Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

André Cruz (em 2000)

Festejo um golo finalmente conseguido

Na convergência da força e da precisão

Há quem se lembre do jogo transmitido

Jogos de Seul em directo pela televisão

Nessa altura eu era um jovem jogador

Numa equipa brasileira de alta nota

Perdemos essa final entre um clamor

Porque foi tão injusta a nossa derrota

O golo nasce sempre de um instante

De luz, de falta de erro, de pontaria

Neste caso acabou por ser importante

Abrir as portas deste estádio à alegria

Pela cidade até parecia um casamento

Nas buzinas bem fortes das viaturas

Estou feliz porque criei esse momento

Foi o intervalo feliz entre amarguras

Vinte Linhas 503

Elegia para um retrato de turma em Outubro de 1961

A Escola Técnica de Vila Franca de Xira estava sempre em obras. O professor chamava-se talvez Eurico. Desapareceu mas não se podia falar no assunto porque, diziam, «quem falar vai para a ilha do sumiço». Da primeira fila recordo com nitidez três figuras: o Mário Tui, um rapaz que era do CASI e o Zé António que passava o tempo a falar de Roterdão onde se ganhava bom dinheiro e o trabalho era simples – pôr carimbos nas sacas de café. Na segunda fila o primeiro morto, o Rosa, Sei que fomos de comboio para Alhandra e depois a pé para o cemitério de São João dos Montes. Levei um fato de Verão e apanhei muito frio. Depois está o Manuel Moreira, o Eliziário, o Zé Afonso, o Modesto e o Abreu. Na terceira fila está o Félix, o Zé Bolota, o Vidaúl e o Picanço. Ao todo 27 alunos e um professor, são passados quase 50 anos e não me lembro do nome de todos os rostos. Há outras memórias: os pais do Zé António tinham um café, o Rosa morreu, o pai do Modesto tinha um conjunto musical, o Vidaúl vinha de Povos e disse uma vez na aula de Trabalhos Manuais «prefiro ser castigado a denunciar um colega». O Manuel Moreira sabia uma quadra: «Vila Franca, rosa branca / diz a canção popular / tens uma escola velhinha / onde eu ando a estudar». O José Afonso era de A-dos-Loucos. A mãe do Zé Bolota vendia na praça e era muito simpática. Um polícia novo multou o cigano em 80$50 mas foi por engano; era nosso vizinho. O meu pai guardava a camioneta ao lado das carroças da Câmara, o porteiro era o Tio Pecas, pai do Mário Coelho, grande artista da Festa Brava. O nosso jornal chamava-se Velas do Tejo. Ainda lá estará na parede? Quem se lembra?

Vinte Linhas 502

Segunda dissertação para Marieta sobre a foto de 1966

Todos dizem que se lembram mas só alguns recordam. Lembrar não é recordar. Nesse dia nenhuma das oito raparigas tinha a bata vestida. O baile de finalistas estava perto e havia no ar um misto de alegria convocada e amargura em pré-anúncio. Um dos colegas da turma era do Bairro da Mata, tinha acabado de dar o nome e o serviço militar estava próximo. Eu tinha 15 anos mas o problema da guerra colonial para mim já existia. Os primeiros caixões tinham começado a chegar á minha terra natal.

Na tua voz, Marieta, havia a frescura das Águas Férreas e o timbre do vento no Senhor da Boa Morte. Eras sempre a primeira a rasgar o marasmo. Quem sabe se a iniciativa desta fotografia não terá sido tua, juntando na «foto à la minuta» o que a nossa Escola separava fazendo entrar as raparigas pela porta principal e os rapazes pelas traseiras, do lado do CASI. Lembras-te, Marieta, quando puseste a música da Rita Pavone no aniversário da Dra. Gabriela? Se fosse hoje escolherias outras músicas, talvez Ennio Morricone e por exemplo «La resa dei conti», «Addio colonello», «Marcetta» ou «Il vizio di Uccidere». Lembras-te do senhor Nicolau que estava sempre disponível para se deixar fotografar quando não havia professores ali perto? À noite servia à mesa do Zé dos Frangos. Lembras-te do senhor Moreira que dispensava a gente da Mocidade Portuguesa, era só pedir? Lembras-te, Marieta, do último café que bebemos no Bossa Nova, perto do teu primeiro emprego? Lembras-te dos penteados das meninas no baile de finalistas nuns armazéns de trigo? Nada mudou, Marieta, nada mudou, talvez apenas tenham mudado os preços do café no Bossa Nova.

Vinte Linhas 501

Os fotógrafos de Estaline não desistem

Por fotógrafo de Estaline tomo eu todos os que, de maneira mais hábil ou mais canhestra, procuram reescrever a História, apagando, tal como fizeram os fotógrafos de Estaline, os rostos dos que estiveram ao lado dele a saudar o povo na varanda do palácio do Governo dos Sovietes. Ainda agora nos funerais de José Saramago apareceram locutores a dizer «à janela da Câmara Municipal de Lisboa a mulher e a filha do Nobel» quando a mulher (terceira) nada tem a ver com a filha (da primeira), isto para além de terem rasurado por completo a segunda – Isabel da Nóbrega.

Um processo parecido aconteceu com José Afonso cuja fotobiografia publicada pelo Círculo de Leitores (trabalho de Irene Pimentel e coordenação de Joaquim Vieira) revela o que para muitos leitores é uma história escondida. Ou seja – José Afonso viveu em Coimbra, lá casou com uma jovem de nome Amália e lá foi pai de dois filhos no mesmo ano, um em Janeiro outro em Dezembro. Um vive em França, outra na Caldas da Rainha. Joaquim Vieira está a preparar um trabalho para a RTP e de novo se defrontou com essa tentativa de apagamento de um tempo de vida na vida do inesquecível Zeca Afonso. Outro dia revoltei-me com uma coisa parecida em Vila Franca de Xira. No largo Carlos Pato, militante anti-fascista morto pela PIDE em 26-6-1950, membro do PCP e irmão de Octávio Pato, alguém colocou uma indicação de estradas (Arruda dos Vinhos, Torres Vedras) tapando ostensivamente a placa de toponímia com o seu nome. Cada um à sua maneira todos estes pobres aprendizes não desistem e lá vão teimando na senda dos fotógrafos de Estaline.

Vinte Linhas 500

Dissertação para Marieta sobre uma fotografia de 1966

Ouvi dizer que a Edite morreu mas não pode ser verdade. Nós somos onze e nunca saíamos dessa fotografia tirada entre o coreto e o limite do Jardim. O grupo é formado por três rapazes e oito raparigas. Estou atrás de ti e ao lado do Arnaldo e do Paplicas. Das meninas recordo os rostos mas não todos os nomes. Da direita para a esquerda: irmã do Paplicas, a Fátima Passos, a Edite, a Guilhermina, a Marieta, a Rosa (?), a Salomé e a Ângela. Ao fundo, atrás de mim, um barco areeiro, Gil Conde de seu nome que ainda lá está. Duas das raparigas moram no Bairro do Bom Retiro como eu: a filha da Maria Passos e a Guilhermina da papelaria. Os alunos do Colégio Sousa Martins iam lá comprar pastilhas elásticas. O pai dela tinha uma paciência infinita. Às vezes aparecia o Costa Pereira do Benfica que vinha buscar a sobrinha Elisabeth França. Misturava sempre um ovo no copo da cerveja para espanto de todos nós. As torneiras das casas do Bairro ainda não tinham água e vinha um carro da Câmara para as pessoas encherem as bilhas. Estes três rapazes e estas oito raparigas nunca saíram desta fotografia. As suas aulas eram dispersas pelo Matadouro e pelos Combatentes, os trabalhos manuais erma no barracão ao lado do Tribunal. Recordo os professores Amadeu Lopes Sabino, Maria Branco, Maria Elisa e Terêncio Anahory. O primeiro é hoje um escritor conhecido, o último usou pela primeira vez em 1962 a expressão «caminho longe». As duas professoras ensinaram-me tudo o que eu sei de inglês e de francês. Eles e elas estão ao lado da fotografia mas sempre dentro da memória dessa fotografia. Nós nunca vamos sair dessa fotografia de 1966 a preto e branco. Sim, Marieta, nunca vamos sair.

Um livro por semana 191

«Contos de Shakespeare» de Charles & Mary Lamb

Os irmãos Charles Lamb (n.1773) e Mary Lamb (n. 1763) foram convidados em 1807 a colaborar na Juvenile Library com a transcrição das obras de Shakespeare de teatro para conto. Charles trabalhou nas tragédias e Mary nas comédias. Os 20 contos («Tales from Shakespeare») foram a sua consagração literária com aceitação crítica e sucessivas edições. «Romeu e Julieta» começa por referir as desavenças entre as famílias Capuleto e Montague e a ceia dada pelo velho Capuleto quando Romeu (mascarado) vem a conhecer Julieta. Convidamos à leitura com a transcrição dum excerto: «As más noticias voam sempre mais céleres que as boas. Romeu soube em Mântua do lutuoso acontecimento, antes da chegada do mensageiro enviado por Frei Lourenço para o informar de que aqueles funerais eram fingidos, apenas a sombra e a aparência da morte e que a sua querida esposa jazia no túmulo apenas um curto lapso, à espera de que Romeu a viesse libertar daquela fúnebre mansão». Mais à frente, surge a moral da história: «Frei Lourenço referiu a história do fatal amor dos dois inditosos jovens. Explicou que Romeu, ali morto, era marido de Julieta e Julieta, ali morta, a fiel esposa de Romeu. Finalmente o príncipe de Verona, voltando-se para os velhos senhores Montague e Capuleto, increpou-os pelas suas rixas absurdas e brutais e mostrou-lhes como Deus se servira do amor de seus filhos para os punir pelo seu ódio desnaturado».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Tradução: Januário Leite)

A um lápis do Museu Abílio em V. F. Xira

Faço a lápis a primeira agricultura

Mais tarde com colheita no ecran

Perto da terra mais fria e mais pura

A sementeira dura toda a manhã

Lápis antigo sempre na velha mala

Das aulas a correr sítios diferentes

Caído muita vez no soalho da sala

Entre Matadouro e Combatentes

Faço a lápis a primeira agricultura

Do poema semeado numa mesa

Com sangue pisado e com amargura

Segue o lápis a caminho da certeza

Que é saber que este lápis continua

Nos cadernos da memória anterior

Traz ao meu candeeiro a luz da lua

Cria no grande caos um novo amor

Vinte Linhas 499

Câmara de V. F. Xira ou Estradas de Portugal não podem tapar uma memória

Faz hoje 26-6-2010 sessenta anos que Carlos Pato morreu em Caxias vítima do desgaste de muitas horas de «estátua». Tendo nascido em São João dos Montes em 21-12-1920, aderiu ao PCP em 1937, foi atleta e dirigente desportivo, foi empregado do Banco Nacional Ultramarino e desenvolveu larga actividade política e associativa tendo chegado a presidente do Ateneu Artístico Vila-franquense de 1945 a 1949.

A sua morte pela PIDE nada teve de acidental pois tratou-se de um homicídio preparado ao longo de 13 meses de prisão, passou por largas dezenas de horas de «estátua» e concluiu-se com a recusa de lhe ser prestado qualquer tratamento médico.

Na sua morte Carlos de Oliveira escreveu: «Mais vivo porque sofreste / a morte não veio, foi-se / A eternidade constrói-se / na beleza com que viveste». José Gomes Ferreira, por sua vez, escreveu: «Volta-te e olha para a terra / – a carne da tua sombra / de flores acesa. / Céu para quê? / O céu é para os que esperam / E tu morreste por uma certeza!» Já Sidónio Muralha tinha escrito: «Largos versos irrompem do teu silêncio de granito / e tu vives inteiro em cada grito / tu que foste maior que todas as poesia».

A homenagem da família e dos muitos amigos realizou-se no Clube Vila-franquense tendo a Comissão Concelhia do PCP promovido uma romagem ao cemitério para colocação da coroa de flores no jazigo onde repousam seus restos mortais. Foi guardado um minuto de silêncio seguido por uma calorosa salva de palmas. Antes de regressar a Lisboa passei pelo Largo Carlos Pato e fiquei revoltado com a Câmara por autorizar placas indicativas (Arruda, Torres Vedras) que tapam o seu nome e a sua memória.

Arco de pedra

Ao terceiro arco de pedra o teu olhar

É um volume nas estantes da livraria

Livro por abrir a tua idade é um lugar

A convocar um clarim que te anuncia

Aos trinta e sete anos a idade só existe

Para quem vive de costas para os dias

O teu tempo não é um relógio triste

A marcar uma sucessão de nostalgias

O tempo é o teu olhar, o teu sorriso

Que dá títulos a livros numa estante

O tempo é o teu perfil, belo e preciso

Definido pelo teu olhar de viajante

Viagens sem sair do mesmo espaço

Livraria que é também para navegar

Ao fim do dia não mostras o cansaço

Cada livro recebe a luz do teu olhar

Vinte Linhas 498

De Almeida Garrett a José Saramago – a maldição da «gralha»

Na página 19 do livro «Viagens na minha terra» de Almeida Garrett, a propósito de se saber já nesse tempo romântico que cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis, surge a seguinte pergunta:

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico».

Na página entre as dedicatórias e o arranque do livro «Levantado do chão» de José Saramago com a célebre frase «O que mais há na terra, é paisagem», surge a transcrição desta pergunta de Almeida Garrett mas com um problema que se verifica desde a primeira edição: em vez de «condenar à infâmia» aparece «condenar à infância».

O livro já passou por tantas mãos, tem edições na Editorial Caminho e no Círculo de Leitores e acabo de ver na Livraria Sá da Costa uma edição especial e comemorativa a cargo de José Cruz Santos com trabalhos gráficos qualificados de Armando Alves e nem assim a maldita gralha foi atirada ao chão. Lá continua indiferente a tudo e a todos, ao arrepio do que Almeida Garrett disse por escrito e por extenso e daquilo que José Saramago quis tomar e transcrever de Almeida Garrett como exemplar para o seu «Levantado do chão».

«Infância» não é «infâmia» mas a frase de Almeida Garrett no livro de Saramago ainda não foi emendada tantas edições passadas desde a primeira datada de 1980.

Um livro por semana 190

«2009 Elogios» de Joaquim António Emídio

Joaquim António Emídio (n.1955) que publica desde 1983 retoma neste seu 12º título de poesia o tema do Amor:
«O meu primeiro amor está a nascer / mais uma vez e é o maior amor da minha vida / o meu amor é sem futuro e não tem fim / por isso eu amo para não morrer / enforcado nos braços / de cada mulher que me prende pelo pescoço».
Na escrita de JAE o Amor é, não só um trajecto pessoal mas também a ligação entre a Natureza e a Cultura:
«ando a reler os meus poetas preferidos / rui belo jorge de sena antónio ramos rosa sophia de mello breynner josé maria fonolhosa / pierre louys pablo neruda/ e a redescobrir lugares da infância / à beira do tejo o rio / para onde corre a água / de todas as nascentes / depois de tanto aprender por estreitos / caminhos à beira das estradas».
Há nesta poesia uma dupla inscrição: de um lado a Geografia («Hoje o sol nasceu às seis da manhã»); do outro lado a Arte: «recuso-me a escrever versos / sobre as noites de inverno».
Mas sempre lúcida e fixa na adversativa perante a chamada «vida literária»:
«Leio um prefácio / um poema com dedicatória / um excerto de uma crítica perfumada / uma contracapa azul de elogios / por último dou uma vista de olhos / nas badanas do livro onde se conta / uma certa vidinha literária / e não consta a idade do poeta».

(Editora: Terra Branca, Capa: Pierre Auguste Renoir)

Vinte Linhas 497

Fernando Venâncio – «A luz e o sombreado» em José Saramago

Julgo ser oportuno recordar este livro de Fernando Venâncio (n. 1944) pois as suas 129 páginas abordam alguns aspectos importantes na obra do Prémio Nobel 1998. Por exemplo, em «Ensaio sobre a Cegueira» F.V. detecta inúmeros castelhanismos:

«Não insistamos nos muitos giros do tipo «não há outro remédio que arriscar», nos abundantes «deve de ser», nos inumeráveis «uns quantos», nos monótonos conjuntivos onde nós poríamos um infinito pessoal, nas frequentes inversões verbo-sujeito, hipérbato que conhecemos mas em que o castelhano refine e que, por vezes, nos obscurece a frase. Grave, grave, é a construção estrangeira, o léxico poluente. Sem castelhano fica-se sem saber o que é «chamar o ministério» ou «um leve roce» ou «tomar terra» ou «os urgidos. E depois um português não diz «a estas alturas» mas «nesta altura». Não diz «a gente do comum» mas «a gente comum». Não diz «pronto» querendo dizer «logo». Não diz «logo» se quer dizer «em seguida». Não diz «distintos» se quer dizer «diferentes» ou «vários». Não diz «em algum caso» querendo dizer «num dos casos». Não diz «à vista» querendo dizer «à primeira vista». Não diz repetidamente «os demais» quando também pode dizer «os outros».

Terá o seu charme dizer «o gracejo levava muitos anos de uso» ou «a saber quem é que manda aqui». Mas convinha não escrever «estão fabricados de materiais combustíveis» ou «a porta buscada estava fechada» ou «não seja que haja por aqui mais vidros» ou «o último que vi foi nas minhas mãos».

Conclui F.V. com razão: «Hoje temos um língua que dispensa o ouro alheio».

Vinte Linhas 496

«A noite e o riso» ou «O omãi qe dava pulus»

O Nuno Bragança de «A noite e o riso» escreve entre Azeitão e Belgrado mas é Lisboa cidade que fica no retrato. Sai de casa («esse armazém de peidos») e faz da cidade casa: Lapa, Madragoa, Santos o Velho, Rossio, Restauradores, Cais das Colunas, Cais do Sodré, Mouraria, Rua da Palma, Aeroporto, Cabo Ruivo, Graça, Av. 24 de Julho, Rua Nova da Trindade, Rua de São Paulo. Cria até um advérbio de modo: campo-de-ouriquemente. Depois faz dos amigos, família: Sancho, Simão Cara de Cão, Gaspar, Tomás, Luísa, Júlio Rato, Zana. Vai buscar o título do livro a um poema de Cesariny, invoca Miguel Torga e repete Cristovam Pavia: «Só há saída pelo fundo».

Porém «A noite e o riso» não é só geografia, memória e paisagem; é também povoamento de palavras e expressões de Lisboa: «Eu queria quinze paus porque queria moedas!» diz a Luísa. «Ó ai ó linda, adeus ó virgem, vivó Benfica e mais quem usa do briol!» grita-se no meio do livro. No meio da noite alguém interpela um dos heróis da narrativa: «Tira a mão que o sabão está caro!» Depois de uma cena de pancada com marujos estrangeiros, surge o aviso: «Você diga no Hospital que não viu nada!» No encontro entre Sílvio e a rapariga (futura Luísa) o autor derrama ternura: «O Sílvio é mais novo do que a rapariga: têm a mesma idade.» Porque se trata, obviamente, de ternura e de amor. Depois de ouvir dizer em casa que «um homem que passa a vida a ler só serve para se desonrar, a si e aos seus» o autor vem para a rua porque quer «abrir os olhos à dor e à alegria» e, mais tarde, enfim descobrir: «Toda a hostilidade que há no mundo contra a Arte é contra o Amor».

Um livro por semana 189

«Aprendiz de Homero» de Nélida Piñon

Prémio Literário Casa de las Américas Cuba 2010, este livro reúne 24 ensaios. A autora começa por se afirmar aprendiza («Há anos converso com Homero») e, de seguida, saúda os seus mestres: «Acolho no coração os que me infiltraram com a descrença indispensável para ter fé. Aos aedos, aos amautas, aos xamãs, a Homero, a Cervantes, a Shakespeare, a Camões, a Machado de Assis. Aos seres da ilusão e da oralidade. Eu os cultuo e eles me devem a imortalidade. Todos os mortos estão em débito com a minha espécie que enaltece o engenho humano e acredita ser a arte voraz quando retrata esta nossa substância corpórea que tritura e sonha ao mesmo tempo».

Não dissertando só sobre o Mundo, acaba por falar de si: «Não sei ser outra coisa que escritora. Já pelas manhãs, enquanto crio, apalpo emoções benfazejas, sentimentos instáveis, a substância sob o abrigo do sinistro e da esperança. Tudo o que a realidade abusiva refuta. É mister, contudo, combater os expurgos estéticos para narrar a histórias jamais contada.» Entre a Autora e o Mundo, fica a Literatura: «A literatura brota de todos os homens, de todas as épocas. Sua ambígua natureza determina que os escritores integrem uma raça fadada a exceder-se. Seus membros, como uma seita, vivem na franja e no âmago da realidade, que constrange e ilumina ao mesmo tempo. E sem a qual a criação fenece. A arte dos escritores arregimenta a sucata e o sublime, o que se oxida em meio aos horrores, o que se regenera sob o impulso dos suspiros de amor». Este livro fascinante pode ser uma História Universal, não das Guerras e dos Países mas do Amor e da Memória: «O meu reportório é composto de memórias do mundo».

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: ARD-COR Lda.)

Vinte Linhas 495

A minha memória de Saramago

José Saramago é um «caso» típico em que o autor e o indivíduo sendo a mesma pessoa se separam e tomam caminhos opostos. O autor conquista a pulso um público cada vez mais numeroso; o indivíduo vai perdendo passo a passo muitos amigos e admiradores. O seu livro mais importante para mim foi «Levantado do Chão». Escrito para homenagear José Adelino dos Santos e Germano Vidigal, dois militantes do PCP assassinados pela PIDE na GNR de Montemor-o-Novo, o livro nasceu em casa de João Basuga onde José Saramago viveu perto de 6 meses, ouvindo com atenção e tomando notas das histórias das gentes do Lavre. Menino da Penha de França (Rua Carlos Ribeiro), filho de um subchefe da PSP e de uma doméstica, agradeceu as histórias contadas na dedicatória com os 16 nomes dos homens e mulheres do Lavre. Como no evangelho mas agora no evangelho da Terra, aqui os mortos vão ter uma ressurreição e estar de novo com os vivos no dia levantado e principal – o 25 de Abril de 1974.

Do ponto de partida («O que mais há na terra, é paisagem») ao ponto de chegada («Este sol é de justiça») o livro passa por dentro dos homens e dos dias: «Todos os dias são iguais e nenhum se parece») e prova que, tal como nos outros evangelhos, a morte pode ser salva e resgatada. E a vida triunfar, tal como a alegria, a justiça, a luz, a paz, a lucidez, a virtude e a bondade de intenções. Aqueles homens que andam de noite de bicicleta de «monte» em «monte», a avisar os companheiros, sem luz no volante, continuam na nossa vida. Tal como continuam os 16 da dedicatória entretanto apagada na primeira página das edições recentes do seu livro «Levantado do Chão».

Fala de Carlos Pato a Alves Redol 60 anos depois

Não morri. Sei que vai sair um pequeno livro

com os meus três contos por si guardados.

Em Vila Franca pouca gente sabe do assunto

mas em breve esse livro de contos vai esgotar.

Continuo nas histórias breves que escrevi

e no seu pequeno prefácio onde me recorda.

Sou o Bairro, sou a Charneca, sou a Lezíria

e os sonhos dos meus dois filhos por sonhar.

Não morri. Continuo no olhar dos meus filhos

Clara bebé e João Carlos que não cheguei a ver.

No olhar e nos sonhos por mim transmitidos

entre o rio de Santa Sofia e o Largo do Serrado.

Ainda hoje, tantos anos depois, sobeja azeite

no aroma intenso que se espalha pelas ruas.

Vem das várias carroças, das raras camionetas

das ceiras onde as azeitonas foram prensadas.

Não morri. Aprendeu comigo a ler e a escrever

o chauffeur de praça que levou Clara a Peniche.

Meu irmão Octávio tinha então visitas breves

e a viagem era tão longa por estradas velhas.

Não queria já receber o dinheiro esse rapaz

mas Clara insistiu sempre pelo pagamento.

Também lhe ensinei à noite a não misturar

os seus deveres e as influências sentimentais.

Não morri. No Bairro, na Charneca e na Lezíria

vi mulheres que não tinham tempo para cantar.

Os sonhos dos engraxadores na estação da CP.

entram no meu conto breve do livro pequeno.

Todos os outros protagonistas saem de manhã

e vendem o seu trabalho no campo à semana.

O vento pampeiro penetra veloz entre as telhas

e sacode o sono leve dos ranchos dos gaibéus.

Não morri. Nas ruas escuras da Bica do Chinelo

corre ainda hoje um forte rumor de esperança.

Passam cavaleiros a caminho das Cachoeiras

e não há ainda as camionetas para a Arruda.

Gerações sucessivas trabalham uma memória

que há nos prelos das tipografias clandestinas.

No nome dos meus filhos Clara e João Carlos

se multiplica o inventário dos meus sonhos.

Schmeichel festeja um golo (2000)

Os meus braços levantados são as asas

Dum avião que só viaja entre as balizas

Deixaram os problemas nas suas casas

Aqui só a fé e a paixão lhe são precisas

Estou longe do golo mas faço a festa

Celebrando a tristeza deste adversário

Eu sou uma árvore na grande floresta

Dum clube a caminho do centenário

Eu sei que só pode haver um vencedor

Nestes jogos com três pontos em disputa

Ninguém pensa na hipótese de um favor

E os pontos ganham-se com muita luta

É na relva que deixo a festa derramada

Neste avião e nesta minha coreografia

Nas minhas mãos está bem apontada

A direcção da luz, da glória, da alegria

Paulo Teixeira

Nos juniores tu eras sempre o capitão

Depois na equipa B tinhas a braçadeira

Hoje sei que jogas futebol em Portimão

Porque leio A BOLA de segunda-feira

Corri o país para escrever no meu jornal

Fazia as crónicas e a notícia pequenina

Eras tu que me falavas sempre no final

Mas em nome de toda a equipa leonina

Foste o melhor em campo várias vezes

Tal como já tinhas sido vestido de leão

Em Santarém nos Sub-21 portugueses

Fazias toda a ala direita dessa selecção

Ainda hoje não percebo este mistério

Que te afastou para longe de Alvalade

Tu continuas a jogar e sempre a sério

A encher os teus domingos de verdade

Um livro por semana 188

«Vozes do Ventre da Lua» de José Miguel Noras

Depois do efémero da publicação no jornal «LAMEGO hoje», 38 textos surgem agora em livro num registo mais permanente. Livro não é jornal; sabe-se. O título justifica-se numa ideia do autor: «Se o paraíso não for na Terra, como assinalou Herculano, então o Douro só poderá ser comparável ao Ventre da Lua.» Como exemplo do tom e do timbre destas crónicas cita-se uma parte do texto do autor sobre Alexandre Herculano (1810-1877) intitulada «um escritor entre aspas?»:

«Quem entrar na capital do Ribatejo, pela Calçada do Monte, depara com uma placa toponímica assinalando tratar-se da Rua Alexandre Herculano. Logo a seguir fica o Mercado Municipal, da autoria de Cassiano Branco. Ainda antes de chegar à Sé Catedral, há um monumento a Alexandre Herculano, virado para Vale de Lobos, onde o escritor viveu e morreu. As inscrições desta estátua enfatizam a homenagem do povo de Santarém ao autor de O Monge de Cister, promovida em 1935. Estranhamente, sob o nome da Rua Alexandre Herculano, a placa toponímica ostenta a palavra «Escritor», assim mesmo: escritor entre aspas! Este vulto do liberalismo, além de escritor, foi poeta, teatrólogo, jornalista, historiador, deputado, presidente de Câmara, bibliotecário, soldado, publicista, agricultor, especialista em azeites, etc., etc. Reduzir a dimensão de uma vida plena e preenchida como a de Herculano, à sua faceta literárias, já seria um atrevimento. Apresentá-lo como «escritor» entre aspas é puro «delírio cultural» – dirá a voz da crítica».

(Editora: O MIRANTE, Prefácio: José Saramago, Capa: Casulo de Xico Lucena)

Vinte Linhas 494

Dissertação breve para o olhar de Marta

Há, no olhar de Marta, a sombra das partituras da música das ondas do mar, compassos felizes que, sempre de sete em sete, organizam novas melodias. Nos poucos metros quadrados de um escritório, o olhar de Marta prolonga o rumor da água, o som do vento, a luz da espuma, o doirado da areia sem fim.

No tempo agressivo desta rua (Bombeiros, Polícia, Viaturas oficiais) o olhar de Marta organiza, por cima das sirenes, uma gramática de harmonia. Porque o olhar de Marta delimita a Rua do Alecrim como as fronteiras de um país ou de um quadro. À direita, como por milagre, os cacilheiros surgem colados às telhas dos prédios do Cais do Sodré. Do lado mais próximo do perímetro do olhar de Marta estão os carris molhados há minutos pela chuva inesperada de Junho. Parecem duas linhas de um caderno de apontamentos onde os olhos de Marta fazem a nova pontuação do lugar.

Mas há sempre algo de nebuloso no fascínio dos olhos de Marta. Não são as pestanas nem as sobrancelhas, não é o rebordo ciliar nem a pupila, não é a íris nem as pálpebras mas é o conjunto no seu todo, é uma espécie de perfume, é o seu porte solene e quase altivo sabiamente misturado com a humidade da ternura que faz do seu olhar uma enseada de sossego e paz à beira de um mar de conflitos.

No bulício desordenado da cidade, o olhar de Marta agrupa, constrói e ordena de novo o ritmo do Mundo. Entre a Rua da Misericórdia e o Largo Camões, entre a Rua do Alecrim e o Cais do Sodré fica o mundo de Marta, um mundo delimitado pelo esplendor da luz. Digamos, a concluir, o Mundo assim como num quadro de Silva Porto.