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Uma Espanhola que afinal era Italiana. Um ataque terrorista ao roque negro. Sangue, suor e lágrimas no tabuleiro. Não perca O Cerco Fatal, com Garry Kasparov e José Mário Silva, uma tragédia em 35 lances. Brevemente num blogue perto de si.

10 de Junho

Ontem foi 5 de Outubro. A República e tal, mais Cavaco Silva a falar para uma praça quase deserta. Mas eu já só penso no 10 de Junho. Afinal de contas, fui pai duas vezes em menos de 20 meses (o Pedro nasceu faz amanhã 15 dias) e tendo em conta o que vai para aí de pânico com a baixa natalidade, mais os riscos de não termos quem nos pague as reformas daqui a uns anos, razão pela qual o Estado apela ao nosso instinto procriador enquanto um dos desígnios mais patrióticos que pode haver, tendo em conta tudo isto que não é pouco, enfim, sobretudo se lhe juntarmos os sacrifícios inerentes (das noites mal dormidas aos DVDs de que se abdica para comprar fraldas e Halibut), tendo em conta tudo isto, repito, e para não vos maçar mais, acho que já vou merecendo, sei lá, uma comenda ou outra medalhita qualquer.

Senhor Homero: dirija-se à Avenida de Berna, se faz favor

Ontem foi um dia histórico. Diria mesmo: um dia épico. Em pleno Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, Anne Sofie von Otter teve o descaramento de cantar, imaginem só, canções dos ABBA. Esses mesmo. Os ABBA. Os foleiríssimos reis da pop escandinava dos anos 70.
Consta que alguns dos frequentadores habituais da sala, em compreensível estado de choque, olharam para a mezzosoprano sueca como se ela fosse o imenso cavalo de madeira que um dia se aproximou, sorrateiro, das muralhas de Tróia.

Aspirina V

Assim de repente, Fernando, não imagino este blogue sem a tua prosa refinada, a tua candura, a tua generosidade, as tuas provocações e o teu bom senso. Vê lá isso.

PS – Se a pré-despedida for apenas um estratagema para tirar da toca os colaboradores tresmalhados, já viste que acertaste na mouche, pelo menos na parte que me diz respeito.

Adrenalina

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Ao longe, São Jorge reverberava, não era dizer de mais, a um sol raso, macio, preparando um sumiço em glória.

A tarde vogava lenta sobre a cidade. Preso na largura das avenidas, o trânsito arrastava-se de volta a casa. Nada de especial, portanto, e estas são as piores premonições.

Ele subira os andares todos do Sheraton. Lá de cima veria, finalmente, a cidade tal como sempre a quis: rendida a seus pés e aos dum castelo que se apresentaria, como jamais, soberbo.

Assim era. Ao longe, São Jorge reverberava, não era dizer de mais, a um sol raso, macio, preparando um sumiço em glória. Como se tudo tivesse sido planeado. Porque era exactamente dessas tonalidades que ele estava precisado para a reportagem de uma Lisboa radiosa e um pouco, um pouco só, nostálgica. A máquina fotográfica ao peito acabara por ser, lá em baixo na recepção, comprovadora dos melhores propósitos. Não precisara ele de entrar em complicadas razões. A sua face, contra tudo o que imaginava, devia conter aquilo que define, aos recepcionistas deste mundo, um jornalista. O quê? Precisamente isso.

No alto, o elevador levara a um lounge fofo, concorrido, fazendo tempo para o jantar. Ninguém deu pela sua entrada, e ele achava-se no direito de ser olhado, perguntado pelos barmen ao que vinha. Por força que o rosto lhe apresentava, agora, traços cosmopolitas. Dali, do lounge, passava-se a um terraço exterior, aonde se prolongavam as mesas, as bebidas, a arte de sobreviver a um fim de tarde numa cidade atlântica.

Tejo, Lisboa e o resto espraiavam-se como nunca seus olhos haviam visto. Fora necessário erguer-se este monstro sobre o lombo da cidade para dela se obter tão alargada visão. O sol baixava, está dito. Dito está também que era disso que se precisava. As primeiras fotografias foram feitas dali: de entre os convivas e seu perfume exótico.

Descobriu, depois, que teria mais largueza num extremo do mirante, em que as mesas estavam desocupadas, parecia que abandonadas, ao longo do parapeito. Fincaria os cotos nos tampos sem toalha, e isso haveria de aumentar as forças ao longo alcance das objectivas.

Olhou, aí, desta vez na vertical, a cidade que, setenta metros abaixo, se atarefava. Minutos depois, as lentes varavam as fachadas, percorriam as janelas, devassavam alguma, pouquíssima, intimidade, fixavam aqui ou além um ponto, o zoom enquadrava, a foto fazia-se. Mas não era para isso que ali viera, e sim para fixar o longínquo, o impreciso, o quase improvável, como sustentam os poetas, e também os grandes ares, as distâncias que se esfumam, as antevisões da infinitude. E tudo isso ali estava, assim houvesse quem lhe parasse o sol.

Quem tão alto subiu, subirá ainda a uma daquelas mesas. Com isso se fará, lá ao longe, um acréscimo menosprezável. Mas é a altura do coração que para o fotógrafo conta. A cidade e o mundo em derredor dão-se ainda mais rendidos a essa lente que os palmilha… E é então, sim é então que a mesa cede para diante. Coisa de milímetros, o pé nem o sente. Mas ela já se inclinou, já descontou no palmo que a separa do parapeito, e Newton diria que o abismo se aproximou. Lisboa continua a entregar-se, há um júbilo naqueles ocres, naqueles tons laranja, num cada vez mais perceptível violeta. E a mesa vai caindo, vai convidando a coluna de ar que terá de percorrer-se, o passeio que haverá de enfrentar-se, a morte estúpida como se lhe chamará. «Ao peito, mantinha-se, miraculosamente intacto, o aparelho fotográfico. Verdadeiramente espectaculares, as fotografias virão inseridas na nossa próxima edição.»

A morte, mesmo uma assim – dizem – não é dolorosa. Dando por inevitável o embate, o cérebro lança ao organismo, em décimos de segundo, um banho de adrenalina que nos precipita em indescritível euforia. (Dizem! Não corra a experimentar. Tenha juízo). Grande e sábia natureza é esta nossa, ainda mesmo ali, quando vai findar-se às portas de um hotel mundano.

Não se chegou a tanto desta vez. Nem sempre os sádicos têm sorte. Uma finíssima unha, que afiançam negra, interpôs-se entre a inclinação que na mesa vinha a descrever-se e o ponto donde não teria havido já regresso. Sentido de equilíbrio, instinto de preservação, algo foi que atalhou o avanço à morte. O pé da mesa descansava já, de novo indiferente, no ladrilho.

Dum salto, viu-se no chão. O susto, o tremor, a sensação do transitório de tudo tomaram-no por instantes. Estivera a um passo de saber como era morrer, e sem uma razão forte. A escassos metros dele, pelas mesas ocupadas, prolongava-se o saboreio do exotismo peninsular. Ninguém olhou, ninguém dera por nada. E se alguma coisa o revoltou foi isso: a certeza de que, momentos antes, ele teria desaparecido no precipício sem um oh de ninguém.

As fotografias eram espectaculares.

Este texto foi inicialmente publicado no «JL», há uns bons anos. A história é, em cada pormenor, verídica. A foto não pertence ao caso, nem é tomada sequer do Sheraton. Mas dá uma ideia.

Aquém e além do Minho

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A Foz do Minho, vista da Galiza. Ao fundo, as praias do nosso Norte, a costa de Portugal, o Mundo.

O blogue galego O Levantador de Minas, que regularmente se vem ocupando das relações culturais entre a Galiza e Portugal, faz larga referência ao nosso post sobre «Floribella», a actual novela da Sic, e as pronúncias portuguesas de «ei» e de «ou».

No fórum do Portal Galego da Língua, onde o nosso amigo Luís Magarinhos colocou o aludido post, trava-se um debate, mais ou menos esclarecido, entre galegos, brasileiros e portugueses a pretexto dele.

A sul do Minho, directa ao assunto, a Geração Rasca transcreve o post, e submete-o a comentários.

Nem de propósito: a meados de Outubro, haverá na Universidade do Porto um Encontro Luso-Galaico de Weblogs. Toda a informação aqui.

Voltaremos ao tema. Entretanto, se ficou curioso com o que diz O Levantador sobre a entrevista dada por um blogueiro do Aspirina a «La Voz de Galicia», encontra a conversa aqui em PDF.

«You’re a lady»

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Possivelmente, a humanidade divide-se – também – nestes dois grupos: o daqueles que um dia ouviram «You’re a lady», cantado por Peter Skellern, e o dos que nunca o ouviram. A existência jamais será a mesma para quem escutou essa canção soberba, saída em 1972. Não vou sequer tentar explicá-lo. Se você pertence ao grupo dos que a ignoram, não será por isso inferior, ou infeliz. Mas mais não consigo dizer.

Infeliz fui eu, que me apaixonei pela peça, sem cuidar de reparar nem no título nem no intérprete. Quando finalmente quis sabê-lo, já era tarde. Imagina você o que é andar por lojas de discos e cantarolar qualquer coisa à incompetente populaça que flanca (quando flanca) o lado errado do balcão? Pois é. Andei anos nisso. Até que me sentei ao piano, com um gravador à mão. Ajudou. Não logo, mas ajudou. Um jovem empregado, aí pelos vinte e cinco anos, disse logo, ao quarto ou quinto compasso: «Isso é do Peter Skellern. Chama-se ‘You’re a lady’. Mas não temos».

Claro, tinham-se passado quase trinta anos, já nem era do tempo dele. Mas aí está, ainda se dá com alguém competente. Que fiz eu? Pois voltei para casa e googlei título e cantor (nessa altura, não havia Google propriamente dito, mas o Altavista fazia bom serviço), e a breve trecho tinha a discografia completa da faixa. Só que… no país onde procurava, nada encontrei.

Até ontem. Procurei no programa de download de mp3 (legal, pago, e nem é caro), e em minutos, nem isso, tinha uma vintena de ‘sources’. Uma bastava-me. Uma bastou-me.

Esta tarde, pus os auscultadores, saí a dar uma volta pelas cercanias, e fui feliz como uma criança.

A Bola é redonda

Portugal foi uma equipa de virgens e fiduciários, fazendo do acaso o terceiro e único segredo das vitórias, e perdeu contra uma colectividade de reformados. Há consolo nisto, a vetustez ganhar à imaculada predestinação. Consolo e alívio, pois já se tinham esgotado as epifanias do pensamento mágico, esse que no futebol exorbita para lá da suposta fronteira que separa a loucura normal da normalidade da loucura. O que é de mais esfalfa, arrenega, mesmo que se trate de milagres (ou sobretudo, pois os milagres favorecem a procrastinação e desvitalizam a assistência).

Oui, desejava que a França ganhasse para que Zidane colhesse a sua mitologia. O homem merece pela elegância com que serviu a física do chuto na bola. Mas já antes tinha preferido perder com a Inglaterra. Porque os nativos da velha Albion começam e acabam os jogos a cantar, perene sinal de saúde étnica, ficando eu a roer-me de inveja por ter nascido em terra onde já ninguém canta. E antes teria sido melhor a eliminação face à Holanda. É que nos Países Baixos o civismo é alto, com o Mundo a carecer mais desse tipo de flores mediáticas do que das imagens da sardinha assada (apesar da filha-de-putice de não nos terem passado a bola no tal reatamento, barbaridade nunca antes vista entre países com corpos diplomáticos reconhecidos). Assim como teria sido vantajoso, para a segurança internacional, a derrota com o Irão. Os apanhadinhos da bola, como Ahmadinejad, estão a uma finta de substituir a retórica corânica pela intelectualidade de balneário; o que levaria à troca da belicosidade pela inanidade e provocaria um “efeito dominó” capaz de pacificar todo o Próximo e Médio Oriente. Finalmente, achei escandaloso o golo do Pauleta contra Angola. Vi nisso o pé do colonizador, displicentemente esmagando a alegria não de um povo, mas de todas as nações que sofreram a exploração do homem e da mulher brancos. E das duas uma: ou Pauleta devia ter sido coerente, seguindo o critério zelosamente aplicado nos jogos seguintes onde tudo fez para evitar marcar, ou, se só tinha levado um golo para gastar na Alemanha, pois que o guardasse para a meia-final onde fez verdadeira falta. Mas como a coisa se passou, apenas conseguiu acrescentar desperdício à arrogância.

O melhor deste Mundial, contudo e com tudo, foi mérito do jornal A Bola, naquela que é uma cacha de dimensão histórica. Na passada quarta-feira, no dia do jogo com a França, publicou uma coluna onde se apresentava ao leitor desportivo a vida, obra e importância filosófica de Nietzsche. Só isso já seria ocasião para pasmo e abertura de garrafas de espumante nacional, mas o melhor estava no fim. Termina-se a biografia dizendo que os nazis invocaram a obra do sifilítico autor para justificarem a “estupidez do holocausto”. E para mim, de pé, com uma sandes de queijo na mão que mal tinha começado a esculpir, o jornal entornado em cima do balcão de um tasco, desapareceu o enigma que tanto humilhou a minha enfezada inteligência. Foi-me sugado violentamente, chegando a causar vertigem. Enfim, agora, “aquilo”, afinal, e com tudo pesado, tudo ponderado, tudo bem pensado, o que aquilo era, lá no fundo, era mas era uma estupidez. Que estupidez a minha não ter percebido mais cedo.

Shame on you, Mr. Seabra!

Recuperando a tradição dos itálicos, eis um comentário vindo deste post do Luís. A nossa comentadora Maria de Fátima oferece-nos um texto com donaire.

Sucede que o artigo a que este post alude não é, infelizmente, um artigo com cabeça, tronco e membros. Trata-se de uma série de três artigos preguiçosos em que Seabra confunde “espaço público” com blogosfera e, não contente com isso, considera, do alto do seu sabe-se lá o quê, que a fórmula crítica de EPC está esgotada. Assim mesmo, tal e qual, o crítico Seabra que aponta armas à falta de argumentação de alguma crítica, esqueceu-se de consolidar este tenebroso veredicto sobre EPC, deixando na gaveta o suco da barbatana que o levou a semelhante conclusão na fronteira de uma intolerável pureza ou desejos de uma crítica velada. E assim, de delírio em delírio, Seabra chega ao ponto de afinfar em Pulido Valente porque este teve a ousadia de publicar um livro recenseado no jornal onde colabora três vezes por semana. Haja santa paciência e, a este propósito, escuso-me de explicar o que quer que seja, ou antes, que quereria Seabra que Pulido Valente fizesse? Que enquanto colaborador do Público não escrevesse livros, que enquanto escritor não assinasse colunas de opinião, que o Público ignorasse olimpicamente o livro de Pulido Valente, que José Manuel Fernandes se recusasse a escrever sobre o que é, sem sombra para dúvidas, um livro incontornável? Seabra quereria que aos leitores do Público fosse vedada uma nota crítica, uma linha que fosse sobre um livro de um opinion maker que escreve livros e é editado? O que faz correr Seabra, é como quem diz, é assunto de interesse e debate, mas nunca da forma leviana e burocrata com que produz o levantamento do número de vezes em que uns e outros escrevem, opinam, dizem, pensam nos jornais, blogues ou televisões. Seabra tem, para mal dele e nosso, uma alma de contabilista, enfim, para não lhe dar outro nome, que lhe dá uma pinta de Jack Bauer, agente federal com a cabeça à roda com o dia mais longo da vida dele. A Bomba Inteligente que me perdoe, mas, coitada, no meio daquilo tudo é o menos porque é realmente o menos. Quem diz a Bomba, diz George, e quem diz este diz os outros que Seabra procurou em arquivos sem tom nem som, como se os tivesse atirado aos ares e de caras lhe saíssem aqueles nomes e não outros. Um tipo que se nos apresenta como um crítico de força e sem território comprado, um crítico daqueles que tem o rabo torcido e com uma volta na ponta, deveria ter dedicado mais energia e empenho ao assunto. Shame on you, Mr. Seabra!

Maria de Fátima

1925

Entre o sem-número de razões para se ler o romance Nome de Guerra, de José de Almada Negreiros, está o título do capítulo XLV:

OS PALERMAS QUE NÃO PERCEBEM NADA DA VIDA SÃO PIORES QUE OS MALANDROS

Portugal versão 89.5

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O programa mais popular, et pour cause, da TSF é o Fórum. Não carece de apresentação. É um formato que marcou a rádio dos anos 90, tendo chegado a ser programa de culto. Hoje, continua a ser uma referência; mas do quê?

Quem procurar no Fórum da TSF a resolução de qualquer problema, seja ele qual for, estará a padecer de ingenuidade sem remissão. O mesmo para os que pretenderem ver radiografias da Nação onde apenas se mostram postais ilustrados. Piores, ainda, estarão os que reagem emocionalmente às reacções emocionais dos participantes, maldizendo a qualidade das discussões. Erros crassos.

O mérito do Fórum está no ser um vazio. A TSF abre um espaço que oferece ao ouvinte, e isto é o essencial. Essa situação cria a oportunidade de se actualizarem as competências cívicas do auditório. Uma dessas competências é pilar da vida em sociedade: a capacidade de elaborar espontaneamente um discurso oral que tenha ordem e tónus. Ora, em Portugal não se cultiva a oralidade na escola, com isso conseguindo-se duas coisas: o atrofio intelectual e cultural de gerações sucessivas; a grotesca ilusão de que o Santana Lopes é um tribuno de excepção; quando o facto de ele aparecer como excepção apenas carimba a miséria comunicacional da classe política.

É ataraxicamente curioso ver os programas de promoção da leitura, obra de sábios instituídos pelo Governo e pagos pelo Estado, a ignorarem a relação causal entre leitura e fala. A leitura só faz sentido para que se enriqueça a competência do falante em ser falante, levando a interacções comunitárias mais profícuas. Logo, a motivação para a leitura obtém-se a partir da motivação para a relação com o outro ao nosso lado. É esse mesmo plexo de carências e desejos que nos habitam genética, biológica, psicológica e culturalmente que permitiria usar os autores clássicos de modo inteligente — mas isto na condição da Escola conseguir formar adultos, o que implicaria que a Escola conseguiria mostrar as camadas pulsionais, imorais e abismais que sustêm e preenchem as obras clássicas. E ela não consegue, nem irá conseguir.

No Fórum da TSF, pelo menos, há quem se treine diariamente no exercício da civilização. A civilização, como alguns dizem cheios de razão, é uma grande conversa.

Valentes críticos

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É a pergunta que um crítico mais teme. Formulou-a ontem, aqui, o estimado comentador Alex Brito. Escreveu ele: «Ó Fernando! Que princípios presidem a esse maniqueísmo que definem um bom cronista, ou um mau ficcionista? Não lhe parece abusivo e pouco sério tratar assim um escritor?»

Repare-se: não é só dizer-se de alguém que é, por exemplo, «um mau ficcionista». É dizer-se também, por exemplo, que é «um bom cronista». Se bem entendo, estes juízos, para o mal e para o bem, são sempre para o mal. Não se fazem, pronto. E com isto está, de uma penada, resolvido todo o problema da crítica. Ela simplesmente não se faz.

Às vezes, pendo para dar razão ao comentador. Por uma vertente que, suponho, não lhe ocorreu. Digamos assim: algumas críticas negativas que tive de fazer, eu trocava-as bem por uma oportunidade prévia de conversa com o autor. Ou seja, em vez de ter de dizer-lhe, tarde e a más horas, e tão publicamente, que produziu um flop, eu avisá-lo-ia a tempo da ocorrência, e o livro não aparecia, ou aparecia outro. Feito isto em mais larga escala, poupavam-se aqueles monólogos cheios de energia negativa que, de vez em quando, surgem nos suplementos literários. Ou, e sem querer funalizar muito, João Pedro George podia ter impedido Margarida Rebelo Pinto de existir.

Mas o mundo não está assim tão bem feito. Continuarei, pois, a aceitar esta tarefa ingrata, que só um fulano valente (isto é, desprezador dos perigos, isto é, mansamente doido) pode executar: essa de dizer que isto é «bom» e aquilo é «mau». Princípios? Critérios? Poucos, fracos e volúveis. É mais um destino, Alex Brito. É uma branda forma de loucura. Mal paga, ainda por cima, pelo tempo que se nos vai nela. Não, não tão branda como isso.