É lamentável que a ARTV não permita saber quantas visualizações têm os seus vídeos. Por exemplo, quantos mamíferos já viram a Audição do Ministro da Administração Interna do dia 15 do corrente? E dos que viram, quantos foram até ao fim, quantos até ao meio e quantos não passaram dos 5 minutos iniciais? Não faço, portanto, a mínima ideia mas arrisco os 10 euros que tenho no bolso em como o número dos que assistiram na integralidade a essa audição é inferior em 10 ordens de grandeza ao número dos que já foram para a janela pedir a demissão do ministro ou que desenvolveram sólidas convicções a partir de resumos de 30 segundos sobre uma conferência de imprensa onde o mesmo ministro disse coisas mesmo fixes para um gajo gozar, pá. Agora, estar duas horas a ouvir pessoas com tempo para falarem sem serem interrompidas, algo que torna muito mais provável conseguirem transmitir informações e raciocínios, isso já não dá, pá. A inteligência é demasiado secante, temos é de abandalhar e pichar a cidade.
Para além de podermos constatar como a escolha de Joacine Katar Moreira foi um erro também por causa da sua aflitiva gaguez (a causa da integração de pessoas com deficiência não colhe e fica mal servida porque tal patologia, naquele grau, compromete a plena realização da sua função como oradora e introduz sofrimento inútil na assistência), para além de vermos como a retórica da direita é igual à daquela esquerda que imita a direita decadente na exploração do caso só para tentar atingir o ministro e o Governo, para além de assistirmos ao nó cego que António Filipe (PCP) deu a José Magalhães (PS) quando lembrou que não havia lugar para choradinhos de arrependimento posto que aquela comissão parlamentar tinha cumprido o seu dever com rigor democrático ao longo dos meses e em coordenação com o ministro da Administração Interna, quem continuar na ignorância do que ali foi dito – e que esta entrevista complementa e detalha – vai continuar a preferir a estupidez à inteligência.
Aqueles que fazem coro pela demissão de Eduardo Cabrita não têm nenhuma razão para o fazer, posto que o ministro cumpriu com os deveres que lhe foram confiados pelo Estado e obteve resultados meritórios no que ao episódio da morte de Ihor Homeniuk diz respeito. Como não têm razão, ou porque essa razão nasce apenas da motivação antagonista e não da honestidade intelectual, os que berram contra o homem têm de aparecer muito zangados no palco e a misturar assuntos demagogicamente, têm de fazer teatro. Isso é transparente nas actividades diárias de todos os parlamentos em qualquer parte do Mundo onde existam democracias, é inerente ao folclore de ser oposição. Só que ser oposição não obriga ninguém a ser estúpido, tal como ser comentador profissional com a ambição de vir a ser alguém num partido a definhar ou continuar a influenciar o antigo partido por quem o coração ainda bate não é uma condenação à estupidez. Estes amigos estão a ser estúpidos só porque acham que há algo a ganhar nisso – e porque a soberba irresponsável é embriagante.
A ideia de que se deve castigar um ministro com a demissão para dar um exemplo é o sonho molhado dos Marques Mendes que, se pudessem, demitiam definitivamente o PS da política nacional. Compreende-se a agonia. Mas há algo também de estupidamente português em não permitir que se aprenda com o erro. Em castigar e ostracizar quem errou, condenando-o à vergonha. Isto, que talvez tenha raiz católica no célebre páreo com a ética protestante, é especialmente imbecil neste caso do escândalo no SEF quando nos chega ao conhecimento o filme dos acontecimentos e a complexidade política e administrativa do que está em causa. Neste sentido, até o facto de a directora do SEF não se ter demitido nem ter sido demitida precisa de ser ponderado à luz dos detalhes de todo o processo, começando logo (como lembra Cabrita na entrevista ao Público e Renascença) por se registar que o SEF colaborou com a Judiciária assim que a suspeita de crime foi estabelecida por elementos do próprio SEF. O mesmo para os tempos da decisão sobre a indemnização, recordando a demora no caso dos militares mortos no Curso de Comandos há quatro anos e como tal é conforme ao próprio Estado de direito.
O ministro da Administração Interna poderá ter vários erros no bornal, por actos, palavras e/ou omissões. Nesta e noutras matérias. É até possível que estejamos perante um ser humano. Apesar disso, e para quem o considera um “cadáver político” e um “zombie político” (les beaux esprits se rencontrent), vai sair reforçado desta crise. Porque fez bem o que tinha para fazer com o seu poder. E porque o que está estruturalmente em causa no SEF, pese estar relacionado com o trágico e inumano fim de vida de um cidadão ucraniano, não se resolve com a irresponsabilidade dos comentadores profissionais nem com os oportunistas partidários. Vai é ser preciso recorrer à inteligência para o admitir.




















