Oxímoro do dia: Miguel Sousa Tavares fala de Arte

Há uns sábados, no “Expresso”, Miguel Sousa Tavares dedicou-se, mais uma vez, ao seu entretém preferido: falar daquilo que desconhece. Desta vez, o alvo foi o negócio estatal com a Colecção Berardo. Teorizava o popular omni-especialista que, no mirífico “estrangeiro”, quem quer expor uma colecção de Arte ou cria um museu privado ou oferece as suas obras e pronto. Assim: «se alguém tem uma colecção de pintura com milhares de quadros, tem obviamente um problema entre mãos: onde os guardar, como os expor. Nos países mais “normais”, o problema resolve-se habitualmente com a doação da colecção ao Estado ou com a criação de um museu privado. Mas em Portugal as coisas não se passam assim».
É bom de ver que em Portugal as “coisas” passam-se sempre em obediência a sinistras cabalas: Berardo locupletou-se com um montão de massa, a ministra delapidou aquela entidade multiusos convenientemente chamada “os nossos impostos”, etc. O costume, portanto.
A bem da verdade, o BE e o PCP trataram de imitar os MSTs, as Zitas Seabras e similares que por aí pululam: todos denunciaram o contrato “leonino”, a negociata “chocante”, etc. Tratar-se-ia de «um aluguer caríssimo, inédito em qualquer parte do mundo»; a deputada Seabra nem sequer conhecia «outros exemplos em que isto tenha sido feito assim».
Não conhece porque não dava mesmo jeito nenhum procurar. Basta ir a Espanha para se dar com um paralelo bem aproximado: o que deu origem ao Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid. Vejam o historial da coisa. Está lá quase tudo: um vultuoso pagamento anual do Estado aos donos da colecção, a permanência do Barão Thyssen como presidente honorário da Fundação criada para o efeito, a posterior compra a preços actualizados, etc. Mais: no caso espanhol, os 5 milhões de dólares anuais acordados nem sequer se destinavam a enriquecer a colecção; apenas a pagar aos seus proprietários. Ainda por cima, o palácio Villahermosa teve de ser remodelado, a expensas do Estado espanhol.
Mas o que interessam os factos a quem quer mandar umas bocas? (A bem da verdade, só encontrei uma análise serena e clara do contrato.) Os museus espanhóis são giros para visitar; mas investigar as suas origens é uma seca. Ainda por cima, MST nem sequer “recomenda” por aí além que se conheça a Colecção Berardo, algo natural para alguém que tem como ideia perceptível de Arte cerâmicas com retratos de Pinto da Costa.

Rocinante

O viajante já se prepara para partir, quando entra um fulano atarefado a pedir uma cerveja em altos berros, parece que está zangado com o mundo. A locandeira bem lhe repreende os modos, mas ele continua a falar tão alto que é impossível ouvi-lo. Como se estivesse a falar connosco além do cimo da serra do Galgueiro.
O homem está muito apressado, porque tem que ir abrir uma cova no cemitério duma aldeia vizinha. Para um rapaz de mota, que vinha da casa das brasileiras, às quatro da manhã. E não viria muito mal cuidado, porque, a páginas tantas, os colegas olharam para trás e já o não viram, que já estava todo estrampalhado na valeta, ali à curva da quinta do Forcas. Ficam duas filhitas, uma mulher nova…
O viajante fica impressionado só com o pouco que lhe traduz a dona Blandina, por si não entendeu uma única palavra. O falador tem um ar estranho e visionário, faz lembrar uma figura qualquer, mas o viajante não sabe qual é. E só encontra a resposta quando sai do café, ao dar com um rocinante preso a uma carroça, com duas palhas em cima. O cavalicoque está tão magro que os ossos lhe vão furar a pele. Está tão abatido e cabisbaixo que parece não aguentar o peso da cabeça, e é de temer que se fine ali mesmo. Mas o dom quixote continua lá dentro a beber a sua cerveja, indiferente à sorte do companheiro, a contar as suas histórias inaudíveis, e a barafustar contra os moinhos de vento que há no mundo.

Jorge Carvalheira

O país partido

Portugal teve um estado antes de ser uma nação. Teve um esqueleto, antes de ganhar corpo. E quando começava a ganhá-lo, deslocalizaram-no para a Índia. Desacertou o passo e agora é o que se vê. Um país partido em dois países.
Um ficou com a história, mas perdeu o futuro. Arqueja debaixo dela. O outro é o país do sucesso, alheado do passado, bêbado de ilusões. Um esbraceja para escapar à penúria. O outro agita-se sem destino, como as formigas doidas. Nenhum entende o outro, e ambos mutuamente se desprezam.
O enterro dos dois será no mesmo dia. Até lá, há quem ganhe com isso.

Jorge Carvalheira

Apostas

Não sei bem o que fazer, mas apostas são apostas. E o Maio de 68 ficou-me na lembrança. Passei a tarde inteira a palmilhar a avenida, entre as barracas da feira do livro, à espera dum avião que partia para Angola à meia-noite. De manhã aterrámos no Sal com um motor parado. E a TAP ia trazer de Lisboa uma peça qualquer, um magneto, um pistão. Coisa para durar dias.
A guarnição era exígua e o quartel ainda mais. Um hotel de madeira, que se avistava ao longe, estava fora de questão. Servia as tripulações intercontinentais e era proibitivo. Fez-se do avião um bivaque de campanha.
À cauda uns marinheiros solitários, à frente alguns casais, famílias. Em breve era toda a cabine um porão naufragado, a cheirar a leite azedo, a fraldas de bebé. Bem melhor passei eu na enfermaria, duas noites numa cama articulada.
Havia um quadrado de jardim, ainda o tenho nos olhos. Duas acácias anãs, uns braços de chorão desgarrados ao sol, uns banquitos de pedra. E o luxo dum espelho-de-água, uma terrina da sopa, obra de paisagista. Ao lado o pau da bandeira.
O capitão chegou da nascente da Achada, com umas barricas de água. E trazia num cordel um macaquito, que mandou prender ao poste, numa trela de arame. Eu achei o trabalho uma selvajaria e avisei.
– Um dia o bicho foge, capitão!
Foge não foge, ficou a aposta feita. Um jantar de lagosta.
Há dias passei no Sal. Bem sei que o tempo é fugidio, e as palavras transitórias mais ainda. Mas o macaco fugiu, e apostas são apostas. Agora estou neste impasse. Se eu cobrar a lagosta ao capitão, o que é que vou exigir ao almirante? Um tal que descobriu a Índia, e também perdeu a aposta!

Jorge Carvalheira

O QUE ESTA MALTA ANDA A PRECISAR É DE SER METIDA NA PRISÃO…

Depois duma pesquisa aturada na Internet, aflito com males de intestinos preguiçosos e uma pressão arterial bastante elevada, deparei com este conselho dum homem oriental na Wonder-Cures.com, que aqui transcrevo, com uma certa liberalidade no tom e no respeito ao texto.

“A excessiva participação em actividades sexuais causa prisão de ventre (“constipação” como se dizia no tempo da Dona Carlota Joaquina e ainda se diz por essa Europa fora) e outros problemas relacionados em homens. Inversamente, quanto mais um homem se abstiver dessas (deliciosas e naturais) actividades, maior será a sua tendência para sofrer ataques de diarreia. Evitar sexo durante periodos longos, causando a retenção de grandes quantidades de sémen em homens sexualmente normais, poderá conduzir a caganeira persistente, desidratação, perda de peso, baixa pressão arterial, insónia e fadiga crónica em muitos deles”.

Malta nova, quarentona ou ainda capaz der bater meias-solas como eu, fará bem em atentar na sabedoria que exsuda, ou ejacula, desse conselho. No aspecto prático, se conhecerem algum tio com problemas diarreicos, ou hipotenso, já sabem que palavras ressabidas devem juntar à palmada nas costas. As raparigas também podem contar aos seus maridos e namorados, ou a um de cada vez, conforme as circunstâncias. Mas cuidado com os exageros e não se esqueçam de pedir a opinião ao vosso médico muito respeitado. Eu, como sempre, digo: I love you lots, darling Internet.

TT

A nova ordem solar

Se os cientistas acham que o Sistema Solar deve ser assim, eles lá sabem. Mas em meu entender a nova classificação levanta pelo menos dois problemas. Um tem a ver com os pobres alunos do ensino básico. “Ó setora, vamos ter de decorar os nomes de 12 planetas e planetas-anões, em vez de nove? ‘Tá mal.” E têm razão: o aumento de nomes a decorar ascende a 33,33%. O outro problema tem a ver com a elegância vocabular aplicada aos limites físicos deste nosso canto do universo. Dizer “para lá de Plutão” até soa bem, mas quem é que vai arriscar um “para lá de 2003 UB313”?

Breve resposta ao TT, por causa das “aspirações”

Eu cá nunca aspirei a nada, my friend. Mas falo apenas por mim. Quanto ao resto: ’tá bem abelha, rebebéu pardais ao ninho, caia a cortina, entrem os violinos da retórica e a verve do estardalhaço. Força, força – também é para isso que esta coisa dos blogues serve. Para isso e para o que nos der na real gana. Tens queda para os lençóis de texto carregadinhos de sarcasmo? Então escreve os teus lençóis de texto carregadinhos de sarcasmo. Preferes uns epigramas instantâneos e outros exercícios menores do género? Venham de lá esses epigramas instantâneos e outros exercícios menores do género. Mais os vídeos. E as fotos. E os quadros de grandes mestres em reproduções manhosas. E os poemas. E os excertos de livros. E as indignações com o que se passa no mundo. E tudo o que vier à rede. Até o peixe. Até o silêncio (sem justificações e sem remorsos). Tão simples como isso, pá.
Um abraço

PS – Já agora, a sigla do Clube das Ausências Prolongadas é CAP. E à CAP, seja que CAP for, eu recuso-me a pertencer. Ou seja, com a tua bem urdida provocação já garantiste pelo menos uma coisa: tão depressa não me afastarei do convívio diário com a tal “cambada de ursos” que nos lê.

DO QUE FORAM AS ASPIRAÇÕES DO ASPIRINA

Este apontamento do TT é – e assim deverá ser lido – anterior à morna chuva de Verão que o Zé Mário fez cair aí em baixo.

Passem a vista (estou a dirigir-me àqueles que têm participado destas leituras desde o princípio do mundo) por essa relação de nomes de Enfermeiros aí à vossa direita e depois digam-me com franqueza se ficaram desiludidos com as contribuições que alguns deles deram ao longo destes quase dois anos de vida deste blogue. Dos cinco fundadores que ainda por cá andam a escrever com uma certa assiduidade, salva-se o Luís Rainha, cabeça do movimento, vaso de guerra que aqui vem dar bordadas de seis postas a fio quando as coisas aquecem lá pelas províncias da jornalada paga sobre determinados temas ou sustos que galvanizam e polarizam as opiniões; e o Fernando Venâncio, o único que neste preciso momento ainda se nega a calar-se por mais de quatro dias consecutivos. Dos restantes três do grupo permanente, o Valupi foi o último a entrar no Clube das Ausências Prolongadas, o que prenuncia afastamento total ou planos sebastianistas sem nevoeiros. Os outros dois andam a rezar mantras noutras tabernas, provavelmente pesarosos porque ninguém os compreendeu ou simplesmente porque não há nada neste mundo que mereça a pena ser compreendido. Dos convidados, o Carvalheira também me parece já não ter tantos contos para nos contar e eu, estranha alma incompreendida e de casca grossa, estou quase a ir pelo mesmo caminho se não me salvarem.

Ninguém pode acusar o fundador / os fundadores deste blogue de não terem feito um esforço razoável para apresentarem um prato diverso e bem decorado, representativo dos (e atento aos) gostos queridos do público ledor que anda por aí convencido de que sabe e que o sabe muito bem. Aqui, deste o princípio, havia de tudo para agradar, convencer e excitar, desde o marxista, denunciador cauteloso das violências de totalitarismos sovietistas, a homens da direita civilizada, uns a descartarem-se de revoluções permanentes ou ditaduras proletárias sem abandonarem o filosoficamente inviolável marxismo, e outros críticos do salazarismo para garantirem a permanência e sobrevivência da direita conveniente. E não nos faltava nem arte nem artistas, críticos literários, jornalistas consumados e escritores reconhecidos. Arquitectos, caricaturistas, publicitários, gente metida na indústria do livro, homens de reinterpretar Deus para consumos modernos e para nos ler a nova Mensagem. Enfim, de tudo como na loja dos linimentos para as comichões.

Mas que ninguém faça um drama de tintas consumidas destes dias sem postas, sem sinal de vida, sem peito a arfar com mais uma posta de tiro aos papas. Tudo isto é normal, democrático, previsto e já visto. Não é a primeira vez que as brigadas internacionais da informação, cultura e opinião política alternativa andam às cabeçadas surdas umas com as outras. Por favor, aprendam, senhores, treinem-se a captar os ultra-sons. A Intriga sabe disso melhor que ninguém. Ademais, há tanta coisa a considerar quando se desiste ou se perde o calor para continuar a escrever balancetes opiniáticos – vaidade, orgulho ferido, alergia, ou pouca capacidade de resistência, a críticas merecidas ou não, escassez de encómio, altaneirices não justificadas, partidarismos reais ou com efeito retroactivo, e um sempre à mão, quando não nos ligam nenhum porque a culpa é nossa, “já estou farto desta merda”. Abençoados recursos que não nos faltam.

Mas eu continuo na minha sobre em quem também deve recair a responsabilidade destas deserções ou mudanças de ares profiláticas dos nossos blogadores. A maior parte da malta que aqui vem ler é uma cambada de ursos ainda maior que a enfermeirada que foi tocar castanholas ou ganhar carcanhóis para outras paragens. E não percebem nada de política, são uns ranhosos de primeira que não têm a mínima ideia do que é o Imperialismo nu e cru, não sabem que a BP é a petrolífera que mais dinheiro faz em petróleo nos USA, entre as duzentas que por lá andam, e continuam a dar vivas à Europa chiraca que meteu os segredos atómicos nas mãos de Israel e agora anda armada em boa e civilizada a fingir que não tem nada a ver com o americano malvado. Who says I am not diplomatic?

TT