A morte como afirmação da vida

Às vezes, as pessoas vão pelo caminho difícil. Eu costumo dizer que, às vezes, as pessoas querem ir para o inferno. Mas elas não podem ir sozinhas, temos de acompanhá-las, sabendo que estamos no inferno mas não somos parte dele.

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Há alguma diferença, por exemplo, na forma como os ricos ou os muito ricos e os pobres ou os excluídos da sociedade vivem a morte? Morremos todos da mesma maneira?
Essa foi uma descoberta muito bela. Não há diferença no sofrimento que é vivido, no medo, no sentimento de culpa, no arrependimento, na amorosidade, não tem diferença. Só muda o figurino. Muda o espaço físico. No Hospício do Hospital das Clínicas, quando lá estava, os quartos eram duplos e aí não havia o nome chique da solidão, que é a privacidade. Ninguém estava só. Havia sempre outro e os seus familiares. Havia um compartilhar, um acolhimento, um apaziguamento, essa palavra bonita. Num hospital privado, há muita solidão. Uma das coisas mais difíceis, quando temos grandes recursos, é a solidão. Você tem a impressão de que, porque tem dinheiro, porque tem poder, pode comprar tudo. Mas você não pode comprar a qualidade das relações. Às vezes, é mais desafiador você ter boas relações na medida em que se diferencia muito, do que quando é um igual nas dificuldades. Outra coisa que é muito significativa é a sensação de vida plena. As pessoas mais humildes têm uma percepção de plenitude muito mais acessível do que a pessoa que é não só muito rica; às vezes, quando é muito rica intelectualmente, ela também se perde nos valores dela. Cuidei de uma senhora que era lavadeira, lavava roupa para fora, tinha nove filhos, acordava às quatro da manhã e ia até de noite lavando roupa para fora. Ela criou os nove filhos e vários deles foram para a universidade. Ela terminou a vida olhando em volta e disse: “Consegui.” Ela só tinha um caminho, era a única coisa que ela sabia, era lavar roupa. E ela lavou roupa da melhor forma que podia, com o maior empenho. Um empresário, às vezes, tem mil opções de trabalho e de rendimentos e olha para a família e vê que estão todos tão perdidos e diz: “Que sentido tem isto?”


“Morrer é o nosso maior exercício de entrega”

3 thoughts on “A morte como afirmação da vida”

  1. não vimos ao mundo para conseguir coisas, vimos para aprender e ensinar. e a morte não tem nada de especial, é o fim de um ciclo. alguns passarão para o próximo nível, outros terão de gramar a cadeia alimentar, o tempo e o espaço novamente.
    enquanto não acontece, imagino.
    a mania de representarem a morte de preto com uma foice é uma estupidez .

  2. e por falar em inferno, gosto imenso deste trecho de “as cidades invisíveis” do Italo Calvino ,

    “O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.”

  3. A morte como grande equalizadora? O tana(to)s! não leves o guito para pagar ao Caronte e ficas homeless bué da time, man.

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