Todos os artigos de Valupi

Nas muralhas da cidade

«Infelizmente, quem mais deveria garantir a sua correta aplicação parece ter-se alheado das suas incumbências. E quem, noutra dimensão, mais deveria zelar pelo regular funcionamento das instituições compraz-se em derivas inconsequentes sem contributo que se veja para obstar às anomias do Estado de Direito e, já agora, da própria autoridade democrática do Estado.

Um exemplo da disrupção feita regra: as disposições da lei processual penal em matéria de prazos - fundamentais para a efetiva realização da justiça em tempo útil - são frequentemente desprezadas, vinculando-se a promoção apenas aos prazos da prescrição.

Vivemos num evidente menosprezo dos direitos dos cidadãos, tanto vítimas como arguidos, uns e outros com as suas vidas suspensas por tempos que se arrastam, muitas vezes com a sua honra e a sua dignidade irremediavelmente destruídas por atuações e omissões à sombra de inércias intoleráveis.»

Jorge Lacão_O justicialismo na encruzilhada

Nas muralhas da cidade

«Anda há meses um canal de televisão e um jornal, do mesmo grupo, a destruir um cidadão e ninguém parece importar-se muito com isso. Desapareceu uma senhora, grávida, e o seu alegado namorado foi constituído arguido nesse inquérito judicial. Está, parece, em casa, com a medida de coação decretada de permanência na habitação. Não foi sequer acusado pelo Ministério Público, muito menos julgado. Não há corpo e a história, aparentemente sórdida, é muito triste. O canal filma insistentemente a família da senhora desaparecida, recolhe as mesmas declarações em loop, eivadas do mesmo basismo e vontade de aparecer de repórter e de declarante, reproduz em direto retroescavadoras e mergulhadores em busca de um corpo. Entretanto, parece que a realidade afirmada muda radicalmente, mas nada muda. E o homem, homicida ou não, continua a ser vilipendiado pelo canal e pelo jornal, também ele agora morto em vida, culpado ou não. É filmado à má fila num momento em que saiu de casa, o mundo dos cafés conhece o seu nome, a sua aparência e a da sua casa, a sua existência e os recantos íntimos da sua vida. Nota-se que só pode haver necessariamente ali um intuito ad personam de aviltar e condenar antes dos tribunais, a coberto da liberdade de imprensa. Pode ser culpado do crime, talvez. Ou não. A mim, como professor de Direito, advogado, jornalista e cidadão, só me arrepia esta perseguição televisionada como justiça, como justiça que funciona e decide em alternativa ao sistema judicial. Para alguns, não há segredo de justiça nem presunção da inocência. Mas, pelos vistos, está tudo bem. A Ordem dos Advogados e o Ministério Público, aparentemente, também acham bem. Até lhes calhar a eles.»


Miguel Romão

Revolution through evolution

Losing keys and everyday items ‘not always sign of poor memory’
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Cardio-fitness cuts death and disease by nearly 20%
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Scientists reveal the face of a Neanderthal who lived 75,000 years ago
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Ancient text reveals details of Plato’s burial place and final evening, experts say
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Rock solid evidence: Angola geology reveals prehistoric split between South America and Africa
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Orangutan observed treating wound using medicinal plant in world first
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Physics confirms that the enemy of your enemy is, indeed, your friend
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Dominguice

A manchete do esgoto a céu aberto, aqui em baixo visível, na sua deturpação alarve e canalha é um sintoma de medo. Há criminosos, na Justiça e na comunicação social, com medo de que a democracia esteja, pela primeira vez, realmente interessada em que os magistrados do Ministério Público também cumpram a lei como os restantes mortais.

Mas esses campeões não têm medo de ser castigados, sabem de ginjeira que são intocáveis. Eles têm é medo que se acabe a mama.

Que fedor

No ano passado, a Cofina vendeu a Cofina à Cofina, mudando o nome e metendo o Ronaldo no negócio só para o gozo ser ainda maior. A Cofina Media, a mando da Cofina SGPS e ao longo de décadas, ganhou muito dinheiro com o pior que se pode fazer tendo órgãos de comunicação social ao dispor: sensacionalismo, populismo de direita, justicialismo, perseguições políticas, alarmismo, teorias da conspiração, calúnias, crimes em conluio com funcionários criminosos da Justiça portuguesa. Isto foi realizado às claras, sistematicamente, com farronca e provocação. Isto era, e continua a ser, assumido editorialmente como um vale tudo impunível.

Nos últimos 20 anos, as rádios e os jornais em papel foram desaparecendo, e as televisões ficaram cada vez mais parecidas com a Cofina no seu jornalismo político, servindo agendas de direita, coroando vedetas do comentariado odiento e alimentando a indústria da calúnia com variações locais. Chega 2024 e os donos da Cofina querem continuar a encher o bolso, como é seu apanágio. Vai daí lembraram-se de criar um canal de TV por cabo que fosse simétrico do CMTV, ao mesmo tempo que apareceria distintivo face ao panorama sectário da concorrência. O mercado mostrava uma oportunidade, agora que a cor do Governo tinha mudado. Só precisavam de caras com nome, e nomes com prestígio, para validarem o novo negócio. Ora, quem melhor do que António Costa e Rui Rio? E que tal Fernando Medina, para dar ao PS e seus simpatizantes ainda mais carinho? Até irem buscar o Luís Paixão Martins surge como trunfo brilhante, criando um ramalhete de figuras reputadamente credíveis e estimulantes. Outros irão juntar-se, provavelmente gente de alta qualidade profissional, se estas personalidades servirem de critério maioritário.

Problema? Isso de o dinheiro não ter cheiro. Quando os nossos melhores aceitam ser cúmplices de criminosos, e de criminosos que exploram a perversão da autoridade judicial, a cidade fica ao abandono. É descoroçoante ver Costa de novo a ser pago pelos mesmos que andaram a dizer que ele era um operacional de um partido de bandidos que tinha como programa o assalto ao Estado — pulhas que violaram os direitos de personalidade, e de defesa, de camaradas e amigos seus (mas que fossem de meros concidadãos sem qualquer protagonismo social, bastaria onde a decência é reflexo da coragem). E é vertiginoso ter como evidência que António Costa se está a marimbar para isso, que a pequena fortuna a empochar, mais o palco mediático, é o que realmente lhe importa.

Júdice equânimo

Quem se interessar pelo fenómeno Sócrates (refiro-me aos efeitos psicológicos, sociológicos, antropológicos, políticos e históricos, em Portugal, resultantes de esse cidadão ter exercido cargos governativos e ter sido prejudicado, punido e linchado num processo judicial politizado) terá interesse nesta hora com José Miguel Júdice a ser muito simpático para com Maria João Avillez: José Miguel Júdice: “Não houve um Sócrates 1 e um Sócrates 2”

A senhora aparece igual a si própria. Trata Sócrates com desprezo de classe, caricaturando-o como um traste que não tinha educação, nem maneiras, nem moral, nem berço. Repete os argumentos ad hominem estafados de 20 anos e tem o extremo cuidado de evitar qualquer questão acerca das clamorosas violações do Estado de direito, e dos trâmites do processo justo, de que Sócrates foi e é vítima.

O Júdice também está igual a si próprio, ele que nunca caluniou nem diabolizou Sócrates. Nesta entrevista acrescenta alguns episódios biográficos que ajudam a explicar porquê. Mas o seu principal contributo para um olhar equânime sobre a pessoa de Sócrates vem do seu lamento lúcido de ser incompatível ficar apanhado nas embrulhadas financeiras, que foram assumidas pelo próprio, e manter a esperança de voltar a ser politicamente relevante, quiçá decisivo — e isto mesmo que se validasse a sua versão dos acontecimentos, que tudo não passa de um alegado empréstimo do amigo, sem actos de corrupção provados.

Júdice transmite verdadeira admiração pelo poder político de Sócrates como governante reformista. Lembra que no auge dessa capacidade a direita estava toda rendida e assarapantada, reduzida à sua impotência. Porque Sócrates governava à direita? Não, pá, porque governava ao centro. Sem cedências face ao que considerava essencial, sem culto de personalidade e leninismos. Ou seja, governava para o mais largo espectro da comunidade, conseguia resolver problemas dos diferentes segmentos económicos e grupos ideológicos. E criava futuro desenvolvendo o presente, como se confirmou em várias e cruciais áreas do Estado.

Daí o seu lamento. Que é o nosso.

Revolution through evolution

Treatment from female doctors leads to lower mortality and hospital readmission rates
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Don’t be a stranger — study finds rekindling old friendships as scary as making new ones
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Low intensity exercise linked to reduced depression
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Exploring brain synchronization patterns during social interactions
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Social programs save millions of lives, especially in times of crisis
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A university lecture, with a dash of jumping jacks
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Unveiling the secrets of Montesinho’s honey: a blend of tradition and science
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Dominguice

A ideia de uma inteligência artificial atingir o ponto da singularidade descreve a hipótese de esse tipo de inteligência se tornar cada vez mais inteligente apenas usando os seus recursos — portanto, não só se tornando independente da humanidade para o aumento das suas capacidades de cálculo como igualmente se tornando incompreensível para essa mesma humanidade. Um buraco negro cósmico é também descrito como uma singularidade dado que a física no seu interior transcende as leis conhecidas sobre a Natureza, os conceitos de espaço e tempo deixam de fazer sentido e uma densidade infinita pode ter um volume zero. Idem para a suposta causa do Big Bang.

Há outras singularidades parecidas mais acessíveis, próximas. Por exemplo, alguém que tenha o hábito de alimentar a sua curiosidade estará, por inerência, a aumentar a sua inteligência. E esse processo pode ser mantido indefinidamente, assim haja saúde. Dá origem a pessoas e situações singulares. Por vezes, ao nascimento de universos.

Aguiar-Branco finalmente livre

O discurso de Aguiar-Branco, nesta quinta-feira 50 anos após a outra, surpreendeu por ser uma bela peça oratória. Bela no conteúdo, fielmente representando a comunidade democrática de outrora e de agora. E belo na forma, começando com forte apelo sentimental e terminando com sapiente e folgada sátira política.

No seu sucesso, este desconhecido talento revela as causas do seu fracasso como político. Aguiar-Branco concorreu para presidente do PSD em 2010, tendo perdido para Passos Coelho numa corrida onde também estava Paulo Rangel. Donde, o homem tinha grandes ambições governativas, que o actual cargo senatorial apenas apaziguarão. Só que a sua derrota para o então jovem Pedro foi justíssima. Aguiar-Branco sempre se apresentou no espaço público como um bimbo, uma máquina de despachar clichés e imitar os colegas laranjas na práxis da baixa política e da chicana. Afinal, tinha dentro dele um tribuno e um patriota.

A decadência da direita é, na essência, isto. Pessoas que optam por esconder a sua decência durante décadas por terem medo das consequências.

Saudades do Abril futuro

«O que faltou dizer a Marcelo e a Santos Silva é que as ameaças ao tempo, às regras institucionais, à necessidade de uma “respiração pausada” ou ao pluralismo vêm em grande parte do Governo. O caso TAP, a impunidade dos poderosos e o estilo pasmaceiro e complacente de António Costa não justificam a histeria do Chega, que se estendeu a uma parte do PSD e à nova liderança da IL ou à imprensa — a histeria do Bloco é outra coisa. Mas se não responsabilizarmos o Governo pela degradação da política, pela erosão das instituições e pelo consequente fulgor do populismo, estaremos a fugir à realidade.»

Manuel Carvalho, 25 de Abril de 2023

Este fulano, então ainda director do Público, termina com o parágrafo acima mais um dos caudalosos editoriais sépticos despachados ao longo de 5 anos. Porquê ir buscar a sua prosa inane, na solenidade dos 50 anos do 25 de Abril, de que ninguém se lembra nos poucos que a leram, nem o próprio autor? Por causa da liberdade, essa forma de viver que nos humaniza infinitamente.

Passou um ano. O Governo socialista foi alvo de uma golpada judicial, o Presidente da República aproveitou-a para dissolver uma maioria absoluta no Parlamento, as eleições deram ao Chega uma vitória estrondosa em número de votos e de deputados, uma AD de fancaria foi à rasca para S. Bento mostrar a sua encardida incompetência, e o tal Presidente da República, que anda há dois anos a exibir-se como pessoa cognitivamente diminuída, acaba de pedir ajuda urgente do foro neurológico e psiquiátrico. Comparemos com a lista do valente Carvalho: o “caso TAP” (está só a falar do Galamba, vítima de um taralhouco e da exploração mediática e política que se seguiu), a “impunidade dos poderosos” (quais poderosos? qual impunidade? que tinha o Governo anterior a ver com isso?), o “estilo pasmaceiro e complacente de António Costa” (ou seja, a responsabilidade, ponderação e confiança de Costa como governante, a que se junta o seu exímio sentido de Estado). É isto que tem o topete de invocar como causas do “fulgor do populismo”. Não contente, ainda lava as mãos ao dizer que a “histeria do Chega” se estendeu à imprensa.

A “histeria do Chega” nasceu na imprensa, a partir de 2004. E teve no Público um dos órgãos mais “histéricos” na promoção do populismo de extrema-direita, logo em 2007, na sequência da OPA falhada que a Sonae lançou à Portugal Telecom. Um dia depois da votação na assembleia-geral da PT, literalmente, José Manuel Fernandes (o qual tinha interesses acionistas na operação da Sonae) iniciava uma campanha negra contra Sócrates, e contra o PS, que nunca mais terminou e a qual apontou aos pilares da República. Em 2009, o mesmo Zé Manel lançou a meias com Cavaco a Inventona de Belém. Em 2013, foram buscar o João Miguel Tavares ao Correio da Manhã, com a ostensiva intenção de lhe dar um palco supostamente mais credível para a sua actividade de caluniador profissional. Ainda em 2019, o bravíssimo Manuel Carvalho inventou isto — Citizen Karvalho — em que chafurda numa alucinada teoria da conspiração lançada pela direita após a crise internacional de 2008, quando os seus bancos começaram a cair. O Carvalho fez uma manchete em que trata Vítor Constâncio como mafioso do que seria o crime do século, mesmo do milénio, em Portugal e na Europa. O pânico celerado, pois não tinham quem fosse competitivo face a Sócrates, deu azo à utilização da Justiça, em conluio com a imprensa, para tentar destruir politicamente os socialistas num inaudito vale tudo, inclusive com recurso a incontáveis e normalizados crimes. O Carvalho vestiu essa camisola, nisso sendo apenas mais um no ecossistema da imprensa nacional que está toda, sem excepção, nas mãos das direitas. O milhão de votos no Chega não seria possível sem o efeito decadente e pestífero produzido pelos jornalistas portugueses com poder editorial, e seus apaniguados, há já duas décadas.

A democracia permite os ataques à democracia. A liberdade que começou com o 25 de Abril, portanto, nunca está plenamente realizada. É por isso mesmo que precisamos de a festejar. Para nos recordarmos do nosso futuro.