E tu e eu o que é que temos que fazer?

Talvez aprender. Talvez pensar. Há um espaço vago, enorme e disforme, que os partidos não habitam e a escola não alimenta, que os agentes económicos ignoram e a academia despreza. Esse espaço chama-se tu e eu, chama-se nós.

Nós estamos cheios de falhas, preconceitos, medos, ilusões. Nós queremos e não queremos ter protagonismo político, porque nós somos e não somos cobardes e valentes. Nós atacamos os poderosos com gritos, os vizinhos com palavras e os miseráveis com silêncios. Nós deixamo-nos andar, mas não estamos a fazer caminho, não chegamos a lado algum se continuarmos à nora.

A paixão pela política é a paixão pela aprendizagem. Por isso a política nasce historicamente quando se abre um espaço nas cidades para o pensamento. O pensamento, pela sua natureza, é sempre um exercício de liberdade. A paixão pela política é, na sua essência, a paixão pela liberdade. A liberdade daqueles que a defendem juntos nas muralhas de pedra ou de leis.

Este espaço não é de esquerda ou direita, porque antecede, envolve e transcende qualquer concretização ideológica. Antes se constitui como o fundador do estádio mais complexo e humanista da civilização. É para este espaço que temos de convidar aqueles que não gostam de política. É neste espaço que nos vamos encontrar e falar. Aprender e pensar. Tu, eu e nós.

Vodka laranja

É indispensável ir fazendo esta história exemplar da vergonhosa colaboração da chamada extrema-esquerda com toda a direita – a dos partidos, a do dinheiro e a da comunicação social – para enlamear a pessoa de Sócrates e deitar abaixo o governo socialista.

A coligação negativa, alimentada pelas octanas do ódio sectário e descerebrado a Sócrates, não se traduziu só em votações no plenário da AR (decisivas só a partir de 2009), pois começou por ser uma colaboração conspirativa permanente nas redacções dos jornais, semanários e TVs, nas colunas de opinião generosamente cedidas a idiotas úteis, nos debates marados da rádio e da televisão, nas miseráveis comissões parlamentares de inquérito, nas alfurjas do ministério público e da polícia judiciária, na própria blogosfera.

Jamais poderei esquecer o afã pidesco de deputados do PCP e do Bloco a secundarem os partidos da direita nas acusações mais idiotas, perversas e inverosímeis contra o governo de Sócrates, como a da alegada tentativa de controlo da comunicação social pelo governo. Jamais esquecerei o comentário cretino do camarada Jerónimo quando o bruxo de Boliqueime e o Público de Belmiro cozinharam a acusação das escutas governamentais a Belém: “Muito preocupante”!

É indispensável fazer essa história e ir insistentemente lembrando aos eleitores distraídos uma verdade constantemente comprovada desde as primeiras décadas do século XX: a chamada extrema-esquerda em Portugal é uma preciosa aliada da direita e, em particular, da direita anti-democrática, não só no papel de provocadores, bufos e idiotas úteis, como no papel de fornecedores de argumentos e álibis para o regresso da direita ao poder. A direita já percebeu há muito tempo que tem de acarinhar, promover, utilizar e comprar por todos os meios possíveis esta extrema-esquerda, inofensiva pela sua idiotice e radicalismo congénitos, mas preciosa aliada para a conquista do poder.

Oferta do nosso amigo Júlio

Vinte Linhas 652

Uma nova livraria no Espaço Chiado

A Gatafunho Loja de Livros abriu no dia 8 de Agosto mas vai ter a inauguração oficial em 24 de Setembro. Fica no Espaço Chiado (Rua da Misericórdia nº 14) mas tem duas entradas do lado do Teatro da Trindade. Entre o Chiado e o Camões, ao lado da muralha fernandina: a história em livro ao lado da história feita pedra. Dedica-se à literatura infantil e juvenil mas também nela se contam histórias em voz alta nos dias 27 de Agosto, 3 e 10 de Setembro com Liliana Lima, Pedro Branco e Cláudia Carrilho. Falta um espaço livreiro temático nesta zona da cidade e o livro infanto-juvenil é uma boa aposta – tal como já existe a Fábula Urbis atrás da Sé (livros sobre Lisboa) e vai existir em 3 de Setembro na Rua D. Pedro V nº 74 uma nova livraria (livros sobre Fernando Pessoa) além da Poesia Incompleta na Rua Cecílio de Sousa nº 11 (livros de Poesia). Sem esquecer a Livraria 1870 na esquina da Travessa de S. José e a Rua de S. Marçal.

Outras há que desapareceram como a Romano Torres frente à igreja de S. Mamede (hoje uma casa de colchões) e a Diário de Notícias no Largo do Chiado (hoje uma loja Hermés) além da Livraria do Senhor Fernando na Travessa da Água da Flor hoje entaipada pelas obras que roubaram 8 lugares de estacionamento aos moradores do Bairro Alto. E sem esquecer a Bocage que começou na Travessa André Valente e, devido a uma inundação camarária, foi levada pela EGEAC para a Calçada do Combro. Anos depois um pobre diabo assinou uma carta miserável da CML a afirmar que a Livraria Bocage estava a cometer um crime de enriquecimento ilícito que é punido com 3 a 6 anos de prisão… Só a estupidez humana não é punida nem na CML nem em lado nenhum pois é infinita como o Universo. Mas isso é outra história e agora interessam mais as novas histórias da Gatafunho Loja de Livros.

Good food for good thought

Pretty much everybody thinks they’re better than average. But in some cultures, people are more self-aggrandizing than in others. Until now, national differences in “self-enhancement” have been chalked up to an East-West individualism-versus-collectivism divide. In the West, where people value independence, personal success, and uniqueness, psychologists have said, self-inflation is more rampant. In the East, where interdependence, harmony, and belonging are valued, modesty prevails.

Now an analysis of data gathered from 1,625 people in 15 culturally diverse countries finds a stronger predictor of self-enhancement: economic inequality.

“We don’t know the precise mechanism, but it seems unlikely that it is primarily an East-West difference,” says University of Kent research associate Steve Loughnan. “It’s got to do with how your society distributes its resources.” The study – whose 19 collaborators represent 16 universities around the globe – will be published in an upcoming issue of Psychological Science, a journal of the Association for Psychological Science.

Loughnan says the study is important for “many domains of psychology.” Until recently psychologists have focused on individual factors affecting wellbeing, such as education or family. But this research shows that “macro-social” factors also matter. “We live inside societies that have certain political and economic realities. These affect how we think about the self and how happy we are.”

Economic policymakers should also take note. “We’re living through a time of considerable economic reform in Western countries,” he says. “The nature of that reform will have a big impact on people’s personal and social wellbeing.” Reform, then, “is not just about making the society richer, but how you distribute those riches.”

Economic Inequality Is Linked to Biased Self-Perception

Bute lá apanhar os gajos, Nuno

Nunca deixarei de defender as minhas ideias e pretendo viver do meu trabalho. Simples, como se vê.

Nuno Ramos de Almeida

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Não posso concordar mais: o que se vê é simples. É de uma simplicidade à prova de estúpidos. E chama-se calúnia. O que não se vê, a motivação para a calúnia selectiva e capitosa, é que permanece como a faceta complicada deste caso.

A calúnia favorita do Nuno, a julgar pelo que lhe leio, começa por envolver Sócrates e Pedro da Silva Pereira, a que provavelmente ainda associará parte, ou o todo, do XIV Governo, chefiado por Guterres. De seguida, a calúnia convoca magistrados não identificados do Ministério Público, os quais teriam afundado o processo Freeport durante 4 anos. Forçados a deixar a coisa voltar à tona por causa dos ingleses, os mesmos magistrados, ou outros, ou os mesmos mais os outros, conseguiram evitar que Sócrates e Pedro da Silva Pereira fossem constituídos arguidos, tendo enterrado de vez o processo a tempo de evitar que Sócrates respondesse a fulcrais perguntas que os procuradores responsáveis pela investigação andavam para lhe fazer, mas que, logo por azar, não tinham ainda arranjado uns dias, horas ou minutos vagos para as colocar. Daqui, a calúnia abraça toda a instituição da Procuradoria-Geral da República, pois aquilo que os neurónios do Nuno descobriram terá de ser, por maioria de razão, do conhecimento do Procurador-Geral e do Conselho Superior do Ministério Público. Finalmente, a calúnia atinge o Presidente da República e o Parlamento, os quais também vêem aquilo que o Nuno não só vê como repete amiúde. Porém, apesar de os factos serem de uma clareza fulminante, nada fizeram, assim levando órgãos com legitimidade representativa conferida pelo voto a serem cúmplices do crime que o Nuno declara ter existido aquando do licenciamento do Freeport. Sim, sem a existência de algum crime talvez esta malta toda não tivesse tido esta trabalheira tanta, infere-se da tese caluniosa.

Continuar a lerBute lá apanhar os gajos, Nuno

Balada do Bairro das Colónias

No terraço das insónias
Na frescura do Verão
É no Bairro das Colónias
Que vejo o meu coração

Minha filha Ana Maria
Nasceu nesta avenida
Foi à hora do meio-dia
Esteve em perigo de vida

Cidade em bilhete-postal
Avião passa dois minutos
Em dias de temporal
Ou nos dias mais enxutos

No ruído da ambulância
Nos neóns da claridade
Se percebe a distância
Das artérias da cidade

Pois tal como uma pessoa
A cidade fica cansada
Se o sol se põe em Lisboa
Sem Lisboa dar por nada

Sinfonia dos telhados
Escada de incêndio a cores
Nascem músicas de fados
No escuro dos corredores

No perfil que se desenha
Entre terraço e janela
Já Lisboa é uma senha
Para entrar numa tela

Foi pintada ao natural
Quando amor é vício
Transporte sentimental
Parado entre o bulício

Ilustres origens

É natural também que muitos de V. Exas. tivessem curiosidade em conhecer o Ministro das Finanças… Aqui está e é, como vêem, uma bem modesta pessoa. Tem uma saúde precária e nunca está doente; tem uma capacidade limitada de trabalho e trabalha sem descanso.

Porquê este milagre? Porque muito boas almas de Portugal oram, anseiam por que continue neste lugar.

Represento nele determinado princípio: represento uma politica de verdade e de sinceridade, contraposta a uma politica de mentira e de segredo.

Advoguei sempre que se fizesse a política da verdade, dizendo-se claramente ao povo a situação do País, para o habituar à ideia dos sacrifícios que haviam um dia de ser feitos, e tanto mais pesado quanto mais tardios.

Advoguei sempre a politica do simples bom senso contra a dos grandiosos planos, tão grandiosos e tão vastos que toda a energia se gastava em admirá-los, faltando-nos as forças para a sua execução.

Advoguei sempre uma politica de administração, tão clara e tão simples como a pode fazer qualquer boa dona de casa – política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos.

(…)

Continuar a lerIlustres origens

A capitulação do jornalista ao capital

Nuno Ramos de Almeida costuma expressar com frequência a sua repulsa pelo período histórico onde calhou nascer. Terá chegado cedo ou tarde demais. Ou talvez a cegonha espacial se tenha enganado no planeta. O certo é que não gosta nada do que vê à sua volta. Está zangado e sabe bem de quem é a culpa: do capitalismo.

O capitalismo, explica usando um argumento geográfico-fatalista, está por todo o lado. Logo, quem precisa de trabalhar, como será infelizmente o seu caso, terá de se dirigir ao capitalismo e pedir uma remuneração. Em troca, o desgraçado compromete-se a aumentar ainda mais o poder do ogre imperialista. É isto ou a morte, esclarece ilibando no mesmo passo o António Figueira, vítima de igual tragédia.

Mas será realmente assim como ele diz? Vejamos alguns exemplos. Que o impede de trabalhar para o PCP, onde o seu talento de jornalista encontraria um ambiente ideologicamente perfeito ou, no mínimo, sofrível, desse modo evitando a actual servidão? Ou que o impede de viver de biscates e esmolas, precisamente por sofrer de uma doença incapacitante, o anticapitalismo? Ou que o impede de se dedicar a roubar aos ricos para dar aos pobres, de caminho ficando com uma pequenina parte para o pão e o tabaco?

Há algo de muito enigmático na sua rendição e apoio ao capitalismo. Começo a desconfiar que o Nuno pode até ter recebido envelopes castanhos com vales de compras para o Freeport só para boicotar a investigação da senhora Moura Guedes. Isso explicaria o fiasco da operação que estava quase a mandar Sócrates para o chilindró. É que coisas mais estranhas já terão acontecido, pelo menos a acreditar em certos jornalistas.

Um livro por semana 248

«O Cinema chegou a Portugal» de A.J. Ferreira

António Joaquim Ferreira nasceu em 1924 (Gouveia) e tem desenvolvido o seu interesse de investigador em duas áreas: o Cinema e a Literatura infanto-juvenil. É o autor de «A fotografia animada em Portugal» (1986) e de «Animatógrafos de Lisboa e do Porto» (1986-1989).

Neste livro com muitas fotografias e reproduções de notícias de jornais da época, o autor recorda como em 28-12-1894 surgiu nas lojas do Hotel Avenida Palace uma projecção de Lanterna Mágica, vistas estereoscópicas e a fotografia viva. Em 6-3-1895 apareceu o Kinetoscópio na Casa Travassos do Rossio e em 18-6-1896 foi apresentado o Teatrógrafo com 8 filmes no Real Coliseu da Rua da Palma. D. Carlos e D. Afonso (seu irmão) assistiram ao Animatógrafo Colossal de 27-8-1896: a chegada do expresso de Paris ao porto de Calais.

O operador Henry Short, enviado a Portugal por Robert Paul, filmou uma tourada e a Boca do Inferno em Cascais. Filmou também, no Retiro da Pipa, no alto da Avenida da Liberdade, uma luta de jogo-do-pau entre Sousa Santos e Ambrósio Blanco: eles foram os primeiros actores portugueses de Cinema.

Aurélio Paz dos Reis é outro dos pioneiros aqui referidos: viu no Porto o animatógrafo Rousby e acreditou nas possibilidades comerciais do novo invento. Foi a Paris e comprou um aparelho cinematográfico, um Kinetographe de G.W. de Bedts. Já no Porto filmou umas manobras de bombeiros e um cortejo eclesiástico. Outros se seguiram: uma feira de gado, um Zé Pereira, um jogo-do-pau e uma saída do pessoal operário da Fábrica Confiança. O cinema tinha chegado a Portugal.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Revisão: Sónia Barros, Capa: The Strand Magazine)

O desvio. Mas que desvio? O desvio.

O PSD adoptou, como estratégia geral para a justificação das medidas mais duras de pendor puramente ideológico e até experimentalista, a menção da existência de um desvio nas contas públicas, da responsabilidade do anterior governo, ao qual alude sistematicamente em termos nebulosos, e, como estratégia particular para a Assembleia da República, a invocação desse desvio, adjectivado ou não, sempre que pretende calar as críticas da bancada do PS (enfim, as até agora “elegantes” objecções, salvo raras excepções – João Galamba, Basílio Horta e poucos mais).
Se o PS questiona o imposto extraordinário, atira-se-lhe com o desvio. Se questiona a descida da TSU, lá vem o desvio. O aumento do IVA? Desvio. Qual desvio? O que vem nos jornais. Mas qual? O que engloba as dívidas da Madeira e a capitalização do BPN? “O desvio que nós decidimos, não chateiem”, parecem dizer. E não há direito a perguntas em conferências de imprensa. Ora, a execução orçamental do primeiro semestre não mostra qualquer desvio, muito pelo contrário. Isto é sabujice descarada.

O nojo de estratégia seguida pelo PSD, e também pelo CDS, nos últimos seis anos prossegue. Está-lhes na massa do sangue. Mentem sem quaisquer escrúpulos, inventam, fingem que são muito dignos, muito transparentes, mas insinuam, acusam indirectamente, não olham a meios, manobram nos bastidores. Agora que têm a maioria depois de um autêntico golpe de Estado assente na intoxicação da opinião pública, entendem que tudo lhes é permitido. Veremos até quando. Entretanto, o país vai-se afundando, o que é trágico.
O “desvio” invocado a propósito de tudo e de nada apenas pretende desviar, sim, mas as atenções do autêntico “assalto à diligência” do Estado a que todos os dias assistimos pelos filiados, amigos e colaboradores no festim do assassinato de Sócrates.

*****
Diz agora o Relvas que descobriu numa sala do IDP facturas no valor de mais de 6 milhões de euros não contabilizados. O que é isto? É verdade? Falou com os responsáveis anteriores? Ou é só mais lama?
Tenho a impressão de que o governo se despachou a deixar-nos zonzos com o saque aos nossos bolsos para poder ir de férias (e o Passos, ainda é primeiro-ministro?) e deixar o Relvas a traficar (Crespo e sabe-se lá que mais manobras) e a escrever guiões de filmes classe B…, como o da sala assombrada.

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Alguém viu por aí a ministra da Justiça?

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O ministro da Educação mostra-se tão tão receptivo, afíbrico mesmo, que até os sindicatos já perceberam que a porta está completamente escancarada e é só ir entrando… O ensino vai voltar à cepa torta de antes de 2005. Uma tristeza.

Saudades do PEC IV

O valor provisório do défice do Estado nos primeiros sete meses situou-se nos 6,687 mil milhões de euros, registando uma melhoria de 2,243 mil milhões face ao período homólogo, de acordo com dados divulgados esta segunda-feira.

Perante estes números, o deputado João Galamba, do maior partido da oposição, começou por dizer que espera que «o Governo seja capaz de continuar o bom trabalho do governo anterior nos primeiros meses do ano, ou seja, executar este difícil Orçamento [de Estado] para 2011 e atingir o défice de 5,9» por cento este ano.

Fonte

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Todos os números que têm saído durante 2011 – onde se incluem o levantamento e a avaliação do trio FMI, BCE e CE – confirmam esta ideia: Portugal tinha boas condições para evitar o recurso ao empréstimo forçado. A redução na despesa é histórica e os resultados pelo lado das receitas seriam até muito melhores caso o País não tivesse entrado em crise política, situação que levou a uma abrupta retracção económica desde Março devido à instabilidade causada pelas eleições e pela adopção das medidas acordadas para o resgate financeiro. Socialmente, os portugueses estavam dispostos a aceitar um período de ainda maior austeridade, concretizado no PEC IV, pois compreendiam que tal advinha do contexto internacional. Só que Cavaco, PSD e CDS preferiam a ameaça de bancarrota, pois viam nela a possibilidade de chegar ao poder nas piores condições eleitorais para Sócrates. Era agora ou nunca, com a vantagem da ruína do Estado permitir o seu desmembramento sob a capa do cumprimento do acordo com os senhores estrangeiros. Aqueles que desejaram o pior para Portugal conseguiram o que queriam, e ficaram felicíssimos.

Esta história terá de ser contada muitas vezes.

Lei da selva

Relvas, o boca suja, acaba de requisitar António Figueira para o seu círculo de assessores. O Miguel mostra os detalhes da operação. Para além deste magnata bolchevique, Relvas tem na sua equipa mais dois bloggers que se notabilizaram pelo entusiasmo com que aderiram à campanha de ódio contra Sócrates e PS na anterior legislatura. Isto significa que Relvas pretende estar rodeado de conselheiros à sua imagem e semelhança: um cocktail de fanáticos onde se misturam salazaristas, soviéticos e grandes secas.

É curioso atentar no destino do 5 Dias, um blogue que começou com um promissor formato onde 5 autores ocupariam os dias da semana à vez, fazendo uma edição personalizada de segunda a sexta. Depois, com as sucessivas alterações do elenco, o conceito foi abandonado, tendo chegado a ser uma vasta plataforma de reunião da esquerda, PS incluído. As usuais forças centrífugas em blogues colectivos romperam esta convivência nos finais de 2008. Daí para cá, encontrou o seu posicionamento numa colagem ao PCP e num culto niilista da violência. Carlos Vidal e Renato Teixeira são os mais exuberantes obreiros de um marketing que os restantes autores aprovam e aproveitam. O estilo hard-core é um sucesso no mercado.

O 5 Dias acabou por ser o blogue do Nuno Ramos de Almeida, um dos fundadores. O Nuno é a matriz que inspira o actual folclore radical anti-poder e anti-sistema. Acontece que ele próprio depende do sistema, sendo um jornalista que trabalha para os maiores capitalistas e reaccionários que tenham serviço para lhe dar. Foi assim que andou alegremente na TVI a mando da Moura Guedes. A sua paixão era o Caso Freeport, sobre o qual escrevia no blogue para caluniar Sócrates e o Ministério Público. Também prometia iminentes e fatais revelações, do alto da sua autoridade profissional e suposta investigação – espero que ainda as esteja a escrever e que elas permitam apanhar rapidamente os bandidos que já se vai fazendo tarde.

A aliança entre passarões vermelhos e tubarões cinzentos é natural, pois têm um inimigo comum: a democracia. Enquanto não conseguirem derrotá-la, estarão unidos. Caso a vençam, saltarão imediatamente para as gargantas uns dos outros. É a lei da selva.

Vinte Linhas 651

Aniceto Carmona no esplendor do efémero

Ele é um homem que vem de muito longe. Ajudou a fazer jornais desde os tempos antigos dos granéis de chumbo quando os homens de fato de macaco azul morriam novos. Muito para lá das portas das grandes oficinas de onde os jornais saíam na pressa de não perder a ligação aos comboios para Norte e para Sul.

Aniceto Carmona ora aparece na Internet por causa da caricatura de Alfredo Marceneiro ou de Shimon Peres mas também desenha num obscuro jornal de província. Outro dia vi um trabalho seu no jornal do Casa Pia mas as suas caricaturas englobam também memórias de jornais e de revistas que deixaram de circular: a Flama e o Diário Ilustrado, por exemplo.

Continuar a lerVinte Linhas 651

Propaganda para totós

A JSD é uma organização política que promove assassinatos de carácter. Essa prática não é uma aberração de que se arrependam, nem um momentâneo desvario, antes o corolário da cultura em que se formam os seus dirigentes. Passos Coelho foi aqui talhado, uma escola onde se ensina a fazer política de acordo com os bolorentos princípios de máxima hipocrisia: tudo é fingimento no espaço público; o poder ganha-se pelo engano; a ética não passa de um calhau para mandar às fuças dos adversários.

Como é lógico, e já tem milhares de anos de reconhecimento, os mentirosos mais perversos são quem mais se agarra à bandeira da verdade para a utilizar em seu proveito. A verdade embriaga os seus acólitos, levando-os para um frenesim erótico, por isso atrai tanto e tantos. O sentimento de superioridade absoluta desperta neles alucinados instintos de sobrevivência, gerando violência sem limites. Quem tem a verdade numa mão, como disse um velho-jovem de barbas brancas, tem sempre a inquisição na outra. Esta forma de fazer política acaba de obter um grande triunfo, estando agora a exercer o poder no Parlamento, no Governo e na Presidência da República, para além de também dominar a comunicação social. Qual o reverso da medalha, que fazem quando não estão a caluniar e a conspirar?

O mais recente cartaz da JSD oferece uma luminosa resposta, entre tantas possíveis. Mas esta tem a beleza de ser uma síntese feliz da basicidade que rege a comunicação partidária quando a única ideologia seguida é a da sonsice debochada. Cá temos agora os laranjinhas com uma mensagem que se pretende supra-partidária e no respeito pelo estrito interesse nacional, mas a qual jamais aceitariam subscrever caso estivessem na oposição. Para além disso, o subtexto do apelo à união convoca o cenário de crise extrema – a tal que o PSD provocou precisamente por ter recusado fazer o seu dever patriótico em defesa do País quando tal lhe foi pedido – em ordem a exigir um compromisso moral por parte do leitor deste repto senhorial. Quem se recusar a ser uma peça do actual puzzle de interesses, avisa a JSD, boicota a salvação de Portugal.

Estamos perante propaganda para totós. Contudo, e embora os totós correspondam a uma larga fatia do eleitorado, não estamos é dispostos a aturar totós.

Um livro por semana 247

«História da vida privada em Portugal – Os nossos dias»

Dirigido por José Mattoso e coordenado por Ana Nunes de Almeida, este IV volume engloba um arco temporal de 1950 à primeira década do século XXI. A vida privada como tema muito deve à geração dos «Annales» em França que teve a coragem de, sem esquecer a política e o poder, trazer para os estudos históricos o domínio dos sentimentos, das atitudes e crenças, dos comportamentos perante o nascimento, a sexualidade, a morte e as idades da vida.

Em 1950 Portugal era um país pequeno, pobre e católico, com níveis baixos de escolarização e qualificação, uma agricultura estagnada e um regime político orgulhosamente só. Como definiu Sedas Nunes «uma imensa manta tradicional descosida por estreitos rasgões de modernidade». Portugal não foi, nunca foi, um país de brandos costumes como queria Salazar. A violência estava inscrita no âmago das relações sociais. O Instituto de Medicina Legal de Lisboa só no dia 2 de Setembro de 1950 examinou 49 casos de vários tipos de ofensas corporais. A criada de servir era uma figura social com presença expressiva nos espaços públicos e privados da época (anos 50) e vista como ameaça à moral e aos bons costumes mas a realidade era outra: num inquérito da Misericórdia de Lisboa em 1959 junto de 395 prostitutas, 73% destas tinham sido postas na rua depois de os seus patrões as engravidarem.

A violência doméstica pode ter vários matizes. Por exemplo a violência verbal da mulher: «Às vezes digo coisas ao meu marido e ele fica de tal forma aniquilado que durante uns tempos não me chateia com mais nada!». Ou como refere uma médica: «As mulheres são muito mais de azucrinar os maridos com isto e com aquilo e com aqueloutro e com mais não sei o quê! Pimba, pimba, pimba, isso pode ser também considerado uma violência.»

O livro de 415 páginas divide-se em 3 capítulos e integra 11 textos de 10 autores convidados.

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Design: Leonor Antunes)