Vinte Linhas 614

Dissertação para uma memória da Colónia Penal (a Manuel Pacheco)

Era muito fresca a água da fonte das barreiras.

Fresca e pura pois saía do interior da terra castanha da herdade na barreira daquela sua praia privativa no Oceano Atlântico. Foram os reclusos da colónia penal (e alguns guardas com jeito para pegar na pá de pedreiro) que a construíram com tijolos que vinham de Alcoentre numa camioneta verde.

Os velhos púcaros de latão lavavam-se com areia e ficavam a brilhar da limpeza tão simples e tão eficaz. O sol batia de chapa e fazia faíscas nos velhos púcaros que pareciam novos e a estrear.

Está tudo abandonado. O bairro já teve 50 famílias com as suas casas e os seus quintais, as suas pequenas hortas, as árvores pequeninas que o tempo fez crescer e que o abandono matou de secura e aridez. O bairro já teve uma capela que tem as portas fechadas; nunca mais houve baptizados nessa capela do bairro dos guardas prisionais.

O Clube Desportivo ainda tem nas paredes a equipa de futebol da colónia penal numas fotografias antigas, tudo a preto e branco, como são as memórias e as lágrimas. Sim; há pelo menos essa certeza, não há lágrimas a cores. O Clube Desportivo ainda não fechou porque ainda há uma pessoa a servir as bicas escaldadas.

São 1.800 hectares de memórias amargas, uma praia privativa, uma adega repleta de bom vinho. Universo apetecível para especuladores do turismo como indústria. Sei de um antigo guarda prisional que ficou com os olhos marejados e nem o vento do Algarve lhe secou as lágrimas amargas perante aquela desolação e aquele abandono.

3 thoughts on “Vinte Linhas 614”

  1. JCF:
    Antes de tudo obrigado. O que aconteceu à Colónia Penal a que se refere não é caso único, infelizmente acontece a tantas outras. Os motivos podem ser diferentes mas resulta no mesmo. Com mágoa vejo o bairro do E. P. Paços de Ferreira cada vez em pior estado. Há uns anos, quando para ali fui trabalhar, dava gosto vê-lo. As casas bem tratadas, os pequenos quintais cultivados com alguns mimos, que serviam para os seus donos os utilizar na culinária. Não faltavam flores plantadas que além de assearem as casas deitavam um cheiro que deliciava quem por ali passava.
    Os terrenos que pertencem ao E. P. não estão cultivados como outrora. Nesse tempo o E. P. recebia muitos presos oriundos de Trás-os-Montes que tinham como profissão a agricultura e estavam condenados por homicídio, davam uma garantia e confiança para integrar as brigadas agrícolas. Hoje a maioria não tem profissão. Também não oferecem confiança e como há falta de guardas nessas brigadas só trabalham presos que estão em Regime Aberto Voltado para o Interior (RAVI).
    Outra causa: quando o sindicato dos guardas por volta de 1988 – nesse tempo também fazia parte da direcção – conseguiu certos subsídios, entre os quais, os de renda de casa, a maioria que habitava nessas casas compraram apartamentos e deixaram de ali viver. O valor do subsídio dava para pagar o valor da prestação e assim algumas casas deixaram de ser habitadas. Os que hoje ali habitam são alguns guardas que não podem usufruir do subsídio, residem a mais de 30 quilómetros, não têm direito ao subsídio e usam as casas nos dias de serviço, nas folgas vão para as suas terras e assim o abandono é mais notado.
    Por isto tudo o abandono e falta de união é o que mais caracteriza. Cada um quer tratar da sua vida e a comunidade desaparece. Acabam as associações culturais e desportivas e cada um ruma para o seu lado. O quer dizer para nenhum.

  2. Tenho muitas histórias. Algumas pícaras outras tristes, conforme o ângulo. Por exemplo a história de um director que levou o seu (dele) pai para a Colónia Penal. O velho andava a cavalo e dava ordens a tudo o que mexia na CP. Quando veio o «25 de Abril» foram todos corridos mas primeiro o velho matou as galinhas e os coelhos e enterrou os pequenos animais num quintal. Se puder leia o livro «Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto» de Mário de Carvalho que tem um conjunto de páginas dentro dessa Colónia Penal. Um abraço JCF

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