Georgia on my mind

O conflito na Geórgia teve mortos, destruição, violência. Mas foi, à mesma, uma ópera bufa. Não se chegou a saber qual era o plano de Saakashvili, ou até se havia algum. À distância, a ideia mais credível é a de que a invasão da Ossétia do Sul pelo exército georgiano teve como única intenção o reforço da posição russa na região, tal a estupidez da acção. Para a NATO, tratou-se de agir para reparar os estragos e conter o empurrão que procurava derrubar o Governo de Tbilissi. Para a Rússia, esteve em causa capitalizar interna e externamente, passando uma confiança militar que é altamente benéfica para Putin. E para a comunicação social internacional, foi uma ocasião de entretenimento com a temática da Guerra Fria, mas sem qualquer convicção ou esforço de parecer reflexão séria. Agora, nem um pio se ouve sobre o conflito. E nós?

Nós devíamos imitar os governantes competentes, os militares de carreira e os diplomatas com um mínimo de experiência: só dão importância ao que é importante. Ora, neste caso só as comunicações diplomáticas tinham importância. E essas não se revelam. O que se revela são os seus resultado. As exibições de força militar, as discrepâncias entre acordos e execução dos mesmos, as declarações dos políticos, tudo isso faz parte da liturgia diplomática e é, com se constata invariavelmente, absolutamente secundário para o desfecho dos conflitos. Onde tudo se decide é na negociação, fazendo-se ameaças e ofertas que são – por definição – obscenas.

A maior parte dos problemas que nos angustiam por via da comunicação social não existem. Serão problemas que outros podem resolver, não nós, ou serão problemas em que não temos acesso a informação suficiente para sabermos o que está em causa. Desistir de lhes dar importância é urgente, porque é urgente ocupar a inteligência com problemas sobre os quais tenhamos poder de decisão.

Geórgia, vai-te foder.

LittleBigPlanet

É um dos jogos mais inovadores, e visualmente apelativos, até agora concebido. Cada jogador poderá introduzir elementos personalizados (fotos, por exemplo), criando ilimitadas versões partilháveis. Se gostaste do que viste, vais gostar ainda mais do que tens para ver. Escolhe a versão HD, caso tenhas um computador decente, e não digas que este é um jogo para putos e meninas. Diz antes que é um jogo para quem se dá bem com a imaginação.

Os disparates dos militares

Depois do 25 de Novembro, e esquecendo Otelo, não me lembro de ler ou ouvir militar com um discurso mais irresponsável do que este. O registo primário da pressão corporativa teria graça se não fosse, igualmente, inaceitável. O que Loureiro dos Santos está a fazer é mais do que um escandaloso bluff, trata-se de um apelo à revolta com arma na mão.

Este tipo de disparates desonra o compromisso militar. Sois cobardes.

Um livro por semana 53

«Poemas de um livro rasgado» de Fernando Botto Semedo

Depois de «Transparências» em 2006 e «Poemas simples» em 2007, Fernando Botto Semedo surge com este «Poemas de um livro rasgado». Uma vez mais a busca da infância: «Poemas escritos por abismos sem fim / na minha alma, através da luz das minhas / lágrimas, buscando a infância velha». Só que, a juntar às lágrimas do poeta, existem as lágrimas de Deus: «Poemas do meu desgastado rosto / poemas levantando voo pela minha infância / cheia de lágrimas de Deus». Entre o precário da vida e o inevitável da morte, a única resposta é o amor: «A primavera das palavras teria chegado / com o teu rosto de uma inacessível beleza / ó vestal desconhecida que bailas sem corpo / nos confins do meu sangue gasto.» Noutro poema se faz essa visita ao passado («Na minha infância as palavras eram queimadas») para, logo a seguir, um outro poema proclamar o amor: «Ó música que oiço cantando no interior / de um sol íntimo da minha alma emparedada / ó rostos inclinados para o fim – ó meu amor / para sempre alienado no tempo!» Perante um mundo hostil («asfixiando o rosto de um Deus da patinagem artística / da televisão por cabo, entre o ardor dos / anjos do vazio e as lágrimas de todas as crianças») o paraíso perdido do poeta está na infância guardada em molduras de prata: «Via as fotografias coloridas da sua infância / espalhadas por molduras de prata líquida / na casa da alegria fictícia – ó sangue / das lágrimas de uma primavera soterrada / num campo infinito da arqueologia de Deus.»

(Capa: Fernando Botto Semedo, Impressão: Gráfica 2000)

A entrevista e o entrevisto

Sócrates deu uma banalíssima entrevista a dois péssimos entrevistadores e recebeu miseráveis reacções da oposição e publicistas. Dizer que ele não pode ligar a situação nacional à crise internacional, que falhou na política económica e que não apresenta ideias novas, revela uma concepção da política que só sobrevive à custa da dissonância cognitiva. Depois desgostam-se com as sondagens, as alimárias.

Sócrates começou por ter mão no PS, um partido que estava todo minado. Conseguiu manter o Governo coeso e em passada de corrida, mesmo nas alturas em que o chão fervia e o ar queimava. Lidou com o mal português com extraordinária capacidade de gestão. Para além disto, que ultrapassa em mérito o mito cavaquista, não se vê ninguém na oposição que sequer merecesse uma Secretaria de Estado. Mas é escusado tentar explicar os factos da vida aos imbecis – o que muito nos descansa, e até consola.

O século da criatividade

Há uma frase, atribuída a Malraux, que teve longa fama:

Le XXIème siècle sera religieux ou ne sera pas.

Depois de algumas declarações do putativo autor negando a paternidade, e de acordo com o léxico preferido pelo mercado New Age, a versão que se continuou a repetir trocou o religioso pelo espiritual. Dessa forma deixavam-se todos os públicos satisfeitos, ficando uma fórmula politicamente correcta e adequada ao consumismo milenarista em centro comercial. Ora, o pseudo-Malraux não tinha qualquer razão, como se sabe. As religiões no século XXI estão acabadas, as mais activas são agora negócios de exploração ou mantas de retalhos identitários. E a espiritualidade que não seja marketing, é segredo ou mística. Tal como não teria razão se lhe tivesse dado para uma solução à prova de antipatia, onde os termos de referência fossem o artístico ou o poético. Entretanto, igualmente falharam os que venderam versões de um século XXI científico ou tecnológico. Resta um grande referente que todos os dias, a todo o momento, está a renovar a Civilização. É uma reacção em cadeia que não mais parará: a criatividade.

Aproxima-se o fim da primeira década do novo século/milénio e a única certeza é a de vivermos em ilhas de sentido rodeados por marés vivas de caos. Esta compreensão liga-nos a toda a Humanidade, desde os primórdios. A um tempo pavor e glória, a consciência da fragilidade da nossa condição individual transmuta-se em destino e liberdade quando contemplamos a caminhada da Raça. Eterno combate entre o absurdo e a esperança, a solidão e o amor. Mais uma razão para leres aquela que me aparece como a mais realista e concreta descrição da natureza criativa que algum vez encontrei. E depois de ler, e de abanares a cabeça em concordância mais de 30 vezes, tanto faz se te vais despedir amanhã porque decidiste ser biólogo marinho, ou se vais colocar um vídeo no YouTube com o vizinho a tropeçar num balde e a partir-se todo, ou se descobres como ganhar dinheiro a trabalhar em casa, ou se vais até ao blogue cumprir a praxe e constatar que continuas sem comentários, ou se consegues ouvir pela primeira vez o que as árvores, as nuvens e o vento têm para te dizer. Tanto faz. Porque agora já não podes negar que te mandaram existir no século da criatividade.

Um livro por semana 54

«A Terceira Atlântida» de Fernanda Durão Ferreira

Este livro começa em 26-7-1880 quando o súbdito britânico Gordon Mason, viajando de Southamptom para o Rio de Janeiro, em escala técnica na Ilha Terceira, assiste a uma tourada na Vila Nova com o imediato do navio «Santa Helena». Depois da tourada o lanche, depois do lanche a conversa e, chegada a noite, o amigo terceirense do imediato do navio emprestou dois cavalos e cedeu um criado para os acompanhar até Angra do Heroísmo. No caminho encontraram dez homens da «Justiça da Noite» que se dedicavam a derrubar um muro e um portão com marretas e cordas. Passado o susto inicial, com a preciosa ajuda do criado, o viajante (e o imediato) seguiram viagem e, já a caminho do Rio de Janeiro, ouviu a bordo um professor de História afirmar: «Esses e outros costumes são quase tão antigos como a própria Ilha. Ilha que há muitos, muitos séculos tinha um outro nome e possuía outra cultura.» As touradas à corda são hoje uma prática igual à que foi descrita por Platão com os dez pastores a serem a memória dos dez reis da Atlântida. A «Justiça da Noite» que funcionou até à segunda metade do século XX é a memória da justiça dos dez reis da Atlântida pois nesse tempo, como escreveu Platão, «o rei não era senhor de condenar à morte sem o assentimento de mais de metade dos dez reis.» O próprio rei D. Afonso V, numa carta de mercê ao cavaleiro Fernão Teles em 10-11-1475, escreve o seguinte: «Faço mercê de quaisquer ilhas que achar, ilhas despovoadas, ilhas povoadas e ilhas povoadas que ao presente não são navegadas nem achadas nem tratadas por meus naturais.» Como se percebe pelas citações, este livro tem muito que se lhe diga sobre as raízes da tradição Atlante nos Açores mas ficamos por aqui lembrando Vitorino Nemésio que escreveu um dia: «A Geografia para nós vale tanto como a História».

(Editora: Zéfiro, Prefácio: José Fonseca e Costa, Grafismo: Sofia Vaz Ribeiro)

Politicopsicose – II

A crise financeira internacional é de ridícula dimensão quando comparada com a crise na direita portuguesa. Quem diria que, 6 meses depois de ter sido corrido do PSD, esse deslumbrado do Menezes estaria a pedir a cabeça da discípula dilecta de Cavaco? Para isto poder acontecer, uma calamidade carece de ter acontecido. E aconteceu: chama-se direita portuguesa.

A direita portuguesa não tem para onde se virar. As figuras que aparecem, tanto nos partidos como na imprensa, são nulidades, sem excepção. A verdade é a de que ninguém estava preparado para a eficácia e coragem política de Sócrates. Nem o PS. Mas é um facto, e um novo ciclo começou na democracia portuguesa, onde o nível de profissionalismo e responsabilidade subiu e se estabelece agora como referência máxima. E é por isso que as declarações de Menezes – até há bem pouco tempo o chefe do maior partido da oposição – espelham com detalhe o estado de um grupo de portugueses que enlouquece um bocadinho mais a cada dia que passa:

Esta forma austera, distante, pseudo-rigorosa em excesso do Eng. Sócrates exigia agora distensão, alegria, um guterrismo competente social-democrata. Como a seguir ao cavaquismo o país aspirava a um guterrismo, a seguir ao socratismo aspira a um guterrismo competente, de rosto humano, social-democrata. Só que, paradoxalmente, o guterrismo que se está a perfilar é um socratismo metamorfoseado, e o PSD está a tentar imitar o Eng. Sócrates dos primeiros tempos, com a sua circunspecção.

Vinte Linhas 292

«A Batalha das Lágrimas» que só agora começou

Pode parecer insólito mas gostaria de sugerir a leitura de uma livro que ainda não acabei de ler. Ainda vou na página 63 mas pareceu-me importante abrir uma excepção. O livro é «A batalha das lágrimas» de Joana Ruas, edição Calendário das Letras. Estou fascinado com este livro. Trata-se de um romance que conta as histórias da História e cujo pano de fundo é a vida em Timor entre 1870 e 1910, em pleno Ultimato britânico. Nesse tempo o governador repetia muitas vezes: «Estou aqui para governar e governar é submeter!».

Um viajante recém-chegado define assim o território: «Timor não tem uma biblioteca, nem um grémio, nem um teatro, nem um bilhar, nem uma orquestra, nem um meio qualquer de distracção do espírito». Resta fazer política: «Fazer política aqui reduz-se a discutir se se é pelo governador ou contar o governador». A diversidade religiosa é complicada: «Há quatro religiões aqui: a animista, a católica, a islâmica e a budista. E há a considerar a pressão do calvinismo a partir do Timor Ocidental».

A autora explica o que entende por povo de Timor: «Esta sociedade incaracterística, sem tradições definidas, invadida e perturbada pela massa de estrangeiros que a explora e abandona, continha muitas raças sem que houvesse um povo».

Poderia chamar-se este livro «O governador e a rainha» mas não. Primeiro esqueceria o papel de João Maurício, o brasileiro que liga habilmente os diversos fios da narrativa. Depois não poderia esquecer que «A batalha das lágrimas» é o nome que ficou para sempre nos relatórios escritos dos militares portugueses e na memória dos habitantes de Timor. O recado está dado: espreitem este livro, amigos e amigas. É um acontecimento…

A influência do Sporting nas eleições americanas

Não é segredo para ninguém que tanto Obama como McCain têm interrompido as respectivas campanhas para acompanhar de perto a crise entre Paulo Bento e Vukcevic. Vale tudo como desculpa, desde dizer-se que se tem de ir a correr para o Congresso ajudar o Plano Polson até utilizar o estado de saúde da querida avó; só para se ficar um dia inteiro a ler os jornais desportivos portugueses em segredo. E este desvario justifica-se, pois muito do que vai ser o Ocidente, especialmente no que concerne à economia, vai sair deste conflito entre um jogador da bola e o seu treinador.

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Serradura

Na última edição da Quadratura do Círculo, o TAC semanal ao Estado de direito mantém o diagnóstico: metástases folgazonas. Aquele bando dos quatro imagina-se num senado, falam com o à-vontade de quem não está a decidir seja o que for. Conhecem de ginjeira os mecanismos do poder, e exibem com vaidade pacóvia esse estatuto, mas estão resignados perante a impotência inerente à sua sobrevivência como políticos e jornalista mansos. Embora cada um deles tenha percurso e méritos distintos, todos se igualam por terem capitulado cinicamente. Bem cedo nas suas carreiras, passaram a fingir, ou a acreditar, não haver mal na troca do ideal pelo conforto, da coragem pela segurança, da comunidade pela família e amigos. Exagero? Vejamos.

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Um livro por semana 55


«Cal» de José Luís Peixoto

A cal que dá título ao livro pode ser a cal da vida («a casa é caiada ano sim, ano não») ou a cal da morte, a do caixão dos mortos. Vida e morte, amor e ódio, vazio e esperança – são estes os limites das narrativas, dos poemas e da peça de teatro que integram este volume. As crianças correm pelas ruas da vila: «O céu das hortas é maior que o mundo: / a vila apresenta ruas calcetadas para / homens de sapatinho fino, mulheres / sozinhas e cachopos: eh, cachopo de má raça. / Vamos aos figos e passamos a vida: / a vila às vezes é desenhada por esta aragem que é o lápis de um carpinteiro.» Os velhos recusam a velhice («sentia-se tão velha como se tivesse nascido no primeiro dia do mundo») e às vencem conseguem vencer o tempo: «Nem o homem nem Ana tinham um único cabelo branco.» Também recusam a realidade servida pela televisão: «só mostram este homem a falar, bem podiam mostrar uma praia ou um casamento.» Também recusam a solidão e o vazio: «Porque chora vossemecê Ti Carlota? Já não presto para nada. Não diga isso, Ti Carlota, a gente gosta muito de si.» A peça de teatro tem cinco protagonistas, todos com mais de 70 anos. A partir da solidão da aldeia («às vezes até me parece que isto tudo é uma espécie de sonho») chegam à esperança: «Tanto que eu esperei por isto, meu amor bendito. Agora podemos descansar, temos a vida toda à nossa frente.» O autor não precisou de chegar aos 80 anos para entender a sabedoria da vida que interessa, a do amor: «Em natais, festas de aniversário com pão-de-ló ou em casamentos, as mulheres de 80 anos reúnem uma assembleia de afilhadas solteiras e explicam-lhes que a vida é transparente e que o passado, fechado em armários que rangem durante a noite, brilha às vezes, como as pratas dos chocolates que entregam nas mãos das crianças.»

(Editora: Bertrand, Capa: Vera Braga)

Maldades que os tiranos da Igreja obrigam os fiéis a ler

23. Num certo sábado, Jesus e os seus discípulos atravessavam umas searas. Enquanto caminhavam, os discípulos começaram a arrancar espigas para comer.
24. Então os fariseus perguntaram a Jesus: “Olha lá, por que é que eles, ao sábado, fazem aquilo que a lei não permite?”
25. Mas ele respondeu-lhes: “Não leram já o que David fez um dia, quando ele e os seus homens estavam com fome e não tinham o que comer?
26. Entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era chefe dos sacerdotes, e comeu com os companheiros os pães consagrados. Segundo a lei só os sacerdotes podiam comer aqueles pães.”
27. E disse-lhes ainda: “O sábado, como dia de descanso, foi criado para benefício das pessoas, e não as pessoas para benefício do sábado.
28. Por isso, o Filho do Homem tem autoridade sobre o próprio sábado.”

Marcos, 2

Não é preciso convocar Lanza del Vasto para entender a radicalidade deste episódio. Um judeu insurge-se contra autoridades em judaísmo a propósito de uma lei judaica. O reagente é a fome, a mais urgente das pulsões corporais. Jesus lembra aos fariseus que o biológico vem primeiro, só depois o cultural. E, de caminho, anuncia a mais perigosa das revoluções: o domínio da lei não é a própria lei, antes o seu recipiente – ou seja, a lei é uma imitação, uma sombra ou reflexo. A única lei absoluta, ou a lei de todas as leis, é a que for ditada pela consciência.

O sábado foi feito para o Homem, não o Homem para o sábado, ’tá? Entretanto, consta que a Igreja força os crentes a ler e ouvir coisas destas todas as semanas, algumas bem piores como convite à liberdade. Felizmente, há muitos que não perdem ocasião para avisar os católicos dos riscos que correm se continuarem a dar atenção à diabólica Igreja. E têm razão, não vá algum fiel começar a imitar Jesus; e depois já ninguém o segura, sabe-se lá que sarilho poderá provocar logo no sábado seguinte.

Vinte Linhas 291

Jorge Bretão – o sacerdote da liturgia da memória

Os telemóveis não paravam de avisar na quinta-feira cheia de sol: morreu o Jorge Bretão. Assim de repente, esta notícia. Ele, jornalista sem jornal e poeta sem livro publicado, deixava de contar histórias e entrava para a história. Açoriano e Terceirense apaixonado, fez parte de duas das mais curiosas tertúlias de Lisboa. Uma semanal na Sociedade de Geografia e outra mensal com Dulce Matos na Valenciana em Campolide.

Almoçar ou jantar com o Jorge era ter direito a todas as memórias. Ele era um sacerdote que as celebrava com fervor. Podia ser uma viagem a Buenos Aires, uma tourada em Vila Nova, um certo teatro de Viena ou uma ilha de Veneza onde as mulheres ficam a repetir nas rendas o quadrado branco das redes dos pescadores da laguna. Ou podia ser uma procissão, um tremor de terra, um império do Espírito Santo (Glória ao Divino!) ou um grupo de músicos a tocar o pezinho dos bezerros. Ou ainda uma história da Universidade de Coimbra, uma aventura em Cabinda no serviço militar ou a paixão pelo Belenenses, o único clube que tem a Cruz de Cristo no emblema.

Natália Correia escreveu um dia estes versos definitivos: «Nasce-se em Setúbal / Nasce-se em Pequim / Eu sou dos Açores / Mas não é assim / A gente só nasce / Quando somos nós / que temos as dores». Se é assim para a vida, talvez para a morte seja a mesma coisa. Assim, por exemplo: «A gente só morre / quando são os outros / que nos esquecem».

Se morreu o poeta sem livro e o jornalista sem jornal, o amigo não morre e continua na memória activa dos seus companheiros. Todas as segundas-feiras e nas últimas quartas-feiras de cada mês, na mesa do encontro, altar pequeno onde se celebra a memória.

Pegar no facho

Freitas do Amaral não tem igual. Esta entrevista à RTP, hoje, é um documento histórico, político e antropológico que devia passar nas escolas. É a confirmação do seu trajecto de independente; ou, como explicou para quem tiver ouvidos, de centrista. Tudo se encaixa: a mesma coragem com que aceitou apoiar o PS, e fazer parte do seu Governo, foi o que o levou a opor-se à invasão do Iraque, e, para atalhar, a ser contra o totalitarismo planeado pelo PCP, alguns militares e outros grupelhos congéneres, logo após o 25 de Abril.

Freitas do Amaral, com o seu fácies, porte e maneirismos de arcebispo, era o político mais caricaturável à direita. Nas presidenciais de 1986, gozava-se com o seu sobretudo verde-queque e os sinais exteriores de betice. Quando discursava, o registo era de homilia. Tinha a imagem acabada de um reaças, em versão culta e católica. Depois desapareceu de cena, entraram os putos estarolas no CDS. Regressou em 1995 para assumir a presidência da Assembleia-Geral das Nações Unidas. Renasceu.

Freitas está melhor do que nunca. É uma memória viva da democracia. Um leal servidor da comunidade, um corajoso patriota. É sábio e sage. E talvez seja o único político independente em Portugal. Quem é que pega neste facho?

O Procurador do Zé Manel

O Público tem um Provedor, e este tem um blogue. Curiosamente, é um blogue onde os leitores não se pronunciam, apesar da sua missão blogosférica: este espaço tem ainda como função primordial recolher e divulgar comentários dos cidadãos, procurando estimular o debate e a discussão em torno da qualidade do jornalismo praticado pelo PÚBLICO. A manifestação da generosidade, contudo, não chega para generosas manifestações dos leitores. A maior parte das caixas de comentários são embaixadas do vácuo cósmico. Nem os assuntos mais escabrosos convocam vivalma. Ocasião para uma resposta rápida e entusiasmada, pensei na minha ingenuidade. E lá fui desflorar uma dessas caixas desoladas, deixando este pedido. Até agora, nicles batatóides.

Mas vamos ao que interessa:

Se um alto agente do Estado invoca o seu relacionamento com um accionista de um jornal (embora não saibamos com que intenção), podemos considerar estar-se perante uma pressão ilegítima, à luz da Constituição. Pelo menos, essa dúvida persiste.

Dou como certo que o Provedor tinha presente, ao escrever este passo, aqueloutro do outro:

Permito-me ainda sublinhar a falta de frontalidade com que a insinuação é transmitida, reconhecendo o seu autor tratar-se de “uma interpretação subliminar“, deixando, assim, a pairar uma suspeita indefinida, agravada pelo facto de se tratar de uma conversa entre duas pessoas, impossível de reproduzir ou de provar documentalmente o que foi dito.

É inegável: o Provedor está conscientemente a tomar partido pela versão subliminar. Porquê? Estará na posse de informação que não foi publicada, a qual validará a suspeita? Ou será um caso de simpatia/antipatia? Tendo em conta que o Provedor se apressa a corrigir o leitor – Ao contrário do que afirma o leitor, o telefonema foi do primeiro-ministro para JMF (embora sugerido por JMF, «insistentemente» segundo o PM). –, não citando a carta de Sócrates – A conversa telefónica referida pelo Senhor director do Público – única que tive com ele – não foi de minha iniciativa, foi antes insistentemente pedida por ele, como ele próprio reconheceu no depoimento em causa. –, é lícito concluir que não estamos perante tratamento igual das fontes. Tudo o que venha de Sócrates é, para o Provedor, algo que não chega como testemunho fiável.

E então é isto, e nada menos do que isto: até ao dia 13 de Outubro de 2008, provavelmente ultrapassando essa data, o Provedor do Leitor ao serviço do Público admite que Sócrates pode ter exercido uma pressão ilegítima sobre um órgão de comunicação social, à luz das informações que possui. Acontece que Sócrates afirmou por escrito o que por escrito afirmou. E acontece que o Zé Manel não se lembra do que disse, nem do que ouviu, nem onde estava a papelada. Nem lhe ocorreu que era porreiro para o seu carácter ter desmentido o Expresso no dia em que saiu a acusação. Nem que podia ter evitado entalar o Provedor com as suas declarações inacreditáveis, as quais foram engolidas sem mastigar. Se isto é assim, e é mesmo assim, temos que o Provedor do Público acumula com o cargo de Procurador do Zé Manel.

Um livro por semana 56

«Se me comovesse o amor» de Francisco José Viegas

Neste décimo livro de poemas, Francisco José Viegas (Foz Côa, 1962) retoma a melancolia e as viagens. Não apenas as viagens na geografia (Buenos Aires, Paris, Israel, Frankfurt, Antuérpia, Caracas) mas também a viagem que toda a vida acaba por ser: «Se me comovesse o amor como me comove / a morte dos que amei, eu viveria feliz.» A morte está sempre presente. Seja de uma tia («Ela despedia-se da vida, era a Páscoa. Melhor: as urzes / floridas ainda, sobrevivendo – um vento, as matérias / do medo, colinas de pinheiros, alegorias, orações») seja de um amigo: «São as mais estranhas árvores, as que descem até às raízes; / pela última vez se visitam, antes que venha uma nuvem / ou que os animais te despertem a meio da noite.» O poema responde a uma pergunta: «Os pais dos teus pais, os filhos dos teus filhos / é isto uma família? O que separa o futuro daquele lugar / onde os teus mortos repousam? Avós adormeceram, / abandonados em campas coberta de terra e xisto». Mas também discute a sua própria natureza: «Alguém lê o que escreves, triste consolação / pálida alegria caindo sobre a tarde das coisas. / Cada palavra é um resumo – e, em cada palavra, quanto deixas de teu?» Entre a fragilidade do amor e a certeza da morte, a literatura pode ser uma salvação: «Séculos de literatura fizeram de nós apenas isso / passageiros obedientes, leitores compulsivos / geógrafos errantes que desconhecem os nomes / entre as montanhas, o que fica no meio das árvores. / Não vale muito. A vida interrompe as páginas dos livros / como entende, transporta nuvens espessas / ignora os pardais nas margens dos bosques.»

(Editora: Quasi – Famalicão, Foto: Steve Woods)

7 provas de como se vive cada vez melhor em Portugal

O preço dos combustíveis baixa todos os dias.

A oposição anda tão encantada com o Governo que se confessa sem palavras.

O Porto perdeu em casa e ficaram a ver a qualificação por um canudo.

Dois meses depois do acidente na Linha do Tua, os peritos não fazem ideia do que aconteceu. É possível que venham a concluir pela inexistência de acidente.

O Presidente não precisa de concordar com as leis que promulga.

O dinheiro é tanto que se fala em voltar a ser possível entregá-lo aos partidos embrulhado em papel pardo ou dentro de sacos de plástico do Rei dos Frangos.

Roubaram o computador ao Miguel Sousa Tavares e o único ficheiro do seu próximo romance, quase acabado, estava lá.

Vinte Linhas 290

A Algéria da «Visão» ou «os computadores já fazem esse trabalho…»

Quando há alguns anos os revisores começaram a ser dispensados pelas administrações dos jornais, ficou célebre um engenheiro que explicou: «Não é preciso revisor. Os computadores já fazem esse trabalho…»

A página 73 da Revista «Visão» desta semana apresenta um trabalho jornalístico assinado por Clara Teixeira e João Paulo Vieira o qual, numa caixa intitulada «Onde está o dinheiro», se refere à Argélia como se fosse Algéria. Claro que todos sabemos que em França se diz e se escreve Algerie e que os nosso simpáticos emigrantes dizem os algerianos tal como dizem (por lapso mais que óbvio) os romanos em vez de os romenos. É tudo uma questão de som.

Fazem lembrar um daqueles emigrantes portugueses do princípio (anos cinquenta) quando chegou de férias à sua terra e disse aos primos como era a França: «Oh Primo! Trabalha-se muito, ganha-se bem mas vai quase tudo para as ampolas». Só muitos anos depois é que a malta da aldeia descobriu que ele queria dizer impostos mas julgava que era só dar um arzinho português – ouvia dizer les ampô dizia as ampolas.

O engenheiro não tem razão nem nunca vai ter razão. Os computadores poderão ter programas para corrigir erros de ortografia no Word mas só o espírito e a vivacidade de um ser humano atento pode descobrir um problema de sentido. Algéria não faz sentido naquele texto porque a palavra portuguesa é Argélia. A capital é Argel e não Alger como dizem os franceses. Aqui não era um erro de ortografia. Era algo mais. Algo que não cabe em nenhum computador nem na cabeça de nenhum engenheiro administrador de jornais.