Arquivo da Categoria: Valupi

Revolution through evolution

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Being kind to yourself has mental and physical benefits
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Research finds investors dismiss analysis from those who have less favorable surnames
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High-calorie desserts might not be all bad
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Como?! Atão, mas o Vara, coiso e etc.?…

«Carlos Costa foi administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre 2004 e 2006, parte de um período crítico onde uma auditoria independente detetou perdas de 1,64 milhões de euros. Mas, ao contrário dos restantes gestores da Caixa à altura, não será submetido ao exame de idoneidade do Banco de Portugal. Isto porque Carlos Costa é atualmente governador do próprio Banco e, por lei, “o Banco de Portugal não supervisiona a própria casa”, segundo explicou uma fonte próxima do processo ao Jornal Económico.

Carlos Costa, ex-gestor da CGD, fez parte da administração do banco que aprovou alguns dos créditos que se revelariam ruinosos, como os empréstimos a Manuel Filho e Joe Berardo, que geraram perdas de 161 milhões de euros para o banco público. De acordo com a revista Sábado, o atual governador do Banco de Portugal esteve em pelo menos quatro reuniões do Conselho Alargado de Crédito onde foram aprovados empréstimos a alguns destes devedores.»


Fonte

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Carlos Costa, um dos carniceiros ao serviço de Passos&Relvas no afundanço do País em 2011, ficou calado enquanto Vara foi transformado no bode expiatório e bombo da festa do ataque da oligarquia ao PS e à CGD. Não é preciso explicar porquê. Apenas se regista para ilustrar por que razão notícias como esta não fazem manchetes nem despertam infindos disparos da opinião engajada. É que a aldrabice demencial para trocar os olhinhos aos borregos, isso de Vara ter sido o “todo-poderoso” na CGD capaz de dar dinheiro aos amigos de Sócrates sem que ninguém o conseguisse impedir ou sequer denunciar, não aguenta um nanossegundo no plano de realidade onde as pessoas realmente aquecem água para o chá e distinguem um sinal verde de um sinal vermelho.

Igualmente fascinante é o efeito antibiótico das declarações de Paulo Macedo, famoso socrático que foi ministro de Passos e tem uma reputação à prova de bala. De cada vez que abre a boca para explicar o b-a-bá do que se está a tentar fazer na indústria da calúnia e pela direita, o plano de comprometer o negócio e viabilidade da CGD, cria-se uma zona à sua volta onde até as mais resistentes bactérias da pulhice desaparecem. É no que dá recorrer a evidências por parte de quem não troca a sua integridade pela decadência dos decadentes.

A novela da CGD, e o seu novelo de protagonistas e decisões, não permite concluir que houve um assalto chefiado pelo bandido Sócrates, como o mais vocal dos conselheiros de Estado publicita semanalmente. Num certo sentido, é pena. É que essa versão acabaria por ser benigna, na sua indescritível estupidez e alucinada calúnia, quando comparada com a exibição ofuscante de um regime onde impérios mediáticos, tribunais e órgãos cimeiros da República confluem para a instauração de excepções onde o Estado de direito deixa de valer para certos cidadãos.

O mano Costa não é fratricida

«Vara pode ainda queixar-se de outra coisa, a dureza das penas. Foi-lhe aplicada a pena máxima para o crime em causa, o que parece excessivo dada a natureza do processo, dos objetivos pretendidos e alegadas contrapartidas. Mas houve claramente, por parte dos juízes, uma vontade de tornar este caso exemplar. De mostrar que o Face Oculta não é uma exceção, mas um virar de página.

Não nos podemos esquecer do que foi o Face Oculta numa primeira fase, com as escutas entre Armando Vara e José Sócrates. O caso abalou fortemente o sistema judicial, com Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento a decidirem destruir essas escutas e, assim, acabarem um inédito caso em que um primeiro-ministro em funções podia ser investigado por um atentado contra o Estado de direito, por conspirar para a compra da TVI.

O caso começou assim e acabou por ser outra coisa. Mas a Operação Marquês surgiu poucos anos depois para fechar o ciclo. Vara pode queixar-se, mas é sobretudo disto. De ter estado no centro de muita atividade judicial, com as piores companhias, péssimas intenções e uma ideia de que tudo se pode fazer.»

Ricardo Costa

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Talvez Ricardo Costa seja quem melhor nos consegue mostrar o que esteve e está em causa na condenação abstrusa e grotesca de Vara num caso sem provas nem proveito ilícito. Ele é uma das raríssimas super-vedetas da imprensa portuguesa, chefiando o poder editorial de um dos maiores grupos mediáticos nacionais cuja agenda consiste em desequilibrar o espaço público a favor do PSD. Para além disso, é irmão do actual secretário-geral do PS e primeiro-ministro. As coisas que este passarão não deve saber, com tantos almoços e jantares animadíssimos à mesa da oligarquia, né? Pois é.

Como se pode ler acima, está consolado e satisfeito com a prisão de Vara em pena máxima. Acontece que o seu agrado nasce de saber que os juízes resolveram violar a razão de ser da sua independência como poder soberano. Essa independência garante-se constitucionalmente para que cada juiz se saiba na posse de uma liberdade absoluta. Porém, acarreta uma inerente e indelével responsabilidade: que a sua liberdade inviolável seja posta ao serviço do mais absoluto respeito pela Lei no acto mesmo de se fazer justiça aos cidadãos. Dito de outro modo, a Justiça só se justifica como poder soberano se estiver ao serviço do Soberano donde recebe esse poder. Ora, o que o Ricardo Costa nos está a dizer através do Expresso, para que não haja qualquer dúvida sobre o seu pensamento, é o oposto destes princípios. Quando se faz de um julgamento uma exibição de força para usar a liberdade dos cidadãos, e o seu bom nome, como carne para um canhão que dispara sentenças “exemplares”, então a liberdade dos juízes que assim decidem está a servir para destruir a liberdade inscrita na Constituição – a liberdade que antecede e supera a sua legitimidade como magistrados. Não foi para deixar aos tribunais um arbítrio com intentos políticos que se delegou nos mesmos a representação dos direitos e garantias, isso é antinómico com a noção de Estado de direito democrático e apenas serve intentos violentos.

Igualmente nos diz que o abuso judicial e penal sobre Vara corresponde a um “virar de página“, é o saboroso fruto de uma «“evolução” no Direito». Vara como vítima sacrificial de um bem maior, eis o sofisma que agita. Acontece que nada mais acrescenta, nada demonstra, nada sequer existe no que escreve que permita ir além da mais pura hipocrisia, do mais cristalizado cinismo. Será que os juízes vão passar a repetir os critérios usados neste julgamento, é disso que se trata? Pena máxima para situações onde um funcionário de um banco apareça invocado nas declarações de uma testemunha que alegue ter ouvido o seu nome referido por um terceiro, sendo que esse terceiro nega o que a testemunha disse e nem sequer acaba como arguido? Qual é exactamente a lógica que vai marcar a nova jurisprudência onde entrámos graças aos justiceiros de Aveiro? E, já agora, tendo em conta que Vara foi apanhado há 10 anos, onde é que estão os novos casos já ao dispor dos ferozes juízes que perseguem o flagelo criminoso do tráfico de influências? Presume-se que Vara, para citar o angélico Marques Mendes, seja apenas a ponta da ponta da pontinha do icebergue, daí se justificar o seu linchamento penal em nome da salvação da Pátria. Cadê o resto da bandidagem? Ou será que não temos conhecimento de mais nenhum caso de tráfico de influências onde dê para atacar partidos e prender ex-políticos porque este aconteceu durante o mandato de Pinto Monteiro à frente da PGR? Vai na volta, com a Joana Marques Vidal é que terá voltado a impunidade, fica a suspeita.

Ricardo Costa atinge o zénite da utilidade na compreensão do que se fez a Vara quando nos explica que o “Face Oculta” e a “Operação Marquês” são partes de um mesmo processo. Que processo? O processo de tentar derrubar um primeiro-ministro em funções usando a Justiça, numa primeira fase, e depois conseguir prender um ex-primeiro-ministro sem esperar por qualquer acusação, condenação e trânsito em julgado, a “fechar o ciclo“. Então, como expõe e aprova, Vara não passa de um protagonista menor num drama muitíssimo maior. Em 2009, recorda feliz, espiou-se um primeiro-ministro de forma ilícita e estava tudo pronto para enfiar Sócrates num processo judicial nas vésperas de ir a votos para as legislativas e autárquicas. Depois se ele era acusado ou não, condenado ou não, seria até indiferente. O simples facto de ficar como arguido levaria a decapitar e afundar o PS, estava o ganho político obtido. Só que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento não alinharam na golpada, como corruptos socialistas que são, tendo a operação borregado. À pressa, lançou-se a Inventona de Belém como substituto do plano original. Em 2013, aí sim, foi possível usufruir de todas as vantagens políticas e mediáticas que a captura de Sócrates iria trazer. O director-geral de informação pago pelo Balsemão não podia estar mais contente com o desfecho da operação bicéfala.

Sabemos que Ricardo Costa pensa assim, e exactamente assim, porque o deixou escrito:

«Vara pode queixar-se, mas é sobretudo disto. De ter estado no centro de muita atividade judicial, com as piores companhias, péssimas intenções e uma ideia de que tudo se pode fazer.»

Aqui chegados, a perguntinha fatal: quem são as restantes figuras que compunham “as piores companhias“, essas que tinham “péssimas intenções e uma ideia de que tudo se pode fazer“? Ou seja, de quem fala sem nomear seja quem for para além de Sócrates? Quem são os outros “socráticos” que adoraria ver em tribunal a receber condenações exemplares e na ramona a caminho de Évora? Jamais o dirá. Porque não lhe convém, bem pelo contrário, olá. Por um lado, porque recorrendo à sonsaria a calúnia expande-se ao máximo e engole o Partido Socialista por inteiro. Por outro lado, porque as suas reuniões familiares passariam a decorrer num ambiente pesado ou exaltado, quiçá atentatório da sua integridade física, tendo em conta que António Costa era um dos mais notáveis e influentes membros do núcleo duro de Sócrates; sendo que no actual Governo estão outros que compunham esse grupo de intimidade política e vivencial nos Governos socráticos, os quais nunca renegaram a sua lealdade partidária e pessoal. Ricardo Costa não se pode dar ao luxo de emporcalhar o nome de tanta gente tão importante pelas melhores razões no PS e no País, especialmente o nome do seu mano. Daí optar pelo recurso favorito dos cobardes, a pulhice embrulhada num hilariante e decadente “jornalismo de referência” que não passa de uma exibição de impotência política e miséria cívica.

Lapidar

«O jornalismo editorialista, governado pelos editocratas (um neologismo surgido em França há alguns anos e que serviu de título a um livro colectivo), anula a função crítica do jornalismo e funciona segundo a lógica do entretenimento: promove a encenação de polémicas e debates que funcionam em circuito fechado, segundo uma tendência endogâmica, tautológica e mimética que atinge os cumes da exasperação quando há um acontecimento ou um assunto actual que polariza as atenções. Nesses momentos, impera um espírito de rebanho e o espaço mediático é varrido por uma onda avassaladora que cresce e desaparece. O jornalismo torna-se então uma caricatura, uma engrenagem autotélica que funciona para se alimentar a si própria, como o homeostato de Ashby. Alguém chamou a isto “comunicação autística”. Cria-se assim a ilusão — uma das maiores ilusões do nosso tempo — de que este jornalismo cria um espaço público alargado, próprio de uma sociedade transparente, quando na verdade a reduz na sua amplitude e no seu alcance.

[…]

A dança e circulação frenética de directores e editores, nas principais empresas de comunicação social (em todo o mundo e não apenas em Portugal), devem-se em grande parte ao facto de as funções directivas na esfera editorial terem perdido autonomia em relação aos órgãos de gestão administrativa. E isto não é um facto sem consequências: perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos. O triunfo de um pragmatismo estrito — e afinal sem grandes resultados — em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo, no sentido mais lato, ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista dos media, mesmo daqueles que têm uma vocação mais elitista, e a cumplicidade com a indústria do entretenimento), retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.»


Rezar pelo jornalismo

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Bute dar dinheiro à Netflix

Que mais resta dizer sobre o nazismo? Tudo. Porque todos os dias morrem aqueles que o testemunharam. Todos os dias nascem aqueles que vão demorar muitos anos até estarem em condições de perceber, entender e compreender como é que o nazismo foi possível. Que o nazismo, e suas variantes de desumanização, é uma possibilidade sempre à espreita no magma da nossa pulsão assassina.

Esta série tem os dedos e os olhos de Spielberg, alguém cuja obra pode ser vista como um permanente exercício de exaltação civilizacional a partir da banalidade humana. Mas nasce das palavras de um jornalista e historiador, Mark Harris. Não li o livro, pelo que não sei até que ponto houve fiel reprodução ou livre reinvenção da narrativa original. Sei outra coisa. Que Five Come Back é um filme disfarçado de documentário.

Cinco realizadores vivos falam da sua admiração por cinco realizadores eternos. Cinco estrelas da indústria cinematográfica norte-americana, quando Hollywood era Hollywood, que aceitaram arriscar a sua vida quando o ódio ameaçava triunfar no Mundo. Entre eles, ia o mais influente realizador da História. Estes protagonistas românticos e heróicos, ricos e famosos, preferiram ser um ecrã da coragem.

Não há história de amor mais bela do que a da luta pela liberdade. Da liberdade daqueles que nunca vimos nem iremos ver.

Por falar em comissões de inquérito à CGD

A nova comissão de inquérito à Caixa promete ser um espectáculo televisivo muito mais animado do que as anteriores. Porque iremos viajar até ao ano 2000, e de lá até aos anos de Passos&Relvas+Portas, e porque se vão apresentar e discutir critérios da concessão de crédito. Aposto num dilúvio de novidades. Entretanto, o Expresso no passado sábado mostrou-nos uma fotografia de um universo paralelo onde se está neste preciso momento a montar uma outra comissão de inquérito para se descobrir como foi possível usar a CGD para tentar criminalizar um partido.

Aqui se pode ler – O extraordinário extrato bancário que levou a CGD a tomar a iniciativa de investigar Sócrates – que alguém na CGD controlava os movimentos da única conta de Sócrates e certo dia tomou uma decisão: listar os números registados, declarar os movimentos suspeitos e enviar uma denúncia para a Judiciária. Da Judiciária passou para o Ministério Público. E neste deu origem a uma operação secreta sob o código “PA 806/2013”. Bastaria obtermos a resposta a duas perguntas para ficarmos perante a mais extraordinária violação do Estado de direito de que há conhecimento em democracia:

– Quem é que, na CGD, gerou, discutiu e autorizou a denúncia?

– Em que altura é que Joana Marques Vidal foi envolvida nas ilicitudes que se tornariam o suporte, dinâmica e espírito da “Operação Marquês”?

Já se sabia, porque é evidente, mas esta notícia detalha o modus operandi do crime. O que se passou na CGD em relação aos movimentos da conta de Sócrates só se explica no quadro de um controlo político do banco tão completo que se ousa dispor dessa instituição violando todos os princípios e códigos da actividade bancária. O departamento de compliance da Caixa Geral de Depósitos sabia que o dinheiro entrado vinha da conta da mãe de Sócrates e não podia, nem devia, saber como é que esse dinheiro tinha ido lá parar. Isto porque a CGD não é a Judiciária, não é o Ministério Público, nem tem o poder de levantar o sigilo bancário e começar a fazer escutas a quem lhe apeteça. O que tem de fazer em caso de suspeitas legítimas é bloquear a conta em causa e chamar o seu proprietário a dar explicações se for caso disso. Se as explicações não forem válidas, então e só então é que entram em acção as autoridades. Num inquérito parlamentar a este episódio teríamos ocasião de abrir a boca perante a excepcionalidade do que se fez a Sócrates e que não se terá feito a mais ninguém na CGD desde que o banco existe. A única explicação para tal é a óbvia.

Só agora, e porque o sorteio escolheu Ivo Rosa, podemos voltar a ter uma segunda oportunidade para pensarmos e agirmos como seres que se respeitam a si próprios. Tivesse calhado Carlos Alexandre a dirigir a abertura de instrução e Rosário Teixeira continuaria a esconder esta génese documentada até ver Sócrates em tribunal. Assim, ficamos com a papinha toda feita e posta na mesa. Tendo Cavaco, Passos, Teixeira da Cruz e Joana Marques Vidal no topo da hierarquia do Estado, a CGD foi usada para se montar a maior operação de criminalização de um partido de que há memória cá pela terrinha, e das maiores internacionalmente. É que a partir do momento em que se abriu o PA 806/2013, começou a ser possível – com a cobertura da procuradora-geral da República – devassar a privacidade de uma lista de alvos arbitrária, quase todos correspondendo, directa e indirectamente, a dirigentes políticos socialistas. Mais, e mais importante: o calendário das violações ao segredo de justiça e do lançamento público da “Operação Marquês” ficavam ao dispor dos intentos políticos conjunturais que melhor favorecessem a agenda de vingança e golpada em marcha. Foi assim que em Julho de 2014, ainda a investigação apenas era falada por cifras nos círculos jornalísticos e políticos, vimos a “Operação Marquês” a tentar influenciar as eleições no PS a favor de Seguro. E depois vimos como ela foi lançada para coincidir com a subida de Costa a líder da oposição, data escolhida com precisão por marcar o início do ano eleitoral para as eleições de 2015. Last but not least, a detenção de Sócrates tornou-se no acontecimento mediático mais impactante em Portugal no presente século e as peripécias do processo permitiram uma campanha negra diária com intensidade máxima. Tudo somado, vamos com 15 anos em que a oligarquia usa Sócrates como pretexto e alvo com vista a judicializar a política – recorrendo à retórica da chicana, à indústria da calúnia e à politização da Justiça para acusar o Partido Socialista de ser essencialmente corrupto.

Este o contexto em que os bacanos do Expresso se juntaram à conversa para se fazerem ouvidos – Comissão Política #66: A atuação “pouco católica” de Marcelo – e onde ainda conseguimos ficar banzos com a hipocrisia destes “jornalistas” com as línguas e os dedos cheios de calos na defesa do PSD e na perseguição ao PS. Filipe Santos Costa fala do que se fez a Sócrates na CGD como alguém que tivesse entrado numa sala pejada de cadáveres estropiados e começasse a criticar as nódoas de sangue na alcatifa. Micael Pereira vai mais longe, partilha connosco a sua visão em que os bancos passam a controlar e a punir o que os cidadãos façam com o seu dinheiro. Caso achem que um certo cliente é um gastador, um doidivanas, e depois de se confirmar com cuidadinho que não pertence à gente séria, bófia com ele. E por cima toca a despejar a bosta viscosa do Ministério Público até ele desaparecer de vista.

Sim, senhores ouvintes, é nisto que consiste o “fim da impunidade” no laranjal. Para mais informações, é favor deslocarem-se ao universo paralelo onde deputados paralelos estão neste momento numa Assembleia da República paralela a usar a sua Constituição para fazer perpendiculares à anomia reinante.

Marques Mendes e o todo-poderoso

FCQJ - Armando Vara tornou-se o único preso em Portugal a cumprir pena por tráfico de influências. O que é que isto representa para a opinião pública?

MM - Em primeiro lugar, o sinal mais importante: o sinal de confiança na Justiça. Porque durante muito e muito tempo a ideia que existia na sociedade portuguesa era esta: "para a cadeia só vai a arraia-miúda, os poderosos safam-se sempre". Pois bem, Armando Vara é o primeiro exemplo a demonstrar o contrário. Porque ele foi todo-poderoso no Partido Socialista, na banca, em vários sectores, e agora 'tá na cadeia...

FCQJ - E foi mesmo...

MM - Foi, foi poderosíssimo.

MM - Segundo lugar, convém neste momento as pessoas não esquecerem duas outras coisas. Primeira, ele foi tão poderoso, tão poderoso, que fez parte de uma rede que durante vinte anos, ou mais, tentou controlar o Partido Socialista, a banca, a comunicação social, as grandes empresas (tipo a antiga PT) e a Justiça. Isto foi uma rede em que três das figuras cimeiras - isto há mais de vinte anos, começou há mais de vinte anos - são José Sócrates, Armando Vara e Carlos Santos Silva. E, portanto, esta prisão agora é apenas uma ponta do icebergue noutros processos, como a "Operação Marquês" e outros, veremos...

FCQJ - Na qual ele é arguido.

MM - É arguido... Veremos que isto, de facto, é, foi uma rede muito poderosa, e ainda bem que terminou.

MM - Segundo dado, convém também não esquecer. Este homem, Armando Vara, foi o homem todo-poderoso dos dois maiores bancos em Portugal, do banco público, Caixa, e do BCP, privado; onde, de resto, teve actuações desastrosas. Mas é preciso que se diga que ele foi o homem todo-poderoso destes dois bancos não foi apenas pela nomeação do Governo José Sócrates; essa já má, pois ele não tinha manifestamente aptidões de gestor para bancos a este nível. Agora, também o Banco de Portugal. O Banco de Portugal, que teve que dar o seu OK, deu a sua autorização, e isto, de facto, deu prejuízos enormes para o País. Portanto, neste momento, convém que as pessoas nunca esqueçam que uma rede muito poderosa finalmente acabou, e que o Banco de Portugal teve na altura, liderado por Vítor Constâncio, um comportamento, de facto, inqualificável.

Marques Mendes, Conselheiro de Estado escolhido pelo Presidente da República

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Dois minutos e vinte e um segundos. O tempo suficiente para Marques Mendes usar o império mediático do militante nº 1 do PSD para espalhar estas mensagens:

– Na condenação de Armando Vara não importa saber se ele é ou não culpado. Importa é celebrar a prisão de um “poderoso”, o primeiro que finalmente se conseguiu apanhar para mostrar ao povo.

– Na condenação de Armando Vara não importa perder tempo com a tipologia do crime invocado, tráfico de influências. A verdadeira razão pela qual a Justiça prendeu Vara relaciona-se com a sua pertença a uma “rede”.

– A “rede” a que pertence Vara tinha um trio dirigente: Sócrates, Vara e Carlos Santos Silva. Esta “rede” tentou controlar “o Partido Socialista, a banca, a comunicação social, as grandes empresas (tipo a antiga PT) e a Justiça”. Ou seja, Carlos Santos Silva tentou controlar “o Partido Socialista, a banca, a comunicação social, as grandes empresas (tipo a antiga PT) e a Justiça”. A posteridade ganhou esta maravilhosa acusação.

– A “rede” começou a operar com a protecção e cumplicidade de Guterres, Vítor Constâncio e, claro, António Costa. Mas também Sampaio, Alegre e Almeida Santos, entre dezenas de dirigentes com passagem pelo Rato, centenas de quadros partidários do PS e milhares de militantes socialistas. Tudo gente que viu o que Marques Mendes viu, e até melhor porque de mais perto e com as mãos metidas na massa.

– A “Operação Marquês” vai expor os crimes da “rede”, de que o primeiro a atingir Vara com 5 anos de choça é uma migalha comparado com o que se vai poder usar para prender os cabecilhas da “rede” e seus cúmplices. Outros processos judiciais, na forja, continuarão pelos anos seguintes, quiçá décadas, a expor os feitos criminosos da “rede” e a acumular condenados e penas de prisão.

– Se a “Operação Marquês” não for esse bacanal de condenações da “rede”, então saberemos que o juiz Ivo Rosa safou os maiores criminosos da História de Portugal por ter sido comprado ou já pertencer à “rede” desde o início.

Marques Mendes usa por três vezes um adjectivo que, nessa repetição, ganha o estatuto de substantivo. Vara, o “todo-poderoso” na CGD e BCP, “poderosíssimo”, transforma-se numa entidade com poderes divinos. No caso, diabólicos. Tinha mais poder do que os presidentes desses bancos e restantes colegas administradores e gestores todos juntos, a que acresce o Banco de Portugal, os partidos com presença na Assembleia da República, a comunicação social que resistia à asfixia do Carlos Santos Silva e qualquer instância policial e da Justiça nacionais, garante o conselheiro de Estado, ex-presidente do PSD e ministro favorito no Cavaquistão. Ao mesmo tempo, jura, Vara era absolutamente incompetente para ocupar os cargos de administração nesses bancos, por não ter capacidades mentais para tal. Portanto, era o rei da manipulação de tudo e de todos, por um lado, e é um tosco vindo lá de Vinhais que nem para vender castanhas assadas no Rossio teria cabeça, pelo outro. Faz isto algum sentido? A eficácia da patranha depende, precisamente, de não poder fazer qualquer sentido. O discurso não se dirige a uma audiência que esteja a receber racional e criticamente o sofisma. O que se pretende é dar a diferentes públicos diferentes âncoras emocionas. Para uns, funciona a alucinada diabolização, descrever Vara como o monstro enorme que devemos perseguir sem piedade, atrás do qual se podem esconder nomes e actos de um grupo que recolhe a lealdade e protecção de Mendes. Para outros, funciona o desprezo, achincalho e ultraje do alvo, satisfazendo a pulsão do ódio. Num mesmo público as duas deturpações grotescas podem conviver, pois o sujeito dá-lhes uma organização contextual onde se aceitam sem carência de prova porque vale tudo para destruir o inimigo. É a técnica retórica de Trump; sendo que Trump não a inventou, tem milhares de anos.

Em menos de três minutos, uma das personalidades públicas com mais poder em Portugal vem festejar a prisão de um adversário político por razões políticas, declara que o PS é um partido criminoso e ainda tem tempo para ameaçar um juiz. O despacho, entusiasmo e admirável profissionalismo com que faz de spin doctor ao serviço da direita decadente, a direita do poder pelo poder, não é um acaso, uma excepção nem uma irrelevância. O silêncio na imprensa e no PS que se segue a estes exercícios é a manifestação de um poder fáctico. Marques Mendes permite-se tourear os pategos, e cortar-lhes as orelhas, porque este conselheiro de Estado foi escolhido por um vero todo-poderoso para o papel. Um todo-poderoso que não dorme.

Não há provas contra Sócrates, garante o Observador

«O centro nevrálgico da acusação da Operação Marquês contra José Sócrates e Carlos Santos Silva assenta essencialmente em prova indireta que permite sustentar, de acordo com o Ministério Público, que Santos Silva é um mero testa-de-ferro do ex-primeiro-ministro, logo os mais de 30 milhões de euros que foram descobertos nas contas bancárias tituladas por aquele em Portugal e na Suíça pertencerão, na realidade, a Sócrates. As palavras de Morais Pinto foram vistas por diversas fontes do Ministério Público como uma defesa do trabalho da equipa de Rosário Teixeira e um recado para o juiz Ivo Rosa.»


Luís Rosa

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Abriu a época da pressão máxima sobre Ivo Rosa. Para além dos últimos 15 anos onde na comunicação social o tabloidismo de direita e a indústria da calúnia não só triunfaram como vão a caminho de se tornarem ubíquos – assim criando o “clima social” mesmo à maneira para ser invocado por juízes de todas as instâncias como singular fundamento das condenações “exemplares” de alguns “poderosos” escolhidos a dedo – trata-se agora de mostrar a um certo juiz, detestado pelos canalhas por querer cumprir zelosamente a Lei em nome do Estado, que aquilo que tem entre mãos não é um caso de Justiça, antes um caso de regime. E que o regime já decidiu qual o desfecho que pretende.

Como Luís Rosa escreve, a “Operação Marquês” dispôs de recursos humanos, materiais e funcionais ilimitados, a que se juntou um juiz de instrução que actuava como procurador, e não conseguiu produzir prova alguma da corrupção de Sócrates. Pura e simplesmente, no Ministério Público ninguém sabe como demonstrar que uma certa decisão governativa foi tomada em resultado da entrega de dinheiro a Sócrates ou a alguém em seu nome. Como não sabem, inventam. Foi isso que fizeram ao longo da investigação, daí andarem a saltar de calúnia para calúnia ao longo dos anos só para chegarem sempre à mesma conclusão: não há nada por onde se possa sequer começar a provar, com documentação ou testemunhos, a suposta corrupção que alegadamente justificou a colossal reunião de forças policiais e judiciais. Não havendo, juntaram aos molhos o nada que tinham sobre o tanto que vasculharam e devassaram, colocaram-lhe o carimbo “provas indirectas”, e agora querem que se repita exactamente o que aconteceu com Vara no “Face Oculta”. É que o caso de Vara é uma prova, sim, mas do arbítrio e prepotência indefensável da Justiça quando quer esmagar um cidadão. Lá em Aveiro, 25 mil euros que ninguém viu a serem entregues nem foram encontrados, nem sequer existindo racional para terem sido pagos, serviram para fazer o que nunca tinha sido visto em Portugal: disparar cinco anos de prisão efectiva numa condenação por tráfico de influência. Na “Operação Marquês”, se for repetida a fórmula e respeitada a proporção face ao valor político do alvo embrulhado numa acusação que agita 30 milhões, podemos esperar condenação que chegará aos 500 anos, mínimo de 50 efectivos.

Provas contra Sócrates, nicles, mas abusos de poder, irregularidades, crimes e explorações políticas de boca cheia e à doida, isso nunca faltou na “Operação Marquês” por parte do Ministério Público, partidos políticos e impérios de comunicação. Ainda antes de sequer existirem arguidos constituídos já a manipulação mediática e política de materiais judiciais única e exclusivamente na posse de magistrados corria solta no espaço público. A lógica é ancestral e oligárquica: vale tudo para destruir o inimigo. E quem tem poder vai usá-lo nos limites da sua eficácia, essa a regra que este Luís Rosa está a seguir ao dar alcance e densidade às ameaças dirigidas contra um juiz. A intenção é a de obrigar Ivo Rosa a deixar que sejam outros juízes, mais amigos do “combate a certos corruptos” do que da inocência até prova em contrário de qualquer pessoa, a tratarem da “corrupção” por “prova indirecta”.

Por prova indirecta é uma delícia, porque se pode soterrar juridicamente um ser humano em suposições absolutamente subjectivas, e esta peça de um dos mais fanáticos carrascos do PS será apenas a primeira de centenas ou milhares que veremos nos próximos meses escritas, gravadas em rádios e filmadas nos estúdios de TV a exigir a cabeça de Sócrates numa travessa e a mostrar as favolas afiadas ao juiz que os ingénuos ainda esperam que consiga decidir livremente. De um lado, temos um caso judicial nascido com um certo Presidente da República, um certo Governo, uma certa maioria parlamentar, uma certa procuradora-geral da República, o qual andou a servir de bandeira para o logro obsceno do “fim da impunidade” e a servir de capa para um rol imparável de violências sobre alvos políticos festejadas como condenações antecipadas. Do outro, um cidadão que gastou dinheiro vindo da conta de um amigo que comprou bens à sua família ou lhe emprestou dinheiro e outros bens – e cuja avaliação moral da sua conduta é nesta situação completamente irrelevante para o que está aqui em causa no foro da Justiça. É só isto que existe no processo. Daí estarem a soltar todos os cães de guerra. O regime tem de condenar Sócrates por corrupção para sobreviver.

Artigo 34º da Concordata: Marcelo reeleito em 2021 para receber o papa

«O Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou este sábado que sai da Cidade do Panamá, onde permanece até domingo para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), com “uma grande vontade” de se recandidatar.

“Saio daqui — e amanhã [domingo] admito que mais — com uma grande vontade de, se Deus me der saúde e se eu achar que sou a melhor hipótese para Portugal, com uma grande vontade de me recandidatar”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Questionado sobre o que o faz ter dúvidas, o Presidente português adiantou: “Tenho de ter saúde e tenho de ver se não há ninguém em melhores condições para receber o papa”.

O Presidente português disse ter conversado “várias vezes” com o papa na missa que Francisco presidiu na Cidade do Panamá e à qual Marcelo Rebelo de Sousa participou, concretizando-se o terceiro momento em que os dois chefes de Estado estiveram.

"À entrada reconheceu-me logo e recordámos quando estivemos juntos, nomeadamente em Fátima”, afirmou aos jornalistas o chefe de Estado após a celebração, na basílica catedral Santa Maria la Antigua, no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventude que decorrem até domingo na capital do Panamá.

Já no final, o papa Francisco contou-lhe uma história “muito curiosa”, relatou Marcelo Rebelo de Sousa. "À saída disse que tinha tido uma troca de correspondência com o arcebispo Tolentino [Mendonça] sobre dois artigos relativos a Santo António e, a certa altura, nessa troca de correspondência, dizia-se ‘Santo António de Pádua’ e ele acrescentou, ‘de Lisboa, não é de Pádua, de Lisboa’”.

Esse foi o terceiro momento em que o chefe de Estado português esteve com o papa Francisco.

Em 17 de março de 2016, oito dias após ter tomado posse, o Presidente da República viajou para Roma, naquela que foi a sua primeira deslocação oficial ao estrangeiro.

Então, Marcelo Rebelo de Sousa, assumidamente católico praticante, justificou a escolha do Vaticano: “Trata-se do reconhecimento perante a entidade que foi a primeira a reconhecer Portugal como Estado independente”.»


Fonte

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Ricardo Araújo Pereira e Alberto Gonçalves, a mesma luta

«Escrever sobre o Ricardo é um aborrecimento medonho. O Ricardo é letrado, lúcido, brilhante, amável e mais uma data de características que o afastam do português médio, do humorista português médio e do participante da “Quadratura do Círculo” médio. Para cúmulo, o raio do tipo tem graça, o que não tem graça nenhuma para quem se oferece a analisar impiedosamente os seus trabalhos.

Por sorte – sorte do presente texto, que isto não vai lá movido a elogios – o Ricardo possui um defeito: convenceu-se, não imagino porquê, de que é de esquerda. Claro que não é.»


Alberto Gonçalves

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Corria o ano de 2007 quando o PNR colocou no Marquês de Pombal um cartaz onde defendia a expulsão de estrangeiros e o fim da imigração, em nome do “nacionalismo”. Os Gato Fedorento surpreenderam mediática, social e politicamente – mas também culturalmente – o País ao colocarem ao seu lado um cartaz que parodiava a mensagem do PNR; no que ficou como a primeira crítica política através do humor usando exactamente o mesmo veículo semiótico da entidade visada (que eu conheça). O exercício criativo dos Gato foi apenas dirigido àquelas ideias do cartaz em causa e não a outras do PNR, ainda menos à legitimidade cívica da pessoa protagonista na imagem ou das pessoas terceiras que apoiassem as propostas do PNR. Poderia ter sido um corriqueiro número cómico a ter sido gravado para a televisão ou Internet, situação em que talvez tivesse passado sem qualquer reacção notável e memorável. Ao optarem pela réplica exacta do meio e códigos de comunicação, o impacto foi muito superior porque o registo político do humor atingiu o grau máximo da caricatura social e seu efeito corrosivo e iconoclasta. De imediato surgiram ameaças à integridade física dos próprios e de familiares seus, tendo a PSP montado um qualquer tipo de segurança ao Ricardo Araújo Pereira (pelo menos) até se considerar extinto o clima de vingança. Cínicos podem ver na decisão de afrontar a extrema-direita apenas uma manobra de promoção da marca Gato Fedorento, usando um tipo de ataque que iria recolher apoio e simpatia na enorme maioria da população dada a quase marginalidade e entranhado desprestígio do PNR e sua agenda política ao tempo. Já os apaixonados pela cidade ficaram profundamente agradecidos com a inteligência e coragem demonstradas, ficando a admirar ainda mais quem usava os seus dons artísticos para defender a comunidade da violência desumana propagandeada sob a alçada da democracia e do Estado de direito. Dez anos e tal depois, esse Gato Fedorento que nos encantava, desopilava e orgulhava trocou de cartaz.

O Ricardo é agora principalmente conhecido por ser a estrela e locomotiva do Governo Sombra, um programa que reúne três (quatro?) personalidades unidas na sua perseguição política ao PS. O José Diogo Quintela foi para o esgoto a céu aberto sacar uns cobres a alimentar o clima de ódio e perseguição política ao PS. O Tiago Dores ingressou recentemente no Observador onde faz coro na madraça para a perseguição política ao PS. Resta o Miguel Góis, que aparenta ser apenas publicitário mas que, calhando imitar os colegas, tem muito por onde escolher se a intenção for a de ganhar dinheirinho do bom na perseguição política ao PS. Obviamente, não há problema algum em existir quem queira aumentar a sua riqueza, ou garantir a sobrevivência, através da perseguição política ao PS. É um estilo de vida tão meritório como o daquelas pessoas que vendem suplementos de cálcio aos velhinhos ou que prometem curas milagrosas pela módica quantia de 10% do rendimento mensal (mas pode sempre dar-se mais, eles fazem o sacrifício de aceitar o acréscimo de fé e o milagre chega garantidamente mais cedo). É tudo legal, parece. O problema reside apenas nos meios pelos quais se atingem os fins, esse primado incontornável da decência onde se aceitam limites impostos pelo respeito da liberdade alheia e pela obediência à consciência própria. Ora, constatámos nos últimos anos que a decência como valor limite foi apagada do vocabulário destes felinos malcheirosos, agora vedetas de uma facção política que domina a comunicação social. Uma facção que perdeu qualquer prurido ou receio em cultivar formas de violência moral, policial e judicial que até há uma ou duas décadas foram estranhas na Europa e em Portugal.

Quando se vê a maior figura viva do humor nacional a seguir ao Herman José, e superior a ele em influência para quem nasceu a partir dos anos 80, a usar registos de escutas e interrogatórios a cidadãos inocentes (porque ainda não condenados por nada de nada) – divulgados através de crimes cometidos por magistrados, ou agentes da Justiça, e por crimes cometidos por jornalistas e seus accionistas – para acrescentar à violência dessa exposição ilícita da privacidade e da fragilidade a violência da difamação, da calúnia e do achincalhamento, então já não estamos perante um exercício de comédia ou sátira, ainda menos de “crítica ao poder” ou “luta contra os corruptos”. O espectáculo assim servido, e cobrado, é um linchamento. Trata-se de um assassinato simbólico que serve pulsões de vingança e de ameaça. E tem um efeito cognitivo com vastas consequências políticas: o texto da Constituição, a noção de Estado de direito democrático, a arquitectura da soberania e os princípios dos direitos e garantias individuais desaparecem do discurso mediático substituídos pela lei do mais forte. Ter o Ricardo a fazer justiça pelas suas próprias indecências, mergulhado no rancor nascido de ser um espoliado do BES, deixa um influentíssimo exemplo social cuja natureza é deletéria e vexante para a integridade da comunidade.

No primeiro episódio de Gente Que Não Sabe Estar, a humilhação de cidadãos envolvidos em processos judiciais foi o prato forte. Esse à-vontade, essa impante impunidade cívica e moral, permite antecipar que o Ricardo adoraria poder levar as suas câmaras para dentro das prisões e continuar a castigar os detidos com o seu “humor”. Vê-los a fazer chichi e cocó, a meter o dedo no nariz, a ouvirem bocas dos outros presidiários, de preferência homoeróticas para a gargalhada ser mais alta. E largar por cima dessas captações politicamente totalitárias, em nome do interesse do público, as suas piadinhas e piadolas em nome da liberdade de expressão do seu ódio. E talvez fosse menino para aceitar, em parceria com o Correio da Manhã, correr a Grei com Vara e Sócrates dentro de uma jaula para mostrar ao bom povo o que são os tais corruptos de que tanto se fala. Tamanha desumanização daqueles reduzidos apenas ao estatuto de inimigos, diabolizados para serem tratados como indignos de qualquer direito constitucional ou mínima protecção moral, tinha de merecer o desvairado aplauso dos colegas de tortura. Foi o que fez o Alberto Gonçalves, dizendo, por uma vez, a mais pura das verdades. O Ricardo Araújo Pereira já não é de esquerda. Mas também não é de direita, pois ser de direita não obriga ninguém a ser pulha. Será antes alguma coisa que, mais dia menos dia, acabará a receber elogios do PNR. Afinal, Sócrates consegue fazer os mais miseráveis parceiros de cama na matilha que o persegue e dele se alimenta.

Quando é que a Humanidade reconhecerá o génio de Armando Vara?

É do foro do maravilhoso listar o número de gestores, administradores e responsáveis institucionais variados, directa e indirectamente – do PS, do PSD, do CDS e independentes – ligados à Caixa Geral de Depósitos ao longo do período 2005-2010 (o alvo político em causa), juntamente com os procedimentos formais e oficiais seguidos nesse banco, e também no BCP, e no Banco de Portugal, a que acresce ainda o trabalho das várias comissões de inquérito parlamentar que receberam dados oriundos da Justiça, documentação bancária e depoimentos sob juramento de dezenas de indivíduos, e depois ouvir os megafones mediáticos dos decadentes a fazer de Armando Vara uma entidade sobrenatural que dominaria centenas de cabeças à sua volta num esquema de roubalheira à vista de tudo e de todos montado por Sócrates a partir do seu telefone – sem que disso tenha ficado uma singular prova ou sombra dela.

O ódio político tem causas e dinâmicas que a literatura filosófica e científica há séculos e séculos anda a expor para educação dos interessados. É inevitável, especialmente por parte de quem está afastado do poder, quem é de direita e quem quer ganhar dinheiro com o populismo do tempo. Três factores que se reforçam uns aos outros, levando ao triunfo da indústria e da cultura da calúnia.

Em 2008, consta que aconteceu um problemazeco ali para os lados do Lehman Brothers que terá causado aquilo que Ferreira Leite, com supina e ofuscante honestidade intelectual, carimbou como “abalozinho” na economia mundial (e que espíritos ignaros e socráticos fixaram na História como a Grande Recessão, algo só comparável à Grande Depressão ocorrida 80 anos antes). Em 2019, esses acontecimentos globais (e/ou a inerente aleatoriedade de qualquer investimento, seja quando e onde for feito) não chegam para justificar os resultados negativos dos investimentos ocorridos nesse período em Portugal que receberam empréstimos da CGD, berram conselheiros de Estado favoritos do Presidente da República e a fina-flor do entulho na nossa imprensa. Isso seria até um disparate a pedir porrada quando se sabe que Vara andava por lá, e depois pelo BCP. Como é que o afundanço das maiores economias mundiais, e seus efeitos sistémicos, poderia alguma vez competir com o génio de Vara quando se trata de explicar aos borregos o que aconteceu durante uma época que continua, e continuará, a servir como arma de arremesso político contra o PS?

A fazer fé no que os pulhas garantem ter acontecido, Vara precisa de ser investigado pelas maiores inteligências internacionais nos campos da neurologia, psicologia, ciências forenses, antropologia e astrologia. Que não se deixe uma única pista por explorar, talvez tenhamos entre mãos o Einstein das operações de crédito.

A morte como afirmação da vida

Às vezes, as pessoas vão pelo caminho difícil. Eu costumo dizer que, às vezes, as pessoas querem ir para o inferno. Mas elas não podem ir sozinhas, temos de acompanhá-las, sabendo que estamos no inferno mas não somos parte dele.

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Há alguma diferença, por exemplo, na forma como os ricos ou os muito ricos e os pobres ou os excluídos da sociedade vivem a morte? Morremos todos da mesma maneira?
Essa foi uma descoberta muito bela. Não há diferença no sofrimento que é vivido, no medo, no sentimento de culpa, no arrependimento, na amorosidade, não tem diferença. Só muda o figurino. Muda o espaço físico. No Hospício do Hospital das Clínicas, quando lá estava, os quartos eram duplos e aí não havia o nome chique da solidão, que é a privacidade. Ninguém estava só. Havia sempre outro e os seus familiares. Havia um compartilhar, um acolhimento, um apaziguamento, essa palavra bonita. Num hospital privado, há muita solidão. Uma das coisas mais difíceis, quando temos grandes recursos, é a solidão. Você tem a impressão de que, porque tem dinheiro, porque tem poder, pode comprar tudo. Mas você não pode comprar a qualidade das relações. Às vezes, é mais desafiador você ter boas relações na medida em que se diferencia muito, do que quando é um igual nas dificuldades. Outra coisa que é muito significativa é a sensação de vida plena. As pessoas mais humildes têm uma percepção de plenitude muito mais acessível do que a pessoa que é não só muito rica; às vezes, quando é muito rica intelectualmente, ela também se perde nos valores dela. Cuidei de uma senhora que era lavadeira, lavava roupa para fora, tinha nove filhos, acordava às quatro da manhã e ia até de noite lavando roupa para fora. Ela criou os nove filhos e vários deles foram para a universidade. Ela terminou a vida olhando em volta e disse: “Consegui.” Ela só tinha um caminho, era a única coisa que ela sabia, era lavar roupa. E ela lavou roupa da melhor forma que podia, com o maior empenho. Um empresário, às vezes, tem mil opções de trabalho e de rendimentos e olha para a família e vê que estão todos tão perdidos e diz: “Que sentido tem isto?”


“Morrer é o nosso maior exercício de entrega”