Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Sobre a liberdade (polémica) de a dra. Vilaça exercer mal a profissão

Anteontem houve mais um espectáculo a vários títulos degradante na TVI, desta feita em horário nocturno. Já entrei a meio. Percebi que a jornalista Ana Leal passara uma reportagem em que homossexuais iam a consultas (talvez tenha sido isso) a psicólogos católicos que não rejeitavam a “cura” nestes casos e que as imagens e gravações das consultas e terapias tinham sido obtidas por métodos dissimulados, como câmaras e microfones escondidos. Vi a grande indignação da principal convidada, a psicóloga Maria José Vilaça, apelidada de membro de uma seita secreta, e também do psicólogo que se sentava a seu lado. Depois de argumentações e contra-argumentações acaloradas sobre o que verdadeiramente se disse ou quis dizer e o que a reportagem fez e mostrou, sem surpresa de maior, os dois “réus” da Ana Leal levantaram-se, um primeiro e a outra pouco tempo depois, e foram-se embora. A partir daí (e não foi muito mais), passei para o modo “visualização intermitente”. Mas que história. Fiquei, assim, por culpa minha, sem perceber se os pacientes procuravam mesmo curar-se ou se iam simplesmente pedir ajuda para os seus conflitos internos e saíam de lá sem alternativa que não fosse um aconselhamento espiritual com vista a uma cura, com toda a carga emocional excedentária que isso impõe precisamente à parte mais frágil (mas algo burra, diga-se).

 

Ora, sobre o que vi, que foi particularmente mau, tenho a tecer as seguintes considerações: a Ana Leal, e digo-o com base em reportagens anteriores, em que meteu a pata na poça em grande, está longe de ser uma autoridade mundial em matéria de investigações jornalísticas e de apresentação dos seus resultados. Agressiva, julgadora, má intérprete de dados, inquisitorial. O facto de a sua expressão facial ser por vezes assustadora não me convence do seu rigor nem da sua probidade. Instalar câmaras escondidas em consultórios médicos e transmitir as imagens é uma tangente, com riscos de ser uma enorme secante, à ilegalidade. Nisso os dois indignados tiveram razão. Posto isto, que já é mais do que suficiente para desatinos e broncas em directo, pareceu-me óbvio que a dita psicóloga católica estava a negar demasiados factos da sua prática clínica para o meu gosto e, ao contrário do que seria de esperar, não estava a defender as suas convicções de que a homossexualidade é um problema (não exijo que diga doença) passível de reversão (não exijo que diga “cura”). E devia tê-lo feito, se é isso que pensa, a bem do debate (e talvez do seu próprio esclarecimento).

Apesar disso, ao contrário de muitas opiniões excitadas que leio por aí, não acho que se deva mandar calar a senhora e retirar-lhe a carteira profissional só porque tem ideias indemonstráveis e erradas. É que isso levar-nos-ia muito longe. Quantos médicos já consultei na vida que não perceberam nada do que eu tinha? Nada. Zero. E me indicaram terapias disparatadas? Estaria feita e já nem estaria aqui, se fizesse o que disseram. Bom, mas se ela tem pontos de vista contrários àquilo que a ciência vem apurando sobre a homossexualidade e ao que a observação empírica nos diz, o mínimo era que os defendesse, caramba. Lamentavelmente, não foi isso que fez. Ou porque teve medo que a Ana Leal a comesse (é uma hipótese) ou porque não saberia o que dizer, dada a sua orientação clínica ser ditada pela fé e pelas orientações da igreja católica e pelo preconceito, ou ainda porque o seu colega resolveu abandonar a sala e a deixou sozinha. Seja como for, optou desde o início por negar afirmações que proferira e que muitos ouviram. Duplamente mal: pelo que na prática faz e por não o saber defender.

 

Mas, dir-me-ão os leitores em abono da jornalista, os ataques (e o programa, vá) não tinham razão de ser? Afinal Maria José fala publicamente, exerce a profissão, etc., e o que ela pensa da homossexualidade acaba por causar grande dor aos que a procuram em busca de equilíbrio. Sim, é verdade. De facto, ela exerce a profissão e mal, com muito pouco espírito científico, substituindo a consulta médica por um aconselhamento espiritual segundo os preceitos de um dado credo religioso. Mas também só é verdade se partirmos do princípio de que quem a procura é imbecil, confia cegamente nos profissionais de saúde, em todos e em qualquer um deles, sente dever de obediência a qualquer um e, enfim, neste caso da homossexualidade, vive completamente alheado deste mundo. Mundo este em que ser homossexual é comum – quantos políticos, artistas, apresentadores, jornalistas, tantas pessoas famosas e não famosas, amigos, conhecidos, têm contribuído para quebrar tabus e desdramatizar a situação?

Está bem, não chega. Eu compreendo que muita gente precise de ajuda e que lhe servem de fraco consolo os outros casos de afirmação. Só que eu sou fortemente contra a estupidez. Se vais consultar uma psicóloga e sabes que ela é católica e pauta a sua prática clínica pelas orientações da ICAR, já deves saber ao que vais, ou ficar a saber onde foste, não?  Tens centenas de outras hipóteses. Além disso, não é de excluir que existam pessoas como a psicóloga Vilaça e os seus clientes que queiram alinhar pelas suas “terapias” bizarras. A questão é esta: proíbe-se?

 

Quanto à seita e aos seus membros, a Ordem dos Psicólogos pode e deve ter uma conversa séria com a senhora Vilaça, mas o pior é fazer deles vítimas… de más práticas jornalísticas.

Resposta a Montenegro

«Onde está o PSD que fala para os jovens? Onde está o PSD que fala e representa a classe média? Onde está o PSD que tem propostas para os pensionistas e para os reformados? Onde está o PSD que incentiva e defende as pequenas e médias empresas? Onde está o PSD que representa a sociedade civil que não quer viver de dependências excessivas do Estado? Onde está o PSD que combate o excesso de impostos? Que promove o ambiente? Que aposta na tecnologia e no empreendedorismo? Onde está o PSD das causas e das reformas que mobilizam a sociedade e os seus sectores mais dinâmicos?»


Declaração de Luís Montenegro sobre a corrida à liderança do PSD

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Montenegro, pá, esse PSD está na campanha eleitoral para as legislativas de 2011. Lembras-te, né? O teu nome também assinou por baixo este juramento:

«O programa que agora deixamos à apreciação e ao escrutínio dos Portugueses resiste a qualquer teste de avaliação ou credibilidade. Tudo o que nele se propõe foi estudado, testado e ponderado. Consequentemente, as propostas nele contidas são para levar a cabo e as medidas que nele se apontam são para cumprir. Também nisso queremos ser diferentes daqueles que nos governam e que não têm qualquer sentido de respeito pela promessa feita ou pela palavra dada. Assumimos um compromisso de honra para com Portugal. E não faltaremos, em circunstância alguma, a esse compromisso.»


Programa Eleitoral do PSD – 2011

É da tua palavra e da tua honra que este parágrafo fala. Este foi o tempo em que tu e a tua malta enganaram os papalvos com a promessa do “fim dos sacrifícios”, do “corte nas gorduras do Estado” e da “libertação e democratização da economia”. Para depois terem desgraçado a vida a milhões de portugueses, a quem ainda por cima achincalhavam do alto da vossa fanática soberba.

Se queres ver esse PSD que hoje não encontras, desampara a loja e regressa à campanha eleitoral de 2011 levando o Relvas contigo:

«“Não haverá aumento de impostos, de uma forma clara já está demonstrado, o programa demonstra-o”, afirmou Miguel Relvas aos jornalistas após o Conselho Nacional do PSD, que decorreu num hotel de Lisboa.»


Fonte

Miguel Macedo merece ser destruído, João Miguel Tavares decidiu

Ricardo Costa é uma das mais poderosas figuras na comunicação social portuguesa. Nesta quarta-feira, botou faladura sobre a absolvição, em 1ª instância, de Miguel Macedo, por sua vez um dos mais importantes políticos portugueses e cidadão acusado num dos mais importantes processos da Justiça portuguesa – O caso Miguel Macedo e o Ministério Público. Neste importante artigo, o director-geral de informação no grupo Impresa foi buscar João Miguel Tavares como singular referência externa a compor a sua prosa. Corolário com a importância que cada um lhe quiser dar: o muito importante Ricardo Costa acha que as opiniões de João Miguel Tavares são muito importantes para os leitores do Expresso, daí estar a convidá-los à descoberta das mesmas. Convite aceite.

Na peça destacada e promovida pelo mano Costa – Miguel Macedo e as “canalhices” – o seu autor declara que Miguel Macedo foi absolvido apenas porque escapou “à tangente de uma condenação devido à formulação da lei e às garantias da presunção de inocência”. É este o único raciocínio objectivo sobre o facto bruto, a absolvição, o resto é fogo de barragem sobre “os políticos”. Espíritos cínicos serão tentados a ver na conclusão uma patarata tautologia. Algo da família do “Se a minha avó tivesse rodas era um camião”. Algo demasiado estúpido para ser citável a não ser como exemplo de inanidade. Mas isso não será fazer justiça à importância que João Miguel Tavares tem para o tão importante Ricardo Costa. Pelo que precisamos de aprofundar a análise.

Segundo a minha vizinha do 4º andar, o que o caluniador pago pelo Público está realmente a dizer é o seguinte: “Caso as leis fossem outras, ou caso não existissem garantias de presunção de inocência, ou preferencialmente as duas circunstâncias em simultâneo, então o Miguel Macedo teria sido condenado.” Condenado por quê, porquê, e com que pena? Infelizmente, não teve tempo para deixar uma jurisprudência alternativa na sua importante denúncia de mais um político que pretende condenar mediaticamente para aplauso da turbamulta. Em vez disso, a fixação num discurso primário feito de insinuações emporcalhadas e generalistas expõe uma retórica que apela – de iure – a um clima em que se aceite socialmente a diminuição dos direitos e garantias dos cidadãos em nome do “combate à corrupção dos políticos” (constate-se que este caluniador, que se auto-proclama ao lado de Rui Ramos e José Manuel Fernandes como super-herói na Grande Guerra Socrática, não gasta um caracter a reflectir sobre a sociologia e antropologia da corrupção, não usa um neurónio para comparar os níveis de corrupção internacionais, não perde uma caloria a discorrer sobre a corrupção de funcionários estatais e autárquicos, sequer apresenta qualquer dado mensurável e aferido por instituições com autoridade relativo ao fenómeno da corrupção em Portugal; tudo para ele se resume à perseguição de quem conceba como inimigo político ou de quem sirva para reforçar a sua marca comercial).

E não só, e ainda mais decisivo: as consequências para a vida pessoal, vida profissional e carreira política de Miguel Macedo, por ter sido acusado num processo judicial sem prova válida em tribunal, estão totalmente ausentes da sua farronca. Ou por outra, aparecem referidas indirectamente apenas para serem chicoteadas. O caluniador revolta-se contra quem aponte para os danos que o tal Ministério Público que “acabou com a impunidade” produziu com a sua acusação de merda, deixando um espectacular fiasco da PGR da santa Joana ao abandono na comunidade. Para este palhaço do circo justiceiro, o único problema que existe no processo “Vistos Gold” está no desencontro entre a furiosa campanha que fez de Joana Marques Vidal uma comissária política de Passos e Cavaco e a real integridade e independência do poder judicial que respeita e aplica a Lei. O dinheiro gasto ao longo de anos pelo Estado, os recursos humanos ocupados na investigação e acusação e, acima e antes de tudo, a destruição do bom nome e valor social de cidadãos, mais a depauperação da sua segurança e saúde, e podemos até esquecer que têm família e amigos, justificam-se no seu bestunto se o caluniador profissional puder usar algum material das cinzas do caso para despachar mais um texto pago pela Sonae, eis a única lei que venera. Agenda secreta desta pulhice desenfreada: a fantasia lúbrica de ver o Ministério Público transformado numa polícia moral ocupada exclusivamente com governantes, deputados e dirigentes partidários. Qualquer pecado descoberto, mesmo que não recebendo de juiz algum o carimbo de ilegal, seria sempre para este senhor uma “tangente” à sua pulsão torcionária (desde que lhe dê jeito, vide como tratou os altos e baixíssimos voos do seu ídolo na Tecnoforma, para dar um singular e ilustrativo exemplo da sua duplicidade axiológica e inveterada sonsaria). Logicamente, a publicação das gravações dos interrogatórios judiciais dos “Vistos Gold”, expondo-se os registos áudio e vídeo dos arguidos, passa sem qualquer referência da sua parte. Compreende-se facilmente o silêncio. É que alguém que ganha o pão a explorar canalhices desse calibre não pode morder na mão que o alimenta.

Quantos anos teria Miguel Macedo de passar a ver o sol aos quadradinhos em ordem a deixar o Torquemada da classe política satisfeito? Nunca o saberemos, receio. Mas talvez um dia eles se cruzem por aí e o nosso salvador da pátria se lembre de dizer ao ex-futuro-presidiário qual o castigo que gostava de lhe dar. Entretanto, ficamos com uma questão bizantina nas mãos: Ricardo Costa acha que João Miguel Tavares está ao seu nível, ou, pelo contrário, Ricardo Costa acha que já chegou ao nível do João Miguel Tavares?


Legenda desta imagem: numa excepção que confirma a regra no Público, desta vez a inteligência e a decência venceram pelos números a vacuidade narcísica, a incapacidade empática e o oportunismo rapace.

Mal podemos esperar por “políticos com ideias inspiradoras” no PSD

 

E aí vem mais um com vontade de mentir. Não bastou o Passos e a sua campanha eleitoral totalmente feita de enganos em 2011, agora insinua-se o Montenegro, um dos seus fervorosos apoiantes e réplica menos sinistra do outro, para correr com o Rui Rio da liderança e, diz ele, recuperar os apoios perdidos do PSD.

 

Acho bem. O Rui Rio tem revelado, de facto, que entre um governo local e uma liderança nacional vai um passo de gigante. Que a frontalidade e honestidade sobre certas matérias não são qualidades universalmente apreciadas no partido. Não percebeu, por exemplo, que a bandeira da reforma da Justiça e do Ministério Público, de resto justíssima, implicaria mexer com uma das armas mais poderosas (e asquerosas) de grande parte do PSD, a ligada ao governo anterior, na luta política contra o PS. Que ser social-democrata deixou de ser importante para boa parte do PSD após Passos Coelho. Que o partido iria, como se vê, ficar mesmo partido, entre outras razões, por pressão dos tempos modernos e das tendências instagramáticas e tuíticas – pois está totalmente na moda que os medíocres e os charlatães cheguem ao poder pela via democrática e digam as maiores enormidades e falsidades nos palanques, antes e depois da chegada ao poder.  Para bem da população? Aqui é que bate o ponto: não. Mas são os tempos. Na falta de capital de queixa para nazis adormecidos, em Portugal, restam-nos os aldrabões. Azar que, desta vez, sem crise financeira internacional, nada possam fazer com as contas.

 

Mas, Montenegro?

 

É que eu penso que já tivemos, e este já acolitou de muito perto, o nosso último charlatão, assim como boçalidade que chegasse. O Montenegro debita talvez mais palavreado por minuto do que o Passos, mas é menino talqualzinho capaz de prometer tudo aos professores, enfermeiros, juízes, polícias, bombeiros, estivadores e todos os alegadamente descontentes para, caso conquiste o PSD, concorrer a primeiro-ministro. É igual, apenas menos fúnebre. O que terá para dizer para além de promessas demagógicas e avaliações deturpadas? Talvez pegue nos ciganos? Ou no Marcelo, que tanto mal lhes faz. Mal posso esperar. Para bem do PSD, preferia o Pedro Duarte* .


*Correcção:  eu não queria dizer Duarte Marques, obviamente

 

A Europa das nações – um muro em volta e estamos salvos

Quem diria que o desafio sério, interno, à “Europa” chegaria em força, não com as bandeiras da extrema-esquerda (sempre risonhas, mas utópicas, datadas ou descredibilizadas), mas com as da extrema-direita (e tirem o “risonho” da equação). Ou seja, com ideias mais extremadas à direita do que as da tradicionalmente “direitista” Alemanha e a sua CDU, por tantos odiada durante a última crise, e com bastas razões. A perplexidade actualmente é que os dois movimentos anti-Europa se aproximam, somando contestação à contestação, e portanto números e alarido, mas também criando maior confusão e indefinição, por, teoricamente, deverem ter motivos diferenciados.

Na prática, menos intromissão de “Bruxelas” (como se “Bruxelas” não fosse o Conselho dos chefes de Estado e de Governo eleitos dos diferentes países), menos controlo político e judicial, menos tratados orçamentais, menos controlo financeiro ou mesmo fim do euro, da União Europeia, mais independência são as reivindicações gritadas por uns e por outros! Ambos dizem “não querer esta Europa”. Por cá, sei que o PC não quer Europa nenhuma e nunca percebi se a Marisa Matias quer mais Europa ou menos Europa e, em Espanha,  não sei se o Vox quer mais ou quer menos ou ainda não pensou nisso. Tal como em França, as redes sociais materializadas em coletes amarelos não querem nada do que existe, querem tudo e o seu contrário, que é o mesmo que dizer que não sabem o que querem. Ou antes, há quem saiba: a Marine le Pen, por exemplo, quer chegar ao poder. E a Rússia acha que é uma óptima ideia.

A União tem vantagens de peso face ao histórico de conflitos no continente. Toda a gente que passou por uma escola sabe disso. As fronteiras, no mundo actual de enorme mobilidade e facilidade de transporte, são um anacronismo. Mas o novo dado da “islamização” da Europa devido à forte imigração muçulmana (a que já está instalada e a que pretende vir) veio suscitar um compreensível repúdio pelas políticas de abertura total e, queiramos ou não, tem sido um bom fantasma para se agitar a par do nacionalismo. No entanto, vemos nas televisões que a maior parte dos incendiários de automóveis e partidores de montras em Paris são jovens muçulmanos filhos dessa mesma imigração que buscava uma vida pacífica e melhor. Por fim, a crise recente e as consequentes austeridades ainda fazem sentir os seus efeitos nas classes média e média baixa em alguns países europeus. A juntar à confusão, penso que a Alemanha, tanto a mais como a menos extremista, quer ainda coisas muito distintas de todos os outros países em matéria europeia, dada a sua posição dominante. E depois há o euro, que tem que obedecer a regras. O euro, que nenhum país, nenhum povo, tem coragem de abandonar de tão prático e simbólico que é.

 

Mas sobre os dirigentes nacionalistas, que cavalgaram a crise migratória, leio (aqui) que Matteo Salvini, o populista/nacionalista líder da Liga do Norte italiana, agora vice-primeiro-ministro de Itália e ministro do Interior, se vai encontrar com o líder do partido do governo polaco para se aliarem e concertarem forças no ataque às instituições europeias já nas próximas eleições para o Parlamento Europeu. Ambos se dizem eurocépticos, mas, ao contrário dos “snobs” britânicos, não querem sair da UE (compreende-se: questão de fluxos de fundos). O que querem, aparentemente, é conquistar uma grande maioria no Parlamento Europeu e certos lugares-chave na Comissão para, alegadamente, alterarem as políticas actuais, consideradas demasiado impositivas. Salvini, o populista, tem até vontade de presidir à Comissão Europeia, para, presumo eu, ficar a cumprir as instruções de um bando de nações que se odiarão mutuamente e cortar com o que há de comum e mais conseguido actualmente, incluindo o ambiente e a livre circulação (já a agricultura, aguardo notícias do nacionalismo nesse ramo). Seria um “concerto de nações” lindo de se ver.

O polaco não gosta que a Europa o obrigue a respeitar o tratado de adesão que assinaram, que contém regras sobre o Estado de Direito, a democracia e outras, descaradamente violadas pelo seu governo, cada vez mais ditatorial e que está até a ser investigado por essas violações. Mas não existe euro na Polónia. Nem portos de entrada de migrantes. Pelo que o problema não é exactamente o mesmo que o da Itália. Existe um exemplar parecido na Hungria, surgem outros noutros países, mas desconheço se querem constituir um trio, um quarteto ou um quinteto de eurocépticos. Como as coisas estão, talvez nem haja necessidade de alianças. O italiano quer liberdade monetária e financeira, esquecendo-se que a sua moeda é o euro e que é o euro que a população quer e, não sabendo que volta dar ao país para o tirar da estagnação, se é que isso verdadeiramente o interessa, como populista que é, acusa as instituições europeias de serem a causa do fracasso nacional e quer ir para Bruxelas governar a Itália. Estamos mesmo a ver. O que o homem sabe é que não quer migrantes, e bem martelou essa tecla até conquistar o poder. Mas não querer migrantes não chega para definir melhores políticas monetárias e económicas a nível europeu que beneficiem o seu país.

 

Também há Putin, o potencial dinamitador da União, de quem Salvini gosta e de quem Kaczynski e os polacos em geral nem querem ouvir falar. Um ponto de discórdia, portanto.

 

Em suma, os cenários que se perspectivam não são risonhos para o projecto europeu. Irão os chamados “eurocépticos” conseguir dominar o Parlamento e as restantes instituições? Que raio de Europa teremos nesse caso e, se tal não vier a acontecer, que acontecerá se a própria direita europeísta, que tem dominado em França, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, enfim, nos países fundadores, e também no PE, sair fragilizada do processo de estraçalhamento democrático em curso e se dessa fragilização não resultar um reforço da social-democracia europeísta?

 

Não sabemos. Será difícil voltar atrás na Europa sem um sério conflito. Será isso que gente como o Salvini ou a Le Pen procura, ou fechar as fronteiras e admitir regimes ditatoriais no espaço europeu fará toda a gente feliz e europeia?

Eixo do Bem

Nesta emissão, a propósito do convite a Mário Machado para aparecer como atracção de feira num programa de diversão matinal na TVI, temos para a posteridade um grande momento de televisão da autoria de Daniel Oliveira. O efeito de dramatização foi conseguido numa mistura perfeita de ethos e logos onde o Daniel falou em nome das vítimas dos crimes do criminoso. Falou como um verdadeiro jornalista, daí o poder da sua intervenção. E que faz um verdadeiro jornalista? Usa a sua credibilidade para transmitir os factos e só os factos – sendo que também pertence ao domínio factual repudiar o que é ameaçador e abjecto e emocionar-se na defesa do que mais importa, assim tendo criado um pathos de natureza e alcance cívico. Pode-se carimbar como corajosa a sua intervenção, pois sim, mas para mim foi outra coisa congénere: foi bela.

Todavia, atribuo ao Luís Pedro Nunes o maior mérito no trio. É que o Pedro Marques Lopes esteve igual a si próprio, exemplar na muralha da cidade a combater em nome da decência e da liberdade. Não veio dele surpresa alguma. Veio foi do bronco, o qual provou que só é bronco quando quer. O Nunes apresentou um raciocínio que foi ao cerne da questão com precisão cirúrgica: o Machado é alguém completamente desqualificado para representar num espaço mediático generalista e sem enquadramento biográfico rigoroso qualquer ideia, donde tinha sido convidado exclusivamente pelo seu currículo criminoso. Tudo o resto que se dissesse sobre a questão, especialmente as manobras para confundir e perverter a discussão ao agitar a liberdade de expressão e ao atacar quem se tinha indignado, não passava da cumplicidade com a intenção de promover a figura ou o ganho de a ter utilizado comercialmente.

Impressiona nele a complexidade da análise por não ter comprometido a sua eficácia; pelo contrário, enriqueceu-a. Ora, o crânio donde saiu o naco de inteligência e honestidade intelectual acima em exibição é o mesmo que a propósito de Sócrates, pessoas com ligação a Sócrates, e ainda ao PS e a quem nele se realiza politicamente, só consegue despejar ódio e estupidez incontinente e inaproveitável. Porquê? Porque se apaixonou por Sócrates, porque tem medo de Sócrates, porque se casou com o papel público de carrasco de Sócrates e não se admitem divórcios nessa seita do fanatismo mediatizado paga pela indústria da calúnia.

Revolution through evolution

The distance between our values and the people we are is greater than we might think
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Make Taking Care of Your Brain Your New Year’s Resolution
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Loyola Medicine Physician Offers Top Ten Holistic Health Tips for the New Year
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When New Year’s Resolution Excitement Wanes, Social Media Can Boost Motivation
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Researchers locate the body’s largest cell receptor
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Canine volunteers contribute to patients’ care and comfort
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In Fimo, We Trust: Finally a Name for the Experimental Examination of Poop
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Exactissimamente

«Não passou assim tanto tempo para que os portugueses não reconheçam um fascista quando o ouvem falar e quando observam os sinais e os rituais de que se rodeia. Honra lhe seja feita, Bolsonaro não disfarçou coisa alguma: no seu discurso de posse disse exactamente ao que vinha, as suas ameaças foram claras, o seu instinto de ódio e perseguição, em nome de Deus e da “cultura judaico-cristã”, foi tão óbvio que não há disfarce possível. Antes assim: mais tarde, num futuro que só por sorte não será tenebroso, ninguém poderá dizer que foi ao engano. Não é por ser evangélico, por repetir à exaustão o mantra de “Deus acima de todos”, que o fascismo se torna cristão. Pinochet, Franco, Salazar eram todos devotos católicos e também eles gostavam de invocar o nome de Deus em vão — que, como se sabe, é pecado que brada aos céus. Não é por esgrimir a fé contra as “ideologias” — isto é, contra as ideias, contra a liberdade de pensamento — que o programa político de Bolsonaro deixa de ter a sua própria e sinistra ideologia. E é por isso que o ministro da Educação, indicado directamente pelos evangélicos, tem como tarefa limpar “o lixo ideológico” das escolas e servir às criancinhas a fé evangélica — esse embuste religioso inventado à medida de um país com largas camadas da população semianalfabeta. Se isto não é todo um programa político e ideológico, em tudo semelhante ao das madraças islâmicas, é só porque há quem o não queira ver.»

Deus deve estar zangado

O pior de 2018

O pior de 2018 foi não termos alguém do PSD (tanto fazia) e a Assunção Cristas a governar a malta. Com esse pessoal a despachar decretos-lei, os professores já tinham recuperado todo o tempo de serviço e o mais que se lembrassem de pedir, os enfermeiros passariam a tirar os pensos com muito maior delicadeza e carinho e quem pensasse em fazer greves a cirurgias (ou que fosse ao corte das unhas) seria tratado como efectivo criminoso, os magistrados do Ministério Público teriam Joana Marques Vidal firme no comando da PGR por mais 6 ou 60 anos (o tempo que levasse a exterminar a praga de corruptos com ninho no Rato), o valente Ventinhas poderia dedicar-se a tempo inteiro a comentar processos judiciais em curso e caluniar certos arguidos que ele não grama, e, claro, as 20 estações de Metro da Cristas (com um custo simpático de dois mil milhões de euros) estariam quase prontas.

Os direitolas, quando vão para a oposição, transmutam-se em paladinos do Estado, da coisa pública, do investimento nos serviços sociais em favor dos mais desfavorecidos. Ou seja, a direita na oposição mal se distingue das pessoas decentes. É, pois, lamentável que o PS não tenha deixado entrar à socapa nos Conselhos de Ministros alguém do PSD (tanto fazia) e a Assunção Cristas (ou deixá-la participar por SMS, feito artístico em que se terá especializado nesses dias de canícula em que só apetece piscina ou beira-mar).

Revolution through evolution

Nutrients in blood linked to better brain connectivity, cognition in older adults
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Getting the most out of spinach: Maximizing the antioxidant lutein
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Exercise may be as effective as prescribed drugs to lower high blood pressure
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What helps people live well with dementia
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Older adults make the same financial decisions for themselves and others, while young adults take more risks when making financial decisions for others
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Our universe: An expanding bubble in an extra dimension
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Science-Based Tips for a Better, Happier New Year
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Excelente ideia

O que aconteceu no dia em que nasceu? Saiba na capa do DN. E leve para casa

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Aproveito para dizer umas banalidades sobre a crise comercial do jornalismo, a qual amplifica e agudiza a crise deontológica da imprensa, a partir deste serviço do vetusto Diário de Notícias.

Começando pelo óbvio, só uma entidade com o passado do DN poderia cruzar a longuíssima duração (mais de século e meio) com a temporalidade personalizada (data de nascimento dos viventes). Quantos projectos comerciais podem oferecer o mesmo produto, a mesma experiência? Há anos e anos que o DN o faz mas, como a notícia acima ligada mostra, há espaço para alguma inovação. Depois, o serviço tal como actualmente está concebido não passa do triunfo da lei do menor esforço: limita-se à reprodução de uma capa, a que acrescem umas brincadeiras de composição, é um serviço estritamente mecânico quanto à sua logística e conceito. Ora, podia-se ir mais longe e criar um produto, em forma de livro, que fosse um resumo dos principais factos jornalísticos (portanto, sociais, culturais, históricos) que acompanham a biografia de qualquer pessoa, seja qual for a sua idade. Esse álbum diacrónico feito à medida de cada um poderá ser composto sem dificuldade a partir de diferentes critérios de personalização, criando um museu individualizado dos mundos exteriores dentro do nosso mundo interior, por um lado, e construindo e reforçando uma identidade comunitária e uma vocação cidadã. Finalmente, o DN poderia celebrar todos os centenários que adquirissem ou recebessem de presente a capa do seu dia de nascimento com reportagens sobre eles e até organizando uma festa/espectáculo onde, a cada ano, se visitasse o Portugal de há cem anos visto a partir do legado histórico do jornal. O património do DN, e de qualquer outro órgão de comunicação social longevo, é um incomensurável tesouro a ganhar pó por falta de inteligência estratégica dos donos e directores desses meios.

Assim como fico com a alma toda dorida ao ver a estupidez com que o jornalismo lida com o lixo intelectual, moral e cívico que enche as suas caixas de comentários (pista: a boa solução não é acabar com elas; precisamente ao contrário, deviam ser terrenos prioritários de intervenção dos jornalistas), assim me parte o coração assistir ao desnorte de quem está sentado em cima de uma das indústrias do sentido que nos liga uns aos outros e parece ignorar os famélicos que se encharcam com produtos de paupérrima qualidade, quase todos, e tóxicos, muitos.

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório