Um livro por semana 232

«O homem do turbante verde» de Mário de Carvalho

Mário de Carvalho (n.1944) celebra 30 anos de vida literária neste seu 21º título. Trata-se do regresso às origens – depois do romance e do teatro, volta ao conto. São dez histórias no estilo que o autor afirmou ao longo dos tempos – o máximo de rigor vernáculo na narrativa com a imaginação mais desenfreada nos lances do enredo.

São vários os tempos destas histórias. No conto que dá titulo ao volume um grupo de arqueólogos aprisionados é trocado por uma criança («várias culatras a serem puxadas») mas tudo acaba bem: «O que lhe valeu é que os tipos daquele lado também têm amor aos miúdos». Tempo africano. A luta política antes de 1974 surge no conto «A rua dos Remolares» com um cadete-aluno a envolver-se nas actividades clandestinas: «Deixo-te dois cheques assinados. Daqui a uns dias alguém telefona a dizer que é o Eduardo Lopes e a dar-te um endereço no estrangeiro. Memorizas, levantas o dinheiro e remete-lo pelo correio para a morada que for indicada. Não tomes nota. Fixa!» Tempo clandestino. Em «O celacanto» o insólito está presente com o peixe que fugiu da Faculdade de Ciências (velha) onde integrava uma exposição/instalação mas «ao chegar junto à galeria entrou decidido, porta adentro, raspando desajeitadamente a ombreira que ficou com brilho de escamas. Tempo imaginário. Os contos finais passam-se no mundo actual povoado de absurdos (burocracia), de morte (pedofilia) e solidão (divórcio). Em «O cochman» existe um edifício de escritórios onde a portaria deixa entrar o empregado sem cochman («O senhor não está dispensado») mas já não o deixa sair e coloca-o numa sala diferente: «Esta é a única sala que não está ligada à rede de multissom». Tempo absurdo. Africano, clandestino, imaginário e absurdo – são os quatro tempos do livro cuja leitura é um prazer.

(Editora: Caminho, Capa: Rui Garrido, Foto: José Carlos Aleixo)

15 thoughts on “Um livro por semana 232”

  1. O Mário de Carvalho é um escritor absolutamente fabuloso, e é para mim um paradoxo que ninguém o reconheça. É muito melhor que a maioria dos escritores da sua geração que hoje são celebrados, e extraordinariamente melhor que o Peixoto e esses pequenos.

  2. Caro Luis Gaspar este escritor já ganhou vários prémios da A.P.E. como seja – do conto, do romance e novela, do teatro. Também do Pen Club, Dom Dinis e Cidade de Lisboa. Não é pouco…

  3. O Luis Gaspar quando disse “ninguém” estava a falar do universo das pessoas que não são júris de prémios importantes. E das pessoas que não lêem. E das pessoas que só lêem o José Rodrigues dos Santos e a Maria Rebelo Pinto. E das pessoas que não compram os livros do Mário de Carvalho. E das pessoas que andam distraídas.
    Vocês são uns picuinhas, que mania de embirrar.

  4. pois, como se trata de um autor dificil, está longe de ser popular.

    mas o Mário de Carvalho é um grande escritor e sem queixas da critica ou de quem atrinui prémios.

  5. meu caro «Branco» longe de mim embirrar; eu apenas tentei explicar algo que pode ajudar a perceber o assunto. Apetece acabar com um título do Mário de Carvalho – «Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto»…

  6. Lanço o tema: o que é o “reconhecimento devido”? Como avaliar o “reconhecimento devido”? Como distinguir entre reconhecimento devido e indevido?

  7. pode ser reconhecido pelo numero de leitores que tem, Branco.

    e por aí, Mário de Carvalho não é um escritor de massas, daqueles que vende centenas de milhares de exemplares…

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