Sócrates saiu de cena há mais de um ano, ausentando-se para fora do reino de modo a que nem a sua sombra incomode os transeuntes, e se quisermos saber como gasta os milhões que roubou ou o que diz ao telefone temos de ler o Correio da Manhã. Todavia, os socráticos não o deixam em paz e passam os dias a invocar o seu nome. Foi assim com os casos Relvas. Começaram por nos lembrar que Silva Carvalho tinha sido escolhido por Sócrates in illo tempore, logo tudo o que se passou e passaria entre Relvas e o super-espião tinha no anterior primeiro-ministro a raiz do mal. Depois lembraram-nos de que Sócrates também fez telefonemas para jornais a queixar-se disto e daquilo, pelo que estar agora a dar atenção a uma chantagem que envolvia a divulgação canalha de dados, verdadeiros ou falsos, relativos à privacidade de uma jornalista e de um político não se justificava, muito menos justificava castigo. Por fim, e com rutilante satisfação, sacaram das lembranças relativas ao caso da licenciatura de Sócrates para nos garantirem que Relvas se tinha limitado a imitar o outro, pelo que devíamos ver os dois casos em conjunto por serem farinha do mesmo saco. Podemos já antecipar que calhando Relvas ser apanhado a roubar carteiras no Metro alguém virá lembrar a forte suspeita de que Sócrates batia na avó, e que esse praticamente confirmado facto é que merece a nossa indignação.
Alberto Gonçalves, cronista no DN, é um desses socráticos fervorosos que não perdeu a oportunidade de cumprir serviço. Ele alia uma inquestionável habilidade para trabalhar o verbo com uma não menos inquestionável apetência para a bronquite asnática. Eis o que partilhou com o público a respeito dessas duas figuras, pujante de confiança:
Para chegar a José Sócrates, a Miguel Relvas apenas falta fingir que pratica jogging e estuda em Paris. No resto, as semelhanças arrepiam um céptico. O dr. Relvas manda no Governo. O dr. Relvas cuida das clientelas do principal partido do Governo. O dr. Relvas emite propaganda reformista enquanto manobra para que reforma alguma seja realizada. O dr. Relvas coloca frequentemente jornalistas na ordem e vale-se da honrada ERC e da apatia geral para escapar impune. O dr. Relvas vê o seu óptimo nome chamado a casos no mínimo pouco edificantes e no máximo criminosos. E o dr. Relvas dá-nos razões de sobra para acrescentarmos o título antes do nome por pura ironia.
À semelhança do eng. (se soubessem o gozo que esta abreviatura me dá) Sócrates, o dr. (idem) Relvas parece igualmente ter adquirido a licenciatura num vão de escada, ou pelo menos no topo de uma escada sem muitos degraus. Os pormenores do primeiro caso, incluindo o fax ao domingo, são já lendários. Os pormenores do segundo, agora divulgado, preparam-se para ingressar na lenda.
Este Gonçalves não se atrapalha, como vemos. Relvas é transformado em clone de Sócrates, o grande mestre da corrupção. As duas licenciaturas seriam equivalentes nisso de terem sido obtidas por favor, sem prestação de provas. Prazer a dobrar, confessado gozo orgástico: poder achincalhar Relvas recorrendo a Sócrates, poder atacar Sócrates através de Relvas. Porém, guardada estava uma surpresa para a semana seguinte:









