Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 483

Príncipe Real – a CML esqueceu-se da capela mortuária

Hoje soube através de uma pessoa da CML em visita de supervisão ao espaço que a inauguração das obras de destruição do Jardim do Príncipe Real (intituladas como uma requalificação pela CML) está prevista para as 10 horas de amanhã, dia 22-5-2010.

Mas há um problema, aliás há vários problemas. Falta a capela mortuária pois todo o cemitério que se preze tem que ter uma. Ora aquele que foi o Jardim do Príncipe Real não vai voltar a ser jardim mas apenas um cemitério de árvores mortas.

Depois há o saibro que foi colocado no pavimento substituindo o empedrado e o asfalto. Todo esse saibro que já está a sujar os vidros dos automóveis e a entrar na garganta das pessoas, origina o pedido de um gelado. Mas o quiosque local deixa de poder vender gelados porque alguém na CML considera «inestética» a caixa dos ditos mas esquece-se (finge esquecer-se) propositadamente que foi a CML a criar a situação ao substituir o empedrado por saibro – tal como fez no antigo Jardim de São Pedro de Alcântara, hoje miradouro. Já sabemos que o saibro vai produzir pó no Verão e lama no Inverno. Já sabemos que o pintor Nagashima perdeu as que julgava suas árvores e agora anda a pintar nas Escadinhas do Duque. Ele que era privativo do Jardim e que já estava integrado desde 1998. Azar dele. Azar nosso. Azar de todos menos dos fulanos da CML que decidem mas não conhecem nada disto. O poder é mesmo assim. Leva tudo à frente. Actua como uma «quadrilha selvagem». Cria armadilhas às pessoas. Neste caso mata árvores em nome de uma falsa requalificação e proíbe os gelados quando sabe que o pó vai fazer nascer mais vontade de comer gelados às pessoas.

Vinte Linhas 482

Um cometa chamado Sócrates

Passou esta noite (de 18 para 19 de Maio) o centenário do cometa Halley. Tirando a apresentação do livro «Halley – o cometa da República» de Joaquim Fernandes na Livraria Bertrand não dei conta de grandes referências ao facto. Não sei se por ao mesmo tempo o primeiro-ministro estar a falar na TV. O livro (edição Temas e Debates/Círculo de Leitores) foi apresentado por Joaquim Vieira e Rui Agostinho. Para além de alguns aspectos folclóricos (o homem que vendia pastilhas, máscaras de gás e sobretudos para o pessoal não morrer com o pó da cauda) um pormenor aparece em destaque: em Maio de 1910 o cometa anunciava para muitos o fim da Monarquia. Será que o mesmo cometa em 1986 anunciava o fim do Muro de Berlim? Talvez.

Todas as leituras são possíveis para além do conhecimento enciclopédico: «Cometas são corpos celestes que descrevem órbitas parabólicas ou elípticas por vezes enormes, nos quais o Sol ocupa um dos focos; sob a acção da radiação solar, adquirem uma cauda longa e luminosa, dirigido sempre em sentido oposto ao do Sol».

No livro «História de Portugal em datas» (Círculo de Leitores) nota-se que a efeméride foi pouco valorizada da cronologia: em Janeiro surge o Partido Republicano Português a incluir 167 agremiações, em Fevereiro aparece o jornal anarquista O Clarão e em Abril o Congresso do PRP. Depois salta para Junho com a Maçonaria a decidir nomear uma comissão de Resistência para colaborar com a Carbonária – José de Castro, Miguel Bombarda, Machado Santos, Francisco Grandela. Por sua vez os representantes do Directório Republicano na Comissão são Cândido dos Reis e António José de Almeida.

Um livro por semana 183

«Tanta gente em mim» de Vítor Serpa

Vítor Serpa (n.1951) estreou-se na ficção com «Salão Portugal» (2007), contos sobre o Bairro da Ajuda. Este livro parte à procura não do local mas do nacional: «Portugal continua a ser um país de angústias e de problemas adiados».

Em 1975, do encontro entre Elsa e Manuel, nasce Pedro: «Sou filho de uma revolução. Não de um herói.» Em 1962 Constança nasce em Luanda da ligação entre uma professora de História e um empregado de escritório que vai em 1975 para Braga e queima uma sede do PCP: «Rebentei com eles, todos os que lá estavam.» Já Inês é fruto do namoro de Cármen com Paulo nas campanhas de dinamização cultural do MFA de 1975 em Miranda do Douro: «Descubro um país que Lisboa nem supõe, sequer, existir». Na Tunísia Pedro encontra por caso Constança e leva-a para o seu quatro de hotel mas no outro dia acaba acusado e detido perante o desaparecimento dessa colega de excursão. É o pai de Inês, sua namorada informal, que como advogado o vai tentar safar desta situação insólita tanto mais que foi o pai de Constança que matou em Braga o pai de Pedro. Mas ele desconhecia: «O absurdo afinal existe».

Tal como na tragédia «A Castro» há neste romance um triângulo amoroso: Pedro, Inês e Constança. Tal como no filme «Casablanca» Constança sente-se no lugar de Ilsa Lund perante Rick Blaine que é aqui Pedro. Sobeja o marido de Ilsa no filme; sobeja Inês no livro de Vítor Serpa. E fica a moral da história: «Nós somos como as folhas. Vamos para onde o vento manda. A culpa é do vento. Não é nossa.»

(Editora: Dom Quixote, Capa: Rui Garrido, Foto: André Alves)

Calvário / Hospital de Santa Maria

Sobretudo raparigas a caminho

da Faculdade de Letras e do Hospital.

Procuram as caras conhecidas

colegas de turma ou de lar

principalmente em Outubro

quando tudo está no princípio

não há ainda rotinas diárias

e os fins de semana

não são para estudar.

Olham o relógio mas é do trânsito

o maior atraso da sua vida.

Guardam desta confusão

uma relativa harmonia:

eléctricos, autocarros, táxis,

no atropelo ordenado do código

e das regras do trânsito.

Anos depois esquecem tudo

numa terra longe daqui:

darão aulas, irão à noite ao café,

beber uma respeitosa bica

com os maridos e os pequenos filhos.

Nada deixaram neste percurso

Também nada levaram

(São secos manequins).

San Marco

Eu vi os quatro cavalos de Veneza

A boiar mesmo no centro da praça

A água tinha tapado toda a beleza

E trouxe à luz da arcada a desgraça

Eu vi os quatro cavalos tão perdidos

Como a cadeira de praia ou o chapéu

Eles fogem e sentem-se perseguidos

Pelo mar que quase se colou ao céu

Eles vieram à procura de um abrigo

Impossível numa praça já inundada

Na solidão podem contar só consigo

Os turistas fugiram em debandada

Ninguém tocará os sinos da catedral

Neste pânico de fugirem à água alta

Morte em Veneza, aviso de Carnaval

Dias depois só um Sol lhes fará falta

Nazaré Faina

Datado de cinquenta e dois este postal

De quem pergunta pela saúde da avó

Para poder passear tranquila no areal

No fim das férias de quem se sente só

Porque o resto da família pode esperar

Vinte e nove de Agosto era este o dia

Saudades num postal à beira do mar

Com retrato dum trabalho em sintonia

Entre os homens que dirigem animais

E os barcos já na linha de rebentação

O abegão pica as duas vacas desiguais

E comanda com a ponta do aguilhão

Este postal num selo de cinco tostões

Traz notícias duma dor em segredo

Na praia da Nazaré nascem as razões

Para umas férias de angústia e medo

Vinte Linhas 481

Os sonhos andarilhos de Ruslam Botiev

Há um homem que todas as manhãs sacode o sono e afasta do olhar as poeiras fixas dum quotidiano marcado pelas suas cores mais cinzentas e repetidas.

Atravessa o Rio Tejo de comboio numa ponte cujos pilares lhe parecem de luz e não de aço americano.

Traz debaixo do braço os seus sonhos tal como os viu nascer na Mongólia natal. Cada quadro, cada esboço, cada desenho, cada pormenor, por mais discreto que pareça, faz parte integrante de um mundo interior ainda por desvendar.

Que sabemos nós dos sonhos fechados nas malas de todas as viagens deste homem capaz de falar várias línguas e ainda mais a linguagem das cores e das proporções das linhas por entre as cores?

Nunca saberemos. Os sonhos do artista da Mongólia que se fixou no Largo do Carmo em Lisboa permanecem na penumbra da verdade por revelar. O seu sentido e a sua direcção não constam dos passaportes ou outros documentos oficiais. A sua natureza é volátil e frágil como a chuva breve que o sol ardente acabou por secar em poucos minutos no passeio em frente ao Quartel do Carmo.

O motivo à vista deste trabalho é a ponte «25 de Abril» mas Ruslam Botiev faz todos os dias uma ponte maior, unindo em silêncio Portugal e a Mongólia, os seus cavaleiros e os nossos valados nas lezírias e nas charnecas ligando assim a água da Beira Tejo à secura das planícies de Além Tejo. Na sombra do quiosque do Largo do Carmo cabe todo o Mundo de Ruslam Botiev. Bom dia Portugal! Bom dia Ruslam!

Um livro por semana 182

«Cópula e outros poemas notáveis» de Luís Filipe João

Luís Filipe João (n. 1949) publicou em 1981 a primeira edição deste livro que surge agora numa segunda edição aumentada com mais 23 páginas de texto e ilustração.

Entretanto publicou em 1994, 1996 e 1999 mais três títulos: «Chocolate em repouso», «Os revólveres de Schopenhauer» e «Poemas práticos».

Da primeira parte do livro lemos de novo o início do poema «Cópula»:

«Ejaculante seda / encrespada esfíngica pele rutilante de ébano / violando sólido aflito clítoris / o pagem corpo endereçando ionizante / de aragem insuspeita abrupta ruptopénis lento / intumescido afagar de pétalas denteando o seráfico dédalo / alvinescente no deleite escorrendo carícia (…)»

Há na segunda parte do novo livro um outro ritmo, mais sincopado e breve:

«Amanhã mil nervos. / Um cavalo branco ou negro de vento / Me levará para o / Mosteiro do silêncio. / A espada repousará no esquecimento».

Os novos poemas prolongam esse anterior encontro do Homem e da Mulher:

«Somos puros / chove granizo / nos teus dentes. / Os joelhos aceleram / a luz sem regras. / A oração começa nos olhos / da libelinha».

Pode ser uma oração mas esse lugar pode ser o novo nome do poema: «A poesia é o segredo / guardado na estrela / prestes a explodir.»

(Edições MIC, Colecção Salamandra, Desenhos: H. Mourato e Fernando Grade)

Vinte Linhas 480

Vergílio Alberto Vieira – Um livro descoberto por acaso

Numa casa cheia de livros, mesmo numa casa onde desde 1978 todas as semanas entram pacotes de livros, de vez em quando ainda acontece uma surpresa. Descubro por mero acaso um livro de Vergílio Alberto Vieira (n.1950) cujo título é «O Livro dos desejos» e tem data de 1994. Um poeta é sempre o poeta mesmo quando escreve sobre a guerra («Chão de Víboras») ou sobre os desejos. Releio o poema de abertura do livro:

«Abrem-se / como pérolas / à primeira luz do dia / os desejos.

Em sonho / Ganham forma e cor.

E / leves / mil vezes leves / ondulam na transparência azula das águas.

Quem / nesse ferido mar / ainda não ouviu bater um coração?»

O livro foi oferecido à minha filha mais nova então com nove anos. Hoje, 16 anos passados, estou curioso em saber como lerá ela este poema sobre Fernando Pessoa:

«P´ra fingir esquecer / Quem de si tem dó / Meteu-se a beber / E a outros poetas ser / Para não estar só.

Por essa razão / Corria em Lisboa / Que a sua paixão / Fora essa ilusão / De não ser pessoa.»

Um pequeno livro (Editorial Caminho) traz, afinal, dentro das suas 51 páginas todo um mundo de ternura que vim a descobrir de modo inesperado esta manhã.

Vinte Linhas 479

Essa palavra «rebotalho» nunca está em desuso

A propósito de um palermazão que apareceu aqui no «post» sobre a Costa Nova utilizei a palavra «rebotalho» quando me dirigia à Sinhã. Vale a pena ver o contexto da palavra no dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa. Começa por referir o uso mais comum da palavra quando usada num estabelecimento comercial: «rebotalho – restos inúteis, cigalho, coisa sem valor, refugo». Segue-se um segundo sentido: «rebotalho – pessoa sem merecimento pessoal, sem categoria social». Por fim o ponto alto: «rebotalho humano – conjunto de pessoas sem valor mental ou moral, pobres, miseráveis, desprezíveis sob vários aspectos». Existe também um adjectivo: «rebotalhado – atrasado, inferior, de menor valor».

O palermazão do «post» sobre a Costa Nova faz parte do rebotalho humano de que fala o Dicionário coordenado por José Pedro Machado. Não é o facto de ser utilizador da Internet que o faz menos pobre, menos desprezível, menos miserável. A chamada democraticidade do meio não lhe dá o direito de vir para aqui espojar-se da sua burrice. A bosta que ele tentou atirar para nós não saiu da sua massa encefálica nem vai sair nos tempos mais próximos.

Basta ver filmes dos anos 40 para perceber como a palavra «pastora» no sentido de «pasta» ou «dinheiro» surge na fala dos actores. Hoje ninguém se lembra mas há 60 andava pelo Parque Mayer e era muito popular porque os dos autores do Parque eram argumentistas dos filmes. Mas «rebotalho» não vai passar de moda porque há sempre mais um palermazão que aparece a coberto da democracia da Internet.

A varanda de Pilatos

(o caso very-light 14 anos depois)

Vinha Rui Mendes em festa

Num bilhete que ele trazia

Uma gente que não presta

Deu-lhe a morte nesse dia

A varanda de Pilatos

É na Praça da Alegria

Visto isso mais os actos

Ninguém faz da noite dia

Ninguém faz a obrigação

Todos fogem dos sarilhos

Há que saber dar a mão

Às mãos frias dos filhos

Ninguém faz o seu dever

Ninguém segue o preceito

As lágrimas duma mulher

Não cabem dentro do peito

Por duas vezes negada

A razão de uma sentença

Eles fingem que não é nada

E dormem na indiferença

Fizeram os jogadores

Das camisolas um leilão

Vieram logo os doutores

À procura duma posição

Como se esta simpatia

Trazida pelos jogadores

Tivesse nascido um dia

Na cabeça dos doutores

Rui já morreu três vezes

Não é uma ideia confusa

Uma viram os portugueses

As outras em cada recusa

Nenhum dinheiro fazia

Um preço da sua vida

Mas na Praça da Alegria

O Zero é regra e medida

E assinam os contratos

No meio duma euforia

A varanda de Pilatos

É na Praça da Alegria

Um livro por semana 181

«Instrumentos de Sopro» de Ruy Ventura

Ruy Ventura (n. 1973) estreou-se em 2000 com «Arquitectura do Silêncio» (Prémio Revelação da APE) e tem neste recente «Instrumentos de Sopro» o seu sétimo título como poeta. Não se trata aqui de instrumentos musicais (trompete, trompa, cornetim, trombone, saxofone, órgão, acordeão ou harmónica) mas de memórias e reflexões sopradas ao poeta por monumentos, esculturas, pinturas, moedas, estelas funerárias ou ruínas. Um exemplo: na rua de São Julião em Lisboa uma igreja foi transformada em garagem de um Banco. No altar surgiu o deus Mamon em vez do Rei dos Reis e esta é a resposta do poema:

«a vizinhança não poderia consentir tal afronta / (apesar do incêndio, a vida ressuscitara / entre velas, mármores e frontais) / era preciso consumir de novo / a brancura do corpo / deixando apenas os ossos / e uma pele brilhante / mas ressequida».

«a incandescência das vozes / foi devorada pela incandescência dos motores. no trono / Mamon reina agora / sobre a falsidade da fachada».

«noutro lado – taberna, quarto / de cama, teatro ou sala de jantar. / mudaria o diálogo / mas não mudaria o povoamento».

«aqui, Mamon escarra nas paredes. / poderia ser de outro modo? / o dinheiro suja o olhare sem mistério».

(Edições Sempre em Pé, Capa: Nuno de Matos Duarte, Prefácio: C. Ronald)

Balada da Costa Nova para C. S.

Há no olhar de Clarinha

A paleta em dimensão

Na Costa Nova vizinha

Todas as cores do Verão

Entre o azul deste lado

E na praia areia trazida

Entre vermelho pintado

Todo o cinzento da vida

Depois verde esperança

Amarelos e castanhos

Numa rua que não cansa

Casas de vários tamanhos

Costa Nova, Arte Nova

Catálogo de cores diversas

Cada casa é uma prova

De várias artes dispersas

Da praia do Furadouro

Até ao Poço da Cruz

As areias são de ouro

E as algas são de luz

Moliço que enche a ria

Como o sal desta salina

Dá trabalho todo o dia

Aos olhos desta menina

Balada da Rua de Baixo

Rua de Baixo, meu mundo

Onde eu regresso cansado

Quando o olhar é profundo

Já andou por todo o lado

São casas sem ninguém

De famílias desligadas

Não se ouve a voz da mãe

Na névoa das madrugadas

Meu berço e minha escola

Minha casa e minha igreja

O amor não pede esmola

Nas esquinas da inveja

Minha paisagem saudosa

Povoada por destroços

Duma sede mais gasosa

Que a água destes poços

Filarmónica formada

Manhã cheia de brancura

Há festa não tarda nada

Na rua desta amargura

Sete ondas repetidas

São sete beijos do mar

Na areia das nossas vidas

Já só podemos cantar

Pode-se cantar um fado

Feito só de melodia

Um homem fica calado

Ao ver a fotografia

Minha rua inicial

A vida, anos primeiros

Onde passou triunfal

A paixão dos baleeiros

Vinte Linhas 478

A festa de despedida de Iordanov

Ele terá sido o mais português dos búlgaros que passaram pelo futebol português. Ontem à noite também lá estive em Alvalade para a festa de despedida. Foi engraçado ver algumas «barriguitas» de jogadores que ainda sabem colocar a bola a 40 metros quando é preciso. Viram-se golos para todos os gostos – até um auto-golo de André Cruz, coisa rara num predestinado, ele que foi o melhor jogador do Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Seoul em 1988. Não sei porquê (não li jornais) a verdade é que não vi em campo o Balakov, o responsável pelo único atrito que envolveu o Iordanov. Muita gente lá dentro do Sporting achava (e com razão) que Balakov prejudicou muito o Juskowiak, ignorando-o muitas vezes para passar a bola ao seu compatriota Iordanov.

Ora o Juskowiak tinha sido apenas o melhor jogador do Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. Mas tinha o azar de ser polaco, André de seu nome próprio, coisa que o prejudicava grandemente perante Balakov, o maestro que eu vi estrear-se num jogo da Taça de Portugal contra o Desportivo de Peniche.

Foi uma festa cheia de nostalgia. A festa em si só aconteceu porque um Tribunal deu razão ao jogador. Por vontade dos «responsáveis» leoninos a festa não teria acontecido. Mesmo estando prevista no contrato celebrado entre as duas partes. Depois foi a questão dos ausentes: pelo Balakov lembrei-me do Juskowiak, o elegante jogador que foi prejudicado pela aliança entre búlgaros. Na altura ninguém se chegou à frente para defender os interesses do Sporting. Um dia Sousa Cintra desabafou para mim e para Carlos Pinhão – «o Sporting não é uma família, é um grupo de famílias…»

Vinte Linhas 477

Dissertação breve para as vozes de Isabel e de Clara

Há, na tonalidade da voz de Isabel, o esplendor da pedra, a humidade das neblinas e a força da Terra-Mãe que multiplica nas colheitas abundantes toda a esperança das sementeiras. No arraial da aldeia da Serra havia todas as coisas da terra e todos os produtos da mão do homem: pão e cestos de vime, compotas e vasos de jovens plantas, feijão e tapetes tecidos à noite num tear, batatas e bolos caseiros para dias de festa.

Ligando tudo e todos, a voz de Isabel prolonga a harmonia das terras e dos homens na manhã de Maio. Canta devagar como quem reza uma oração a ligar de novo o que o tempo, a distância e a morte separaram no coração de todos nós.

Há, na tonalidade da voz de Clara, o clamor das ondas na praia e a paciência vagarosa do vento nas dunas. Depois do prazer de palmilhar as cores vivas e a geometria das casas da Costa Nova, bebemos um café no autocarro-bar. Em vez do cobrador um empregado traz os cafés e a conta. Entre os estudantes com o futuro no olhar e as visitas resignadas à doença que se prolonga no Hospital todas as semanas, a voz de Clara instala um discurso de ternura. Nele circulam memórias vivas de poemas e de canções, casas clandestinas onde vinham dormir amigos de passagem, vidas cruzadas com gente que não morre porque não se esquece no coração de todos nós.

Na geografia sentimental deste dia é dupla a ligação entre Manhouce e Aveiro, entre a voz de Isabel e a voz de Clara: além da massa líquida do Rio Vouga permanece a massa sonora da voz de José Afonso que nasceu em Aveiro, andou pelo Mundo e sempre cantou as canções da voz do Povo das aldeias da Beira Alta.

Segundo poema para Manuel Fernandes (1986)

Não lhe podem já tirar tudo

Mas escondem-lhe o nome, os golos

As vozes de quem, nas humildes casas

Lhe grita o nome à volta do som dum rádio

Nas tardes interrompidas dum quotidiano igual.

Não são homens – são sombras, escondem o rosto

Furtivos, fechados nos gabinetes, nos automóveis

Roubam os sonhos, decretam a morte civil

Dum jogador assim perseguido sem porquê.

Não lhe podem já tirar tudo

Ao menos ficam os troféus oficiais, as recordações

As homenagens mais particulares

As fotografias dos jornais e os abraços

Dos companheiros a correr do outro lado do campo.

Não são homens – são sinais dum castigo

Que se perde no fundo do tempo, longe

Lá onde começou a primeira de todas as guerras

Lá onde tábuas de morte se pregaram num coração.

Equipa de Juniores (área de serviço da auto-estrada)

Minuciosa caravana atrás de nós

Seguindo todos os pontos da viagem

A prova de que nunca estamos sós

Até na área de serviço, na paragem

Minuciosa caravana pela estrada fora

Paternal feminina permanente ansiosa

Nossos passos vigiados a toda a hora

Entre a manhã fria e a tarde chuvosa

Procuram bolos e água suja americana

Na pressa de matar toda a sede reunida

A sua força está em viver uma semana

Como se nela estivesse toda a sua vida

Todos quererão jogar no Barcelona

Todos querem seguir os mais velhos

Nem todos porém acabam a Maratona

Nem todos saberão ouvir conselhos

O autocarro é um grande berçário

Não deixaram ainda de ser crianças

Passam tempo a discutir o calendário

Juntam na voz todas as esperanças

Nós não estamos sós nestes caminhos

Nesta tarde que termina em trovoada

Sentimos o combustível dos carinhos

A empurrar o autocarro pela estrada

O segredo de Ourozinho

O segredo de Ourozinho

Está na luz do teu olhar

Que trouxe pó do caminho

Ao asfalto deste lugar

Nela veio a terra trazida

Batata, milho e centeio

As origens de uma vida

Onde não cabe o receio

Onde o futuro sonhado

Infância em pensamento

Não é o comboio lotado

Nem cidade de cimento

Na festa do padroeiro

Coração em pé de guerra

Santiago é o verdadeiro

Vértice entre rio e serra

Monumento ao emigrante

Pedra feita num abraço

Nossa vida é um instante

O caminho é só um passo

Na tua voz tão devagar

No seu timbre de metal

Chega o som do lagar

Com o azeite sem igual

No sabor destas castanhas

Vinho doce do teu Mundo

Vem o frio das montanhas

E o calor forte e profundo

E já noutra sonoridade

Mais alta que um moinho

A roda chega á cidade

No segredo de Ourozinho

Vinte Linhas 476

Angústias – «aqui na América estes bichos não têm cedilhas nas máquinas de escrever»

A imagem a ilustrar o poema «Balda nocturna para Eduardina» era um bilhete-postal de 1910 com a igreja paroquial das Angústias, cidade da Horta. É óbvio que poderia ter escolhido outra imagem da Horta – a mais bela pequena cidade do Mundo, nas palavras do poeta Pedro da Silveira. Em 1968 conheci Isidro Espínola, meu colega de trabalho que pedia sempre emprestado o jornal A BOLA para ler as gordas alegando que o jornal não trazia os jogos do seu Clube, o Angústias. Mais tarde recebemos da Califórnia cartas dele com a particularidade de as cedilhas serem «vírgulas» batidas em cima dos «cês». Como ele escrevia «aqui na América estes bichos não têm cedilhas nas máquinas de escrever». Anos depois, numa digressão do Benfica à West Coast, Isidro Espínola apareceu como o salvador das malas perdidas dos encarnados. Sendo proprietário de uma agência de viagens, ao ver os compatriotas enrascados, encheu-se de brios, procurou, procurou e acabou por encontrar as malas da comitiva do SLB. Alfredo Farinha, nas páginas de A BOLA, lembrando o sportinguismo de sempre e para sempre do Espínola, sublinhou a contradição: foi um leão que alugou uma pick up de caixa aberta para trazer as malas perdidas das águias entre aplausos dos elementos da comitiva. Por causa desta história procurei saber mais sobre o Angústias e tenho a fotobiografia do Clube, um trabalho de Carlos Lobão. Aí descobri que um clube de futebol pode ser (e é) muito mais do que uma sede, uma bandeira, um campo e um emblema. Pode ser, como nesta foto, orgulho da freguesia, seus residentes e seus emigrantes – que partiram mas ficaram com o coração preso às cores do Angústias.