Apostas

Não sei bem o que fazer, mas apostas são apostas. E o Maio de 68 ficou-me na lembrança. Passei a tarde inteira a palmilhar a avenida, entre as barracas da feira do livro, à espera dum avião que partia para Angola à meia-noite. De manhã aterrámos no Sal com um motor parado. E a TAP ia trazer de Lisboa uma peça qualquer, um magneto, um pistão. Coisa para durar dias.
A guarnição era exígua e o quartel ainda mais. Um hotel de madeira, que se avistava ao longe, estava fora de questão. Servia as tripulações intercontinentais e era proibitivo. Fez-se do avião um bivaque de campanha.
À cauda uns marinheiros solitários, à frente alguns casais, famílias. Em breve era toda a cabine um porão naufragado, a cheirar a leite azedo, a fraldas de bebé. Bem melhor passei eu na enfermaria, duas noites numa cama articulada.
Havia um quadrado de jardim, ainda o tenho nos olhos. Duas acácias anãs, uns braços de chorão desgarrados ao sol, uns banquitos de pedra. E o luxo dum espelho-de-água, uma terrina da sopa, obra de paisagista. Ao lado o pau da bandeira.
O capitão chegou da nascente da Achada, com umas barricas de água. E trazia num cordel um macaquito, que mandou prender ao poste, numa trela de arame. Eu achei o trabalho uma selvajaria e avisei.
– Um dia o bicho foge, capitão!
Foge não foge, ficou a aposta feita. Um jantar de lagosta.
Há dias passei no Sal. Bem sei que o tempo é fugidio, e as palavras transitórias mais ainda. Mas o macaco fugiu, e apostas são apostas. Agora estou neste impasse. Se eu cobrar a lagosta ao capitão, o que é que vou exigir ao almirante? Um tal que descobriu a Índia, e também perdeu a aposta!

Jorge Carvalheira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.