Parabéns a vocês – II

Em nome de todos vocês, muito obrigado pelas generosas mensagens de parabéns. Este blogue é uma aberração segundo as regras não escritas dos blogues colectivos. Já esteve para acabar em 2006, menos de um ano depois de ter começado (aliás, apenas 4 ou 5 meses depois). De lá para cá, repetiram-se as ocasiões de fechar a porta, de acordo com os inevitáveis ciclos de conflito e desgaste nas relações humanas. É essa, também, a beleza deste meio de comunicação, a leveza com que se inicia e acaba, a irrelevância disto, destes milhões de sinais gráficos que se deixam ao abandono. Tudo palha, que tanto pode ser pasto como fogueira.

O João Pedro da Costa, meu primo por homografia, tem a sabedoria indicada para lidar com o bicho: um blogue não passa de HTML. Hiperverdade.

Sursum corda

Aqueles que cultivarem a disciplina (etimologicamente, a aprendizagem) de olharem para a linha do horizonte, não vão enjoar com o balanço. Era esta uma das mais simples, e decisivas, lições de Agostinho da Silva, um marinheiro de alto mar e mares altos. Para nós, no Portugal democrático que atravessa uma original crise que acaba de atingir os pilares jurídicos e éticos do Regime, os vagalhões vêm de bombordo e estibordo. Uns são o resultado dos ininterruptos planos de ataque daqueles que lutam pela obtenção, manutenção ou crescimento da fatia do bolo que ambicionam, outros são a consequência da agitação dos desorientados, dos deprimidos, dos derrotados. Contudo, o horizonte permanece à mesma distância, imóvel, impassível. É ele que nos equilibra e mantém no rumo, ao encontro dessa linha onde a terra e o céu se recordam da fusão primordial.

Veja-se como a Ana Paula Fitas nos convida a aceitar a difícil constatação de serem as leis sempre uma tangente à justiça, seres frágeis na dependência da gramática, da sintaxe, da semântica e, fundamentalmente, da boa-fé dos que as criam e aplicam.

Veja-se como a Sofia Loureiro dos Santos nos interpela para assumirmos a responsabilidade de pedirmos responsabilidades à comunicação social que é joguete de conspirações, atentados ou explorações que nos fragilizam e envenenam.

São dois exemplos de atenção ao horizonte no meio da borrasca, focando o olhar no que mais importa. Porque a vida vai continuar, pois é da vida viver. Os nossos actuais problemas, postos em perspectiva com o que já passámos historicamente como país, cultura, civilização ou espécie, são ridículos. Aqueles que cantam as delícias do fim, os profetas da desgraça, estão só a falar deles e do que não conseguem, ou não querem, fazer por nós. Temos de os deixar enterrar os seus mortos e não ficar parados à espera de quem já não tem forças para caminhar.

Espionagem política – III

Vieira da Silva era o último político de quem se esperava uma expressão que tocasse tão fundo no olho do furacão causado pelo caso Face Oculta. Como se pode atestar pela prova do crime, este homem merece uma estátua pela sua atípica humildade e desconcertante sinceridade. Não há nele qualquer pose que pareça estudada ou artificial, o que se vê é o que há. A discrição, talvez timidez, que o envolve é tanta que só na noite eleitoral das Legislativas despertei para a densidade emocional da sua pessoa. E foi assim, por ser sincero, que se deixou espiar pela melíflua Maria Flor Pedroso.

A pergunta à qual tenta responder pressupõe que as notícias da imprensa, do Sol em especial, à data, transmitiam informações verdadeiras. Em consequência, assistimos ao esforço de Vieira da Silva para conseguir dar sentido a uma situação repleta de incógnitas e suspeições perversas, malignas. E o que diz, é o óbvio: havendo aproveitamento político de uma ilegalidade (ou de um erro), esse aproveitamento configura um propósito de espionagem política – mesmo que não saibamos a quem imputar a recolha ilícita da informação e sua entrega à comunicação social.

A perseguição que se seguiu foi mais uma pulhice, já sem surpresa. Os hipócritas contaram aos berros a história de um Ministro que teria atacado os magistrados de Aveiro, procurando condicionar a sua acção e safar o criminoso do Primeiro-Ministro. Pessoas que têm responsabilidades mediáticas foram por este caminho, algumas que até suscitam esperanças de renovação intelectual no universo político, e acabámos por ficar expostos a mais um exercício de terrorismo cívico.

Este episódio com Vieira da Silva é também uma ocasião para observar com detalhe a torpe duplicidade que está instituída na oposição: qualquer dos seus cães de fila pode abrir a bocarra e largar impunemente as mais ferozes e desvairadas acusações contra Sócrates, Governo e PS, todos corridos com mandados de prisão, mas assim que um dos visados reage é apupado por estar a reagir. Eis a iníqua realidade: há portugueses que se indignam mais com uma expressão verbal, do foro pessoal, dita numa entrevista do que com a conspurcação da Justiça para fins políticos indecorosos ou com o facto de se procurar atingir a honra seja de quem for e como for.

É caso para lamentar que a contra-espionagem não tenha recursos ou vontade.

O fim da Guerra Fria é que está na origem do Aquecimento Global

Depois de intensas e implacáveis negociações que ocuparam toda a tarde, o Duarte revelou-se imune aos meus argumentos nominalistas, mantendo-me na lista dos perigosos anónimos que ofendem, a soldo do Rato ou coisa pior, dignas figuras públicas. Contudo, admitiu [not] que eu era agora um anónimo que ele conhecia melhor do que muitos nomes do jet set. Combinámos pôr tudo em copos limpos, amanhã, num local secreto algures no Hemisfério Norte.

Lamentavelmente, abateu-se sobre mim negra apreensão. É que à conta de escrever num blogue, e venerar o sr. Engenheiro, saiu-me na rifa um blind date com macho. O castigo está proporcionado. Ainda por cima, a coisa mete apelido estrangeiro. Mas é galo, grande galo, porque aposto que quem ostenta Schmidt no cartão, num Portugal trigueiro, está servido de um lote de amigas de fechar o comércio. E nenhuma delas estará presente, mais uma vez se comprovando a imperfeição do mundo e a injusta distribuição dos recursos naturais. Enfim, o que vale é que também não irei lá, vai o Valupi.

Um livro por semana 153

«Narrativa» de Paulo da Costa Domingos

O autor rejeita a «autobiografia» mas não deixa de falar de si para falar do Mundo: «Nem me lembro de ter nascido. Um mês depois de eu chegar, partia António Maria Lisboa». O miúdo lisboeta («Tronco em flor. Não esqueço o S na fivela») vive numa família (A mãe vinha queimar folhas de eucalipto, o pai chegava com o Condor, o Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante») e vê o país: «Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento à porta de um dispensário, num coro constante de tosse; também ramelas». No Liceu vem paixão pelos livros (John Osborne, Boris Vian, Carlos de Oliveira, Maupassant, Herberto Hélder) porque «a leitura faz de nós melhores pessoas; faz de nós pessoas». Depois, com a revista «&etc», a descoberta da censura: «Lá no alto de uma escada em madeira num prédio da Ruía da Misericórdia situava-se um postigo semelhante a um oratório ou um confessionário». Mais tarde em 7-7-80 agentes da Judiciária apreendem 580 exemplares de «O Bispo de Beja», ordem dum juiz que não sabia a data de edição do livro – 1910. Daí nasce a sua editora, a «Frenesi» – «porque eu tive que ser eu, num país onde tantos se escondem no grupo». Homenagem a Almeida Garrett e José Daniel Rodrigues da Costa, neste livro de PCD se recordam os amigos mortos (Mário Botas, António José Forte, Ricarte Dácio, Luiza Neto Jorge, Al Berto, Hermínio Monteiro, Eduardo Guerra Carneiro, João César Monteiro, Álvaro Lapa, Mário Cesariny, Manuel João Gomes, Acácio Barradas) e os vivos: Luís Carvalho, Jorge Fallorca, Rui Baião, Manuel Fernando Gonçalves, Luís Manuel Gaspar, Anabela Duarte, Vera Pinto, Jorge Pires, Telma Rodrigues), amigos e livro lado a lado: «cada livro punha-me momentaneamente no exacto centro do Universo. Refiro-me tanto àqueles que li, ou leio, como aos que fui escrevendo».

(Editora: Frenesi, Capa: sobre desenhos de Francisco Cervantes de Haro, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

Parabéns a vocês

Para concluir um dia imprevistamente narcísico, lembrar que hoje se completam 4 anos de Aspirina B.

Estão de parabéns todos os autores que por cá passaram.
Estão de parabéns todos os leitores que por cá pararam.
Estão de parabéns todos os comentadores que por cá partilharam.

Um bravo

Duarte Schmidt Lino apareceu a defender Pedro Lomba, seu colega de blogue e, presumo, amigo. A defesa é pícara, arrebatada e termina como começa: desafiando-me para um duelo. Ele quer a minha identificação, como ouvíamos amiúde na rua aos bófias até aos anos 80, e já anunciou o que vai fazer com ela: averiguar o meu percurso em ordem a comparar os méritos intelectuais entre os dois outros vértices do triângulo fantasiado. Por outro lado, manifesta estar num estado de confusão, não lhe parecendo possível que um só indivíduo consiga ter registos tão variados como os que detectou no meu opus. Seja como for, consegue imagens notáveis, como essas onde diz que eu ofendo pelas costas, que um anónimo amanhã — ou mesmo hoje — pode vender a alma noutra freguesia do lado oposto da cidade, que a ganância furiosa não sei quê e, naquele que é um invejável rasgo de estilo, que tenho a estatura moral de um frango depenado. Estou convicto de que este complexo símile do frango depenado não ocorre com facilidade ao homem comum.

Que terá atiçado a testosterona do Duarte? Talvez a iliteracia, pois no diz-que-disse em relação ao Lomba falha o alvo: eu falei de casas, ele fala-me de tachos. Todavia, não serão estes detalhes hermenêuticos a estragar a festa. Quando se convocam ameaças de processos, e uppercuts no focinho, o meu interesse está garantido. De resto, estou muito curioso em conhecer um tipo que não admite a expressão indigência mental, para mais no contexto de uma crítica a um escrito público, mas que convive apaziguado e feliz com esta coisa.

Sendo assim, ó Duarte, escreve-me para o email do Aspirina e indica onde queres o encontro, depois será só acertarmos o dia e a hora. Também podes levar os amigos, caso temas dar por ti cercado de Valupis. Nessa ocasião, poderemos discutir com vigor e audácia a problemática da minha identidade e outras questões que julguemos pertinentes.

Obrigado, Vidal

Carlos Vidal sugeriu aos proletários de todo o Mundo a leitura de um texto do doente Valupi. Ora, vou usar a ocasião para agradecer ao Vidal o que tenho aprendido com ele, e com alguns dos seus colegas no 5 Dias. É que nunca tinha tido directo contacto, como aquele que os textos informais num blogue permitem ter, com esse ramo do comunismo que abomina a democracia e não descansará enquanto a não substituir por uma qualquer tirania. Sabia disso à distância, posto que era um miúdo no 25 de Abril e nada entendi do PREC nem do que era a União Soviética. Muito mais tarde, com estudos cada vez mais interessados pela política, o desenho da besta começou a formar-se. Mas foi só com o Vidal, em 2009, que despertei para a existência ainda activa de uma corrente mística do comunismo, essa pulsão niilista que atrai os tiranetes de todas as marcas e feitios. Aquilo que começou por me surpreender nas campanhas eleitorais deste ano, ver comunas e reaças a fazerem elogios uns aos outros, abraçando-se num frentismo anti-PS alimentado pelo ódio a Sócrates – para maior repulsa, ambas as facções exibindo um gostinho indisfarçável pelo memorial do Estado Novo, Salazar, Hitler e nazismo – ganhou contornos de fenómeno inevitável, atracção irresistível. E lá fiz as pazes com a evidência: eles reconhecem-se, identificam-se, são as duas metades do mesmo totem.

O 5 Dias começou por ser um projecto de mérito indiscutível, uma referência na blogosfera de esquerda. Depois, muita água correu. Com a feliz cisão que deu origem ao Jugular, e com a entrada deste Vidal que faz da logomaquia um hino à generosidade do Criador, temos ali uma secção do PC que nem no Avante mostra o dente.

Por tudo isto, Vidal, e o muito mais que não há pachorra para anotar, obrigado. Continua a educar o povo.

Boicotem o Valupi!

É o apelo de Filipe Nunes Vicente, o qual aproveita para repetir pela cagagésima vez que eu chamei a Louçã monte de merda. Ó Filipe, aqui entre nós que ninguém nos lê, olha que também podes chamar monte de merda ao Louçã – não é ilegal, não é pecado e não provoca ataques de caspa. Se te custa, porque assinas com três magníficos nomes e isso tem o seu peso, começa com variações: monte de retórica, monte de demagogia, monte de populismo, monte de fanatismo. Quando ganhares confiança, poderás satisfazer a tua vocação para a síntese e arrumar o múltiplo no uno: Louçã, és um monte de merda. Entretanto, essa imitatio de Frei Tomás, onde praticas o mal que condenas, é divertida. Também patética, porque enfim, mas divertida.

Um livro por semana 151

«Nós dois ainda» de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984) é autor de vasta obra poética e de artes plásticas mas começou por dar nas vistas com a rejeição de Namur, a sua terra de origem: «Os belgas foram os primeiros seres humanos de quem tive a ocasião de me sentir envergonhado». Este volume inclui o poema «Nous deux encore» (francês/português) dedicado à sua mulher Marie Louise que em 1948 morreu vítima dum incêndio em casa: «Música do fogo, tu não soubeste tocar. / Lançaste sobre a minha casa um pano negro. / O que é este opaco em toda a parte? / É o opaco que tapou o meu céu. / O que é este silêncio em toda a parte? / É o silêncio que calou o meu canto».

E as suas 64 páginas integram também a comunicação («A verdadeira poesia faz-se contra a poesia») de Henri Michaux em 1936 ao Congresso Internacional dos Pen Clubes em Buenos Aires na qual o autor afirma: «Em poesia vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento do que expor o melhor programa de entreajuda social. Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias. É isso a transfiguração poética. O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias que, frequentemente, são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Tradução e apresentação: Rui Caeiro)

O fim de uma superstição milenar

Por causa de um primoroso casting, e apenas me refiro a uma das dançarinas, devemos aos publicitários espanhóis este triunfo de terem transformado a menstruação em mais uma coutada do macho ibérico. O erotismo, através das estruturas capitalistas e correspondente alienação consumista, também pode ser uma força de avanço político e social.

Carácter Kid

Na penúltima Quadratura, António Lobo Xavier disse que nunca comenta escutas e informações obtidas ilegalmente, ou sob as quais permaneça essa dúvida. É uma atitude que nem sequer carecia de nota ou realce, muito menos de explicação, não fosse existir um fenómeno de pulhice generalizada na luta política, o qual gerou as tipologias que, por utilidade semântica, designo como direita ranhosa e esquerda imbecil; ou seja, uma direita que trai o seu ideal de liberdade fundado na verdade; uma esquerda que trai o seu ideal de verdade fundado na liberdade. O resultado é um ambiente onde a eleição para um cargo político implica uma permanente suspeição – seguida de calúnias e julgamentos públicos na primeira ocasião – que não mais abandonará essa pessoa, mesmo que ela abandone a política. Na actualidade, o bombo da festa chama-se Jorge Coelho, pelos vistos um perigoso criminoso internacional que nem a Interpol consegue apanhar.

Ranhosos e imbecis, incapazes de obter apoio popular, barricaram-se num puritanismo retórico em ordem a intoxicar o debate e impedir que o governante convença pela visão e obra. Eles não querem ser escolhidos pelas suas propostas alternativas, querem é ser escolhidos por falta de alternativa. Então, o caminho é só um: denegrir, conspurcar, envenenar, armadilhar, conspirar. Nestes tempos de PSD escavacado, até os próprios fundamentos do Estado de direito são alvo de cargas explosivas – ouvindo-se o engrossar do coro daqueles que exigem a violação das leis e dos direitos para perseguirem e lincharem suspeitos. Vale tudo.

Assim, declarar indigno o aproveitamento político da corrupção nascida no seio da Justiça, ou da comunicação social, foi um refrigério precioso face à selvajaria promovida pela oposição. Infelizmente, esta casa varrida e bem arranjada – que honra a ética, o civismo e a direita – durou apenas uma semana. E o demónio ranhoso voltou com sete espíritos bem piores do que ele.

Continuar a lerCarácter Kid

Não acabou

O Procurador-Geral declarou que gente graúda em Aveiro fez um péssimo trabalho, tendo espiado politicamente o Primeiro-Ministro a coberto de uma investigação criminal e tendo escolhido um alvo que se sabia íntimo de Sócrates tanto pela confiança política como pela relação pessoal. O resultado foi a gravação e transcrição de conteúdos criminalmente irrelevantes, mas privada e politicamente lesivos posto que pessoais. Essas gravações e transcrições iludiram a Lei e ocorreram num sistema que sabia não poder garantir a sua segurança de modo a que não chegassem a quem as explorasse mediática e politicamente – e se chegaram à comunicação social, mais rapidamente terão chegado a outros grupos e indivíduos interessados em fazer uso delas. Deste modo, temos o primeiro caso em Portugal em que um Primeiro-Ministro, também Secretário-Geral do PS, em ano com três eleições, foi espiado pela Justiça para benefício dos seus adversários e inimigos.

É isto, não é?

Feira das opiniões

Quanto é que se ganha nos programas de debate político na TV? Se excluirmos a hipótese de haver quem pague para aparecer neles, seria interessante relacionar os euros embolsados com a qualidade do serviço. Vejamos este exemplo:

ConstançaSegundo o Ministro Santos Silva, são 52 cassetes!
ViegasEra isso que eu ia dizer…
ConstançaNão sei, aliás, como é que ele sabe isso…
ViegasEra isso que eu ia dizer… É que toda a gente sabe isso. Hoje o Jornal de Notícias diz que as escutas foram queimadas, ou que o Presidente do Supremo vai mandar queimá-las, mas, quer dizer, como o Ministro da Defesa diz, são 52 cassetes! Ora, se o Ministro da Defesa diz que são 52 cassetes, quer dizer, é material…
ConstançaÉ material e resta saber como é que ele sabe isso…
CoutinhoComo é que ele sabe que existem… Exactamente, como é que ele sabe que existem 52 cassetes.
ConstançaEle diz que viu na comunicação social, mas eu confesso que não vi.

Nesta passagem temos uma exibição de crassa ignorância (Santos Silva limitou-se a repetir a informação que uma sombria fonte, chamada SIC, tinha transmitido no dia 11 do corrente) e uma manifestação de pulhice crassa (já estavam de cordas na mão, prontos para enforcar aquele que lhes dá baile até quando apenas se limita a sorrir). Tendo em conta que ainda recebemos o bónus de ouvirmos a jornalista presente, apresentadora e mediadora do debate, a puxar pela sua autoridade profissional em ordem a garantir que o espião, afinal, era Santos Silva, quanto valerá, em euros, o espectáculo fornecido ao estimado público? 10.000 euros, a dividir pelos três? 100? 10? Ou terão ficado a dever dinheiro ao Santos Silva, e ao País, à pala das emporcalhadas bacoradas?

Continuar a lerFeira das opiniões

Vinte Linhas 82

Dissertação sobre um nome

O teu primeiro nome tem, dentro de si, a força da Terra e a graça de Deus.

Ele é, sem dúvida, o nome feminino mais divulgado em todo o Ocidente. Tem a sua origem nas profundezas da língua hebraica mas não se ficou pela Bíblia e pelos Quatro Evangelhos. Está presente na Eneida de Virgílio, no teatro de Luigi Pirandello, nos romances de Tolstoi, nos contos de Pushkin e nas óperas de Mozart. Está junto à Terra e o seu som pronunciado resolve as hesitações nas encruzilhadas sombrias dos caminhos quotidianos. Digo o teu nome e tenho, no momento de o dizer, uma direcção e um sentido. Porque sinto, dentro do seu som, a força da Terra e a graça de Deus.

O teu segundo nome tem, dentro de si, a força da Água e da Natureza. Vem de uma origem duvidosa, envolta na neblina da lenda. Terá sido a primeira mulher, a que saiu do mar e deixou os homens da praia, entre atónitos e cheios de júbilo, aquela a quem chamaram mar yam – gota do mar. Como se essa mulher quisesse mostrar que só há vida na água porque vivemos com a água e morremos quando estamos dezassete dias longe da água. O mistério da vida e os milagres da existência têm uma raiz nessa mulher que saiu do mar e a quem os homens chamaram mar yam – gota do mar.

O teu nome, feito de dois nomes, é uma bandeira feliz, um estandarte de alegria, uma luz que não se apaga. O teu nome, feito de dois nomes, é o lugar ideal para ouvir o som da voz da terra e o murmúrio do mar, o apelo a ficar e o convite a todas as viagens.

O teu nome, feito de dois nomes, tem a dimensão sem medida dos sonhos e a música sem fim de todas as orquestras. O teu nome, feito de dois nomes, Ana Maria.