Um livro por semana 224

«Antologia de poemas de Armando Côrtes-Rodrigues»

Com selecção e prefácio de Eduíno de Jesus, este livro pode ser um bom ponto de partida para celebrar os 120 anos do autor que nasceu em 28-2-1891. Colaborador das revistas literárias do seu tempo como «Águia», «Presença», «Ocidente», «Atlântico», «Portucale» e «Orpheu», estreou-se no 1º volume desta mesma revista em 1915: «O mar da minha vida não tem longes / É tudo água só! E o horizonte / Funde-se no céu. Por sobre a ponte / Marcha, sinistra, a procissão dos monges.»

No número 2 da revista «Orpheu» assina com o heterónimo Violante de Cysneiros:

«Ouço passos que não são / Os mesmos de quem caminha / Passos que comigo vão / Sempre que eu ando sozinha.»

Com «Louvor da humildade» de 1924 surge o regresso às coisas simples da terra, como o pucarinho de barro («O meu lindo pucarinho / Que tanta sede me mata! / Gosto mais dele pobrinho / Do que se fosse de prata!») ou como a viola – «Hoje aqui a Chamarrita / Amanhã a Bela Aurora / Há festa num lugarejo ? / Rapazes, vamos embora!»

Etnógrafo e autor de peças de teatro como «Quando o mar galgou a terra» (1938), Armando Côrtes-Rodrigues toda a sua vida foi poeta: «Canção de vida entoada / Neste coro do universo / Sou a nota prolongada / No eco breve dum verso».

Sem se desligar do «Orpheu» (visitava em Lisboa os seus amigos Almada Negreiros e Alfredo Guisado) deu novas direcções à sua poesia: «Quero dizer o meu sonho / Só com palavras pequenas / Singelas, simples, comuns/ Com duas rimas apenas»

(Edição: Instituto Cultural de Ponta Delgada, Retrato: Domingos Rebelo, Cronologia, notícia crítica e biográfica: Eduíno de Jesus)

6 thoughts on “Um livro por semana 224”

  1. Obrigada, Zé, por este texto sobre Côrtes-Rodrigues que, sendo um excelente poeta, “directamente de Orpheu” (no dizer de Fernando Pessoa e seu grande amigo), é praticamente desconhecido. Este desconhecimento prende-se, sobretudo, pelo facto de 4 dos seus livros de poesia, “Em Louvor da Humildade”, Cântico das Fontes”, “Cantares da Noite -seguidos de poemas de Orpheu” e “Horto Fechado”, estarem esgotados há mais de 50 anos. Postumamente, foi editado “Planície Inquieta”, organizada pelo professor Almeida Pavão e, também esgotado, e “Canção da Vida Vivida”. O que se conhece do Poeta, chega-nos, pois, através desta excelente Antologia, prefaciada e organizada pelo professor Eduíno, em 1956 e que, em 1989, conheceu 2ª edição da qual, felizmente, ainda restam alguns exemplares.
    Curiosamente, deste lado de cá do Atlântico, onde nos encontramos, esta Antologia só se consegue em alfarrabistas e com preço nada agradável. No entanto, deixo a nota que, pelo preço de 10euros, se pode adquirir, por encomenda, ao Instituto Cultural de Ponta Delgada, na Rua José Maria Raposo do Amaral, 101 – 9500-078 Ponta Delgada – Açores, que, estou certa, prontamente a enviará, uma vez que esta Instituição tem desenvolvido intensa actividade no sentido de promover e divulgar a obra deste homem da literatura e cultura portuguesas, como, por exemplo, o programa desenvolvido na passada semana de 28 de Fevereiro a 4 de Março com que comemorou os 120 anos do nascimento do Poeta.

    Anabela Almeida

  2. Obrigado! Os bons encontros dão sempre bons resultados – assim mais pessoas ficam a saber como «entrar» na escrita deste autor nascido há 120 anos.

  3. Vocês sabem tanto, meus amigos!
    Para mim Côrtes-Rodrigues era só um nome, de Orpheu, claro, e pouco mais.
    Obrigado
    Jnascimento

  4. Para o J. Nascimento e todos os outros, transcrevo este poema que Côrtes-Rodrigues dedicou à sua correspondente e amiga, muito amiga, Cecília Meireles. Pudesse eu transcrever as centenas de poemas que constituem o seu legado de poesia!

    Retrato
    a Cecília Meireles

    Meu corpo é água.
    Onda que vai e que vem,
    abraça, foge, não pára…

    No fundo, mágoa.

    Meus olhos, água.
    Fundura do mar salgado,
    quem sabe onde tem seu fim?

    No fundo, mágoa.

    Minh’alma é agua,
    que canta, que chora e fala:
    doce cantiga das fontes,
    brando chora das ribeiras,
    marulho eterno das vagas…

    No fundo, mágoa.

    Aramando Côrtes-Rodrigues

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