Cristiano Ronaldo Cabrão

Em 2004, a Selecção era treinada por um fulano especialista em bandeirinhas nas janelas e em ganhar por meio a zero. Chegou à final do Euro com uma equipa onde jogavam Figo, Rui Costa e Cristiano Ronaldo, entre outros artistas. Disputou a final num estádio português cheio de adeptos portugueses. Perdeu para a Grécia, uma equipa de quem ninguém consegue recordar seja o que for nesse torneio a não ser a consequência do último jogo que fizeram: sagraram-se campeões da Europa em futebol.

Em 2016, a Selecção era treinada por um fulano especialista em agradecer a seres divinos as respectivas intervenções a seu favor em jogatanas da bola. Chegou à final do Euro com uma equipa que perdeu a sua única estrela aos 25 minutos da primeira parte. Ganhou à França num estádio francês cheio de adeptos franceses com um chouriço de um jogador trapalhão de terceira categoria, tendo Portugal praticado ao longo do torneio um futebol tão feio que levou ao desespero os comentadores profissionais dos restantes países.

Em 2018, a Selecção continuava a ser treinada pelo tal fulano vencedor do Euro 2016. No primeiro jogo do Mundial, a única estrela da equipa fez um jogo espectacular, tendo marcado o último golo de forma miraculosa. Toda a gente, incluindo os seres divinos com responsabilidade directa nessa partida e a imprensa internacional, mergulhou de cabeça no pensamento mágico. A estrela tinha poderes que só as estrelas têm. Assim é que o universo ficava bem ordenado, com as estrelas no céu e os crentes a babarem-se frente aos ecrãs.

E depois vimos que a única estrela da Selecção estava a deixar crescer uma penugem no queixo. A manutenção dos folículos estaria relacionada com um acrónimo em inglês onde se misturavam o Messi, o Quaresma, o queixo do Cristiano e pelo menos uma cabra, embora não necessariamente por esta ordem. Foi nesse estado que a estrela partiu quando quis para um pontapé numa bola parada a onze metros de distância de um guarda-redes abandonado pelos seus companheiros de equipa e com 17,86 metros quadrados para cobrir só com o seu corpinho. Visto à distância de cinco mil e trezentos quilómetros, aquele pontapé parecia condenado a ter mais sucesso do que o anterior que conquistou o empate contra a Espanha. Todavia, para a completa surpresa do treinador especialista em agradecer a seres divinos as respectivas intervenções a seu favor em jogatanas da bola, a que se juntou a dolorosa desilusão dos tais seres divinos e da imprensa internacional, a única estrela da Selecção optou por chutar a bola com a força e a direcção apropriadas para permitir ao guarda-redes iraniano ficar com ela nas mãos. O universo voltava a mostrar que tinha sido feito muito à pressa, só um louco podia ter pensado que chegavam seis dias para garantir que merdas destas não se iriam passar.

Vale a pena querer ganhar por ganhar, por meio a zero e com idas a Fátima se um ressalto marado der uma vitória? Vale a pena encher o futebol de cinismo e desculpas ou sentidos irracionais para o que não passa da sorte? Ou não será melhor, bem melhor, e até mais democrático, abolir a regra burrocrática que excluiu o Senegal do Mundial e substituí-la por outra onde o desempate seja conseguido recorrendo a critérios artísticos relativos ao gosto de ver futebol por quem gosta de jogar e ver futebol pelo simples prazer de ver e jogar futebol?

De regresso a Lisboa, a Selecção tinha uma multidão à espera, apesar da banalidade da prestação no Mundial da Rússia. Cristiano não os foi cumprimentar e agradecer. Foi apanhar outro avião e bazou. Foi embora. Foi cabrão. Não lhe fica bem nem o ajuda na marcação de grandes penalidades.

10 thoughts on “Cristiano Ronaldo Cabrão”

  1. Que post disparatado. É um jogo. São onze contra onze. Às vezes ganham uns outras vezes ganham outros.

  2. “Perdeu para a Grécia, uma equipa de quem ninguém consegue recordar seja o que for nesse torneio”

    Eu avivo-lhe a memória : entre outras coisas, – bateu e eliminou a França de Zidane e C.ª – e ganhou a Portugal por duas vezes – a abrir e a fechar o torneio, – o tal de Euro 2004, com estádios pagos com o dinheiro dos contribuintes, primeiro grande “ golpe de vista “ de Sócrates, que o catapultou para primeiro ministro, pois que quem caminha encostado ao futebol tem futuro garantidos e bom tacho assegurado, mas afinal esta farsa de blog nao roda sempre à volta de Sócrates ?, pois claro que o futebol devia ser um espectáculo de puro entretenimento, seja género casados contra solteiros, seja all-stars, onde, por exemplo, um actuariam jogadores recrutados para o efeito, um dia Ronaldo e Messi juntos no mesmo team, outro dia, fulano beltrano e sicrano, clubes e seleções nacionais banidos, e por aí adiante.
    Mas a fatal e populucha supremacia do circenses ( circo ) sobre o panis ( pão ) deu cabo de tudo, isso, e o “ fascínio “ do PS sobre os “ empresários “, dessem tempo ao Sócrates – maldita cabala – e ele teria feito a reforma :)

  3. nem uma referência ao penalti assinalado contra portugal no jogo com o irão e que desvirtuou completamente a verdade desportiva dessa partida, da classificação nesse grupo e em ultima análise dos confrontos nos oitavos de final? nem sequer ao facto do VAR não ter corrigido a decisão que até a FIFA já veio admitir ter sido incorrecta?
    afinal parece que aqui já não se importam com a verdade desportiva, querem é ver os meninos a fazer acrobacias. são os adeptos que temos

  4. Salvo melhor memória, o “pai” dos estádios foi António Guterres que quis seguir a onda da Expo 98 e da Ponte Vasco da Gama, em matéria de obras públicas ou quase públicas.

  5. Caramba, Valupi, tu desperdiças o teu talento nestas injustiças. Olha lá, ora o futebol se mede em números e vitórias, ora o futebol é para ser apreciado como o belo do desporto do pontapé na bola, com classificações artísticas como na patinagem artísticas, fie coma six, fie coma nóine. Isto seria uma revolução ontológica que iria provocar muitas chatices. O Eder? Então aquele pobre rapaz camponês que nos campos da flandres atirou ao calhas com um espingarda e matou um boche não merecia, por isso, a glória e condecorações? A única excepção a esta regra foi o Brasil de 82. Qualquer americano que nunca tenha visto uma bola redonda maior do que uma laranja, se tivesse sensibilidade artística, podia reconhecer, sem olhar para os placards e classificações finais, que aquilo era uma obra prima absoluta.

  6. caramelo, vou atribuir aos festejos do 4 de Julho e suas libações o teu protesto contra o desperdício de um suposto talento. É que isto não passa do HTML e sua sustentável leveza.

    Estou contigo em relação ao Brasil 82. Samba de bola.

  7. e a unica excepção a essa excepção foi a holanda de 74. espera, a hungria de 54 também. porra, se calhar não há mesmo regra! será possible?

  8. Curiosamente o melhor treinador para a seleção seria Jesus, o vivo, o Jorge. Como o já finado vate da galileia é um mestre em competições rápidas e em potenciar o melhor dos jogadores num curto espaço de tempo. A ideia de jogo é mais atractiva e consentânea com o atual perfil dos jogadores, podendo mesmo partir a louça nos templos do futebol mundial. O único problema seria o guito, que este Jesus não “acradita” em pagamentos no além nem em historias de buracos de agulhas.

  9. ai que riso! encho a pança de riso tal como o Ronaldo a encheu de frustração por a vida lhe ter dado um não. foi, sim, cabrão. :-)

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