante muito tempo, era normal e tolerado pelas pessoas certo tipo de comportamentos censuráveis ética, deontologicamente e ao nível criminal. Era normal nos contratos - em qualquer contrato - ficar regisatada uma comissão. E há a prenda, a cunha, a cultura de tolerância face a comportamentos que não são admissíveis", frisou.

Joana Marques Vidal defendeu que é preciso discutir o tema da delação premiada e lamentou que o tema anticorrupção esteja "praticamente" ausente do discurso político. Relembrou que a Polícia Judiciária tem uma "gritante falta de meios" e que o trabalho produzido se deve a um esforço acrescido dos profissionais daquele órgão de polícia criminal.


Joana Marques Vidal descansa os mais preocupados: “O MP não voltará ao que foi”

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Nunca se tinha visto. Um procurador-geral da República em campanha aberta pela continuação do uso do Ministério Público como arma política sectária e persecutória. No caso, esta PGR assume que foi escolhida por um certo Governo e por um certo Presidente da República para fazer o que não se tinha ousado fazer antes: manipular o incomensurável poder do Ministério Público para influenciar a disputa política em Portugal.

Como é que é possível, ao seu nível de estatuto e na ocupação do cargo, declarar em público que outros magistrados cometeram crimes aquando do exercício das mesmas responsabilidades na Procuradoria-Geral da República? Esta é a matriz do discurso da politização da Justiça, que a direita decadente alimenta por nada mais ter a que se agarrar dada a inanidade da sua dimensão intelectual e o chiqueiro da sua dimensão moral. É a outra face da má moeda onde se cunhou o triunfo da caçada a Sócrates e a glória de o ter destruído publicamente e metido no calaboiço – graças a ilegalidades e violência infrene, graças à judicialização da política num plano que começa em 2004 com a criação do caso Freeport com Santana Lopes e se manteve com o apoio e impulso de Cavaco após 2007.

A santa Joana ambiciona liderar a direita. Tem currículo, políticos e impérios da comunicação social do seu lado. Só lhe falta um partido que acolha e celebre a sua herança. Um qualquer, talvez por inventar.

6 thoughts on “A santa Joana prepara-se para ser herdeira de si própria”

  1. A herança de Joana Marques Vidal é um Ministério Público partidarizado a tentar transferir a justiça dos tribunais para os jornais. A sua não substituição representaria um dano para o país quase tão grave como a farsa de Março de 2011. Elevaria em António Costa a condição de cobardia política uns furos acima do que já está.

  2. Normalizou o estado de excepção à pala da corrupção como outros estados o fizeram à pala do terrorismo. Somos todos virtuais virtuais corruptos, virtuais terroristas e cidadãos suspeitos. A nuvem de suspeiçao é permanente e o caos iminente porque só ele justifica o estado de excepção.
    Socrates é o símbolo da suspensão da ordem juridica, o homo sacer. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Homo_sacer
    Estripado de todos os direitos e a margem de qualquer lei foi declarado inimigo do estado e ficou a merce de qualquer tipo de punição por parte de qualquer um em nome do estado.
    Se a este ignobil cenário juntarmos a observação e monitorização massiva que estamos sujeitos, é fácil concluir que estamos num período negro no que diz respeito a privacidade e a garantias de direitos individuais.
    A campanha para a recondução não é mais que o espaço deixado vago pelo recuo do poder politico . Estamos sos.

  3. esta PGR assume que foi escolhida por um certo Governo e por um certo Presidente da República para […] manipular o incomensurável poder do Ministério Público para influenciar a disputa política em Portugal

    Onde é que ela assume isso? Não vejo nenhuma frase em que ela assuma tal coisa, de perto ou de longe.

    declarar em público que outros magistrados cometeram crimes

    Mais uma vez, onde é que ela declarou tal coisa?

  4. ó da agricultura, bai mazé regar nabos. querias que a gaja confessasse os broches em público, confissões é no convento do sacramento por marcação e à porta fechada.

  5. Luís Lavoura, trata-se da minha interpretação, como é óbvio para quem fizer a experiência que tu terás feito: ler ou ouvir as suas declarações.

    Na minha interpretação, Joana Marques Vidal ainda não se esqueceu de que foi escolhida pelo Governo de Passos Coelho e de Paula Teixeira da Cruz e pelo Presidente da República Cavaco Silva. Ela é a PGR deles, e tinha um mandato político: fazer o que Pinto Monteiro se tinha recusado a fazer.

    A partir desta génese, o que vimos foi um perfeito alinhamento entre o discurso da direita portuguesa desde 2008 com a prática da PGR desde 2012. As últimas declarações da Joana consagram a completa politização do seu mandato, aparecendo ela a reclamar uma “herança” da sua inteira responsabilidade.

    O teste a fazer à minha interpretação é simples, consiste em dar nomes e datas à denúncia que despejou na praça pública, réplica do que lemos na indústria da calúnia diariamente:

    “Durante muito tempo, era normal e tolerado pelas pessoas certo tipo de comportamentos censuráveis ética, deontologicamente e ao nível criminal. Era normal nos contratos – em qualquer contrato – ficar regisatada uma comissão. E há a prenda, a cunha, a cultura de tolerância face a comportamentos que não são admissíveis”

    Se conseguires identificar os suspeitos, força nisso e partilha com a malta.

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