Aqueles que culparam Constâncio pelas golpadas no BCP, BPN e BPP, estão agora a citá-lo por causa das obras públicas. Estes cata-ventos, contudo, não estão ligados à rede energética nacional. Se estivessem, as importações de petróleo cairiam para metade.
Arquivo mensal: Maio 2010
Desce e sobe
Tirando os especialistas, mesmo que autodidactas, e os que detém informação privilegiada, mesmo que adquirida livremente, o resto da população está destinada a enlouquecer se gastar emoções com o que se passa na economia. Pura e simplesmente, a complexidade do fenómeno, para quem está a olhar para o palácio, torna inútil ter a mínima pretensão acerca do que os acontecimentos significam.
O exemplo mais simples é o da bolsa. A bolsa sobe e desce, precisamente o que é suposto que aconteça: subir e descer por ciclos e devido a factores aleatórios. Descer é mau? Os catastrofistas da actualidade reagem como os hipocondríacos, vêem nas descidas o prenúncio do fim da civilização ocidental. Porquê? Porque estão apavorados e querem consolo, uns, porque qualquer pretexto serve para acirrar a irracionalidade das massas, outros. Se acalmassem, tomariam como ideia lunática esse cenário em que os países preferissem o caos ou não fossem capazes de se organizar em modelos de subsistência e crescimento. É que sempre assim aconteceu, apesar de horrendas catástrofes, e com crescente sucesso. Que mariquice é esta com o Euro?…
Quando a bolsa cai, pode ser altura para comprar. Ou para esperar que desça ainda mais, de modo a pagar ainda menos e aumentar o lucro futuro. Quem fala da bolsa, fala da lógica de qualquer outro investimento, onde as conjunturas negativas podem ser propícias se aproveitadas com coragem. Se o plano for o de manter o capitalismo, o sistema inventa formas de crescer – por isso afasta o caos e alimenta a liberdade.
Como ensinava Heraclito, o caminho por onde se desce é o caminho por onde se sobe.
Crespopatia
O que se passa no Jornal das Nove não se vê em mais lado nenhum da televisão portuguesa. A coberto de um formato noticioso, Crespo dá tempo de antena a todo o refugo cavaquista e demais grémios ressabiados anti-Sócrates. Medina Carreira conseguiu lá ir 1689 vezes, só no último ano, apesar desta dupla ter palco semanal garantido. Para além dos convidados, as peças que abrem o pseudo-noticiário são panfletos que tentam emular a Noite da Má Língua, mas reduzidos a um único alvo.
Sim, Balsemão que faça o que quiser com o seu dinheiro, que ninguém é obrigado a suportar a porqueira. Porém, contudo, todavia, há um enigma a crescer: que leva as vítimas da sua sanha a não só se prestarem ao espectáculo como a manifestaram uma deferência para com a criatura que nada – absolutamente nada! – justifica? Crespo é sabujo para com os aliados e sujo com os adversários. Não apresenta questões, faz libelos em forma de perguntas que depois contradita dramaticamente quando não correspondem ao seu guião. Especialmente avacalhante é o subtexto decadente que promove sem descanso, onde expressa um soberbo desprezo pela classe política e instituições da República. E tudo isto feito em nome de uma putativa superioridade moral que varre qualquer discurso que lhe apareça à frente para o grande esgoto da sua megalomania.
Durante muito tempo frustrei-me sem entender o que levava o aparentemente urbano e estimável António José Teixeira a permitir o continuado desaforo lesa qualidade da democracia no lugar onde se devia apresentar jornalismo. Depois, na campanha para o PSD, ficou claro que o director da SIC-N apoiava o Rangel. Assim, já a coisa fazia pleno sentido. A fome tinha-se juntado à vontade de comer.
V9
Com os meus contactos na assembleia, tive acesso às perguntas a que o Primeiro-ministro terá que responder, e que vão finalmente esclarecer cabalmente toda esta situação. Aqui vão:
1 – O Sr. primeiro-ministro ordenou a compra da TVI pela PT com o intuito de afastar Manuela Moura Guedes?
2- Tem a certeza?
3- Absoluta?
4 – Só pode estar a brincar. Isto é um caso muito sério. Acha que alguém acredita nisso?
5 – Não quer pensar melhor, e mudar as respostas 1-4?
6 – Você é teimoso, caramba. Acha que essa sua teimosia influenciou a sua resposta às perguntas acima?
7 – Que credibilidade tem então o Sr. primeiro-ministro, tendo em conta que mente descaradamente nas respostas anteriores?
8 – Mais uma vez, você não está claramente a perceber a gravidade do caso. É ou não verdade que tentou comprar a TVI para afastar o casal Moniz?
9 – Ah! Não tentou afastar o casal Moniz. Então, sendo assim, admite que o objectivo era apenas afastar Manuela Moura Guedes?
10 – Mas se não tinha intenção de afastar Manuela Moura Guedes, porque é que mandou comprar a TVI? Não vê a contradição?
…
42 – Estamos cansados das suas mentiras, e fartos de lhe dizer que isto é um caso sério. Reveja por favor as respostas 1-41. Não as quer alterar?
43 – Porque é que insiste em mentir a esta comissão?
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66 – No pequeno almoço com Figo, quem é que pagou a conta dos galões e torradas?
67 – Se foi o Sr. primeiro-ministro, não acha que é um abuso dos recursos do estado?
68 – Se foi Figo, acha que é adequado receber benesses de particulares? Conhece a expressão “não há pequenos-almoços grátis”?
…
74 – Se fosse homenzinho, tinha vindo a esta comissão pessoalmente responder. Há algum problema com a sua masculinidade?
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Oferta do nosso amigo Vega9000
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Quando à ida de Silva Pereira ao tribunal da santa aliança, ler o Miguel
Transparências
Não é possível a nenhum político ser mais transparente do que o foi Ricardo Rodrigues: estando na Assembleia da República, e a ser filmado, apropriou-se de material que pertencia aos jornalistas que o entrevistavam.
Depois disto, ver naquela cabeça a frieza para cometer crimes que a Justiça não consegue detectar é temerário. Quem o ataca com essas suspeições também se mostra transparente.
Vinte Linhas 478
A festa de despedida de Iordanov
Ele terá sido o mais português dos búlgaros que passaram pelo futebol português. Ontem à noite também lá estive em Alvalade para a festa de despedida. Foi engraçado ver algumas «barriguitas» de jogadores que ainda sabem colocar a bola a 40 metros quando é preciso. Viram-se golos para todos os gostos – até um auto-golo de André Cruz, coisa rara num predestinado, ele que foi o melhor jogador do Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Seoul em 1988. Não sei porquê (não li jornais) a verdade é que não vi em campo o Balakov, o responsável pelo único atrito que envolveu o Iordanov. Muita gente lá dentro do Sporting achava (e com razão) que Balakov prejudicou muito o Juskowiak, ignorando-o muitas vezes para passar a bola ao seu compatriota Iordanov.
Ora o Juskowiak tinha sido apenas o melhor jogador do Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. Mas tinha o azar de ser polaco, André de seu nome próprio, coisa que o prejudicava grandemente perante Balakov, o maestro que eu vi estrear-se num jogo da Taça de Portugal contra o Desportivo de Peniche.
Foi uma festa cheia de nostalgia. A festa em si só aconteceu porque um Tribunal deu razão ao jogador. Por vontade dos «responsáveis» leoninos a festa não teria acontecido. Mesmo estando prevista no contrato celebrado entre as duas partes. Depois foi a questão dos ausentes: pelo Balakov lembrei-me do Juskowiak, o elegante jogador que foi prejudicado pela aliança entre búlgaros. Na altura ninguém se chegou à frente para defender os interesses do Sporting. Um dia Sousa Cintra desabafou para mim e para Carlos Pinhão – «o Sporting não é uma família, é um grupo de famílias…»
Dixit
Intermitência
“És bom na cama”, pergunta, esfomeada, a mulher ao jovem de aspecto másculo encostado, entre as luzes que brilham alto e a música que toca em raios de suor, a si. “Até agora nunca nenhuma mulher se queixou”, responde, confiante e orgulhoso, ele. E, poucos minutos mais tarde, ali estão, os dois, nus e excitados, sobre os lençóis molhados. Sentem-se, ambos, surpreendidos. Ela por, ao fim de apenas dois minutos, ele já ter chegado ao orgasmo. E ele por, finalmente, ter perdido a virgindade.
Vinte Linhas 477
Dissertação breve para as vozes de Isabel e de Clara
Há, na tonalidade da voz de Isabel, o esplendor da pedra, a humidade das neblinas e a força da Terra-Mãe que multiplica nas colheitas abundantes toda a esperança das sementeiras. No arraial da aldeia da Serra havia todas as coisas da terra e todos os produtos da mão do homem: pão e cestos de vime, compotas e vasos de jovens plantas, feijão e tapetes tecidos à noite num tear, batatas e bolos caseiros para dias de festa.
Ligando tudo e todos, a voz de Isabel prolonga a harmonia das terras e dos homens na manhã de Maio. Canta devagar como quem reza uma oração a ligar de novo o que o tempo, a distância e a morte separaram no coração de todos nós.
Há, na tonalidade da voz de Clara, o clamor das ondas na praia e a paciência vagarosa do vento nas dunas. Depois do prazer de palmilhar as cores vivas e a geometria das casas da Costa Nova, bebemos um café no autocarro-bar. Em vez do cobrador um empregado traz os cafés e a conta. Entre os estudantes com o futuro no olhar e as visitas resignadas à doença que se prolonga no Hospital todas as semanas, a voz de Clara instala um discurso de ternura. Nele circulam memórias vivas de poemas e de canções, casas clandestinas onde vinham dormir amigos de passagem, vidas cruzadas com gente que não morre porque não se esquece no coração de todos nós.
Na geografia sentimental deste dia é dupla a ligação entre Manhouce e Aveiro, entre a voz de Isabel e a voz de Clara: além da massa líquida do Rio Vouga permanece a massa sonora da voz de José Afonso que nasceu em Aveiro, andou pelo Mundo e sempre cantou as canções da voz do Povo das aldeias da Beira Alta.
Sabedoria da vizinha
A comissão de inquérito vai enviar a Sócrates 74 perguntas, fala-se em prolongar os trabalhos para além do prazo acordado, o Taguspark é o novo alvo, esperam-se transcrições de escutas e o PSD ameaça levar o Procurador-Geral a tribunal para conseguir sacar o máximo de informações obtidas com a espionagem política feita em Aveiro. Esta comissão investiga um negócio legítimo entre privados que não chegou a ser feito por pressão pública da oposição e do Presidente da República.
Quando Oliveira e Costa foi à comissão de inquérito ao BPN, depois de se ter recusado a falar, trataram-no como uma rock star. Avisou ter ficado muito mais para contar, pelo que tivessem juizinho com ele, e quase que saía em ombros com aclamação geral. A comissão lidava com um calote que poderá chegar aos 10 mil milhões de euros. Ao contrário de todos os casos que permitem criar suspeições contra Sócrates, o BPN é alérgico às violações do segredo de Justiça, as capas dos jornais têm azar com esta rapaziada.
É como diz a minha vizinha do 4º andar, não há duas comissões de inquérito iguais.
Fraternidade
A Palmira é uma das subscritoras da petição Cidadãos pela Laicidade, a qual talvez te interesse conhecer e assinar.
Eu não a assinarei – por a considerar falaciosa, confusa, sectária e irrelevante – mas o pleonasmo é inatacável: ser cidadão implica a assunção da laicidade.
Segundo poema para Manuel Fernandes (1986)
Não lhe podem já tirar tudo
Mas escondem-lhe o nome, os golos
As vozes de quem, nas humildes casas
Lhe grita o nome à volta do som dum rádio
Nas tardes interrompidas dum quotidiano igual.
Não são homens – são sombras, escondem o rosto
Furtivos, fechados nos gabinetes, nos automóveis
Roubam os sonhos, decretam a morte civil
Dum jogador assim perseguido sem porquê.
Não lhe podem já tirar tudo
Ao menos ficam os troféus oficiais, as recordações
As homenagens mais particulares
As fotografias dos jornais e os abraços
Dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Não são homens – são sinais dum castigo
Que se perde no fundo do tempo, longe
Lá onde começou a primeira de todas as guerras
Lá onde tábuas de morte se pregaram num coração.
Cavaquismo apocalíptico
O Eduardo antecipou-se e já fez a pergunta:
Não seria mais consentâneo com os seus pergaminhos formarem um partido de salvação nacional e irem a votos na primeira oportunidade?
Mas isso eles não querem, a democracia dá muito trabalho. Quem passou uma vida nas canseiras da opulência merece o remanso do Palácio de Belém, onde os graves assuntos de Estado se decidem entre chazinhos e torradinhas.
Dixit
Publicidade que não engana
Grands seigneurs
A exclusão de Passos Coelho e Miguel Relvas do Parlamento levou a que Miguel Macedo tivesse sido escolhido para liderar a bancada. Acontece que esta é uma opção medíocre, pese a simpatia que a sua figura cavalheiresca possa suscitar. Macedo é limitado nos recursos oratórios e vago na argumentação. Acima de tudo, não representa com fidelidade o presidente do partido, é uma solução de recurso.
Ferreira Leite e Pacheco quiseram vingar-se de Passos e não se importaram nadinha de nada com as consequências; fosse na imagem do partido para as eleições ou na qualidade do grupo parlamentar. Importava era o castigo, humilhar quem tinha ousado fazer-lhes frente, quem se entregou à disputa do poder interno. O facto de Passos ter concorrido um ano antes para presidente não contava, ter sido indicado pela distrital de Vila Real também não. É este o código de conduta dos grands seigneurs: matam sem misericórdia os fidalgotes que os ameaçam. O vale tudo não é um espasmo de desespero, antes um automatismo cultivado com deleite – desde as promessas de vingança do Pacheco contra os anónimos dos blogues que ousavam ser críticos do PSD até à manipulação do Parlamento e da Justiça para fazer assassinatos de carácter. São muitos séculos de soberba terratenente, uma crença debochada na impunidade.
A ira persecutória deste PSD decadente acabou por nos prejudicar a todos, visto não termos o líder do maior partido da oposição na linha da frente do combate. Isso, curiosamente, acaba por o proteger, pois não está sujeito ao confronto com Sócrates. Passos tem a ganhar estando em silêncio, tal e qual o que Ângelo Correia queria que Menezes tivesse feito. Como sabemos, o visionário de Gaia fez tudo menos estar calado, com os esplendorosos resultados que rapidamente apareceram para exasperação do Ângelo. Passos não tem apenas o patrono, tem também um problema similar ao de Menezes, uma característica que se descreve com três letrinhas apenas: oco. Assim, a sua estratégia vai ser a de só começar a expor-se quando se moer Sócrates para lá da recuperação – fenómeno que não é garantido, porém, dependendo do que acontecer em duas frentes imprevistas, economia e Justiça.
Entretanto, Miguel Macedo, chega aqui. Vou dar-te o grande conselho da tua vida: sê tu próprio. Sim, já o conhecias, mas dito por mim é outra loiça. Não vás para os debates armar-te ao pingarelho, por favor, porque não tens estaleca para isso. Escolhe antes a via da suavidade, da calma, da classe. Marca a diferença recusando a retórica balofa e cretina do Rangel, do Portas, do Louçã, do Jerónimo. Sê tu próprio, respira. Respira fundo, homem. Os pensamentos profundos começam no diafragma, como bem sabiam os antigos.
Dixit
Pub
André Nadais, Danilo Teixeira e Tierri Oliveira, alunos do 12.º A da Escola Secundária José Macedo Fragateiro, em Ovar, decidiram abordar o tema “Emergência Médica e Socorrismo”, no âmbito da disciplina de Área de Projecto. Assim, o projecto Posto de Socorro foi iniciado e tem como principal objectivo consciencializar a comunidade escolar para a importância de ganhar conhecimentos básicos para intervir em caso de emergência.
Uma excelente ideia, não é?
Os cínicos ladram
Neste texto, que se lê em 5 minutos (muito menos se não pescas nada de inglês), encontramos citações de estudos que reforçam esta ideia: desconfiamos uns dos outros porque temos medo de confiar – caso confiássemos, rapidamente confirmaríamos que há muitos à nossa volta a merecer tanta confiança como aquela que outorgamos a nós próprios (ou mais, e muito mais…).
Esta evidência, pois se trata de algo evidente em todos os lugares, lembrou-me uma das minhas passagens favoritas do Evangelho, a Parábola dos Talentos:
Acontecerá como um homem que ia viajar para o estrangeiro. Chamando os seus empregados, entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e um ao terceiro: a cada qual de acordo com a própria capacidade. Em seguida, viajou para o estrangeiro. O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles e lucrou outros cinco. Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu patrão.
Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi ajustar contas com os empregados. O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: “Senhor, entregaste-me cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei”. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu confiar-te-ei muito mais. Vem participar da minha alegria”. Chegou também o que havia recebido dois talentos e disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei”. O patrão disse: “Muito bem, empregado bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu confiar-te-ei muito mais. Vem participar da minha alegria”. Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento e disse: “Senhor, eu sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e recolhes onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence”.
O patrão respondeu-lhe: “Empregado mau e preguiçoso! Sabias que eu colho onde não plantei e que recolho onde não semeei. Então devias ter depositado o meu dinheiro no banco, para que, no meu regresso, eu recebesse com juros o que me pertence”. Em seguida o patrão ordenou: “Tirai-lhe o talento e dai-o ao que tem dez. Porque, a todo aquele que tem, será dado mais, e terá em abundância. Mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a este empregado inútil, lançai-o lá fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes”.
Eis uma sabedoria milenar que não pode ser mais actual e universal. O medo de perder inibe, atrofia, mata. A confiança, ao contrário, é uma força, um movimento, uma abertura. É também da confiança que nasce a sorte, porque a sorte é o resultado matemático da multiplicação das oportunidades.
Os cínicos sempre ladraram, por medo. Em Portugal estão à direita e à esquerda, em pânico, raivosos. Mas há uma caravana a passar, e que já não vai parar.
Espionagem política – Modo de usar
Quer o juiz, quer o procurador do Ministério Público de Aveiro, João Marques Vidal, se mostraram disponíveis para enviar os documentos solicitados pela CPI. Aliás, o procurador até defendeu, tal como o DN adiantou ontem, a existência de um “interesse objectivo” no conhecimento de tais factos, por forma a que se faça uma análise mais cuidada do caso. Marques Vidal até chegou a fazer a contabilidade do número de escutas feitas a Armando Vara e Paulo Penedos que constam do processo relacionadas com o caso TVI: ao todo, das já transcritas, são 173 conversas. Destas, 144 ocorreram no mês de Junho de 2009, uma data central em todo o processo de aquisição de parte do capital da TVI pela PT. Mesmo assim, João Marques Vidal salientou aos deputados que aquele número foi o apurado pela investigação de Aveiro antes de enviar as certidões para a Procuradoria geral da República. “Não é de afastar que existam outras comunicações relevantes”, escreveu o procurador.
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Conversas entre um advogado e um funcionário bancário, respeitantes a negócios entre privados e assuntos pessoais, foram gravadas sem aviso e sem autorização, permanecendo disponíveis para deputados que têm um interesse declarado em confirmar suspeitas relativas ao carácter e privacidade do Primeiro-Ministro.
Temos de louvar o pessoal de Aveiro, uma tramóia destas nunca antes tinha sido sequer tentada em Portugal. E agora que todos os magistrados e juízes sabem como se faz, e que não acarreta qualquer tipo de risco – tendo-se chegado a ameaçar fazer rolar as cabeças do Procurador-Geral e do Presidente do Supremo – imagino o alvoroço que vai por essas comarcas afora. Afinal, não consta que Manuel Godinho tenha sido o único cidadão a ter negócios com o Estado, apenas se deu o caso de ter sido muito, mas mesmo muito, bem escolhido. Foi a desculpa certa no ano eleitoral adequado.
É repetir a dose até se obter o efeito desejado.



