Rocinante

O viajante já se prepara para partir, quando entra um fulano atarefado a pedir uma cerveja em altos berros, parece que está zangado com o mundo. A locandeira bem lhe repreende os modos, mas ele continua a falar tão alto que é impossível ouvi-lo. Como se estivesse a falar connosco além do cimo da serra do Galgueiro.
O homem está muito apressado, porque tem que ir abrir uma cova no cemitério duma aldeia vizinha. Para um rapaz de mota, que vinha da casa das brasileiras, às quatro da manhã. E não viria muito mal cuidado, porque, a páginas tantas, os colegas olharam para trás e já o não viram, que já estava todo estrampalhado na valeta, ali à curva da quinta do Forcas. Ficam duas filhitas, uma mulher nova…
O viajante fica impressionado só com o pouco que lhe traduz a dona Blandina, por si não entendeu uma única palavra. O falador tem um ar estranho e visionário, faz lembrar uma figura qualquer, mas o viajante não sabe qual é. E só encontra a resposta quando sai do café, ao dar com um rocinante preso a uma carroça, com duas palhas em cima. O cavalicoque está tão magro que os ossos lhe vão furar a pele. Está tão abatido e cabisbaixo que parece não aguentar o peso da cabeça, e é de temer que se fine ali mesmo. Mas o dom quixote continua lá dentro a beber a sua cerveja, indiferente à sorte do companheiro, a contar as suas histórias inaudíveis, e a barafustar contra os moinhos de vento que há no mundo.

Jorge Carvalheira

5 thoughts on “Rocinante”

  1. Eu continuo a gostar muito destas viagens do Carvalheira, sinceramente. É uma espécie de as aldeias falarem em nome do resto do país, e com mais competência. E há sempre um suspense que se estende para alem do fim. Como o socialismo do Sócrates de comer o peixe até à espinha(continuando sempre no próximo governo social-democrata)para não se desperdiçar nada.

    TT

  2. Da mesma maneira que permite a existencia de comentadores ainda mais mediocres (vulgo maus ou pessimos), como eu e voce.

    O Jorge nao escreve nada mal na minha humilde opiniao. Isto tendo em conta que ha ai muitos que falam falam…e bem espremidos nem enchem um copo de 30cc.

  3. Observador,

    Não ligues a essa Bela Fêmea do Blasfémias. Talvez enviada especial, fan, faneca, quem poderá dizê-lo sem se envolver em problemas de menarquia ou sangue pisado? Hoje chama-se Esteves, há dias chamava-se Lourenço (quando veio largar um enorme cagalhão de comentário a um post do Zé Mario sobre literatura que me ia fazendo desmaiar de tão pobre e aldrabão) e, se recuarmos mais, iremos de certeza encontrá-la a guardar outros nicks entre as aduelas de celha que lhe formam a cintura de fazer corar de vergonha qualquer tanoeiro com brio na profissão. Mas suponhamos que a Tina não passa dum Tino qualquer que anda por aí a dar marradas no vento para se ver livre dos efeitos devastadores dum clister à base de piri piri para desentupir a vesícula. Também pode ser, mas não sou eu que irei perder tempo a investigar.

    TT

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