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Vinte Linhas 305

Mário Nóbrega também foi «levado» na gralha

Na edição de hoje (26-12-2008) do jornal «A Bola» um texto assinado pelo jornalista Mário Nóbrega começa por referir-se ao mais recente livro de José Saramago e acaba por citar o «Levantado do chão». Jornalista culto, correcto e competente, Mário Nóbrega cita bem a propósito a frase de Almeida Garrett que está na página 7 do «Levantado do chão» e na página 19 da «Viagens»:

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para produzir um rico.» Lá está de novo a «infância» em vez de «infâmia». Agora num jornal que é lido por perto de um milhão de pessoas em todo o Mundo.

Contactado por telefone na sala de maquetagem do jornal onde trabalha, manteve um curto diálogo comigo e explicou-me que também no momento de passar a citação de A. Garrett para o seu texto hesitou longamente porque «infância» não lhe soava bem mas como aparecia em todos os livros de José Saramago que consultou e como não tinha à mão as «Viagens» de A. Garrett para desfazer as dúvidas, lá deixou seguir como estava.

O jornalismo é o esplendor do efémero e não se compadece com a calma e a ponderação. Nem os semanários escapam a essa febre. Perante a pressão do fecho das páginas que há pouco tempo eram feitas de granéis de chumbo e hoje seguem do ecran do jornalista para a gráfica por linha RDIS, não há (nunca há) tempo para grandes meditações nem para desfazer dúvidas. As gralhas também crescem e se multiplicam, como na Bíblia.

Fado menor para Marta (ouvindo Carlos do Carmo)

Uma coisa muito estranha

Sucedeu num Pavilhão

Marta ouviu em Espanha

O rumor desta canção

Aos mais diversos lugares

Chega esta melodia

Em Alcalá de Henares

Também faz companhia

Na Internet misturas

Canções com a poesia

Num Pavilhão às escuras

Lembrei a tua alegria

O Tejo aqui ao lado

Nasceu em Albarracin

Os acordes deste fado

São para não ter fim

Passou por nós a canoa

Ia a caminho da barra

Leva o som de Lisboa

Nas cordas da guitarra

Para tudo ser verdadeiro

Em Madrid, tua morada

Tu entras no cacilheiro

Que te leva até Almada

Não Almada mas Cacilhas

Companhia dos Vapores

Em teus olhos compartilhas

As canções destes cantores

E tudo fica em família

Nesta noite só de fado

Ouve-se a voz de Lucília

A voz de Carlos ao lado

O rio Tejo não termina

Permanece no estuário

A tua voz de menina

Regista som ao contrário

Vai reduzir a distância

Entre Espanha e Portugal

O fado ganha importância

Globalizado e geral

Um livro por semana 45

«Branco de Quintal» de F. Baião

A partir da história dum seu antepassado que nasceu no século XVII em Angola no quintal da casa do militar holandês de nome Van Cappel, o autor faz uma digressão pela História de Angola desde os tempos da Companhia das Índias Holandesas e de Salvador Correia de Sá até à actualidade do século XXI. Vejamos um excerto sobre o tempo de hoje: «O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado e gripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupa de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece.»

(Pangeia Editores/ Chá de Caxinde Edições, Capa: Luís Aires s/óleo de Jorge Gumbe, Prefácio: Francisco Soares, Apresentação: Rodrigues Vaz)

Vinte Linhas 304

Gosto mais da gatinha mas não diga nada à boneca

As botas que ontem calçaste lembram-me Vila Franca de Xira e os dias de festa na romaria da Senhora de Alcamé. Íamos nas carroças dos nossos vizinhos, havia farnel, missa campal, procissão, música e arraial entre o sol e o pó. A sede matava-se com vinho branco de Pegões mergulhado num cesto de vime na água fresca do braço dum esteiro do Tejo. Como nos livros de Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. As «jeans» azuis dão à tua silhueta nos passeios da cidade o aspecto de menina do 12º ano mas já sei que a tua resposta adversativa é sempre a mesma: «Ai eu, por detrás Liceu, pela frente Museu». E o enorme sorriso que não termina.

Hoje apareceste de saia cinzenta e vejo nela não só o pedaço de tecido mas também uma bandeira, um pendão, um estandarte. O país és tu, a nação é o teu olhar, o território é o perímetro dos teus passos quando chegas à grande cidade voltando costas à cidade de cimento e ao comboio lento. Se o país é a soma da nação com o território então a tua bandeira representa um pequeno país a Norte deslocado no Sul, longe do azeite e das castanhas, do pão e do vinho, da luz das festas de Verão. Percebo agora melhor porque motivo em Itália se chama «paese» à aldeia natal de cada um. As nossas memórias são uma História particular a que todos temos direito, a nossa capela tem o valor de uma Catedral, a nossa escola o peso de uma Cidade Universitária, os nossos santos privativos a força dos Padroeiros Nacionais.

Hesito muito na escolha entre os teus «jeans» azuis e a tua saia cinzenta tal como a menina do livro da escola primária hesitava entre a gatinha e a boneca.

Um livro por semana 46



«A voz da Mãe» de Fernando Miguel Bernardes

Depois de «Escrito na cela», «Uma fortaleza da resistência» e «Docas secas», Fernando Miguel Bernardes recupera neste livro uma certa noção de história em testemunho: o cruzamento de uma história particular com a história mais geral do País no qual os sujeitos se movem. As histórias são pessoais e familiares mas o fito da narrativa é mais geral quando o narrador se dirige à Mãe, então morta: «Parecido contigo é o Francisco mas homem e pai de outra família que vai crescendo. Como tu curioso, à procura de uma explicação do mundo, como se uma razão houvesse do nascer e do viver, dos homens e dos bichos, da honradez e do perverso.» Uma das histórias tem a ver com a resistência ao fascismo: «arrombam e tombam e invadem e avançam e tu que te antepões à mulher a à criança, aqui param!, no quarto não entram! E em menos de um credo estás no chão, o menino a chorar pelo alarido que se gerou e a Sara pronto meu filho, não foi nada, e procura distrair-lhe a atenção, com ele nos braços cá e lá, e por ti angustiada.» É uma história de pessoas mas também da terra, da terra propriamente dita e do seu abandono: «Grande abandono grassa por aí. Triste sem dúvida mas a vida se concertará e quem vier há-de com certeza resolver este grave problema que a todos diz respeito. Um drama, pois quem o nega? mas de dramas nunca o ser humano se libertou nem libertará, assim o creio e sincera sou, duvido se ao mundo isso algum bem traria; das contradições é que nasce o novo…» Um livro no qual convivem histórias dos últimos cinquenta anos da nossa história pública recente e que, tal como afirma o autor do prefácio, «nos ajuda a manter viva a nossa memória colectiva».

(Editora: Occidentalis, Capa: sobre um óleo de Picasso, Prefácio: António Ventura)

Um livro por semana 48

«Primeira pessoa» de Pedro Mexia

Todo o cronista aspira a ultrapassar o efémero do jornal ou da revista e juntar as suas crónicas em livro. Antes publicadas na «Grande Reportagem», há neste conjunto de tudo um pouco. A começar pela crónica em si: «Os textos de quem escreve vêm do mesmo sítio das conversas dos conversadores ou das recordações dos anciãos: desse sótão no qual se empilham murmúrios, recortes, quinquilharia.» E passando pelo autor, ele mesmo, o próprio: «Um gordo não é exactamente um homem: é um bom amigo. Um bom tipo. Horrorizado, chego à conclusão de que quase todas as pessoas que me conhecem me acham confiável, compreensivo e relativamente inofensivo.» Entre a crónica e o autor surge o Mundo: «O nosso mundo compõe-se de três categorias: aqueles de quem gostamos, aqueles de quem não gostamos e aqueles de quem gostamos porque gostam de nós.» Nem tudo é bom; às vezes aparecem inimigos: «O inimigo, na sua cabeça, vê a outra pessoa como uma caricatura demoníaca, desprovida de méritos, de atenuantes, mesmo de humanidade. O inimigo espreita cada passo. Constrói em negativo, uma relação quase amorosa.» E, se estamos no Mundo, há nele lugares: «Há quem deteste o «Snob». Sei de duas ou três pessoas que dizem, enojadas: «Nem pensar, não quero ir a um lugar frequentado por jornalistas.» Não anuncio grande novidade se disser que são os jornalistas que dizem frases assim. Compreendo que as manchetes devem ser lidas de manhã, quando compramos os jornais na banca da esquina e não espiolhadas de véspera na maré das redacções que desaguam para um bife tardio e um copo reparador.»

(Editora: Casa das Letras, Capa: Neusa Dias, Foto: Pedro Loureiro, Prefácio: Francisco José Viegas)

Um livro por semana 49

«O nosso reino» de Valter Hugo Mãe

Por oposição ao reino de Deus («o seu reino não terá fim») este reino do narrador (Benjamim) é o reino dos Homens, uma vila de pescadores: «aos domingos, quando descíamos para a missa e o caminho até ao centro da vila se enchia de vizinhos, parecíamos todos felizes». Na vila estão o padre Filipe (que assustava), o senhor Luís (sacristão), o senhor Hegarty (que cantava) e o Carlos que veio da guerra: «em Angola tudo podia acontecer, porque os lugares eram ermos, esquecidos de tudo e de todos.» Havia também a Dona Darci («fugiu de Moçambique porque uma velha branca e misteriosa lhe rogou uma praga») e os tios de França: «eram dois, o rio João e o tio Saúl, mais velhos que a minha mãe e a minha tia Cândida, estavam em França como se estivessem mortos, excepto quando foi da herança». Benjamim queria ser santo («a vontade de me manter santo não me assistia perante todos da mesma forma, alguns conseguiam destruir-me por dentro a esperança de os salvar». Surge inesperado o «25 de Abril» na escola primária: «a professora Blandina explicou que ontem os senhores que mandavam no país foram mandados embora. Nessa altura muitas pessoas pensaram que as liberdades eram maiores, muito maiores, do que o esperado.» A professora queria motivar o narrador para a realidade: «parecia querer dizer que na minha vida tudo era mentira mas não era exactamente.» Entre verdade e mentira, entre morte e vida, vence a vida: «No dia seguinte a vila acordou cheia de milagres, as pessoa vieram à ruas , quem não andava corria, quem não via pintava de todas as cores, quem emudecera cantava como os pássaros e o sol abrira em pleno Inverno e não havia chuva nem frio».

(Editora: Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo sobre óleo de Cruzeiro Seixas)

Vinte Linhas 302

Furgonetas, gralhas e fotógrafos de Estaline

Retiro a moral da história dos recentes ataques de que fui alvo aqui no «aspirinab» como um mote explícito para continuar – apesar de tudo. Contei a história de ter visto no Chiado, na montra da Livraria Sá da Costa, uma edição especial do «Levantado do Chão», um livro com ilustrações de Armando Alves, um objecto estético especial dentro de uma caixa castanha que custa uma pipa de massa mas que tem uma gralha terrível: na citação da A. Garrett aparece a palavra «infância» onde deveria estar «infâmia» – isto a propósito de saber quantos pobres são precisos para fazer um rico. Logo saltaram uns espertalhões tentando desvalorizar o erro crasso cometido pelos editores e tentando fazer crer que o meu lapso (ter escrito mal a palavra furgoneta) podia fazer esquecer o grande lapso dos editores de uma obra tão especial. Isto é a demagogia em estado puro. Então o meu pequeno erro (tão pequeno que na rádio passou completamente despercebido) servia para anular o grande erro dos editores tão especiais de um livro tão especial. Também estes são aprendizes dos fotógrafos de Estaline, tentando apagar a verdade e fazendo buracos nas fotografias para que nos próximos anos lectivos os alunos já não vejam os retratos dos proscritos. Se bem se lembram os (e as) que leram esse texto, eu falava apenas de gralhas e não de infâmias – que é outra coisa. A infâmia está noutra página mas a mim naquele momento interessava-me discorrer sobre o facto de uma vasta equipa ter tido em mãos uma reedição de um livro de 1980 e de ninguém ter visto a palavra que distorce por completo a ideia de A. Garrett. A infâmia é outra coisa mas pelos vistos isso é uma situação que os fotógrafos de Estaline não são capazes de perceber.

Um livro por semana 51

«Contos de Médicos Portugueses»

São 25 contos de 25 autores: António Mendes Moreira, A. Bacelar Antunes, António Marques Leal, António Lourenço Faria, António Maurício Pecegueiro, Armando Oliveira Moreno, Carlos Cidrais, Carlos Manuel da Silva Arruda, Cláudio do Souto Plácido, João-Maria Nabais, Jorge Marinho, Jorge Tavares, José Dias Egipto, José Ferraz Alçada, José Pepo, Luís Carlos Bronze S. Carvalho, Luís Esperança Ferreira Lourenço, Maria Eduarda C.D.S., Maria João E.A.P. Vasconcelos, Maria Manuela de Mendonça, Mário J.F. Agualuza, O.F., Patrícia Matthioli Luís, Rui Afonso Cernadas e Salvador António S. e Q. Pereira Coelho. Sendo impossível abordar todos os contos, fazemos referência a um – «A estrelinha no céu» de Luís Carvalho. Trata-se duma narrativa na qual o choque entre duas culturas e duas concepções do Mundo se torna evidente. Num navio em viagem vemos de um lado o médico («No seu caso eu seguia em frente com a operação»), do outro lado o «Gerês» com a filha a sofrer dum tumor no cérebro: «Parece que andava a tratar a filha com um ervanário lá da terra.» A menina acabou por morrer e o médico ficou a saber do facto pela licença concedida pelo comandante ao «Gerês» para acompanhar o funeral da criança. Moral da história: «cada um tem o direito de gerir as suas angústias da maneira que lhe aprouver».

(Editora: CELOM, Capa: Carlos Rodrigues, Prefácio: Carlos Vieira Reis, Colaboração: SOPEAM, Apoio: MSD)

Um livro por semana 50

«Angústia fragmentária» de Luísa Santos

A partir da memória de uma infância vivida em clima de repressão familiar («Não quero que te dês com rapazes. Uma menina deve dar-se apenas com meninas e da sua idade. Não me contraries nunca, eu sou o teu pai.») e de uma vocação contrariada («Pai, quero ser bailarina. Pai, porque não posso?») surge uma adolescência povoada pela solidão e pela morte desejada: «Sinto-me só, sem ninguém ao fim de quinze anos de existência. A solução é matar-me.» Muito tempo depois da crise dos quinze anos a problemática é a mesma «apenas algumas palavras mudaram» na relação da jovem (hoje mulher) com a sociedade: «Tudo é material. Primeiro são as notas e a competição desenfreada na Escola. Depois o casamento, institucionalização hipócrita da vida a dois e do juro bonificado. Na profissão rodeia-nos a falsidade, a inveja sobretudo. Vivemos mergulhados numa cultura de maledicência e ciúme doentio.» Depois de perguntar num fragmento «Porque estou sozinha?!» a autora responde noutro fragmento: «Tenho mais medo da solidão dos outros do que da minha. Conheço bem o meu deserto, aprendi a orientar-me nele e hoje anseio pelo seu silêncio.» Mais à frente constata noutro fragmento a mesma solidão: «Fui beber um café comigo ao fim da tarde». E por fim surge a moral desta história desenhada em fragmentos de angústia: «Nada mais ilusório do que pensarmos que podemos despojar-nos tão facilmente do baú das recordações.»

(Editora: Bico de Lacre, Capa: Roberto Medeiros, Foto: Henrique Coelho, Ilustrações: Artur Campos)

Vinte Linhas 301

«O Tigre Vadio» de Mário Beja Santos

Aqui está um livro (Círculo de Leitores – Temas e Debates) em que o subtítulo poderia perfeitamente substituir o título – «Diário da Guiné 1969-1970». O tigre vadio pode ser o nome de uma operação militar mas também uma projecção do autor do livro – este diário anota não só as patrulhas e as emboscadas mas também as músicas que ouvia e os livros que lia. Copland, Dvorak, Saint-Saens, Mendelssohn, Chopin, Bizet, Puccini, Verdi, Mahler, Bach, Brahms, Beethoven ou Wagner ao lado de Agatha Christie, Moravia, Redol, Aquilino, D.H. Lawrence, Dinis Machado, Zola, Hemingway, Fernando Pessoa, Mauriac ou Kafka. No meio de uma guerra sem saída e de uma natureza hostil, só a cultura poderia dar respostas às ansiedades do jovem alferes. Num mundo em desagregação só a música e a literatura explicavam em parte esse mesmo mundo. Notável a conversa que o autor teve com o deputado Pinto Leite pouco tempo antes de ele morrer num desastre de helicóptero no meio de um tornado: «A Guiné actual já não tem solução militar. Por favor, guarde para si, o próprio governador gostaria de chegar a um acordo com o Amílcar Cabral. Em Lisboa espero dizer frontalmente tudo ao presidente do Conselho. Tem que se chegar à paz». Tantos anos passados, quase quarenta anos depois, ainda há tanta coisa por dizer sobre a guerra da Guiné. Um aspecto curioso: tudo isto começou num blogue «Luís Graça e camaradas da Guiné» e se não fosse o empurrão do blogue o livro nunca teria existido – pelo menos nesta forma que acabou por tomar. São 440 páginas de memórias vivas que podem ser lidas como um romance – «Era uma vez um menino alferes que vivia há uma ano no mato profundo do leste da Guiné…»

Um livro por semana 93

«A árvore das palavras» de Teolinda Gersão

Sexta edição dum livro de 1997, esta árvore das palavras existe mesmo: «sentava-me debaixo da árvore do quintal e falava com o vento e as folhas. A árvore abanava os ramos e eu pensava: a árvore das palavras». O palco da acção é Lourenço Marques: «Tudo parece bem à superfície mas a cidade está podre e cheia de contágios. Ela foi construída sobre pântanos». É uma cidade de contrastes: «Nos negros não se pode confiar. Porque nos desejam mal e nos odeiam.» A divisão acontecia até nos correios onde «havia guichets para comprar selos para brancos e outros guichets iguais mas com o letreiro «não brancos» como se os selos não fossem iguais». A protagonista da história circula entre dois mundos: «Parecia tudo tão simples a quem estivesse de fora mas havia debaixo desse mundo ocioso e brilhante, um outro, escondido, feito de ódios, rivalidade, inveja, ciúme, havia os amantes, as amantes, as noites varadas na mesa de jogo, o álcool, os escândalos». Ela sabe que «bastava um nada para que a sua vida tivesse sido outra – ter respondido a outro anúncio, ter-lhe ido parara às mãos outra folha de jornal». Numa cidade dividida no espaço («Um dia a cidade de caniço vai invadir a de cimento») a protagonista sente-se dividida no sentimento («Havia os que subiam e os que andavam sempre para trás») mas esse falso equilíbrio vem a romper-se com a guerra: «Portugal era um país mal governado. Mal pensado. Lisboa não dialoga com os africanos». Para além da história da mulher que casa por anúncio de jornal, este livro inesquecível dá-nos o registo do tempo e do lugar, a memória e a filosofia de África onde a pressa não existe: «a verdadeira vida é vagarosa. São os mortos que têm pressa. E os loucos».

(Editora: Sextante, Capa: Susana Cruz/Henrique Cayatte)

Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão

Trouxeste num quadro a luz da tua cidade

Eu só tenho para te dar o escuro de Lisboa

Nos dias em que anoitece sobre a verdade

E a raiva é uma nuvem que nos sobrevoa

Numa cidade cheia de prisões e hospitais

De eléctricos vagarosos com os atrelados

A vida era diferente dos bilhetes-postais

Era mais cinzenta e nós muito cansados

Anos depois veio um projecto de alegria

Na manhã de Abril hoje perdidas ilusões

Uma excelente promessa de democracia

E ficou reduzida a um ritual de eleições

Salva-nos o tempo; permanece o mistério

No usufruto duma manhã plena de festa

Os músicos que tocam frente ao Império

São afinal toda a felicidade que nos resta

Terceiro poema de Fortaleza

Há aqui uma âncora feita de pedra

Tosca maneira de segurar a jangada

Quando o pescador descansa e espera

É uma pequena caixa de madeira

Uma pirâmide frágil mas segura

Que faz as vezes da força do ferro

Entre pedra e água, entre vida e morte

Ostensiva recusa dum destino hostil

O peixe que vem do mar todos os dias

Vejo o museu do Estado nesta jangada

Não preciso de visitar as outras salas

A vida do Ceará está toda nesta pedra

Vinte Linhas 300

Será que Fernando Pessoa tem razão?

Fernando Pessoa é o mais avassalador de quantos polígrafos o século XX deu à literatura portuguesa. Em boa hora a editora «Bonecos Rebeldes» resolveu publicar uma recolha de Zetho Cunha Gonçalves que junta textos de ficção narrativa publicados em jornais e revistas pelo próprio Fernando Pessoa. «Contos, fábulas & outras ficções» é um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, prepotência, submissão e conformismo. Na página 83 deste livro aparece «A origem do conto do vigário» no qual Fernando Pessoa explica à sua maneira a origem da expressão «conto do vigário» como tendo a ver com as façanhas de um tal Manuel Peres Vigário, lavrador ribatejano que teria enrolado seus irmãos num negócio de vinho. Mas a versão que eu tenho como correcta sobre a expressão vem de Vasco Botelho do Amaral e tem a ver com o conto do vigário «lisboeta» digamos assim. O burlão diz ao papalvo que o vigário da sua freguesia lhe confiou uma grande quantia para entregar a alguém quantia essa que está no embrulho – chamado paco. A pessoa que vai na conversa entrega o dinheiro pedido, acreditando que dentro do embrulho estão as notas que largamente compensarão o dinheiro emprestado em troca. E assim «vai no embrulho» pois, aberto o dito, vê que dentro dele só havia papel de jornal inútil e não as notas que seduzem os incautos. Estaremos perante uma invenção, mais uma, de Fernando Pessoa que teria aproveitado a expressão «conto do vigário» para imaginar uma história que viria a publicar no jornal «Sol» em 30-10-1926? Quem tem razão – Vasco Botelho do Amaral ou Fernando Pessoa? Será que a razão está com os dois? Responda quem souber…

Vinte Linhas 299

Nova edição do «Levantado do chão» mas as gralhas continuam

Acaba de surgir nas montras da Baixa de Lisboa e de todo o país (presumo) uma nova edição do clássico «Levantado do chão» de José Saramago. Clássico no sentido de estarmos em 2008 e a primeira edição ser de 1980. Mas clássico também porque neste livro de 2008 as gralhas permanecem, tal como em 1980, na renovada edição da Portugália Editora. Tanto cuidado, tanto aparato gráfico e afinal repetem o mesmo erro crasso das anteriores edições. No texto citado de Almeida Garrett do capítulo III das «Viagens» lá aparece o erro «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar às miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à penúria absoluta, para produzir um rico» Ora bem não é infância mas sim «infâmia», nem aliás faria sentido ser infância. Nem o Garrett escreveu isso, está aqui na página 19 das «Viagens» na edição que eu tenho. As outras gralhas também persistem. Falta a dedicatória a Isabel da Nóbrega e a dedicatória a todos os que o ajudaram a escrever o livro, dezasseis pessoas ao todo, habitante das aldeia do Lavre (Monte Lavre no livro) no concelho de Montemor o Novo.

O livro vem dentro de uma caixa, é tudo muito engraçado mas as gralhas permanecem. Foi Isabel da Nóbrega que em 1976 levou uma forguneta cheia de livros para a biblioteca da Cooperativa do Lavre. Gesto amigo e generoso. Como não havia telemóveis pediram uma criança que fosse a correr chamar Bernardino Barbas Pires para receber essa senhora que vinha de Lisboa com a forguneta cheia de livros… Foi aí que tudo começou. Felizmente as gralhas não apagam a memória real e verdadeira de quem não esquece.

Vinte Linhas 298

O desacordo ortográfico do jornal «Record»

Chego a Portugal numa manhã de cansaço no regresso da Bienal do Livro do Ceará. Lá conheci o editor Raimundo Gadelha e o autor da minha antologia Floriano Martins. Lá reencontrei dois grandes poetas que já conhecia de Lisboa – José Santiago Naud e Cláudio Willer. Descobri Edson Cruz, José Geraldo Neres, Paulo Bruscky, Sílvio Araújo, Célia Cruz e Carlos Emílio Lima, o mais simpático dos desalinhados. E todos os poetas da América Latina trazidos na mala cheia de livros e de amizade. Depois da maratona de sessões sobre a mestiçagem cultural, a edição de livros, a antropologia, a história e a literatura e o ensino do português e castelhano na América do Sul mas onde o acordo ortográfico não foi sequer referido, sinto-me agredido com um título do jornal «Record» – «Liedson perto do record de Travassos.» Mas Travassos com cedilha e não com dois esses. Tenho na minha frente a fotocópia do bilhete de identidade do senhor José António Barreto Travassos fornecido pelo seu filho António José. Lembrei-me logo do acordo ortográfico que justificou a saída de uma ministra indisponível para o assinar. Ela foi substituída por alguém que aceitou a imposição do acordo ortográfico. E lá fomos, cantando e rindo, levados, levados sim pelos brasileiros. Agora, recém-chegado do Brasil onde a única coisa que fizeram num livro meu foi substituir «prefácio» por prólogo, deparo com algo que não estava no programa. Travassos com cedilha. Mas se esta gente não consegue escrever bem um nome de um famosos jogador de futebol, o primeiro português a jogar na UEFA em 1956 então podemos esta descansados. O acordo ortográfico brasileiro nunca será aplicado em Portugal pelo menos no jornal «Record».

Balada da Terra da Luz

No Estado do Paraná

Onde riqueza prospera

Alguém deu o alvará

A uma editora severa

Erro crasso cometido

Numa escolar edição

O Piauí foi escondido

No mapa do Maranhão

Todo Nordeste ofendido

Em estranha provocação

Piauí foi desaparecido

No mapa do Maranhão

Desprezo pelo direito

Da natural afirmação

O Piauí foi desfeito

No lugar do Maranhão

Numa falta de respeito

Desastrada construção

O mapa estava mal feito

Tudo era do Maranhão

Por isso esta Bienal

É tão forte afirmação

Duma gente sem igual

Que reclama sua razão

Em corredores povoados

De alegria e de esperança

Nos olhos esbugalhados

De tanta e tanta criança

Poetas, cronistas, editores

E ensaístas mais diversos

Enchiam seus corredores

Com os sonhos dispersos

Bienal do Livro, Ceará

Ponto de encontro, paixão

Sinto que já sou de cá

Do lado do meu coração

Já sinto uma saudade

E tenho uma certeza

Meu coração em metade

Vai ficar em Fortaleza

Um livro por semana 92

«Quarteto para as próximas chuvas» de João Rui de Sousa

João Rui de Sousa, um dos mais importantes poetas portugueses, publica regularmente desde 1960. Este «Quarteto» é o seu 17º título de poesia editado.

Os poemas deste livro partem do lugar do Poeta: «O rosto. A escrita. A escrita / do rosto. O rosto da escrita. / Para além de tudo isso / sou um animal desaquietado / pela fragilidade dos cômoros / pela inclemência das chuvas / pelo fugidio dos pássaros / pelo inacessível das penedias / pelo íngreme e sinuosos dos caminhos / e, sobretudo, pelo sabor sempre inebriante / e sempre inesperado / da escrita e do rosto.»

Mas não deixam de chegar ao lugar do Mundo: «Os poetas são pontes / para numerosos recados. / Em certos momentos eles poderão crescer / bem por dentro das sua próprias prateleiras / e armários, no porão mais obscuro de um navio / muito íntimo; noutros instantes, todavia, / eles podem com palavras de alvor / e de resistência, ajudar a erguer as traves / de uma cidade aberta, de uma pátria livre.»

Entre o Poeta e o Mundo, a ameaça da Morte só pode ter resposta no Amor: «É bom que sejas tu e não a morte / o sumo do calor destas viagens: / as dos lábios mais rentes na cintura / as dos beijos que ardem nas espáduas. / É bom que sejas tu e não o vil ensejo / de alguém a destruir as nossas bodas: / colados bem na pele seremos deuses / e os anjos sorrirão porque não sabem».

Nega-se a Morte no acto de Nascer («Nascer é já galgar (ou destroçar) / esses muros que exortam à vitória da inércia / à rasoura da morte, à aridez do nada»), nega-se a Morte ma força da palavra: «Estreitos são, afinal, todos os caminhos. / Por eles terá de viajar a carne dos poemas. / Quase sempre as palavras serão sombras / de puras circunstâncias, acidentes fortuitos / pedaços de papel caídos na berma dos passeios… / Mas é por elas que se recortará o rosto do real.»

(Editora: Publicações Dom Quixote)

Um livro por semana 89

«Em Teoria (A Literatura)» de Manuel Frias Martins

Manuel Frias Martins, doutorado em «teoria da literatura», é vice-presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários e professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Este volume bilingue (português e inglês) recolhe reflexões recentes do autor sobre temas como a tradução, a definição de literatura ou os novos horizontes da teoria literária: «Independentemente das questões de valor estético, julgo que é à presença da ficcionalidade que se deve a identificação milenar da literatura. Neste sentido, sem ficção nunca houve nem haverá literatura. Apesar daquela universalidade, aquilo que é ou não autêntica literatura esteve, desde sempre, dependente de códigos epocais dominantes. Embora mutáveis, esses códigos marcaram e marcam fortemente a evolução literária ou o diálogo intra-literário entre diferentes gerações de escritores e leitores. Isto quer dizer que os dispositivos expressivos da literatura se modificam e se transformam em função das modificações e das transformações da sociedade humana. Tanto a ideia genérica que temos do nosso presente como as congeminações que hoje podemos fazer acerca do futuro podem ser epitomizadas no extraordinário horizonte de possibilidades abertas à humanidade pela informática e pela comunicação multimédia e interactiva. São múltiplos os sinais que nos dizem que o texto electrónico irá introduzir mutações importantes nos géneros literários e implacavelmente redefinir a escrita, a leitura e também a profissão literária.»

(Editora: Âmbar, Colecção: Referência)