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Desconfia da desconfiança

Sou amigo do João Maurício Brás. E fomos colegas de curso. No passado dia 21, fui ao lançamento do seu terceiro livro, A Importância de Desconfiar. No vetusto salão nobre do Liceu Maria Amália, estavam na plateia umas 10 pessoas, mais 4 na mesa.

Embora o livro se recomende pela inusitada temática e raridade editorial, vou limitar-me a enaltecer o convidado cuja missão era a de apresentar a obra, o Professor Carmo Ferreira. Na Católica, foi o terror na cadeira de Filosofia Contemporânea, desmontando Hegel a uma velocidade superior à da luz. Com um bocadinho mais de atenção, também dava para ir fazendo um curso de alemão só com o que deixava escrito no quadro. Assombro e pânico, era o que via nos rostos à sua frente.

Teve muito melhor recepção nesta sexta-feira de Maio, aceitando o convite para analisar, e avaliar, a obra de um antigo aluno. E fê-lo com o mesmo rigor com que dava as aulas, respeitando o texto no acto de o criticar sem favor, mas favorecendo o acesso a ele, dando a pensar. A clarividência do seu discurso, a erudição servida como degrau, a frontalidade de um olhar inquiridor, são características típicas de um filósofo de vocação e consagração. Para quem se sintonizar num destes seres quando dá uma aula, ou uma qualquer palestra, a experiência é de embriaguez e ascensão intelectual. O espaço e o tempo alteram-se pelo pensamento; mas esta experiência não é para explicar, é para descobrir.

Que Portugal não saiba quem é o meu amigo João, eis o que é natural e não traz mal ao quotidiano dos cidadãos pagadores de impostos. Mas que Portugal não aproveite o poder transformador do logos de Manuel do Carmo Ferreira, eis o que prejudica a comunidade por a privar do convívio com os seus melhores. E como ele, há muitos outros que passam pela academia, e poisos variegados, sem conhecerem as luzes da ribalta e o alvoroço da multidão.

Quem procura, encontra, como se ensina na sapiência. E até aqueles que não procuram podem encontrar. Estamos rodeados de amigos que nunca vimos antes nem iremos ver alguma vez. Por isso, é sábio aquele que desconfia da sua própria desconfiança.

Na porqueira

Nesta sexta, o Crespo pediu a Vítor Ramalho uma explicação para o facto de a TVI ter acabado com o alguidar da Moura Guedes, assim como para o facto de Moniz ter saído. Esta insinuação conspirativa é recorrente, obsessiva, para nada contando a completa ausência de provas nem o que os diversos responsáveis já disseram na Comissão de Ética e na Comissão de Inquérito. Na versão completa, ainda acrescenta ao rol o Zé Manel, Marcelo e, claro, a sua magnífica pessoa, todos vítimas da perseguição do Engenheiro e suas manobras mafiosas.

Num dia próximo ou longínquo, fatalmente, Sócrates dedicará o seu tempo a outra actividade qualquer. Outros serão os governantes. Uma coisinha é certa: se Crespo se permitir difamar uma figura ligada ao PSD, acaba-se logo o regabofe. Voltará para a situação em que estava quando foi pedir trabalho ao Emídio Rangel, que o ajudou.

A sua perseguição a Sócrates é de cão de fila, sabe-se protegido pelo dono. Quando lhe faltar este osso, vai ter de se portar bem ou escolher outro igual para roer. Os barões não toleram indisciplinas nos animais da quinta.

A pseudo-direita não se enxerga

Mal lhe pergunte, mas o Senhor Deputado pensa que está em que Regime?

Isabel Moreira

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Pedro Duarte, o deputado visado, não terá respondido. Mas Pedro Duarte, o deputado visor, revela pela sua acção e declarações que o Regime por si preferido é aquele onde se fazem escutas ilegais, onde se abrem processos judiciais sem fundamento contra o Primeiro-Ministro num ano triplamente eleitoral, onde as escutas chegam a jornalistas seleccionados violando o segredo de Justiça, onde a devassa da privacidade é arma de combate político e ataque pessoal, onde magistrados entram ressabiados na arena política ao arrepio da Constituição.

Veja-se o episódio com o SMS que Vara enviou em Setembro. O facto de o Sol noticiar agora, e só agora, esse acontecimento liga-se com uma das perguntas que foi feita a Sócrates na CPI. Pergunta-se algo ao Primeiro-Ministro, ataca-se o cidadão. Não há travão nem remorso, Sócrates é um alvo a abater por todos os meios. E eis o supremo desencanto da merenda: pessoas que representam papéis de superioridade moral – como Ana Margarida Craveiro, primeira subscritora da petição TODOS PELA LIBERDADE e porta-voz do grupo dos 30 castiços que almoçaram mais tarde num certo dia de Fevereiro – não percebem, sequer entendem, e muito menos compreendem, a perversão para a nossa liberdade que resulta da utilização da intimidade para calúnias e baixa política. Falência da liberdade seja de quem for, miserável ou poderoso, quando se recorre à captação, e exposição, da privacidade fora do âmbito judicial mais restrito e justificado. Vara até podia ter por hábito só conseguir adormecer depois de enviar mensagens a Sócrates em que descrevia a fantasia de matar o Papa com uma colher de pau, isso continuaria a ser algo que a mais ninguém dizia respeito.

Este tipo de violência atinge toda a comunidade. Vindo de quem reclama que se respeite e cumpra o Estado de direito, o aproveitamento do mal que outros fazem – para obter desforço e amplificar o seu efeito destrutivo – é bem o retrato de uma pseudo-direita que se reduz à ganância.

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O Miguel apresenta o lado cronológico do episódio. De referir que a edição digital do Expresso publicou a notícia às 12h55.
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Entretanto, o João acrescentou outros exemplos: já vai nas 12h43 a publicação da 1ª notícia. O que significa que os jornalistas souberam ainda mais cedo.

Até tu, Cavaco?

Ao que o Diário Económico apurou, o facto de não poder usar as escutas, impediu o partido de avançar com três diligências que podiam trazer factos novos: o pedido de uma alegada carta enviada por Isaltino Morais, autarca de Oeiras, a Zeinal Bava questionando-o sobre o interesse do Taguspark na TVI; a suspeição levantada pelo facto de existirem alegadamente 144 chamadas feitas por Armando Vara em apenas 15 dias com a estação como tema; e ainda o requerimento a São Bento do registo de entradas e videograma que permitia provar se Granadeiro esteve em S. Bento a 23 de Junho.

Fonte

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O PSD adensou, e agravou, a posição dos magistrados de Aveiro, a qual afirma ter existido crime de atentado contra o Estado de direito envolvendo Primeiro-Ministro, PT, BCP, BES e Taguspark, pelo menos. Na sequência da extracção das certidões, as suspeitas de envolvimento aumentaram, passando a incluir o Procurador-Geral, o Presidente do Supremo e, agora, o Presidente da Comissão de Inquérito ao caso PT/TVI, todos acusados, com maior ou menor desplante, de serem cúmplices no encobrimento das provas e na defesa de Sócrates. Como esta posição é mantida após meses de audições e interrogatórios, o PSD está a validar a tese de Aveiro, sendo que Aveiro legitima a tese do PSD.

Para além de ficarmos a saber que o Pacheco está aborrecido por não ter apanhado Granadeiro no Isto Só Vídeo, e que Zeinal Bava é uma triste e corrupta figura que o insigne Isaltino Morais põe no seu lugar por carta, espero ardentemente pelo momento em que o grupo parlamentar do PSD suspeite de Cavaco por estar em silêncio perante as evidências que o deputado-espião espalha aos quatro ventos. Não vale a pena negar: tanto encontro semanal, e a sós, só se explicava por um pacto secreto.

Manual de Cidadania

Só para dizer uma coisa sobre o Saldanha Sanches. Era um homem muito difícil. Como algumas pessoas da sua geração, que é a minha, embora ele fosse mais velho do que eu, são muito difíceis de meter em caixinhas. Era muito engraçado a dificuldade de pôr títulos. O fiscalista Saldanha Sanches. Não lhe passava pela cabeça ser classificado, na hora da morte, como fiscalista. O revolucionário desiludido Saldanha Sanches. E esse aspecto, esta dificuldade de meter aquele homem numa caixinha qualquer, que corresponde às caixinhas com que nós somos todos metidos, todos os dias, pela comunicação social, mostra, de facto, que aquela biografia, como algumas biografias daquela geração, são, de facto, muito difíceis de meter em caixinhas.

Deputado-espião

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Lobo Xavier tinha decidido fazer uma referência a Saldanha Sanches, dizendo algumas palavras de homenagem. Seguiu-se o Pacheco, que relembrou ser seu amigo há muitos anos, mas escusando-se a dizer mais naquela ocasião. E António Costa teceu-lhe rasgados elogios, realçando a exigência e a coerência com que foi seu mandatário da candidatura à Câmara de Lisboa. Estava a desenvolver o fascinante tópico da sua independência com exemplos concretos, pessoais, quando foi interrompido a mata-cavalos para despejo do auto-panegírico supra. A morte de Saldanha Sanches, de repente, era só mais uma ocasião para o Pacheco falar de si e do seu complexo de superioridade. A mensagem fica como um pleonasmo tautológico: também eu não me deixo enfiar em caixinhas, também eu venci a comunicação social, também eu sou da tal geração, eu posso, eu quero, eu sou, eu.

Malhar no Pacheco devia ser obrigação cívica explanada num capítulo inteiro do manual de cidadania contemporânea ainda por escrever. Não por lhe querermos mal – físico ou psicológico, e bem pelo contrário – mas por ele nos fazer mal. Esta super-estrela da política-espectáculo, que ganha fortunas a mentir à descarada, e sem nunca se retractar, ainda conseguiu envenenar um partido ao ponto de ser mentor de uma estratégia política asinina e degradante. Como se fosse pouco, é ao Pacheco que deverá ser creditada, seja em que percentagem for, a exclusão do futuro líder social-democrata das listas de deputados. Finalmente, deixam-no andar pelo Parlamento a emporcalhar a instituição, criando uma situação de infâmia generalizada que atinge indivíduos, empresas, PS e Governo. Será este o seu principal legado à cultura e sociedade portuguesas? É que tudo o resto ficou ofuscado pelo que fez, e não fez, desde que Ferreira Leite tomou conta do asilo da Lapa.

E nem as Escrituras escapam. Ir buscar uma passagem bíblica para fazer ameaças oblíquas cujo contexto, subtexto e pretexto são as escutas a que teve acesso na Comissão de Inquérito, é soberba só possível àqueles que já se elevaram misticamente ao deboche sagrado. Daí as crises de acédia, pois tudo o que sobe acaba por descer.

De facto, somos obrigados a concordar: os biógrafos do Pacheco nem sequer perderão um minuto a tentar enfiá-lo em caixinhas, vai logo directo para um saco de plástico preto.

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A Ana, em boa hora, republicou a carta de Maria José Morgado para Saldanha Sanches. É uma despedida que será causa de muitos encontros pelos anos afora.

Vitalidade da velha Albion

Olhando para a forma como Inglaterra conseguiu formar um Governo de coligação em poucos dias, apesar das declarações em contrário dos protagonistas da actual aliança antes das eleições, é impossível evitar um sentimento de inveja e de pesar. Por cá, andou a vender-se ao eleitorado a necessidade de acabar com a maioria do PS para finalmente se resolverem os problemas, garantiam. A tese era elementar: sem maioria, o PS seria obrigado a aceitar um sem-número de exigências e propostas dos restantes partidos.

Infelizmente, nenhum partido quis sequer assumir um qualquer tipo de cooperação parlamentar. Trataram Sócrates com asco, preferiram o calculismo partidário mais bronco. Os meses até à aprovação do Orçamento foram passados em coligações negativas, despesismo e ameaça de novas eleições. Foi para esta disfunção política que o eleitorado votou nesses partidos?

Quando se diz que Portugal tem graves lacunas no plano da educação, consumo de informação e vivência cívica, está no mesmo acto a dizer-se que há partidos que exploram a menoridade social e intelectual de largas fatias da população para a intoxicar com demagogia e populismo. Se qualquer exercício do Poder gera um anti-poder, e tal é vital para a democracia, o mero boicote da governação não serve os nossos interesses. Uma oposição sectária é tão aberrante como a tirania.

Lição que os ingleses acabam de nos dar.

Questões que radicam na SIC Radical

Que se passa com a vossa programação que não respeita os horários programados?

Ok, esqueçam a pergunta anterior e passemos ao que interessa. Quem foi o mentiroso que escreveu isto?

UFC LIVE EVENTS
São os combates propriamente ditos, transmitidos apenas dias depois de serem efectuados. São três horas do melhor Vale Tudo do mundo.
Estreia em finais de Maio. Horário a definir.

Encontrem esse gajo e digam-lhe que estamos em finais de Maio. Outra vez.

Para alfacinhas fanáticos

Horas e horas e horas e dias e semanas e meses de fotografias que nos permitem visitar o passado, talvez o futuro. Aqui. Por baixo da caixa de pesquisa, selecciona Arquivo Fotográfico ou confirma que só essa opção está seleccionada. E parte em viagem.

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Sugestão: usar a vista de rua dos mapas Google para descobrir o que se perdeu e o que persiste.

Queirozianos

Carlos Queiroz, desde 11 de Julho de 2008, tem seguido à risca a meticulosa estratégia de baixar as expectativas à volta da Selecção, depois dos sonhos grandiloquentes de Scolari. O apuramento para o Mundial foi particularmente brilhante nesse propósito. Cabo Verde é só mais um passo da sofrida caminhada.

Mas vai valer a pena. Quando subirmos ao relvado para o 1º jogo na África do Sul, a multidão presente no estádio soltará um bramido de espanto por nos ver com chuteiras; sendo já voz corrente, por essa altura, que em Portugal joga-se à bola de chanatas. A Costa do Marfim levará 115 minutos a recompor-se da surpresa, tempo suficiente para marcar o golinho da vitória.

Pináculos da estupidez

Apesar de perderem eleições contra uma figura alvo dos maiores ataques pessoais em toda a História da democracia, e de não ganharem nas sondagens apesar de já irem no quinto líder em cinco anos, aqueles que fazem da política uma actividade tribal belicosa continuam a repetir as mesmas fórmulas. O problema não é ideológico, pois, mas cognitivo. Não entendem o que se passa, e a frustração acumulada cristaliza, e a seguir dissolve, os já parcos recursos intelectuais. A política que aí vem, que inevitavelmente virá se continuarmos a vencer os desafios da civilização, não terá nada a ver com esta cegueira estéril e perversa.

Veja-se o que se passou, na semana passada, com as declarações de um responsável governativo espanhol acerca das obras públicas e o TGV. De imediato, responsáveis políticos portugueses do maior partido da oposição, e arraia-miúda respectiva, assumiram que Espanha já não iria continuar com o TGV para Portugal. Foram desmentidos ao fim do dia, contudo, mesmo assim, e logo no debate da moção de censura, Miguel Macedo repetiu a ideia do dia anterior como se não soubesse que era falsa. Levou como resposta do Primeiro-Ministro o pedido para apresentar a fonte da sua informação, acabando o episódio em ridículo para os sociais-democratas. É preciso serem muitos estúpidos para emprenharem pela comunicação social desta maneira, mas é preciso atingir um pináculo de estupidez para se prestarem a estes números no Parlamento.
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Bifes do Lomba

O objecto da comissão ao caso PT/TVI não é apurar se Sócrates cometeu um crime mas se Sócrates conhecia a operação política conspirativa na compra da TVI no ano passado, em véspera de eleições.

Pedro Lomba

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Como é que o Lomba dá como provada a existência de uma operação política conspirativa na compra da TVI no ano passado, em véspera de eleições? Espero que seja uma certeza obtida só com o recurso à leitura de jornais seleccionados. Se eu estiver errado, e as suas certezas acerca da honra de terceiros não tiverem a espessura de uma folha de jornal, espero que este senhor seja ouvido na Comissão de Inquérito Parlamentar para apresentar a fonte das suas informações, os nomes dos envolvidos e os factos que concretizam a denúncia.

E quanto mais cedo, melhor. Senão, o Lomba ainda corre o risco de ficar demasiado passado.