Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Dois poemas da Veiga Beirão policopiados por Manuel Simões

Domingo rústico

Da mistura do branco com o tinto
e dos dois com aguardente
pode nascer uma poça de sangue.

Da mistura dum olhar atrevido
com um desejo de libertação
pode nascer uma criança.

Da mistura dos cansaços da semana
e dos azares do chinquilho
pode nascer um brilho de navalha.

Já vi
que ficar eternamente ao sol
nada resolve
mas o desejo de emigrar
tornou-se inútil.

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Jornalista

Tu estás aqui sem defesa, amparo ou abrigo
A tomar nota escrita de todos os pormenores
Os cartões amarelos, as jogadas de perigo
Os golos, as substituições e os espectadores

Faça sol ou chuva, seja Inverno ou seja Verão
Visto de esguelha, sem lugar para te sentares
Às vezes acabas por ser envolvido no palavrão
Que é dirigido ao árbitro e aos seus auxiliares

Um dia mais tarde quando tiveres envelhecido
Ninguém se lembrará dos insultos desse dia
Na tua memória porém nada ficará esquecido
Por isso será maior o tamanho da tua alegria

A crónica pequenina que tu escreves e assinas
Depois de falares ao capitão e ao treinador
Vai ser lida por quem afinal tu nem imaginas
E será guardada num coração seja onde for

Vinte Linhas 607

Bairro Alto – vidros partidos, urina, porcaria, vomitado e confusão

No passado dia 31-3-2011 esteve toda a tarde estacionado o automóvel de matrícula «05-10-35» no muro do Instituto de São Pedro de Alcântara. O seu condutor raciocinou como qualquer pessoa normal: naquele local há apenas o muro e as irmãs entram e saem pela Rua Luísa Todi. Alguns dias antes no mesmo lugar outra viatura foi multada a partir de uma mentira da EMEL: «está a ser autuado por estacionamento indevido». Este indevido é um abuso: há ali 4 lugares autorizados mas no mesmo passeio cabem mais 8 lugares. O trânsito é um drama mas há mais. No «Diário de Noticias» de 3-4-2011 Maria de Lurdes Vale assina um texto (Botijas de gás) onde se refere ao Bairro Alto como amontoado de «garrafas vazias de cerveja, vomitado, copos de plástico, cheiro de urina e cerveja». Conclui a jornalista que o presidente de Câmara deve apostar num gabinete na Rua da Rosa onde poderá de preferência trabalhar à noitinha: «verá como fica petrificado». Vim para aqui morar em 1976 e isto nunca esteve tão mal. A EMEL faz do Bairro Alto um campo de prisioneiros: temos direito a circular mas não a estacionar pois há grande diferença entre os cartões de residente e os lugares de estacionamento. Na Travessa da Boa Hora há um estaleiro de obra que roubou 8 lugares aos moradores mas ninguém se preocupou em ressarcir estes.

Para concluir falta acrescentar que a matrícula «05-10-35» corresponde a uma viatura da PSP afecta ao projecto «Escola Segura» mas isto apenas para significar que o raciocínio do seu condutor perante o muro do Instituto de São Pedro de Alcântara foi o mesmo que o outro condutor elaborou mas o primeiro não foi multado e o segundo foi.

Um livro por semana 228

«Vida e Obras de Luís de Camões» de Wilhelm Storck

Wilhelm Storck (1829-1905) foi professor na Universidade de Munster e correspondeu-se com Antero de Quental, cujos poemas traduziu. Desde cedo se interessou também pela poesia e pela vida de Camões. Este volume de 635 páginas é o resultado desse interesse, não só pelo poeta mas também pelo povo do seu país:

«Um povo enérgico, inteligente e de índole cavaleirosa, vivendo num país riquíssimo em belezas naturais, debaixo de um firmamento sereno, à beira do Oceano, nas margens férteis de riso caudalosos, susceptível de intensas alegrias e profundas tristezas, magnânimo e altruísta em perigos e desgraças, cruel e cobiçoso em guerras e inimizades, nervoso e exaltado na luta, em vitórias e batalhas cruentas, doido por música, canto e dança e, por natural predisposição, inclinado à paixão amorosa, a saudades melancólicas e um sentimentalismo um tanto mórbido, não podia deixar de manifestar muito cedo em rimas sonoras e em graciosas melodias, as sensações produzidas por feitos da história pátria e aventuras individuais».

O autor aborda a vida de Camões a partir de respostas a perguntas: «Sabemos que o poeta partira pobre para Goa e que voltou mais pobre ainda. Onde encontraria um asilo? Como ganhar o pão de cada dia? A quem dirigir-se, na firme confiança de encontrar auxílio e socorro? A madrasta já residiria então no bairro da Mouraria? Ou entraria ela mais tarde na capital, depois de vendidos os seus bens em Coimbra, a fim de passar os últimos anos junto do filho repatriado? Quem vivia ainda da família dos Condes de Linhares? Onde parava o autor do Palmeirim, Francisco de Moraes? Que era feito de D. Francisca de Aragão?»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Tradução e Notas: Carolina Michaelis de Vasconcelos, Capa: Francisco Metrass)

Vinte Linhas 606

Com que então esteve à vista o segundo golo da nossa equipa?

Aqui há uns bons anitos, talvez oito, o Sporting Clube de Portugal tinha uma denominada «equipa B» onde jogavam os juniores promissores e jogadores da «equipa A» à procura de ganhar «endurance», como dizia o senhor Boloni. No relvado principal de Barroca de Alva, por uma tarde de sol de Abril já com os jogos a começarem às 16 horas, lembro-me de uma cena engraçadíssima. Um repórter de uma rádio local que veio com a equipa visitante, ficou sem «sinal» passados uns 15 minutos depois do início do jogo. Sugeri-lhe que pelo telemóvel ligasse à sua rádio e lhe desse um número que estava ali à mão e pertencia a um dos três jornais diários desportivos. Como era para receber chamada quem pagava era a Rádio local e o serviço lá continuou. Já na segunda parte ouvi ele a dizer «Esteve à vista o segundo golo da nossa equipa!» mas como ainda estava tudo a zeros fiz-lhe sinal e apontei para os seus apontamentos. Foi pior a emenda que o soneto: «Senhores ouvintes dissemos há pouco que esteve á vista o segundo golo porque há minutos esteve à vista o primeiro golo da nossa equipa!»

Lembrei-me desta história hoje ao ler o «D.N.» pois na página 55 há uma notícia sobre o jogo «St. Pauli- Schalke 04» interrompido ao 89 minutos depois de um espectador ter atirado um copo de cerveja a um árbitro auxiliar que invalidou um golo ao St. Pauli. O Schalke 04 ganhava por 2-0, com golos de Raul (26m) e Drexler (66m) e, aqui vai a confusão do texto, «o golo do St. Pauli igualaria o resultado da partida». Não pode… Havendo 2-0 para o Schalke 04, o tal golo invalidado aos 89 minutos apenas faria o 2-1, mas nunca, como diz o texto do «D.N.», igualaria a partida…

Vinte Linhas 605

De Manuel Castro a Sema Çulam – da festa do vinho ao jardim do chá

Em Manuel Castro tudo começa num rumor de alegria. À frente do grupo da adiafa da vindima vem um pequeno abegão, um jovem descalço a conduzir os bois que puxam o carro com a tina cheia de uvas. Ao lado do rapaz um cão olha de soslaio para o homem do bombo. A concertina, as violas e o cavaquinho, ouvem-se apenas no intervalo das pancadas do bombo. Há mais ritmo que harmonia na frente do rancho de rapazes e raparigas. No dia da adiafa o trabalho parece que custa menos: além da música ficamos a saber que á noite vai haver rancho melhorado na mesa.

No jardim do chá de Sema Çulam são quatro mulheres que trabalham numa plantação. Elas colhem o chá, ou seja, os gomos terminais e por cima do quadro, surgem quatro casas envoltas numa bruma suspensa que parece de algodão em rama. Não admira a importância do chá na Turquia: depois da Índia e da China, do Sri Lanka e do Quénia, da Rússia e da Indonésia, é neste país que se situa uma das maiores produções de chá verde e de chá preto. Tanto na vindima como na colheita do chá, tanto nas searas de trigo como nas de alfazema ou de girassol, há uma gramática de vida: só há colheita com sementeira, só há prémio com sacrifício. As pinturas são memórias resgatadas de um tempo onde a alegria se convocava devagar, no lugar da terra, algures entre a manhã do último dia da vindima e a tarde suspensa por quatro mulheres que não se cansam de colher os gomos terminais do chá.

Dito de outra maneira – são quadros de uma exposição na Allarts Gallery na Rua da Misericórdia nº 30 ao Chiado.

Vinte Linhas 604

Uma certa memória do Montijo naqueles tempos de 1957

Quando em 1957 fui viver para o Montijo estranhei tudo – a começar pela água que saia quente das torneiras. Embora perto de Lisboa a verdade é que, num certo sentido, ali já começa o Alentejo. As galeras carregadas de cortiça vinham de Pegões e passavam à nossa porta na Rua Sacadura Cabral a caminho do cais. As camionetas que iam para Lisboa com mercadorias e produtos, tinham que passar por Alcochete para chegarem ao Porto Alto onde atravessavam o Tejo a caminho de Vila Franca de Xira. Não havia ponte em Almada que só surgiu em 1966. A praça principal do Montijo que hoje descobri numa velha edição das selecções da Gazeta do Sul recorda-me esse tempo da minha escola primária. A praça tinha a igreja matriz à direita e o posto da Polícia de Viação e Trânsito à esquerda. Ao centro havia o coreto – inevitável numa terra com duas filarmónicas que eram a Imparcial e a Democrática. Uma fundada em 1 de Dezembro e outra a 2 de Janeiro. Automóveis 5 e pessoas 9; dito de outra maneira – o espaço sobejava. Aos domingos à noite esperava-se com ansiedade a chegada dos jornais de Lisboa com os resumos dos jogos dessa tarde: as duas páginas do meio incluíam classificações e relatos breves dos encontros com a menção especial «directo pelo telefone». Nas festas de São Pedro, no pino do Verão, apareciam os bombos e os zés pereiras: os homens saíam de dentro daqueles bonecos enormes a suar e não havia lenço que chegasse para enxugar o rosto. À esquerda da foto ficava a escola primária e as canções das meninas: «Fui lavar ao Rio Lima / Cheguei lá sem o sabão / Lavei a roupa com rosas / Ficou-me o cheiro na mão». Em 1957 era assim na minha escola.

Vinte Linhas 603

Fernando Pessoa – loja de esponjas com armazém anexo

Ofereceram-me hoje o calendário agenda/diário de 2011 com Fernando Pessoa na capa. Uma edição «Arte Periférica e 19 de Abril»; veja-se em www.jfd19deabril.com

A célebre foto do poeta da «Mensagem» denominada «em flagrante delitro» com a conhecida fragata dos Estabelecimentos Abel Pereira da Fonseca, foi em tempo para mim comentada pelo senhor Moitinho de Almeida. As circunstâncias fizeram com que em 1982 eu fosse abordado pelo poeta Joaquim Pessoa para um encontro com o senhor Napoleão Palma, director do jornal «Poetas e Trovadores». Nas reuniões sucessivas para relançar o jornal, conhecemos o descendente do patrão Vasques que obviamente não se chamava Vasques, tal como o António do escritório não se chamava António. Luís Pedro Moitinho de Almeida recordava-se bem de ser muito pequeno e de ir para o escritório do pai. De vez em quando o senhor Fernando Pessoa levantava-se e dizia: «Vou ao Abel!». Depois punha o chapéu e saía. Um dia o jovem comentou: «O senhor é uma esponja!» Logo o poeta respondeu: «Menino! Uma esponja não! Uma loja de esponjas com armazém anexo!» Um aspecto curioso desse tempo de 1982 tem a ver com a agência ANOP onde deixei elementos sobre e reestruturação do jornal «Poetas e Trovadores». Nos jornais do dia seguinte não foi referido o nome do poeta J. O. Travanca Rego. Quando, através de um jornalista amigo, quis saber a razão de tal «esquecimento» soube que o copy desk terá comentado para alguém em voz alta: «O nome é esquisito e além disso não é conhecido!» Ou seja ele também pensava que ser conhecido é o mesmo que ser importante…

Um livro por semana 227

«Anthero Areia & Água» de Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho (n.1938, Olho Marinho) revisita o tempo e a vida de Antero de Quental a partir dum seu poema publicado na Revista Colóquio-Letras nº 173 e da leitura das Cartas de Antero na edição de Ana Maria Almeida Martins.

Para além de João de Deus, Herculano, Bulhão Pato, Cesário Verde ou Raul Brandão, para além de Proudhon, Hegel, Tolstoi ou George Sand, que povoam o tempo de Antero, há nesta homenagem poética uma aproximação feliz. Toda a literatura é uma homenagem à literatura e, por isso, Armando Silva Carvalho escreve no registo de Antero: «Secretário da alma, o coração / Não descansa na laje da morada em que sossega. / Estremece nos seus sonhos / E volve em seu redor o olhar desmesurado: / É dia de além sol, além lua, além distância / Rasgadas as palavras de abandono / E luta. Mas a Terra é a escrita / E o livro o Universo».

Num certo sentido é o século XXI que responde ao século XIX: «Há coisas que normalmente não vemos: os obituários. / Cheira a fim de regime e só os loucos ou extremistas / Acham que tal coisa é uma boa perspectiva / Escreve hoje na gazeta um jornalista famoso. / Ninguém recorre aos mortos que acabam de morrer / Para uma visão do mundo e do futuro». Apetece responder: só a Poesia sabe fazer esse intervalo entre dois mundos separados: «Cento e dezoito anos não são tempo / Que faça arrefecer um corpo / Escrito. / Podem ser apenas uma noite, um sonho alucinante / Ou um dia inteiro, de natureza desperta / Um fruto, uma folha, uma raiz».

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: Mário Cesariny)

Vinte Linhas 602

A tertúlia nas Escadinhas do Duque ou o voo das gralhas

Nas Escadinhas do Duque nº 19-A funciona uma livraria que é também editora – a Bonecos Rebeldes. Isto é o aspecto formal mas existe um outro aspecto, o informal, que tem a ver com a tertúlia ou, pelo menos, o espírito de tertúlia. Quer isto dizer que não há horários rígidos nem quórum mínimo. As pessoas aparecem e falam principalmente de banda desenhada mas também de outros temas. Estava presente o caricaturista Aniceto Carmona que, enquanto o diabo esfrega o olho, fez a minha caricatura. Obrigado!

Um de nós trazia a revista «Lisboa Convida» dirigia por Sofia Paiva Raposo e Vera Abecassis: a propósito da Sociedade Guilherme Coussul o nome de Sidónio Muralha surge como Possidónio Muralha. Talvez por causa do nome de Possidónio Cachapa. Num dos balcões da livraria está a «Fotobiografia de José Cardoso Pires» da autoria de Inês Pedrosa: numa fotografia tirada na Avenida da Liberdade de José Cardoso Pires com Maria Rosa Colaço e Manuel da Fonseca, aparece o rosto de Fernando Piteira Santos mas na legenda surge o nome de Mário Tomé. A recente edição do Círculo de Leitores da «Viagem a Portugal» de José Saramago tem uma gralha na página 252 (São João de Alpalhão em vez de São João de Alporão) o que leva o livreiro e editor José Vilela a procurara nas estantes a edição original de 1981 da Editorial Caminho para confirmar a gralha. Lá está – o que quer dizer que sempre lá esteve. Um de nós viu numa livraria perto da Chiado edições em castelhano e inglês da «Viagem a Portugal» onde a gralha pousou de novo – Alpalhão por Alporão. Mas na Nova Enciclopédia Larousse na ficha de José Manuel Mendes aparece a fotografia de Francisco Belard. Enfim…

Um livro por semana 226

«O Mundo de Ruben A.»

de Liberto Cruz, José Brandão e Nicolau Andresen Leitão

Era Ruben A. para a ficção, Ruben Andresen Leitão para o jornalismo e para os livros de História. O segundo nome (Alfredo) surge apenas em documentos oficiais. Embora os Andresen se tenham fixado no Porto, Ruben vem nasce em Lisboa em 1920 no nº 25 do Príncipe Real que «tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa». Com 7 anos vai viver com a avó materna para o Porto (Campo Alegre) ao lado de Sophia, prima direita: «Vivemos e brincámos juntos nas mesmas casas, nos mesmos jardins». Desta época é o seu primeiro texto: «Minha querida mãe, já sei escrever só e gosto muito». Com 9 anos assiste ao naufrágio do navio Deister na Foz do Douro: «Vi que a morte era o desaparecimento, a impotência, a crueldade». Em 1933 cria o jornal O Falcão de Prata mas só em 1946 se inicia nos grandes jornais: Jornal de Notícias, Diário Popular e Expresso. Em 1942 reprova três vezes a Psicologia e vai para Coimbra depois de um professor declarar que «não recebia lições dos alunos e que o reprovaria sempre». Quando ensina numa Escola Comercial, Ruben descobre um logro: «os de História ensinavam Francês, os de Francês ensinavam Geografia e os de Geografia não ensinavam». Em 1947 emigra para Londres e trabalha no King´s College com Charles Boxer: «Quarteirões inteiros cheios de mortos, sítios que foram casas, meia dúzia de tijolos, pedras abandonadas pela guerra, atenção às minas». Salazar surge como crítico («No livro Páginas II explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco. O autor não pode representar Portugal nem ensinar português») embora mais tarde reconsidere e escreva: «o maluco do homem tem habilidade e competência para o cargo». Ruben A. definia-se como «geógrafo falhado» mas foi sempre um cultivador de amizades; segundo Sophia «o Ruben tinha o dom da amizade».

(Editora: Assírio & Alvim, Prefácio: Mário Soares, Poema: David Mourão-Ferreira)

Vinte Linhas 43

Um japonês na cidade dos ventos

Chama-se Minoru Nagashima e nasceu em Takasaki em 19 de Maio de 1943 mas vive e trabalha em Lisboa desde 1999. Apaixonado por Lisboa desde 1998, pelas suas cores, pelas suas colinas e pelos seus ventos, Minoru Nagashima passa grande parte do seu dia no jardim do Príncipe Real. Vai dormir à Costa do Castelo mas regressa todas as manhãs à magia deste jardim. Nunca se cansa de o pintar. Há sempre um pormenor novo, um relevo, uma luz, um reflexo. Exagero meu, sem dúvida: Minoru Nagashima não pinta o jardim tal como ele é mas sim o seu olhar sobre o jardim, sua paisagem e seu povoamento. Esta pintura não é um registo, é uma interpretação pessoal daquilo que o pintor sente quando o vê. Porque nem sempre olhar é ver. Discreto, simples, afável, sempre com um sorriso, Minoru Nagashima chega pela manhã e faz do quiosque do senhor Oliveira o seu «atelier» de reserva. Trabalha ao ar livre e guarda mas prateleiras do quiosque a máquina fotográfica, a carteira e o seu livro grande. Nele estão fotografias de exposições anteriores em Tóquio, Kanagawa, Saitama, Gumma, Shizuoka, Fukushima e Lisboa. Para pintar, Minoru Nagashima precisa apenas da sua intuição. Por isso se despoja, por isso coloca de lado tudo o que o pode sobrecarregar na tarefa de iluminar o quadro em branco. Minoru Nagashima sorri, sorri sempre. Ele sabe que dentro dos quadros que pinta todos os dias vai guardar toda a luz da cidade dos ventos. E quem passa põe ele, numa pressa para coisa nenhuma, não consegue reparar nem no jardim nem no quiosque nem no japonês tranquilo que se deixou apaixonar em 1998 pela cidade de Lisboa. A quem ele chama com toda a razão a cidade dos ventos.

Vinte Linhas 601

Um lenço dos namorados para Marta

Aqui vai, para ti Marta, com a amizade de sempre, um lenço dos namorados para ti, na edição especial da «Terra Lusa – Portugal» feito em micro fibra, próprio para limpar ecrãs, jóias, telemóveis, CDs, óculos e máquinas fotográficas.

Os lenços dos namorados originais são caríssimos – conheço o assunto porque fiz em tempos um trabalho para o IEFP e estive em Serreleis. Mas este pano de limpeza é uma gracinha e copia de modo feliz um lenço a sério. Copia e reproduz até os seus deliciosos erros de ortografia. Por exemplo este:

«Bai carta feliz buando / Nas asas dum passarinho

Cando bires o meu amor / Dale um abraço e um beijinho»

Aí em Madrid onde vives ou em Alcalá de Henares onde és professora, sei que lembras de vez em quando os teus tempos de Jaen, no Sul, perto do Alentejo Português. Onde as oliveiras parecem iguais mas onde, afinal de contas, tudo é diferente: existem lenços, existem namorados mas não existem lenços dos namorados. Estamos tão perto mas somos tão diferentes. Mas devemos ver na diferença uma espécie de complementaridade e não de distanciamento. Não é por acaso que no teu Blog aparece um banco frente ao mar da Ericeira. Despeço-me por hoje de ti com outra quadra:

«Aqui tens meu curação / E a chabe pró abrir

Num tenho mais que te dar / E tu mais que me pedir».

Aqui fica com a devida vénia à «Terra Lusa – Portugal» que teve a feliz ideia de criar este panos em micro fibra. Um achado para turistas e não só.

As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
A outra metade é feita de tijolos
Tristes porque são todos iguais
Na sua tão repetida monotonia

À volta da avenida fica o arvoredo
Antigo como as casas dos guardas
Lembra um velho tempo de quintas
Com cavalos e carroças no mercado
Hoje só recordado aos domingos

Esquilos nos ramos, corvos na relva
De noite raposas fogem assustadas
Dos poucos táxis a circular na rua
Na escuridão fria da noite inglesa
À hora dos comboios mais raros

Envolvido nas rotinas das escolas
Levo na mão o meu neto de manhã
E vou buscá-lo perto do meio-dia
Pego na pasta azul com o seu nome
E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala
São elefantes, borboletas e ovelhas
Entram na floresta que eu lhe conto
E tremem de medo dos monstros
Como eu tremo de medo da doença

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
Frágeis perante a neve a chegar
Tal como eu frente ao pâncreas
Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos
Maneira de eu dizer adeus à vida
Todos os momentos são preciosos
Para que o meu neto me lembre
E não se esqueça de me recordar

Vinte Linhas 600

Bairro Alto – vidros partidos, confusão, lixo e barulho

Um destes dias morreu um jornalista do Diário de Noticias que pouco tempo antes tinha publicado uma reportagem sobre a cada vez menor qualidade de vida no Bairro alto. Até nisso temos azar: depois de ter feito uma travessia completa do nosso bairro, rua a rua, travessa a travessa, é que o jornalista se achou habilitado a escrever. Mas morreu pouco depois. Não sabemos quando é que outro jornalista se dispõe a «olhar» o Bairro Alto.

A semana passada uma amiga minha pegou no automóvel de manhã e dirigiu-se a uma bomba de gasolina para atestar. Ao abrir a pequena porta sentiu nojo e vómitos: alguém durante a noite tinha mijado contra a portinhola do combustível do seu automóvel. Parte do mijo permanecia. Quis vomitar mas não conseguiu: a repulsa foi maior que o vómito. Há bares que têm a superfície de uma casa de banho – logo não podem ter casas de banho. Este é um dos aspectos. O outro é a EMEL que multa todos os dias os moradores que estacionam mesmo junto aos muros onde não prejudicam ninguém. No muro dos Calafates, por exemplo, que fica na Travessa da Água da Flor. O muro é o mesmo mas de um lado deixam estacionar e do outro não. Na Travessa de São Pedro há um muro que é, todo ele, as traseiras do Instituto S. Pedro de Alcântara. Pois a EMEL autoriza 4 lugares quando deveria autorizar 12 pois o muro é o mesmo e as freiras entram e saem pela Rua Luísa Todi. Na Travessa da Boa Hora os moradores perderam 8 lugares com o estaleiro mas a EMEL nada fez para os ressarcir do prejuízo. E continua todos os dias a multar e a mentir. Quando nos obrigou a trocar o cartão pelo dispositivo escreveu – «Os moradores poderão estacionar livremente com o uso dos identificadores da EMEL».

Vinte Linhas 599

A única verdade sobre o Brasil-Portugal de 1966

De vez em quando, sempre que se fala de Mundiais passados, aparecem por aí umas parvoíces escritas e faladas sobre o Brasil-Portugal de 1966 em Inglaterra. Uns não se lembram, outros fingem que não sabem, outros ainda não tinham nascido mas uns por ignorância e outros por má-fé lá repetem que Pelé foi «lesionado» por Morais no dia 19-7-1966. Mas é mentira: Pelé já estava lesionado desde 12-7-1966 por Voutsov no jogo com a Bulgária e, por isso, não jogou em 15-7-1966 com a Hungria.

No livro «O anjo pornográfico» de Ruy Castro sobre vida e obra de Nelson Rodrigues está tudo explicado. «Mário Filho pôs sua fé inabalável dentro da mala e foi para Londres ver o que veteranos como Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Garrincha e Pelé e os novatos como Gerson, Tostão, Jairzinho, Silva e Alcindo iriam fazer durante o tri. No primeiro jogo contra a Bulgária, no dia 12-7-1966, Pelé e Garrincha fizeram 2-0. O jogo seguinte, três dias depois, contra a Hungria, trouxe o escrete à dura realidade. A derrota por 3-1 revelou um time velho, desentrosado e medroso. Restava o terceiro jogo, decisivo, contra Portugal no dia 19. Até Mário Filho esperou pelo pior. Aymoré Moreira, o treinador (apelidado de Biscoito) trocou nove jogadores na véspera da partida e botou-os em campo. Alguns foram apresentados uns aos outros já com a bola rolando. O Brasil perdeu de novo por 3-1, o que significava pegar o boné e voltar para casa. A cada golo português o comentador Hans Henningsen (o marinheiro sueco) sentado ao lado de Mário Filho, via-o desmoronar. Dois meses depois, já de volta ao Rio, Mário Filho estava morto aos 58 anos». Fim de citação por hoje.

Balada do cais da cortiça

Cais da cortiça, vapores
A caminho de Lisboa
Samarra de lavradores
Contra o frio da proa

A água do cantarinho
O mestre tem na cabina
É do poço do vizinho
Onde a rua faz esquina

As galeras de Pegões
Chegam aqui de manhã
Entre os gritos e razões
Na cadeia comarcã

E a gente dos escritórios
Nas janelas da prisão
No maço de Provisórios
Cada cigarro um tostão

Em certas ocasiões
Vem a carga diferente
A galera traz melões
Matam a sede à gente

Com rodas de camioneta
São outras velocidades
Viagem quase secreta
Entre duas localidades

Entre Montijo e Pegões
Levam a carga que calha
Ou o ferro para portões
Ou vinte fardos de palha

E esta galera continua
Numa memória já morta
Já vem na curva da rua
Onde estou à minha porta

Um livro por semana 225

«A cova do lagarto» de Filomena Marona Beja

Romance sobre o tempo e a vida de Duarte Pacheco, ministro das Obras Públicas do Estado Novo, este livro mostra uma visão poliédrica deste homem especial que «Via para além do que olhava» e era avesso a favores: «Duarte não concedia favores: Não ficava, ele próprio, a dever ao Estado».

De um lado o país («O nosso país será pobre mas isso não é desgraça. Desgraça será o atraso») do outro lado Salazar, o padreca sem coroa: «Artigos no jornal Novidades. Palestras no Centro Católico. As suas lições de cátedra, na Universidade».

Homem diferente, especial e veloz, respondeu um dia sobre o casamento: «E alguma vez eu tive tempo para isso?» Um dia em 1942 descobre que «Numa emergência ninguém podia descolar de Lisboa. Dependia-se dos hidroaviões, do rio» logo propõe o novo aeroporto (ou seja «um campo destinado à aviação civil») e a resposta é «Autorizo. Construa-se». A sua paixão pela velocidade faz com que nas grandes obras «já havia máquinas a betumar e ainda por lá andavam galinhas». As mesmas galinhas que Carminha, a sua irmã referia a propósito do amor: «Observando a capoeira, concluíra que até as aves ficam deprimidas depois da galadura». Para uns era o homem «Providencial» e capaz de hipnotizar os companheiros, para outros o vencedor de uma teia de obstáculos: «rotina, burocracia, bajulação, falta de quadros técnicos, de apoios, de verbas, de compreensão». Morreu no automóvel de serviço perto de Vendas Novas no desnível da estrada a que chamam a cova do lagarto.

(Sextante Editora, Capa: Henrique Cayatte/Susana Cruz, Nota: Miguel Real)

Vinte Linhas 598

«Cama, mesa e roupa lavada» em conversa de autocarro

«Sabe a filha da minha prima, aquela que é muito nova e tem muitos filhos? Está outra vez de bebé, veja lá. Aquilo é uma equipa de futebol de salão, com suplentes, treinador e massagista. Mas ela, a minha prima, coitada, está muito aborrecida com os compadres que vão a França a um casamento. Ele é um parvo e ela não lhe fica atrás. Pois eles marcaram a data da partida para o dia de anos de uma das miúdas mas não é por causa do casamento, que é só daí a uma semana, é porque são mesmo parvalhões. Quando foi do casamento da filha da minha prima ele, o velho, só se preocupava em assentar bem a casaca asa de grilo ao filho e nada de dizer ao menos uma boa tarde a quem chegava à igreja. Mas, como a gente era do outro acompanhamento, ele não dizia nada. E olhava por cima do ombro para a gente. Ele parece que foi professor numa Universidade mas isso não quer dizer nada. Ser professor não dá a ninguém nada de especial e este casal é bruto como as casas. Ela então é uma parva que nem sabe falar, vive à base de calmantes. Sei de um caso de um professor na terra do meu marido que vivia com um casal numa aldeia e, a troco de cama, mesa e roupa lavada, foi ele o pai de alguns dos miúdos. Mas aquilo naquela casa ele não lhe faltava com nada – bom pão, boa carne, bom peixe, bom leite, boa marmelada, bom bacalhau, boas bolachas. Tudo do melhor que no fim o homem estava a tratar bem o que era seu. O marido dessa trungalhona sempre foi um pau mandado e, como o outro que entrava todos os meses com as massas, fingia não perceber o que se passava. Enfim uma pouca-vergonha, mesmo ali ao lado da velha capelinha da aldeia. Bem, adeus Dona Leonor, vou sair nesta paragem».

Um livro por semana 224

«Antologia de poemas de Armando Côrtes-Rodrigues»

Com selecção e prefácio de Eduíno de Jesus, este livro pode ser um bom ponto de partida para celebrar os 120 anos do autor que nasceu em 28-2-1891. Colaborador das revistas literárias do seu tempo como «Águia», «Presença», «Ocidente», «Atlântico», «Portucale» e «Orpheu», estreou-se no 1º volume desta mesma revista em 1915: «O mar da minha vida não tem longes / É tudo água só! E o horizonte / Funde-se no céu. Por sobre a ponte / Marcha, sinistra, a procissão dos monges.»

No número 2 da revista «Orpheu» assina com o heterónimo Violante de Cysneiros:

«Ouço passos que não são / Os mesmos de quem caminha / Passos que comigo vão / Sempre que eu ando sozinha.»

Com «Louvor da humildade» de 1924 surge o regresso às coisas simples da terra, como o pucarinho de barro («O meu lindo pucarinho / Que tanta sede me mata! / Gosto mais dele pobrinho / Do que se fosse de prata!») ou como a viola – «Hoje aqui a Chamarrita / Amanhã a Bela Aurora / Há festa num lugarejo ? / Rapazes, vamos embora!»

Etnógrafo e autor de peças de teatro como «Quando o mar galgou a terra» (1938), Armando Côrtes-Rodrigues toda a sua vida foi poeta: «Canção de vida entoada / Neste coro do universo / Sou a nota prolongada / No eco breve dum verso».

Sem se desligar do «Orpheu» (visitava em Lisboa os seus amigos Almada Negreiros e Alfredo Guisado) deu novas direcções à sua poesia: «Quero dizer o meu sonho / Só com palavras pequenas / Singelas, simples, comuns/ Com duas rimas apenas»

(Edição: Instituto Cultural de Ponta Delgada, Retrato: Domingos Rebelo, Cronologia, notícia crítica e biográfica: Eduíno de Jesus)