Ricardo Araújo Pereira e Alberto Gonçalves, a mesma luta

«Escrever sobre o Ricardo é um aborrecimento medonho. O Ricardo é letrado, lúcido, brilhante, amável e mais uma data de características que o afastam do português médio, do humorista português médio e do participante da “Quadratura do Círculo” médio. Para cúmulo, o raio do tipo tem graça, o que não tem graça nenhuma para quem se oferece a analisar impiedosamente os seus trabalhos.

Por sorte – sorte do presente texto, que isto não vai lá movido a elogios – o Ricardo possui um defeito: convenceu-se, não imagino porquê, de que é de esquerda. Claro que não é.»


Alberto Gonçalves

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Corria o ano de 2007 quando o PNR colocou no Marquês de Pombal um cartaz onde defendia a expulsão de estrangeiros e o fim da imigração, em nome do “nacionalismo”. Os Gato Fedorento surpreenderam mediática, social e politicamente – mas também culturalmente – o País ao colocarem ao seu lado um cartaz que parodiava a mensagem do PNR; no que ficou como a primeira crítica política através do humor usando exactamente o mesmo veículo semiótico da entidade visada (que eu conheça). O exercício criativo dos Gato foi apenas dirigido àquelas ideias do cartaz em causa e não a outras do PNR, ainda menos à legitimidade cívica da pessoa protagonista na imagem ou das pessoas terceiras que apoiassem as propostas do PNR. Poderia ter sido um corriqueiro número cómico a ter sido gravado para a televisão ou Internet, situação em que talvez tivesse passado sem qualquer reacção notável e memorável. Ao optarem pela réplica exacta do meio e códigos de comunicação, o impacto foi muito superior porque o registo político do humor atingiu o grau máximo da caricatura social e seu efeito corrosivo e iconoclasta. De imediato surgiram ameaças à integridade física dos próprios e de familiares seus, tendo a PSP montado um qualquer tipo de segurança ao Ricardo Araújo Pereira (pelo menos) até se considerar extinto o clima de vingança. Cínicos podem ver na decisão de afrontar a extrema-direita apenas uma manobra de promoção da marca Gato Fedorento, usando um tipo de ataque que iria recolher apoio e simpatia na enorme maioria da população dada a quase marginalidade e entranhado desprestígio do PNR e sua agenda política ao tempo. Já os apaixonados pela cidade ficaram profundamente agradecidos com a inteligência e coragem demonstradas, ficando a admirar ainda mais quem usava os seus dons artísticos para defender a comunidade da violência desumana propagandeada sob a alçada da democracia e do Estado de direito. Dez anos e tal depois, esse Gato Fedorento que nos encantava, desopilava e orgulhava trocou de cartaz.

O Ricardo é agora principalmente conhecido por ser a estrela e locomotiva do Governo Sombra, um programa que reúne três (quatro?) personalidades unidas na sua perseguição política ao PS. O José Diogo Quintela foi para o esgoto a céu aberto sacar uns cobres a alimentar o clima de ódio e perseguição política ao PS. O Tiago Dores ingressou recentemente no Observador onde faz coro na madraça para a perseguição política ao PS. Resta o Miguel Góis, que aparenta ser apenas publicitário mas que, calhando imitar os colegas, tem muito por onde escolher se a intenção for a de ganhar dinheirinho do bom na perseguição política ao PS. Obviamente, não há problema algum em existir quem queira aumentar a sua riqueza, ou garantir a sobrevivência, através da perseguição política ao PS. É um estilo de vida tão meritório como o daquelas pessoas que vendem suplementos de cálcio aos velhinhos ou que prometem curas milagrosas pela módica quantia de 10% do rendimento mensal (mas pode sempre dar-se mais, eles fazem o sacrifício de aceitar o acréscimo de fé e o milagre chega garantidamente mais cedo). É tudo legal, parece. O problema reside apenas nos meios pelos quais se atingem os fins, esse primado incontornável da decência onde se aceitam limites impostos pelo respeito da liberdade alheia e pela obediência à consciência própria. Ora, constatámos nos últimos anos que a decência como valor limite foi apagada do vocabulário destes felinos malcheirosos, agora vedetas de uma facção política que domina a comunicação social. Uma facção que perdeu qualquer prurido ou receio em cultivar formas de violência moral, policial e judicial que até há uma ou duas décadas foram estranhas na Europa e em Portugal.

Quando se vê a maior figura viva do humor nacional a seguir ao Herman José, e superior a ele em influência para quem nasceu a partir dos anos 80, a usar registos de escutas e interrogatórios a cidadãos inocentes (porque ainda não condenados por nada de nada) – divulgados através de crimes cometidos por magistrados, ou agentes da Justiça, e por crimes cometidos por jornalistas e seus accionistas – para acrescentar à violência dessa exposição ilícita da privacidade e da fragilidade a violência da difamação, da calúnia e do achincalhamento, então já não estamos perante um exercício de comédia ou sátira, ainda menos de “crítica ao poder” ou “luta contra os corruptos”. O espectáculo assim servido, e cobrado, é um linchamento. Trata-se de um assassinato simbólico que serve pulsões de vingança e de ameaça. E tem um efeito cognitivo com vastas consequências políticas: o texto da Constituição, a noção de Estado de direito democrático, a arquitectura da soberania e os princípios dos direitos e garantias individuais desaparecem do discurso mediático substituídos pela lei do mais forte. Ter o Ricardo a fazer justiça pelas suas próprias indecências, mergulhado no rancor nascido de ser um espoliado do BES, deixa um influentíssimo exemplo social cuja natureza é deletéria e vexante para a integridade da comunidade.

No primeiro episódio de Gente Que Não Sabe Estar, a humilhação de cidadãos envolvidos em processos judiciais foi o prato forte. Esse à-vontade, essa impante impunidade cívica e moral, permite antecipar que o Ricardo adoraria poder levar as suas câmaras para dentro das prisões e continuar a castigar os detidos com o seu “humor”. Vê-los a fazer chichi e cocó, a meter o dedo no nariz, a ouvirem bocas dos outros presidiários, de preferência homoeróticas para a gargalhada ser mais alta. E largar por cima dessas captações politicamente totalitárias, em nome do interesse do público, as suas piadinhas e piadolas em nome da liberdade de expressão do seu ódio. E talvez fosse menino para aceitar, em parceria com o Correio da Manhã, correr a Grei com Vara e Sócrates dentro de uma jaula para mostrar ao bom povo o que são os tais corruptos de que tanto se fala. Tamanha desumanização daqueles reduzidos apenas ao estatuto de inimigos, diabolizados para serem tratados como indignos de qualquer direito constitucional ou mínima protecção moral, tinha de merecer o desvairado aplauso dos colegas de tortura. Foi o que fez o Alberto Gonçalves, dizendo, por uma vez, a mais pura das verdades. O Ricardo Araújo Pereira já não é de esquerda. Mas também não é de direita, pois ser de direita não obriga ninguém a ser pulha. Será antes alguma coisa que, mais dia menos dia, acabará a receber elogios do PNR. Afinal, Sócrates consegue fazer os mais miseráveis parceiros de cama na matilha que o persegue e dele se alimenta.

15 thoughts on “Ricardo Araújo Pereira e Alberto Gonçalves, a mesma luta”

  1. nada melhor que o RAP para dizer quem é…

    “…Quem deseja fazer humor pedagógico acaba por nem fazer humor nem pedagogia. As pessoas não leem um humorista para levar lições de moral ou decidir o sentido de voto. Leem-no se ele tiver a capacidade de as fazer rir. Sei que outros humoristas pensam de outra maneira. Dizem: mais do que fazer rir, quero fazer pensar. Ora, eu acho que é preciso ser um tipo especial de pessoa para estar convencido de que a sua missão no planeta é fazer os outros pensar. E, normalmente, o que essa frase significa de facto é: quero fazer os outros pensarem como eu. Não tenho essa pretensão, e creio que o humor seria o veículo errado para a levar a cabo e para operar importantes mudanças sociais. Não sei se reparou, mas o candidato mais violentamente ridicularizado da história da sátira política foi eleito presidente dos EUA. O que as pessoas pensam costuma manter-se independente do que os humoristas dize…”

    https://ionline.sapo.pt/592691

  2. Também assisti à estreia do programa. E percebi logo porque é nunca se tinha feito um Daily Show à portuguesa. A outra conclusão é que o RAP já era. Como qualquer jogador de futebol, diga-se de passagem, com uma carreira muito curta. No caso humorística. Portanto, mais um epifenómeno do humor à portuguesa. Acho que só ele é que ainda não percebeu isso. Ou se calhar percebeu e daí a grandessíssima merda que é o governo sombra.

  3. O RAP já era, digo.
    De Esquerda? Nahhh!
    O Actual “Qualquer Coisa Nome” na TVI é “triste”.
    Acho que o Grande Humorista Português é o Bruno Nogueira.
    Magnífico o seu “Laura”

  4. Mereciam que o PNR agradecesse o impulso comemorando a efemeride com um cartaz precisamente no mesmo sitio, dizendo;

    “In english there are many ways to skin a cat, in portugal we’ve skinned the head of four the same way”
    (If you want to sing this line use a Rap flow, bitch!)

  5. É preciso muita força intelectual e sobretudo ética moral para resistir ao enriquecimento rápido. A maior parte dos humoristas portugueses rapidamente enveredam pelo ‘engraçadismo’ que é uma variante corrupta oportunista para ganhar dinheiro através da notoriedade alcançada com pouco trabalho.
    É precisamente para isso que as TVs os contratam a peso de ouro e aplicam aqueles formatos de filas de embasbacados/embasbacadasas atrás dos “verdadeiros artistas” de boca aberta ou arreganhada a bater palmas ainda mal abriu a boca o “artista” que de facto já se tornou verdadeiramente fedorento e mal cheiroso da boca pelo modelo repetitivo de fazer do outro o enxovalho torpe do seu ganha-pão.
    Esta gente oportunista e de baixa moral embora disfarçada de moralismo exploram sem limites “o que dá” e de imediato aquilo torna-se uma necessidade e um vício do qual já não são capazes de evitar.
    Hoje o fedorento-mor não passa de uma imitação do colega Tavares sob um formato que tentou ser esquerdista mas é, hoje em dia, de um reaccionarismo que se topa mal abre a boca.

  6. Como o Herman não há nenhum. Sério, faz rir porque é genuíno e sabe interpretar de forma comovente a miséria humana da qual ele é um expoente. Em dado tempo descobri esse “governo sombra” que não prestava mas o RAP dizia umas coisas engraçadas que salvavam o tempo perdido até que o saldo se tornou profundamente negativo com o translúcido Mexia a sangrar “mixórdias” de extrema direita, e acabou, nunca mais.

  7. O Alberto Gonçalves retratou o RAP ao milímetro. Já o blogger não conseguiu ultrapassar a visão afunilada pelo seguidismo partidário. Para grande pena sua e de muita rataria, o RAP é, de longe, o maior humorista português. E, também para grande pena sua, não há vacas sagradas. Aquelas que foram alfinetadas pelo RAP causaram seguramente danos incomensurávelmente maiores ao país do que aqueles que lhes são causados por um humor cáustico e, simplesmente, b r I l h a n t e!

  8. Uma análise disparatada. O RAP é da esquerda que sempre foi, a que vota no PCP por defender a redistribuição da riqueza mas torce o nariz às posições do PCP sobre política externa. É uma esquerda que não inclui o PS. A tua obsessão com o PS de Sócrates é tal que distorces sistematicamente a realidade. Numa crítica ao RAP é particularmente estranho, pois haveria boas razões para criticar o humorista e nenhuma é a que referes.

  9. O RAP desceu ao nível humor do esgoto. Só vi um pouco do (pro) grama para conhecer e decidi de imediato não gramar com o resto. Mudei de canal. Ganhar dinheiro humilhando, insultando, gerando ódio é do mais desprezível que pode existir num ser humano. Que falta de dignidade, de escrúpulos a deste RAP. Como pode descer tão baixo?…que miséria humana…é assim que as ditaduras se vão instalando de mansinho…com estes e outros idiotas úteis. Magnífico este texto de Valupi. Agradeço-lhe mais uma vez. É digno de admiração porque luta pelo esclarecimento das pessoas, numa sociedade onde a tendência é fazer todos burros. Isto é meritório e valioso! Bem haja, Valupi!

  10. Mais uma vez verifico que os comentadores que vêm aqui reagir contra a escandaleira que é o “Processo Marquês” e que o Valupi põe a céu descoberto, eles esquecem que a questão não é o Sócrates é a violação dos mais elementares princípios do exercício da Justiça no nosso país! … Mas para eles, desde que seja contra o Sócrates, tudo vale…!
    Por este andar…e com um empurrãozinho do populismo… um dia destes, não muito longínquo, haverá de novo festa no Rossio seguida do linchamento dos que foram erigidos como “inimigos públicos”, pela religião no poder….

    … Afinal acabo por ter razão…. Nunca gostei do programa “Os Gatos Fedorentos”, logo por causa do título!… Escolher como fedorento, um animal que é dos que passam a vida a “lavar-se”…!?!?… Nahh, não gostei…!

  11. Quanto a sentido de humor, até a sanita que cá tenho em casa deixa o Ricardinho a léguas de distância. O mesmo feito conseguem a tábua de engomar, o bidé, o microondas e outros simpáticos apetrechos que seria fastidioso enumerar. Se a modalidade é a aptidão para fazer rir os outros, o querido autoclismo, mouro de trabalho que nunca me fez desfeita, também deixa o fedorento a quilómetros de distância. Dos atletas olímpicos com quem partilho o tecto, o único que não consegue arrebatar a medalha de ouro ao miauzinho malcheiroso é o cagalhão que diariamente entrego aos cuidados profissionais da dita sanita e do referido autoclismo. No que respeita a fedor infecto, insidioso e doentio, o Araújo não tem rival.

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