Pináculos da estupidez

Apesar de perderem eleições contra uma figura alvo dos maiores ataques pessoais em toda a História da democracia, e de não ganharem nas sondagens apesar de já irem no quinto líder em cinco anos, aqueles que fazem da política uma actividade tribal belicosa continuam a repetir as mesmas fórmulas. O problema não é ideológico, pois, mas cognitivo. Não entendem o que se passa, e a frustração acumulada cristaliza, e a seguir dissolve, os já parcos recursos intelectuais. A política que aí vem, que inevitavelmente virá se continuarmos a vencer os desafios da civilização, não terá nada a ver com esta cegueira estéril e perversa.

Veja-se o que se passou, na semana passada, com as declarações de um responsável governativo espanhol acerca das obras públicas e o TGV. De imediato, responsáveis políticos portugueses do maior partido da oposição, e arraia-miúda respectiva, assumiram que Espanha já não iria continuar com o TGV para Portugal. Foram desmentidos ao fim do dia, contudo, mesmo assim, e logo no debate da moção de censura, Miguel Macedo repetiu a ideia do dia anterior como se não soubesse que era falsa. Levou como resposta do Primeiro-Ministro o pedido para apresentar a fonte da sua informação, acabando o episódio em ridículo para os sociais-democratas. É preciso serem muitos estúpidos para emprenharem pela comunicação social desta maneira, mas é preciso atingir um pináculo de estupidez para se prestarem a estes números no Parlamento.

Esta histeria permanente, mixórdia de ódios e impotências, atinge um nível superlativo e espectacular no tratamento da crise internacional e na recente crise da Zona Euro, a qual é uma crise da União Europeia no seu todo. Vejamos: admitindo que no princípio de 2009 tínhamos Santana Lopes como primeiro-ministro de um Governo de coligação com o CDS, e que esta rapaziada conseguia fechar o ano de 2008 com um défice de 2,6%, que teria acontecido a seguir? Começavam logo a trabalhar para a crise grega, apesar de ser impossível prevê-la, ou fariam o que os restantes países europeus (e não só) fizeram para acudir aos desempregados e defender as empresas, daí resultando o aumento súbito e colossal dos défices por toda a Europa? E que faria Ferreira Leite, caso fosse a primeira-ministra do Governo que reuniu de emergência com os seus parceiros europeus para enfrentar o maior e mais complexo ataque ao Euro desde o lançamento da moeda? Será que ela se recusaria a alinhar no inusitado e radical plano de conjunto, preferindo antes o abraço das agências de rating, para quem Portugal é apenas carne para canhão numa guerra muito maior? É escusado esperar pela resposta.

Enquanto a nossa esquerda tribal oscila entre o anacronismo folclórico e o marketing corporativo, a direita tribal, nada e criada nas melhores famílias e nos melhores colégios, é um coio de estúpidos que se reduz a tentar agredir o piloto do navio onde fazem a viagem. Chamam-lhe fazer oposição.

23 thoughts on “Pináculos da estupidez”

  1. Val,
    O último parágrafo deste post é simplesmente assertivo. Resume tudo. Infelizmente, em Portugal, o combate político não se faz ao nível das ideias (os partidos da esquerda pateta e tonta não contam, ainda hoje, entoam loas à ditadura do proletariado, sem cuidar, que o tal proletariado de que enchem a boca, já os mandou foder a cona da prima à muito tempo), faz-se ao nível do combate para obter poder. O PSD é um partido pejado de novos-ricos, antigos-ricos saudosistas e arrivistas. E como tal, se comportam. No caminho, levam arrastados, uma imensa mole de criaturas a quem lhes foi inoculada uma história fantástica, a de um tal Sá Carneiro que teria sido um poço de virtudes, de tal forma que, fora o tipo vivo, nós éramos a Suécia do mediterrâneo. Pois é…

  2. Val.
    Excelente post!
    Mas podemos estar certos que a bancada do PSD não se vai poupar a esforços para nos brindar com outras pérolas extraídas daquelas cabecinhas pensadoras.
    E, como percorem o calvário público das sua iniciativas privadas, terminando sempre cobertos de ridículo, alimentam disso o próprio ódio que os impede de, na próxima vez, emendarem a mão.
    Sócrates bem pode explicar e voltar a explicar. Eles, à primeira, sacam da tabela da estupidez e acrescentam-lne mais um elemento….

  3. Ena, tantos aplausos!!!

    Mas a verdade, verdadinha mesmo, é que o persistir na saga do TGV quando o governo tem que espremer – uma vez mais – os portugueses para lhes sacar até ao último cêntimo é de uma inteligência rara!
    Eu só não bato palmas porque tenho as mãos nos bolsos, na tentativa – ainda que vã, eu sei – de impedir que me roubem.
    Mas são estúpidos sim, Valupi. Que mais pode ser alguém que ajuda uma pessoa como José Sócrates a manter este pântano constituído por ligações perigosas entre pessoas nada recomendáveis?
    Mas continuem a aplaudir, porque não será o ruído desses aplausos que abafará o grito daqueles que alimentam, com os seus impostos, esta quadrilha que insiste em nos infernizar a vida.

  4. Estive fora do país e de vez em quando lá ia espreitando, qdo tinha paciência, as SICN, RTPN e afins. Pareceram-me mais que nunca, tanto os “jornalistas” como os paineleiros comentadores e os lideres políticos da oposição, uma cambada de esquizóides em permanente histeria e não dizem nada que se aproveite.
    Voltei com menos paciência para aturar essa cambada e com o objectivo definido de ver menos “noticias” na TV, ler menos jornais e mais livros.

  5. Lindo! Bonito! Excelente! Magnifico! Bem, já chega de falar sobre mim. Val, tenho de confessar, a minha sede de aprender tem encontrado nos teus textos uma fonte quase divina.

  6. Eu, no lugar dessa pseudo-nata da nossa sociedade, já teria perguntado: Que se passa com o povo português ? Estão doidos ? São burros ? São masoquistas ? Será que foram os próprios deuses que endoideceram ?- Então não é que com esta campanha megalómana e concertada de achincalhamento contra José Sócrates/PS, nunca antes vista, tentada sequer, e ainda por cima adornada com a crise, continuam a dar-lhe a vitória (a julgar pelas sondagens).
    Mas há um facto interessante, no meu dia a dia contacto com muitas pessoas, e em 100 90 dizem mal do governo, dá que pensar.

  7. (na sede do PSD não têm tempo para dizer mal do Governo, andam demasiado ocupados a dizer mal uns dos outros. desculpe, VM, mas esta era quase irresistível…)

  8. Esta é ali para o Nuno! Não podia estar mais de acordo com ele! É que eu desde há muito que faço exactamente o que ele preconiza, a fim de não dar em maluco com esta miserável Comunicação Social sem a mínima ponta de vergonha que, para mal dos nossos pecados, nos caiu em cima.
    Aliás, estou em crer que boa parte dos portugueses, aqueles que ainda não ensandeceram de todo, decidiram fazer o mesmo. Senão como explicar que, no meio da crise avassaladora que o “malvado” do Sócrates nos arranjou e com que constantemente vemos massacradas as nossa pobres cabeças, como explicar que tivessemos decidido este ano, segundo informação da Associação de Editores e Livreiros, comprar na Feira do Livro de Lisboa, mais cerca de 40% dos livros que comprámos em anos anteriores?
    Bem haja, pois, o Nuno pela excelente ideia que aqui nos deixou! Greve à Televisão, greve aos jornais e … vá de pegar num bom livro!

  9. Só mais uma palavra para me referir ao tal artigo do Vasco Graça Moura que fui ler. De facto, não é possível descer mais baixo. Mas, ao mesmo tempo, faz pena ver um homem que, ao que parece, tem algum mérito intelectual, ser capaz de uma cegueira tão abjecta!

  10. Já agora, esse artigo do Vasco já tem uns meses, mas é um artigo brilhante… Está lá tudo !!!

  11. O artigo é lindo. Os portugueses são uma porcaria. Excelentes eram antigamente quando davam as maiorias absolutas ao Cavaco para se esbanjarem os fundos da Europa em formação de treta, asfalto e abate do sector produtivo. Já para não falar de minudências como pôr os serviços de segurança a filmar as manifestações de estudantes ou a experimentar os brinquedos com balas de borracha numa qualquer ponte perto de si. Foi um período do catano! Faziam-se estudos para convencer os portugueses que no dedicarem-se à confecção de tapetes de Arraiolos é que estava o desenvolvimento, acenavam-se com tigres celtas que hoje coxeiam como exemplo e criavam-se condições para que bandos de gente prestigiada se dedicassem ao saque em instituições bancárias de elevado prestígio. Uma maravilha. Condicionamento da informação ou censura de literatura? Nunca nessa altura se ouviu falar.

    Muito interessante também é este

    Muito interessante também é este

    Bem, parece que o link não entra. Fica o resto do comentário

    Muito interessante também é “O arranjo”, artigo do DN opinião com autoria da mesma ave canora. Começa por declarar a sua discordância com a permissão abusiva de escutas pela legislação portuguesa. Mas já que elas existem, então vá de chafurdar até mais não. Vai ao ponto de sugerir se a proibição de utilização na CPI decidida por Mota Amaral não resultará de uma conspiração entre as sociedades secretas.

    Eu também suspeito que a crise internacional que começou com a inflação das matérias primas e se prolonga até hoje resulta de um complot entre o Vaticano, os sociais fascistas e os comunistas com o objectivo de aumentarem as respectivas bases de apoio. Wall Street pactua porque mete ao bolso. Lícita e justificadamente, perguntam o porquê de uma acusação desta gravidade. Ora, respondo tal qual o GMoura, porque eu tenho aqui um dedinho que nunca se engana nestas coisas.

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