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Se calhar também eu ando distraído

O sempre atento Eduardo Pitta faz, no seu Da Literatura, uma observação devastadora. Esta.

“Ouvidos pela Lusa, Vítor Aguiar e Silva, da Universidade do Minho, e Manuel Gusmão, da Universidade de Lisboa, disseram: «Sempre admirei muito em Luiz Pacheco o seu espírito de irreverência, a liberdade crítica, a capacidade de destruir corrosivamente as convenções, quase sempre mortas já. […] Era um espírito que, naquela atmosfera passiva, adormecida, dos anos 50, 60 e ainda 70, trouxe, por vezes com excessos de linguagem, uma lufada de ar novo. Era dos espíritos mais irreverentes deste país.» [V.A.S]; «Obra escassa, mas bastante interessante, com destaque para Comunidade e O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor […] praticou uma fusão entre a literatura e a vida, o que significa uma espécie de projecto de linhagem romântica, mas de cariz surrealista.» [M.G.] Não me lembro, em vida de Luiz Pacheco, de ler uma linha a seu respeito assinada por qualquer destes professores. Mas pode ser distracção minha.

Mochila

Levantou-se da cama, pôs a mochila e – não se diria – achou-se vestido. Não era Verão, nem nada parecido, e até sentiu um arrepio.

Na rua, as pessoas olhavam espantadas (modo de dizer, porque era bem pior) e ele perguntava-se que é que dera, agora, ao Mundo.

Chegou ao quiosque, mas já não à bica. Prenderam-no quando estava a fazer o pedido. Foi só então que reparou.

– Só por isto? – e apontou o entrepernas. – Ainda vocês não viram nada.

Apanhou dois meses por ofensas à autoridade.

Arte poética para o novo ano

1.

Não me assiste divino mestre
na dura lida ao touro incerto
mas apenas este vozear terrestre
que tarde noite me mantém desperto

jamais pobre cautério de esteta
mas disciplina de pedra sua calada
condição sequer música que faz alada
a trama viscosa da prosa mais perneta

no sombrio intervalo entre erro e erro
meto suor desespero assobio de medo
por meu engenho demasiado perro
(às vezes há que afiar o esmeril a dedo)

mas no tempo da safra esquecer o berro
que isto de dores redentoras é engano ledo

2.

Tudo no poema é vero e sentido
estertor berro cãibra tudo é final
que contrabandeia a pauta qual
eco repetido ou fugitivo estampido

piéria voz decadente e glabra
que esta rupestre moldura guarda
tudo é esta rouca música em que te vens
pobre poesia que nem o pagode já entreténs

rilkes em muzot perscrutando o adriático?
rimbauds negreiros estações no inferno?
só o meu vizinho e o seu berro ciático
sempre que o calendário assinala inverno

digam lá se a poesia fez ou não progressos
enquanto com o mindinho sondo os recessos

José Luís Tavares

Até sempre, Luiz

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Era um homem que não conhecia o medo. Por isso metia respeito.

«O nosso primeiro e único contacto foi há bem vinte anos, e seria excessivo presumir que você hoje o recordasse. No Largo de São Roque, em tarde ensolarada, trocámos uma dedicatória e uma nota de banco. ‘Levas, mas dás vinte paus.’ Eu fiquei para sempre a ganhar.»

fvm, Maquinações e Bons Sentimentos 

(O meu livro é de 2002, o texto citado de 1995. O livrinho de LP era Comunidade, um relato sublime. Desde então, visitei LP por várias vezes. Em 1975, com vinte escudos fazia-se – calculo por alto – o que hoje se faz com dez euros. O procedimento, disseram-me, era habitual, e o preço bastante estipulado).

Jackpot – II

Para Confúcio Costa 

Mariana sonhou com o jackpot. Nitidamente. Letra por letra. Algarismo por algarismo. E o sonho repetiu-se na mesma noite. A confirmar.

Ela, claro, não era parva. A chance de tudo aquilo acertar era, digamos, uma em um bilião. Se não mais. Mas, então, porque havia o sonho, não lhe diriam, de ser tão insistente?

Mal abriram tabacarias e quiosques, varreu a cidade. Levava o número num papelinho. Lia-o, mostrava-o. Não dizia porquê. Mas era de caras.

O jackpot saiu a um desempregado que se interessava pelo movimento de várias tabacarias. Quando apareceu na televisão, Mariana filou-o. Se era fraca em números, era óptima em caras.

Quando, num beco a que no lusco-fusco o atraiu, lhe retirou a faca e a limpou, achou que, não tendo ficado rica por isso, alguma justiça tinha sido feita.

Uma Península, cinco selecções nacionais

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Não sou iberista. Sou mesmo ferrenhamente, figadalmente anti-iberista. A Península Ibérica é uma racionalização para pacóvios. OK, vou ser simpático: é uma ilusão óptica.

Mas uma Espanha com  quatro selecções nacionais parece-me um vizinho muito interessante. No Reino Unido, isso já é rotina.

No primeiro desafio de futebol Portugal-Galiza, ou Galiza-Portugal, lá estarei.

Leia-se mais aqui.

Coitadinhos dos pretinhos

Segundo um relatório do Banco Mundial (referido pelo director do Público no editorial de hoje), crê-se que a roubalheira dos líderes africanos para enriquecimento próprio dá ela por ela com os ‘contributos para o desenvolvimento’ saídos dos nossos bolsos.

E para esses bandidos (e alguns honestos sucessores) houve, há tempos, em Lisboa, intermináveis palmadinhas no ombro.

O Estado a que isto chegou

Jorge Luís Borges escreveu um dia que os argentinos não têm a noção de Estado. Não só porque nunca leram Hegel, mas também porque a própria ideia de Estado é, para eles, uma completa abstracção. Para os argentinos roubar dinheiro ao Estado não é um crime.

Neste fim de ano, conjugam-se duas situações (uma pública, outra privada) para eu ter cada vez mais repugnância pelo Estado português, o Estado a que isto chegou. Pública é a ofensiva da ASAE contra um ponto de referência nas minhas deambulações lisboetas, em que desde 1966 pratico o ‘desporto líquido’ – como diz o Baptista-Bastos. Fecharam a Ginjinha do Rossio e fico à espera do próximo. Será o Eduardino na Rua das Portas de Santa Antão? Será o Pirata nos Restauradores? Será o British Bar no Cais do Sodré? Ninguém sabe.

Mas eu sei que a minha repugnância perante esta ofensiva de macaquear o politicamente correcto de Bruxelas me dá cada vez mais angústias no meu quotidiano lisboeta. A história privada é uma multa de 50 € que fui obrigado a pagar porque em 2004 não paguei 324 € por conta das minhas receitas desse ano. Não paguei porque sabia que ia receber, como recebi de facto 373 € no final. A máquina é tão monstruosa que não há nada a fazer. É pagar e calar. Se não pagar essa multa, podem penhorar-me a casa que eu demorei 25 anos a pagar em prestações.

Sinto-me cada vez mais argentino no sentido em que do Estado não espero nada de bom. A ASAE e as Finanças são os pontos negativos de uma realidade que me repugna também porque nada posso fazer contra ela. Agora Luís Filipe Menezes vem dizer que quer acabar com o Estado até 2009. Vamos a ver, vamos a ver. Há sempre uma esperança. Nem tudo é negro no Estado a que isto chegou.

Terceiro retrato de Paula F.

Teu corpo é uma paisagem protegida
Que não se lê num livro ou na Escola
A origem do prazer e a fonte da vida
Situa-se entre as calças e a camisola

Olho e vejo as dunas, vento e areia
Condições de humidade e pressão
No teu corpo é sempre maré-cheia
As ondas trazem espuma e paixão

Mostravas os quadros de uma sala
Mas a obra passou-me despercebida
E noutra proporção e noutra escala
Mais valiosa do que a Arte é a Vida

O poema procura mas não alcança
Desenhar sentimentos em confusão
Sais pelo jardim em passo de dança
E eu fico nos corredores da solidão

Sincelo

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Pique, clique – o que preferir – para ampliar.

Arranje uma temperatura francamente negativa, cinco graus é o ideal. Junte-lhe nevoeiro, preferentemente denso. Convide uma leve aragem, o suficiente para a humidade se mover. Misture bem e atire pela janela. Vá dormir. Quando acordar, ele estará pronto. O sincelo. Pronuncie «sincêlo», não vá ele estragar-se. Pegue na máquina fotográfica e ponha no seu blogue. Isto esteve hoje à vista em Amsterdão. 

Cê que sabe

Com algum atraso – mas as belas coisas são eternas – divulgamos o texto que Lélia Nunes (por extenso, Lélia Pereira da Silva Nunes), professora brasileira, de Florinápolis, nos enviou.«Tomo a liberdade», diz ela, «de lhe escrever do mesmo jeito que tenho deixado meus bilhetinhos no blogue Aspirina B e que tenho adorado visitar. Como “a reforma ou a unificação da Língua Portuguesa” tem merecido maior atenção da mídia brasileira nos ultimos tempos (não tanto quanto os nossos escândalos políticos já tão corriqueiros e banalizados) e tendo em vista a entrada oficial do querido amigo Daniel de Sá na “categoria de enfermeiro” envio-lhe uma crônica que escrevi e que já foi publicada aqui (‘Jornal de Letras’, dirigido por Arnaldo Niskier e Antônio Olinto), em semanários açorianos e da Costa Leste americana. Um grande abraço e muito obrigada pela boa dose de aspirina que chega pelos Caminhos do Mar impedindo um enfarte antes da hora…».

*

Para o Daniel de Sá

Pelo correio eletrônico tenho me correspondido com amigos açorianos. Gente das letras e com eles o aprendizado tem sido uma constante, as trocas de idéias são substanciais e os puxões de orelha quando escorrego no puríssimo vernáculo da matriz, a última flor do Lacio, é “vapt e vupt”. Vêm a galope no mundo virtual, em tons vermelhos, verdes e azuis para não deixar dúvida da infração cometida contra a Língua Portuguesa.

Uma troca gostosa que dá imenso prazer sem qualquer compromisso com a resposta ou o resultado. Até porque se for compromisso, vira obrigação e a cobrança se torna inevitável. Aí estraga tudo e vai para o espaço a alegria da espera. Aquela mesma espera que fazia a gente ficar com a cara colada na vidraça e o olho comprido, espreitando por trás das cortinas, esperando o carteiro aparecer lá na curva da rua ou surgir de repente por trás da vidraça. Tenho saudade do carteiro e do sentimento que provocava quando chegava a nossa casa e gritava: CARTEIROOO, trazendo as cartas numa sacola de sarja atravessada ao peito. Hoje, nem vejo quando as cartas chegam, nem sei quem as traz e já são tão escassas e raras. Pois, tudo chega aqui, online e em tempo real.

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Capicua

Ele faz hoje, em idade, uma bela capicua. Lembro-me de irmos num eléctrico, e de ser o meu bilhete, digamos, 23132, podia até ser mais bonito. E foi quando ele me ensinou essa palavra, «capicua». Eu tinha nove anos, talvez oito. Ele andava, pois, pelos 35. Não é a capicua que, hoje ainda, me espanta. Mas o ele ter estado algum dia nesses 35, e eu estar vendo isso.

O teu mundo na garrafa

O vinho é mais que vinho é também terra
Nesta garrafa se concentrou o teu mundo
Intervalo da luz do rio para o frio da serra
Onde tudo é mais verdadeiro e profundo

Onde as pedras formam a lareira dum lar
Onde a água é a origem e a força da vida
Vejo-te com arte e paciência a cozinhar
A receita local é a perfeição perseguida

Este mundo está no bilhete de identidade
Onde os teu nome está de facto registado
As palavras chegam do campo à cidade
Andam contigo na mala por todo o lado

As castas que estão na origem do vinho
Trazem com as uvas a luz do teu lugar
Convite a que ninguém fique sozinho
E mesmo num dia triste venha cantar

E-mail a dois

Também você se chateia com aqueles casalinhos, muito pombinhos, muito aconchegadinhos, que têm um e-mail a dois? E que assim se vêem para a vida inteira? Bom, até ao dia em que… 

 – Abriste um endereço de e-mail para ti só?
– Abri. Porquê?
– Podias ter sido menos desagradável.
– Como?! Explica lá isso melhor. Se não te importas.
– Já não confias em mim, não é?
– Eu?!
– Pois. E queres receber umas coisinhas que eu não possa ver.
– Agora quem é desagradável és tu. Não te parece?
– Gostavas que eu fizesse o mesmo?
– O quê?
– Abrir uma conta só para mim.
– E porque é que não fazes?
– Porque não tenho nada para esconder, percebes?
– E eu tenho?
– Pelos vistos…
– Eu abri porque me apeteceu. Ora esta!
– Ai, não duvido. E porque te deu pra uma de desconfiança.
– Desculpa, mas se há, aqui, alguém que desconfia, és tu.
– Ai, agora eu é que desconfio! Está bonito, está!

Você teria saída para esta conversa? Diga como. Tire duas pessoas deste filme.

«O tubarão de Luís Filipe Menezes»

Eu já tinha lido. E tinha pensado que o fulano havia visto bem, muito bem mesmo. Era um artigo do historiador Rui Ramos no Público de hoje. Uma visita ao Da Literatura deu o empurrãozinho para chamar mais atenções para um artigo excepcional. Como os quiosques fecharam já – e essa chuva não pára – há motivos, mais esses, para pôr o texto aqui. Divirta-se. «Não quero ridicularizar Menezes», afirma Rui Ramos. Você acredita?

*

«Não sei se fazemos um grande favor aos políticos quando lemos os seus livros. Experiências recentes fazem-me pensar que não. E Coragem de Mudar, que Luís Filipe Menezes fez sair durante a sua marcha para a liderança do PSD, confirmou a impressão. Li-o só agora. E, sem recomendar a leitura, sempre direi que talvez tivesse poupado alguns erros de previsão acerca da liderança do autor.

O livro de Menezes inclui uma entrevista especialmente reveladora acerca da sua pessoa. Não me refiro à pessoa privada, que não nos deve interessar, mas à sua pessoa pública, ou mais exactamente: à imagem que ele gostaria de dar de si próprio. Eis o que descobrimos: “Sou capaz de fazer dois mil quilómetros num fim-de-semana para ver uma exposição.” Ou isto: “Cosmopolitismo, para mim, é navegar ao luar nas Marquesas, é entrar no Triângulo Dourado e acampar no Norte do Camboja” (p. 21). Não temos aqui alguém a expor-se aos seus semelhantes, segundo o método radical de Rousseau, mas uma pessoa desesperada para ser aceite. Ou, nas suas palavras, “amado” (p. 45). É uma carta de amor, e, como tal, ridícula. O destinatário somos todos nós. E parece que Menezes imaginou, como qualquer rapaz de 15 anos, que nós, como qualquer rapariga de 15 anos, nos deixaríamos comover por devaneios de Indiana Jones, fúrias cinéfilas e vestígios de leitura.

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Um cálice à intenção do menino

Ao nosso clássico e satírico amigo José Luiz Tavares também chegou a notícia de que vem aí um Natal. Mas isto, as notícias, às vezes chegam assim.

Dizem-me que nasceste no distante
oriente, numa noite fria como esta.
Isto me dizem. Atentos escrutinadores
do passado atestam tua meninice
num árido país. Nisto, minha infância
foi igual à tua.

Debaixo de coruscantes céus transitei
a penúria, enquanto tu te preparavas
para desígnios bem maiores
— morrer pelos meus pecados,
dizem-me os quatro evangelistas,
apócrifos e fabulistas.

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