Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 622

Da «missa em fado» à «aspirinab» – uma coisa lembra a outra

No passado dia 22-5-2011 às 19h 30m assisti comovido a uma missa em fado na Igreja do Sacramento ali à Calçada do Sacramento entre a Rua Garrett e o Largo do Carmo. Com voz de Filipa Galvão Telles e José Campos e Sousa (também na viola) apresentou-se Bernardo Couto na guitarra portuguesa. Não vou (nem vale a pena) descrever a missa em fado porque só se percebe ouvindo a mistura feliz das duas vozes e da guitarra portuguesa, das duas vozes e da viola. Tudo aquilo tem a ver com Poesia pois na Poesia há sempre metade canção e metade reflexão. Cantar é juntar as palavras caídas no chão do quotidiano e levantá-las mais altas que o altar da liturgia dominical. Foi uma tarde maravilhosa.

O que me fez recordar o Blog «aspirinab» foi uma coisa bem insólita. Já passavam dez minutos das 19h 30m quando em voz baixa e com cuidado perguntei às duas pessoas que estavam comigo: «Que horas são?» A resposta veio também em tom muito baixo: «Já passa das sete e meia!» Pois apareceu uma parva que estava ali perto, com um ar de camafeu, a sorrir e a dizer como se estivesse num jardim-de-infância: «Não podem falar na casa de Deus! Esta é uma casa de oração!» Meio refeito do susto da intrusa, lá respondi: «Não preciso dos seus avisos, dispenso as suas opiniões, vá-se embora!». E ela foi. Ainda bem porque logo um senhor me veio dizer: «Ela não queria que eu acendesse uma vela!». Mas pronto, o incidente foi sanado. A parva foi-se embora e o padre Armando Duarte apareceu às 19h 40m – mais coisa menos coisa, a missa em fado lá arrancou os primeiros acordes para bem de todos nós.

O livro da minha vida – Dia Mundial do Livro

(foto de Manuel Nascimento)

«Uma abelha na chuva» de Carlos de Oliveira

Ler «Uma abelha na chuva» em 1969 numa Lisboa temerosa, vagarosa e desenhada a preto-e-branco foi, para mim, a descoberta de um escritor e de um mundo. Carlos de Oliveira escrevia romances como quem escrevia poemas, sem excessos palavrosos, com uma carpintaria essencial. As personagens movem-se na Gândara, a região onde o autor viveu a sua meninice: «terra areenta, infértil, dunas, lagoas pantanosas, pinhais, casas de adobe». As duas figuras-chave do livro continuam ainda hoje para mim inesquecíveis – Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre. E o conflito entre a aristocracia decadente e a burguesia em ascensão: amor e desprezo, ciúme e prazer, ódio e ternura. Notável é neste livro de 1953 como o autor pressente (mais de vinte anos antes…) o regresso dos «retornados» e os seus conflitos pessoais e sociais. Eu tinha dezoito anos e a minha paixão pela literatura nascera no Ciclo Preparatório em Vila Franca de Xira com os poemas de Cesário Verde e com os contos de D. João da Câmara e de José Loureiro Botas. O primeiro dava-me o Mundo, o segundo dava-me a Cidade, o terceiro dava-me o Campo no Inverno e a Praia no Verão. Mais tarde as fotografias de Augusto Cabrita e o filme de Fernando Lopes com Laura Soveral e João Guedes nos principais papéis vieram dar outra visibilidade ao livro em cujas páginas a morte duma abelha pode ser também a metáfora da morte dum certo tempo português. E este romance é a perfeita memória descritiva dessa mesma morte. Porque tudo aqui funciona em harmonia, o tempo interior das personagens, seus sonhos e angústias, mistura-se de forma feliz, acertada e completa com o tempo geográfico, uma aldeia perto das lagoas pantanosas mas a dois passos do mar onde as ondas das marés vivas levarão de noite o corpo do cocheiro assassinado. «Uma abelha na chuva» é um excelente ponto de partida para alguém descobrir o autor de uma das mais importantes obras de poesia e romance do século XX. Ainda me lembro, tantos anos depois, das últimas palavras do romance depois de alguém num grupo de mulheres chamar o Dr. Neto porque a Clara em desespero se tinha atirado ao poço da olaria: «A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»

Nota final – Só o facto de pensar que estas palavras possam vir a ser traduzidas para brasilês deixa-me, desde já, arrepiado.

Vinte Linhas 621

Lisboa «Convida» mas sem nenhum cuidado na escrita

A Revista Lisboa «Convida» referente ao «Bairro Alto – Príncipe Real» com o nº 15 e com data de Maio contém um horripilante artigo sobre o Jardim do Príncipe Real. Começa logo com uma mensagem aparentemente sem destinatário («Malandro que é malandro muda de esquina») mas não se refere em concreto aos que na Câmara Municipal de Lisboa, agindo como uma quadrilha selvagem, abateram 64 árvores e mudaram o pavimento, colocando no lugar do antigo um saibro com pó de vidro que irrita as gargantas de quem aqui passa. A Câmara não deixou instalar ali uma caixa de gelados por razões de estética – não é a mesma estética das árvores abatidas e do saibro com pó de vidro. É outra estética.

Chama-lhe o artigo «oásis alfacinha» mas a verdade é outra – trata-se de um deserto. Mais à frente diz que «manteve a sua essência» – com menos 64 árvores não mantém coisa nenhuma; com pó de vidro e saibro nos velhos passeios só piorou.

Depois chamar «velhotes a jogar à batota» em vez de «idosos a jogar às cartas» mostra algum desdém e mostra também que a autora do texto não sabe (sequer) que os idosos com reformas tão baixas não podem «jogar à batota». Batota é outra coisa.

Depois diz que os arrumadores roubam «emprego» aos parquímetros mas não é emprego – é dinheiro. Um parquímetro é uma máquina, não pode ter emprego.

Quanto ao chamado «cipreste» centenário do Jardim do Príncipe Real tenho quase a certeza que é um cedro mas isso pouco importa… Quando um artigo ignora as 64 árvores abatidas e o pó de vidro que se vê à frente do nariz – não há nada a fazer.

Um livro por semana 235

«Baleia à vista» de Carlos Lobão

Quarta edição deste livro com 24 textos – 18 em prosa e 6 em verso. São bem variados os autores desde o Príncipe do Mónaco em 1895 («ofereci-lhes a oportunidade de sermos nós a rebocar o cachalote até ao local para onde o queriam conduzir») a Raul Brandão: «Duma que vi morta no Cais do Pico tinham retirado trinta quilos de massa escura, âmbar, que valia muitos contos de réis. Por toda a parte vasilhas ensebadas, barris de óleo, montões de ossos, resíduos de lenha e toucinho branco cortado em bocados».

Há prosa mas também poesia como Vítor Rui Dores («A Baleia é o boi do mar / Que tombou na agonia / Rema, rema, é só remar / Já findou o negro dia / Quem plantou sonhos nas águas? / Quem do arpão fez seu pão? / Quem sofreu tamanhas mágoas / Em vendavais de emoção?») ou Manuel Alegre: «Eu vi os barcos parados prisioneiros / na sede de um museu. E os arpões / pendurados. E gravadas / em dentes de baleia as passadas navegações / das velhas baleeiras.»

Também havia lutas entre vigias, trancadores, baleeiros e esquartejadores de cachalotes: «Lutava-se. Uma luta renhida, feroz, heróica. Lutavam: espantavam baleias uns aos outros, chegava a haver abalroamentos, vociferavam-se pragaredos de encampação que reboavam sobre o mar, às vezes tudo ficava em águas de bacalhau, o molestado a aguardar, paciente e silencioso, a oportunidade da desforra, às vezes tudo ia parar na Delegação Marítima e no tribunal». A última baleia foi caçada nos mares açorianos em 1987 nas Lajes do Pico mas as memórias não se perdem e continuam.

(Edição: Clube de Filatelia O Ilhéu – Escola Secundária Manuel de Arriaga, Texto da contracapa: Herman Melville)

Balada da Rua do Ouro

(a Vítor Salgado com um abraço)

Rua do Ouro, comprida
Trazia câmbios, papéis
Era o princípio de vida
Ganhava trinta mil réis

Agências de navegação
Fretes, confusão tamanha
Facturas em liquidação
O sisal para a Alemanha

Ano de sessenta e seis
Polícia a cada esquina
No Natal os bolos-reis
Eram festa pequenina

Agência Havas, notícias
Jornais de amor e mágoa
Na Boa Hora polícias
Tinham o carro da água

Rua do Ouro onde eu ia
Trabalhar até à uma
No sábado sem alegria
Sonhar a branca espuma

Numa praia de Cascais
Na estação, fim da linha
Adeus vida, nunca mais
Te posso chamar minha

Eram Bancos e Banqueiros
Cambistas e correctores
Central da Baixa, parceiros
Reúnem-se os informadores

«É sério e cumpridor
Nada consta em desabono»
Desconta a letra ao senhor
O homem anda sem sono.

Carlos de Oliveira – C.O. in «Iniciais» 1981

Para si são as palavras mais difíceis
Nas longas noites de procura de sentido
Para os textos que transmitem uma dor
De não saber fazer assim a minha prosa

E quem diz prosa diz poesia porque é assim
Quando os seus livros são conhecidos no iceberg
O que não está exposto ao nosso olhar
(Quantas palavras cheias de som nessas gavetas)

Na sua balança para medir o peso de quem passa
Há um cheiro a noite e a gasolina
Deixe-me ao menos ver a ponta dos seus dedos
Deixe-me olhar o seu peso nas suas palavras

Elevador da Glória

Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

Vinte Linhas 620

Aproveitar envelopes e escrever dos dois lados da folha do bloco

Corria o ano de 1978 e em Agosto enviei para Carlos Pinhão um poema dedicado à memória de Ruy Belo. Como as oficinas do «Diário Popular» eram usadas por «A BOLA» para imprimir o (ao tempo) trissemanário desportivo (segundas, quintas e sábados) Carlos Pinhão entregou em mão a Jacinto Baptista o meu poema que foi publicado dias depois no Suplemento Literário do vespertino lisboeta.

Com Carlos Pinhão aprendi muita coisa da gramática do jornalismo e da vida. Mas também coisas práticas como, por exemplo, aproveitar os envelopes usados. Com uma velha navalha de escritório, Carlos Pinhão cortava os envelopes recebidos das editoras e dos autores com livros lá dentro para a rubrica «Porque hoje é sábado» e usava-os de novo. Utilizava o lado de dentro do envelope para colocar os nomes e as moradas dos destinatários. Os livros eram reenviados aos amigos. Isto porque muitas vezes recebia os livros dos autores repetidos com os mesmos livros das editoras. A sua mesa de trabalho era uma placa giratória de amizades e nunca gastava dinheiro em envelopes.

Quanto ao facto de os blocos serem aproveitados dos dois lados para escrever pelos jornalistas aprendi isso em Santarém com o redactor João Calhaz no jornal «O MIRANTE». O João Calhaz fazia isso de modo discreto mas o exemplo passava para todos nós: Joaquim Emídio, Alberto Bastos, Fernando Vacas e eu. Passados tantos anos ainda vou a Santarém almoçar com a malta do jornal tal como entre 1997 e 2001. Os velhotes do meu tempo de menino diziam que «Quem não poupa água e lenha não poupa nada que tenha». Com os blocos e com os envelopes usados é a mesma coisa.

Um livro por semana 234

«De mãos dadas com o vento» de Rosa Calisto

Depois de «Estados d´Alma» de 2003, este «De mãos dadas com o vento» é o segundo livro de Rosa Calisto (n. 1950) e nele se incorporam dois registos maiores: Natureza e Cultura.

De um lado a Natureza com a Costa Nova, o Ceará, Buarcos, Conímbriga e Moçambique: «Nascida, nascida / entre a morte / entre a miséria / e a má sorte. / Pobreza e fascínio. / Conquista e domínio / da mãe natureza / mais madrasta / que mãe / nesta Lichinga. / Renegada maternidade / Desprotegida África.»

De outro lado a Cultura com poemas para a memória de Albert Camus, José Régio, Miguel Torga, José Afonso e Carlos Paredes: «Quero ser / a guitarra / abraçada / afagada / tangida / gemida / coroada. /Quero ser / a guitarra / de voz / terna / ciciada / gritada. / Quero ser / solidão / revolta / emoção.»

Mas além destas linhas poéticas, outras direcções se anunciam nas páginas deste livro. Por exemplo a oscilação entre a maternidade («As mulheres / a quem aparo os filhos / são também / os meus cadilhos») e a velhice: «Alberga-se / em lares / a solidão / dos que vão / ficando / sem idade. / Desbotada / a vida / igualando / os dias / em sucessões / de nada»

Mas também o arco entre o sopro da morte («Quando morrer / meu amor / e cinzas for / lança-me ao vento») e o sopro do amor: «Em outro tecto / te abrigas / nas noites / da minha solidão. / Privilégio nosso / amar / como nos amamos / mesmo na solidão / não há separação.»

(Chiado Editora, Prefácio: Luís Machado, Coordenação: Susanne Engel)

Vinte Linhas 619

Entre o pó e a posteridade – pequena dissertação para João Pedro da Costa

Tenho quase a certeza que a minha primeira intervenção no «aspirinab» aconteceu em 2006 depois de ter enviado por correio para o Fernando Venâncio em Amesterdão uma crónica publicada em 9-6-2006 na Gazeta das Caldas com o título «Não ponha esse indivíduo tão alto… ele nem é licenciado!» O texto não falava só de mim mas aproveitava o pretexto para lembrar José Loureiro Botas e Vitorino Nemésio.

O primeiro por ter sido o prosador que mais me fascinou nos livros de leitura do Ciclo Preparatório com as suas histórias de pescadores vieirenses e também por ser (descobri mais tarde) o pioneiro autor a registar em literatura a vida dos Avieiros no Ribatejo. O segundo por ter escrito estas palavras luminosas: «A glória literária é uma ilusão. Pensar que se dura mais do que o comum dos mortais, só porque se deixou palmo e meio de livros da própria lavra na estante, é uma puerilidade, senão uma presunção!».

De José Loureiro Botas se dizia na mesa da má-língua do tempo (anos trinta do século XX) que não tinha nome para escritor. Nicolau Saião surgiu a comentar e a conta uma história macabra: «Considerável tempo atrás houve um fulano escrevedor que, posto perante a minha alta estima por ele, me disse esta coisa nefanda: «Não ponha esse indivíduo tão alto…ele nem é licenciado!» Quando no mês de Abril apareceu aqui uma gansa a copiar poemas de Sophia como se fossem comentários, eu decidi escrever aquele post com as capas dos meus livros da Moraes Editores – a mesma colecção da Sophia. Meu caro João Pedro da Costa – onde viste «fel» havia apenas a ideia de explicar à gansa que a minha poesia está lá e ninguém a pode tirar. Faz agora 30 anos.

Vinte Linhas 618

Dissertação sobre o comércio a partir de um desenho de Anna Castagnoli

Conheço todas as ruas e praças da Baixa de Lisboa desde Setembro de 1966. Nesse tempo ainda havia eléctricos do Rossio para a Estrela – a subir na Rua Augusta e a descer na Rua do Ouro. O bilhete do elevador de Santa Justa custava dois tostões. No eléctrico uma zona era sete tostões, duas eram dez tostões. Eu era «ordenança» e ganhava 900 escudos por mês.

Havia um monstruoso carro azul da PSP frente ao Tribunal da Boa Hora que só saía com as manifestações dos bancários. Recordo ainda hoje um comunicado passado a stencil – «Incomunicável em Caxias, Daniel Cabrita continua preso».

Conheço desde 1966 a Baixa, o seu pequeno mundo de cafés e livrarias, lojas de roupa e pastelarias, restaurantes e farmácias, drogarias e cambistas, manteigarias e chapeleiros, luvarias e garrafeiras.

Ainda hoje me deixo perder na Baixa de Lisboa um pouco ao acaso, feliz nos intervalos da melancolia, nas suas ruas e praças quadriculadas, perfeitas e exactas.

Deve-se ao comércio a espantosa mobilidade que transforma os produtos em mercadorias. O café que acabo de beber na esplanada da Pollux é disso um exemplo.

Perto daqui, a Loja Temperamento, na Rua da Madalena, celebrar um ano de vida. Estão felizes as meninas da Loja, um ano depois de terem iniciado a vida do seu espaço comercial. Entre loiças e biscoitos, entre perfumes e sal, entre vinho e azeite, entre conservas e livros, entre postais e brinquedos, é um nunca acabar de prateleiras vivas com um pouco do grande mundo aqui resumido. Parabéns Temperamento!

Um livro por semana 233

«Teoria da Literatura» de Vítor Manuel de Aguiar e Silva

O ponto de partida deste livro de 1967 (com 8 reedições e 19 reimpressões) é a diversidade conceitos de literatura que vão da produção literária de uma época ao conjunto de obras que ganham feição especial pela sua origem, temática ou intenção. Sem esquecer a bibliografia existente sobre um determinado assunto. Mas há mais.

O ponto de chegada é o romance enquanto fenómeno literário. Começando na sua origem («romance deriva do advérbio latino romanice que significa à maneira dos romanos») Vítor Manuel Aguiar e Silva (n.1939) estuda o romance desde o formato da Idade Média até à actualidade, numa digressão sobre as obras de (entre outros) Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, José Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, Flaubert, H. Fielding, Cervantes e Laurence Sterne.

É impossível sintetizar 786 páginas de texto; fiquemos com algumas palavras do autor sobre a importância da literatura hoje: «Contra a maré alta do ódio, da barbárie e da indiferença egoísta é necessário redescobrir em tantos milhões de condenados o rosto desfigurado da mulher e do homem, seja qual dor a sua etnia, a sua religião ou o seu credo político para defender e respeitar os valores irrenunciáveis da sua dignidade. A literatura e as humanidades em geral não podem eximir-se a este imperativo ético que transcende as ideologias e os compromissos políticos e é inconciliável com bizantinismos estéticos. Depois de Auschwitz continua a haver genocídios, campos concentracionários, tortura e escravidão. É por isso que é necessário que haja poesia e que haja poetas».

(Editora: Livraria Almedina – Coimbra)

Vinte Linhas 617

Mário de Carvalho tem razão –

«Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto»

No sábado às 18 horas a Comunidade de Leitores da Fabula Urbis vai receber o escritor Mário de Carvalho para uma conversa sobre o seu romance «Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto». O livro é de 1995 e conta a história de Joel, um pobre diabo que quer aderir ao PCP – «A direita anda cada vez mais agressiva, hem?». Com o filho Cláudio na prisão do Pinheiro da Cruz (7 anos por tráfico de droga), com a mulher Cremilde a aparecer chorosa à porta do EP nos domingos da visita, aderir ao PCP surge-lhe como a única possibilidade de entrar num mundo que não se desmorona – como todos os outros. Por exemplo o camarada Júlio Baptista nas reuniões partidárias antecede as suas longas intervenções com o intróito – «São só duas palavras para um pequeno esclarecimento, muito rápido» – mas Joel sonha com agitação, distribuição de panfletos e discursos nas docas quando ouve à porta do Centro de Trabalho Vitória dois camaradas a despedirem-se quando eles estão a combinar uma pacata almoçarada num restaurante de Santos-o-Velho. Aliás o romance, tirando o Pinheiro da Cruz, é todo de espaços lisboetas: Entrecampos, Alameda Afonso Henriques, Chiado, Graça, Barão de Sabrosa, Rua do Carmo, Vila Berta, Estádio da Luz, Bairro Alto, 24 de Julho, Rua da Palma, Avenidas Novas, Campo de Ourique e Lapa.

Esta dualidade entre o que é e o que parece, leva o autor a misturar habilmente os percursos das personagens que se cruzam no palco da história: Jorge Matos tem problemas já que cheguem com a filha missionária em S. Tomé, Eduarda, a ex-namorada de Cláudio procura singrar no jornalismo cor-de-rosa. Um dos aspectos sempre em relevo é a paixão pela língua portuguesa de que Mário de Carvalho dá provas – lado a lado estão o português de lei («Você é estrebaria, sete fardos por dia») e o português pataxó – «Não Joacyr, não perdoo você por ter matado papai fazendo ele pisar a jararaca». Um livro divertido e bem escrito, retrato dum certo tempo português.

Vinte Linhas 616

«É maluca e dá dentadas» ou a falsa excitação da citação de Sophia

Aqui há tempos, quando foi publicada no «aspirinab» a crónica «Vinte Linhas 500», houve um animal tresmalhado que apareceu a gritar: «Agora que chegaste ao 500, vai-te embora». Claro que não fui. Ele, o animal tresmalhado, já desapareceu de circulação e eu continuo por aqui. Basta ver que já vamos na crónica nº 616 e do tresmalhado nunca mais houve notícia.

Agora, no passado mês de Abril, uma maluca apareceu com uma citação de um poema de Sophia de Mello Breynner Andresen como se fosse um comentário a um poema meu. Só que o efeito acabou por ser contrário ao pretendido, uma espécie de boomerang. A maluca tentou criar um pequeno teatro mas o seu teatro caiu de cangalhas.

Ao pretender «insultar-me» mostrando um poema de Sophia, a paspalhona não percebeu que havendo dois livros meus no catálogo do Círculo de Poesia da Moraes Editores, o pretendido «insulto» voltou-se contra a sua autora. Entre tantos argumentos possíveis esse (Sophia no Círculo de Poesia) era o único que não tinha cabimento no caso. O crivo de qualidade, o conselho de leitura, o nível de exigência é o mesmo e, assim sendo, o ridículo pretendido voltou-se contra a sua organizadora. Tentou encenar um insulto e ficou ela insultada, a grande burra.

A poesia é outra coisa; não aceita concursos de salto em altura. Falhaste a pontaria, ó maluca! O parvalhão do comentário à crónica «Vinte Linhas 500» está à altura da parvalhona do falso insulto com a citação de Sophia. No meu tempo de miúdo dizia-se «É maluca e dá dentadas» e afinal, nesse campo, pouca coisa mudou.

Vinte Linhas 615

«Nirvana de carteiro» na Rua dos Douradores

Está patente até ao dia 30 de Junho na Galeria Fábula Urbis (Rua Augusto Rosa nº 27 – à Sé) a exposição de John Howard Wolf constituída por fotografias suas e excertos do «Livro do Desassossego» de Fernando Pessoa. Ora esse livro, mais do que um livro, é uma imensa colecção de fragmentos da escrita pessoana e organiza-se em torno do espaço e da rua onde Fernando Pessoa vivia e trabalhava (a Rua dos Douradores) na Baixa de Lisboa. Ele chamava a esta rua um «nirvana de carteiro». Segundo John H. Wolf «a noção de Nirvana naquele contexto histórico, significava simplesmente um estado de anestesia em relação aos cuidados, sofrimento e dor exigidos pela realidade mas, de um modo ainda mais importante, pela consciência – sua e a dos outros. A sua angústia e sofrimento dominam de tal modo o seu espectro que ele desejava alcançar um estado de inconsciência e chegava a invejar os que se encontravam nesse estado. Pessoa afirmou que a inconsciência é o fundamento da vida, enquanto a vida dos carteiros é rotineira, uma repetição exaustiva do ritual das cartas e das caixas de correio». Aquele que é o escritor português mais conhecido, escrevia Fernando Pessoa não pertence a ninguém, nem a mim e revoltava-se contra os cientistas classificadores porque, segundo ele, o classificável é infinito e portanto não se pode classificar. O propósito de John H. Wolf ao organizar esta exposição foi, «na medida do possível desmistificar um pouco a imagem de Pessoa projectada por académicos e intelectuais – imagens por vezes exageradas, caricaturadas, orientadas por um alto grau teórico, de erudição seca e, por vezes, ao comando de modas». Fernando Pessoa hoje – a exposição vale a pena.

Balada do Gato Preto (Caldas da Rainha)

Gato preto a meio da rua
Do Hospital para a Praça
Memória que continua
Infância, estado de graça
Cavacas são mais duras
São macios os beijinhos
Se a festa fica às escuras
Vinho é luz dos caminhos
Taberna do Clementino
É paragem derradeira
Minha terra, meu destino
Eu espero aqui a carreira
Foi lá abaixo à estação
Apanhar a automotora
Nunca falha a ligação
E não se pode ir embora

Caldas na segunda-feira
O pai, a mãe, as crianças
Numa carroça ronceira
São décimas das Finanças
Ou as letras reformadas
No Banco de Portugal
Com colheitas queimadas
Em quinzena de temporal
Altifalante diz a viagem
Segue o desdobramento
Nunca chove na garagem
Quente abrigo de cimento
Gato Preto que resiste
Ao tempo, grande erosão
Mesmo num dia triste
Adoça o meu coração

Um livro por semana 232

«O homem do turbante verde» de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho (n.1944) celebra 30 anos de vida literária neste seu 21º título. Trata-se do regresso às origens – depois do romance e do teatro, volta ao conto. São dez histórias no estilo que o autor afirmou ao longo dos tempos – o máximo de rigor vernáculo na narrativa com a imaginação mais desenfreada nos lances do enredo.

São vários os tempos destas histórias. No conto que dá titulo ao volume um grupo de arqueólogos aprisionados é trocado por uma criança («várias culatras a serem puxadas») mas tudo acaba bem: «O que lhe valeu é que os tipos daquele lado também têm amor aos miúdos». Tempo africano. A luta política antes de 1974 surge no conto «A rua dos Remolares» com um cadete-aluno a envolver-se nas actividades clandestinas: «Deixo-te dois cheques assinados. Daqui a uns dias alguém telefona a dizer que é o Eduardo Lopes e a dar-te um endereço no estrangeiro. Memorizas, levantas o dinheiro e remete-lo pelo correio para a morada que for indicada. Não tomes nota. Fixa!» Tempo clandestino. Em «O celacanto» o insólito está presente com o peixe que fugiu da Faculdade de Ciências (velha) onde integrava uma exposição/instalação mas «ao chegar junto à galeria entrou decidido, porta adentro, raspando desajeitadamente a ombreira que ficou com brilho de escamas. Tempo imaginário. Os contos finais passam-se no mundo actual povoado de absurdos (burocracia), de morte (pedofilia) e solidão (divórcio). Em «O cochman» existe um edifício de escritórios onde a portaria deixa entrar o empregado sem cochman («O senhor não está dispensado») mas já não o deixa sair e coloca-o numa sala diferente: «Esta é a única sala que não está ligada à rede de multissom». Tempo absurdo. Africano, clandestino, imaginário e absurdo – são os quatro tempos do livro cuja leitura é um prazer.

(Editora: Caminho, Capa: Rui Garrido, Foto: José Carlos Aleixo)

Vinte Linhas 614

Dissertação para uma memória da Colónia Penal (a Manuel Pacheco)

Era muito fresca a água da fonte das barreiras.

Fresca e pura pois saía do interior da terra castanha da herdade na barreira daquela sua praia privativa no Oceano Atlântico. Foram os reclusos da colónia penal (e alguns guardas com jeito para pegar na pá de pedreiro) que a construíram com tijolos que vinham de Alcoentre numa camioneta verde.

Os velhos púcaros de latão lavavam-se com areia e ficavam a brilhar da limpeza tão simples e tão eficaz. O sol batia de chapa e fazia faíscas nos velhos púcaros que pareciam novos e a estrear.

Está tudo abandonado. O bairro já teve 50 famílias com as suas casas e os seus quintais, as suas pequenas hortas, as árvores pequeninas que o tempo fez crescer e que o abandono matou de secura e aridez. O bairro já teve uma capela que tem as portas fechadas; nunca mais houve baptizados nessa capela do bairro dos guardas prisionais.

O Clube Desportivo ainda tem nas paredes a equipa de futebol da colónia penal numas fotografias antigas, tudo a preto e branco, como são as memórias e as lágrimas. Sim; há pelo menos essa certeza, não há lágrimas a cores. O Clube Desportivo ainda não fechou porque ainda há uma pessoa a servir as bicas escaldadas.

São 1.800 hectares de memórias amargas, uma praia privativa, uma adega repleta de bom vinho. Universo apetecível para especuladores do turismo como indústria. Sei de um antigo guarda prisional que ficou com os olhos marejados e nem o vento do Algarve lhe secou as lágrimas amargas perante aquela desolação e aquele abandono.

Vinte Linhas 613

Alain Donnat – ver a exposição a partir do Blues Jazz Club

Com o arranque previsto para 19 de Maio às 18h 30m na Rua da Misericórdia nº 30 (ao Chiado) para comemorar o segundo aniversário da Allarts Gallery, os quadros de Alain Donnat (n.1947) já podem ser vistos antes da inauguração formal.

Com mais de 50 exposições desde 2001, este francês que nasceu na Alemanha começou a interessar-se por este tipo de pintura incentivado por Jacqueline Bricard.

As paredes da galeria estão povoadas por quatro universos – memórias, música, circo e imaginação. Vasco da Gama e as suas caravelas, um concerto no Pólo Norte, um circo cor-de-rosa e uma árvore que dá mulheres. Quatro exemplos.

Uma fanfarra nocturna tem a ver com o Pierrot ou com os frades provadores de vinho: as coisas são sempre diferentes do que parecem com as pessoas à noite a tocarem música em vez de dormirem ou os frades a provarem vinho em vez de rezarem.

Se o tocador de flauta encanta os elefantes, os pássaros que voam sobre um pic nic são intrusos numa realidade cinzenta e sempre igual.

Os burros que se organizam em viagem num dos quadros são, afinal, no mundo do campo, animais pacíficos e com algum poder de sabedoria – embora relativa.

Diferentes e intrusas são também as cores fortes – o azul, o castanho, o cor-de-rosa. Num certo sentido invadem uma ordem estabelecida com cada cor no seu lugar.

Num certo sentido criam uma nova gramática no modo como olham o mundo à sua volta. O azul da música e dos músicos instala o insólito nos clientes do Clube e nos espectadores do quadro na parede da galeria.

Um livro por semana 231

«O mágico pressentir do artista – entrevistas com José Marmelo e Silva»

Depois de «Leituras de José Marmelo e Silva», Ernesto Rodrigues edita neste volume de 144 páginas as 21 entrevistas concedidas a jornais e revistas entre 1943 e 1987 por José Marmelo e Silva (1911-1991). Um centenário pode servir para homenagens municipais mas também para revisitar um autor e uma obra; as palavras deste livro são uma boa oportunidade. Numa entrevista de 1968 afirma José Marmelo e Silva: «Escrevo porque vivo e quero merecer a minha dignidade humana. Essa dignidade alcança-se criando. Criar é a melhor forma de agir». Sobre o seu trabalho de escritor, responde em 1965: «Sou contra toda a espécie de rotina, nomeadamente, a de escrever assiduamente. Não aceito a arte como um ofício.» As condições da chamada vida literária são assim comentadas em 1943: «Grandes inimigos são o êxito fácil e a pressa de chegar. Os camaradas de café, as luminárias do editor, a crítica inconsciente, quando não abusiva, e fumos semelhantes, embotam a ânsia e a límpida alegria do aperfeiçoamento. Em suma: esquecemo-nos de que triunfo e êxito não são a mesma coisa. O êxito é agradável mas o que vale é o triunfo, ainda que se espere um século». Por fim um exemplo de uma entrevista de 1948: «O descrédito do livro português é a sequência lógica da má orientação editorial e cultural dos últimos anos. Em tempo de paz, éramos um país literariamente ocupado pela França; em tempo de guerra fomos constantemente invadidos pelo lado do mar…»

(Editora: Centro de Estudos José Marmelo e Silva, Edição: Ernesto Rodrigues)