Portugal versão 89.5

tsf_moderne_600.jpg

O programa mais popular, et pour cause, da TSF é o Fórum. Não carece de apresentação. É um formato que marcou a rádio dos anos 90, tendo chegado a ser programa de culto. Hoje, continua a ser uma referência; mas do quê?

Quem procurar no Fórum da TSF a resolução de qualquer problema, seja ele qual for, estará a padecer de ingenuidade sem remissão. O mesmo para os que pretenderem ver radiografias da Nação onde apenas se mostram postais ilustrados. Piores, ainda, estarão os que reagem emocionalmente às reacções emocionais dos participantes, maldizendo a qualidade das discussões. Erros crassos.

O mérito do Fórum está no ser um vazio. A TSF abre um espaço que oferece ao ouvinte, e isto é o essencial. Essa situação cria a oportunidade de se actualizarem as competências cívicas do auditório. Uma dessas competências é pilar da vida em sociedade: a capacidade de elaborar espontaneamente um discurso oral que tenha ordem e tónus. Ora, em Portugal não se cultiva a oralidade na escola, com isso conseguindo-se duas coisas: o atrofio intelectual e cultural de gerações sucessivas; a grotesca ilusão de que o Santana Lopes é um tribuno de excepção; quando o facto de ele aparecer como excepção apenas carimba a miséria comunicacional da classe política.

É ataraxicamente curioso ver os programas de promoção da leitura, obra de sábios instituídos pelo Governo e pagos pelo Estado, a ignorarem a relação causal entre leitura e fala. A leitura só faz sentido para que se enriqueça a competência do falante em ser falante, levando a interacções comunitárias mais profícuas. Logo, a motivação para a leitura obtém-se a partir da motivação para a relação com o outro ao nosso lado. É esse mesmo plexo de carências e desejos que nos habitam genética, biológica, psicológica e culturalmente que permitiria usar os autores clássicos de modo inteligente — mas isto na condição da Escola conseguir formar adultos, o que implicaria que a Escola conseguiria mostrar as camadas pulsionais, imorais e abismais que sustêm e preenchem as obras clássicas. E ela não consegue, nem irá conseguir.

No Fórum da TSF, pelo menos, há quem se treine diariamente no exercício da civilização. A civilização, como alguns dizem cheios de razão, é uma grande conversa.

32 thoughts on “Portugal versão 89.5”

  1. O blogue CONVERSAS da TANGA está a fazer um cordão virtual de Apoio à Selecção de Portugal. Basta clicarem no endereço que vos é deixado (demora um pouco a abrir mas sejam pacientes… é por uma boa causa!…) e no post deixarem uma mensagem de apoio na caixa de comentários, com o nome e localidade. Os jogadores da Selecção e a equipa técnica vão saber deste cordão virtual no Sábado, uma vez que vamos mandar via e-mail para a FPF.

    Acreditem, não é mentira nenhuma. Passem por lá e assinem o cordão virtual.
    Passem a palavra aos vossos amigos, familiares e conhecidos. Vamos fazer deste cordão uma forte onda de apoio!!

    http://conversasdatanga.blogspot.com/

  2. Pois tome lá uma valente e sincera chapelada, Valupi, pois que bateu em vários pontos certos!
    É pena o seu parágrafo sobre a leitura, e a relação com o outro ao nosso lado. Com o respeito devido, não fazia ali falta. E o trabalho que isso não deu!

  3. Parece-me que estás a subavaliar imensamente a importância de condições individuais na relação entre a leitura e a fala e a esquecer-te, talvez propositadamente, das provas científicas que dissociam o discurso oral do discurso escrito. São zonas diferentes do cérebro responsáveis por um e pelo outro, o que significa que embora a leitura possa servir para um enriquecimento linguístico do leitor, não segue daí necessariamente que ele se torne melhor no discurso. Há a timidez a ter em conta, há problemas na fala, há o maior ou menor talento intrínseco de cada um para interagir socialmente, há uma série de coisas que pouco ou nada têm a ver com a leitura.

    Além do mais, os clássicos não são aí chamados para nada. Um bom contemporâneo é mais capaz de produzir um efeito benéfico no leitor (com as limitações expressas acima) do que um mau clássico, como é evidente.

    Portanto parece-me que este post padece de uma certa falta de nexo, amalgamando uma série de ideias com uma ligação no máximo ténue entre si.

  4. o programa da tsf tem muitos méritos, mas um grande inconveniente: estão muitas vezes ao serviço do poder e por isso manipulam o tipo de pessoas e mensagens que deixam irromper.
    além disso àcerca da escola portuguesa tenho uma opinião um pouco diferente: cada vez se priveligia mais a oralidade em detrimento da escrita o que não é nada bom porque o discurso oral, de tipo público, é necessáriamente mais pobre.

  5. Jagudi

    Obrigado pela chapelada e pelo açoite. Já agora, e para minha aprendizagem, o parágrafo sobre a leitura padece de que maleitas?

    Jorge

    Não se trata de garantir melhores falantes por causa da leitura, mas de aumentar a leitura por causa da fala. O primado é o da fala, devia ser por ela que se construía o leitor.

    Precisamente devido ao complexo psicológico associado à exposição oral não ser alvo de atenção e cuidado, tanto na Escola como nas famílias, o laço social e político entre leitura-pensamento-acção fica por realizar. E os meninos crescem sem saberem a falta que lhes faz a leitura.

    A questão dos “maus clássicos” versus “bons contemporâneos”, tal como a colocas, é destituída de sentido. Claro que tudo o que é bom é preferível ao que seja mau, mas sem a exposição dos critérios não vale a pena perder tempo com o assunto. A minha referência aos autores clássicos remete para exercícios de leitura que enriqueceriam a formação cultural dos alunos, com isso favorecendo o desenvolvimento intelectual. Para se contextualizar o presente, viaja-se até ao passado. É simples.

    Finalmente, quanto à falta de nexo e fraca qualidade do cimento entre as ideias, que detectas, concordo com a avaliação. É a fruta da época.

  6. Bom, por paradoxal que pareça a resposta à resposta tem mais nexo que o post em si. Vamos lá.

    O primado é o da fala? Será. Afinal de contas, a fala foi o primeiro fenómeno linguístico que a espécie criou. Mas será que da fala se segue a leitura como afirmas? Tenho fortíssimas dúvidas. Afinal de contas, não houve general e líder político nenhum ao longo da história (e da pré-história) que não tivesse usado a oratória para levar o seu exército ou povo a fazer o que pretendia, e muitos desses líderes nunca leram um único livro ao longo de toda a vida. Como é sabido até recentemente o não-analfabetismo, nos países europeus, restringiu-se ao clero. E isso prova à saciedade que o desenvolvimento da oratória não tem qualquer ligação directa com a leitura.

    Não quero dizer com isto que não seria bom que as nossas criancinhas aprendessem a expressar-se oralmente como deve ser, note-se.

    Relativamente aos clássicos, à contextualização do presente e às viagens ao passado, é tudo menos simples. Por motivos vários: porque se pode viajar até ao passado de múltiplas formas diferentes e a maior parte delas, se calhar, nada tem de literário, porque há um corpo literário moderno que provavelmente será mais eficiente em levar o leitor ao passado do que os tais clássicos, dado que é produzido com o mesmo conjunto de referências do leitor moderno, coisa que não acontece com os clássicos, que por definição, têm por base as referências do seu tempo, o que implica um esforço acrescido de contextualização do próprio passado antes de ser possível começar sequer a pensar em contextualizar o presente através desse passado, e etc.

    De resto, o passado é muito sobrevalorizado. Tem todo o interesse conhecê-lo para compreender o presente, mas a verdade é que ele é interpretado e moldado conforme os preconceitos e conveniências de cada época ou ideologia, o que relativiza imediatamente a sua utilidade. Apesar de termos toda a intelectualidade deste país afundada em passado até às raízes dos cabelos, o passado acaba por ser precisamente tão útil como as especulações sobre o futuro. Ou, dito por outras palavras, é tão útil ler os clássicos como os mais modernos livros de ficção científica. Precisamente.

  7. Aceito o repto, Valupi. Mas esclareço que não haverá tréplica. Porque V. é um selvagem, quando se põe a argumentar. Do Éme-Érre, se estivéssemos no PREC. Lembra-se dos preservativos, do Papa e da Sida?

    Ia V. tão bem, sobre o Forum. Ideias claras, de recorte exacto, conceitos perfeitamente reconhecíveis pela silhueta, ordenados, lógicos. Duma limpidez que nenhum leitor pode recusar. (E ele recusa, se puder!)
    Quais deles? Todos os que lá estão. Ainda por cima apresentados num discurso sem mácula. Nem o que V. disse, nem o modo como foi dito, suscitam reticência. Eu fiquei contente e grato.
    – Olha, é mesmo, nunca pensaste nisto!
    Então chega um parágrafo que é um túnel. Com um “ataraxicamente curioso” logo à entrada, a fazer lembrar o comboio fantasma. Faz-se noite de repente. Os conceitos tomam medo do escuro e perdem a compostura. (Leia comentário de Jorge sobre eles)
    – relação causal entre leitura/fala
    – leitura que só faz sentido para enriquecer a competência do falante em ser falante
    – a relação com o outro como motivação para a leitura
    – o plexo de carências e desejos… e os clássicos
    – escola que devia conseguir formar adultos
    – e mostrar as camadas pulsionais… que estão nas tripas das obras clássicas
    V. pode ter razão em tudo isto, Valupi. Eu penso que nenhum destes conceitos é sustentável.
    Depois V. diz isto com um discurso que parece de madeira, sabe como é? Dá-se-lhe com os nós dos dedos e soa a oco. Olha-se para ele e é um discurso inchado, tem celulites supérfluas, passe a tautologia. E um texto, o escrito, não pode ter gordura a mais, mesmo o ensaístico. Nem será, claro, anoréctico. É um exercício desempenhado sobre o fio duma navalha.
    Mas V. volta à luz, Valupi. Das ideias e do discurso. Certíssimos, no último parágrafo. Ainda por cima com um tropo invejável, o da “grande conversa”. V. é um privilegiado. Tem um belo quintal, se o quiser amanhar.
    E desculpe-me o tom, que é, o meu, ‘fruta da época’. O seu não.

  8. Podes gostar ou não do fórum da TSF e até concordo que não serve para nada ao encaixar na máxima:”vozes de burro não chegam ao céu”.
    Mas se olhares com atenção, tem um efeito profilático, ao dizerem o que lhes vai na alma, os ouvintes limpam o fígado, desabafam, mesmo que ninguém ligue à sua opinião.

  9. fiquei “ataraxicamente” esclarecido,,,
    como não uso “atarax” quer-se dzer que fiquei na mêma.
    Conclusão óbvia para um comentador do Forum TSF:
    “os intelectualóides são todos uns pedantes de merda!”

  10. Sombra

    A questão dos méritos da escrita face às características da oralidade tem relação com este tema, mas não está em causa. Escreve-se para transmitir e fala-se para comunicar, são instâncias complementares. A oralidade a que me refiro é aquela que se torna ilustrada e libertadora.

    Quanto à manipulação que se faz no Fórum, de que falas?

  11. Jorge

    Afinal, estás cheio de certezas bojudas, começando eu a recear que sofras de excesso de nexo…

    É que não podes afirmar que a fala tenha sido o primeiro fenómeno linguístico. Nem podes afirmar seja o que for de positivo que remeta para períodos históricos de que não existam documentos. Nem podes reduzir ao clero o exclusivo da alfabetização na Europa, em nenhum período da história antiga ou recente. Nem podes ignorar que os estudos clássicos sobre “oratória” (ponho aspas para marcar o uso técnico do termo, o qual remete para contextos específicos) só acontecem em sociedades altamente literárias, filosóficas e políticas. Podemos esclarecer melhor estes pontos, até com minúcia, se estiveres para aí virado.

    Quanto à argumentação relativa aos clássicos, também não estamos em forma, companheiro. No entanto, tiveste a arte e o engenho de me desarmar com a ideia peregrina de uma até agora insuspeita equivalência entre os clássicos e os mais modernos livros de ficção científica. E assim, rendido, me deixo abater no campo de batalha.

  12. Tenho para mim, através destas experências de escrita, que se torna mais fácil comunicar e transmitir ideias através de textos escritos, do que pela fala, mesmo em programas de rádio, simpósiuns ou conferências meramente palavrosas.

    A palavra dita de sopetão ou reflectida durante anos de estudo, pode ser importante, mas a escrita que demora a elaborar e se pensa antes de colocar em algum lado, tem um valor diferente e mais impressivo se os termos usados forem bem escolhidos.

    Sendo verdade que os dotes oratórios sejam de quem for ( por exemplo um Duarte Lima ou até um Jaime Gama ou mesmo um Guterres, só para citar políticos) exercem sobre quem os ouve um encanto de sereia, na realidade, as palavras leva-as o vento.

    Ou dito de modo pedântico:

    Verba volant; scripta manent.

    Tirando isso, o Fórum TSF é um lugar de desabafos vários. Pouco se aprende, a não ser a ouvir que as pessoas na generalidade, não passam de lugares comuns a certas ideologias, com ideias feitas ou referindo interesses próprios.
    Poderia ser diferente?

  13. Não posso afirmar que a fala tenha sido o primeiro fenómeno linguístico? Realmente… os chimpanzés não têm uma fala rudimentar; têm uma escrita rudimentar. Pois. OK, pá, leva lá a bicla.

    Não posso afirmar o que quer que seja para períodos históricos para os queis não existem documentos? Toda a razão, pá. Até porque, como não existem documentos não são períodos históricos, são pré-históricos. Mas mesmo que fossem históricos. Toda a razão na mesma. Ninguém pode afirmar coisa nenhuma desde que não estreja escrita em tábuas poeirentas. A antropologoa não existe, a paleontologia também não, a ontologia tampouco. Leva lá outra bicla.

    Não Valupi, pá, estamos realmente conversados. Tu percebes mesmo muito disto. Rendo-me, subjugado. Ilumina-me ó mestre.

    (triste país, este!)

  14. Jagudi

    Aumenta o meu penhor. Muito obrigado pela atenção, que me honra.

    Digamo-lo à cabeça: o madeiro está oco, é do caruncho. Serei o primeiro a reconhecê-lo, ficando até consolado por outros me validarem a opinião. E não quero, porque não posso, salvar esse parágrafo — porém, cavalo de raça relincha sempre. Sem carência de tréplica, umas questões mais, evitando a selvajaria:

    – a escrita em blogues deve obrigar-se ao rigor conceptual da academia?

    – o estilo deve ser mais relevante (ou relevado) do que o conteúdo?

    – se não se argumenta, não se estará a reduzir a questão ao domínio do gosto?

    Estas questões, marco a fogo, não impedem que também eu considere o parágrafo mal conseguido. Quem lê não sabe em que circunstâncias se escreve, nem em quanto tempo. Nem isso importa, afinal. Mas por escrúpulo, recorrentemente, refaço os textos, detalhes, as vezes que forem precisas até ficar apaziguado. Neste caso, já não o irei fazer (nem sei se o teria feito). O que posso partilhar é a consciência de ter estado num registo exploratório, lúdico e provocador. Mais importante do que a procura do efeito estilístico estava a ser a racionalização da temática, apresentando-a inteligível, se apenas. Como é óbvio, poderei até ter falhado esse mínimo olímpico, nada se salvando.

    Ousar um “ataraxicamente curioso” em ambiente hostil, como o é a blogosfera, pareceu-me suficiente caução para criar cumplicidades. Seria um “comboio fantasma”, pois sim; mas, nesse espírito, que se entrasse na Montanha Russa da argumentação com um sorriso nos lábios e à saída se cravasse o algodão doce da praxe, antes de ir a correr para a Casa dos Espelhos.

    O que acima fica escrito é palha perante o que segue, terminando como comecei: estou agradecido, Jagudi, pela atenção. Sorte minha.

  15. Os antigos não professavam o nosso culto actual pela escrita: viam-na como um mero sucedâneo da palavra oral. «Scripta manent verba volant» não significava que a palavra oral era efémera (como parece pretender dizer o comentário do josé), mas que a palavra escrita era algo de duradouro e morto. Em contrapartida, a oralidade possuiria algo de alado, leve e sagrado, como professava Platão. Pitágoras, por exemplo, não deixou deliberadamente nada escrito, tendo por certo sentido que «a letra mata e o espírito vivifica», como depois nos garantiria a Bíblia (não nos esqueçamos que a divindade hebraica criou o mundo falando, e que Jesus Cristo não necessitou de produzir qualquer escrito para divulgar a sua doutrina). Pitágoras não escreveu, sobretudo, e por mais estranho que isto nos possa parecer hoje, porque queria que o seu pensamento sobrevivesse à sua morte corporal, na mente dos discípulos. É daí que provém a expressão «Magister dixit», que não significava que os discípulos tivessem que se sujeitar aos dogmas do mestre: pelo contrário, afirmava-se a liberdade de continuar a pensar o seu pensamento inicial (o Borges falava nisso muito bem numa das conferências que deu pelos Estados Unidos). Os exemplos sucedem-se em catadupa, e tanto se poderia invocar um provérbio atribuído a Hampaté Ba («Quando um velho morre, é uma biblioteca que arde»), como voltar a citar Platão, que sempre defendeu que os assuntos sérios não se deveriam tratar por escrito…

  16. “Os assuntos sérios não se devem tratar por escrito”.

    Paradoxalmente com o que escrevi antes, concordo com a frase.
    Mas também duvido que se devam tratar através da oralidade.

    O que há de mais profundo na comunicação humana, entre duas pessoas, dependerá da linguagem para se exprimir?
    Não me parece.
    Há quem diga que as palavras servem para mentir.

    Toda a gente que passou por certas experiências pessoais gratificantes ou penalizadoras em extremo, saberá que é assim.

    “Não tenho palavras” é a expressão óbvia para explicar a força da emoção.
    Então como é que se exprimem as emoções fortes ou profundas?

    Pelo silêncio!

    Assim, a força do verbo em oralidade militante, servirá para outras coisas.
    Serve para inflamar multidões, por exemplo.
    Serve para convencer hesitantes numa disputa.
    Serve para enganar papalvos, muitas vezes.
    Serve para…seduzir.

    Ora aí está: seduzir!
    A força da palavra certa no momento exacto, sempre foi a melhor arma para convencer as mulheres a olharem para nós de um modo que nos convenha.
    E caem sempre na armadilha…

  17. armadilha…salvo seja.
    usando de conceitos de psicologia barata, parece-me que quando caem, já cairam em si mesmas, pois elas não precisam de palavras para seduzir.
    Porque será então que tanto falam?!

  18. Castanheira

    Fala-nos mais sobre esse poder radiodifundido. O teu entusiasmo desperta a curiosidade, embora pareça que romantizas (ou por isso mesmo).

    Adelino

    Concordo, claro. Ver o Fórum como terapia de grupo radiofónica, catarse pública e barómetro da neurose nacional será parte da sua verdade sociológica. Mas eu estava a apontar para outro alvo, aquele onde a capacidade para elaborar espontaneamente o discurso oral aparece como competência cívica.

    Isto é, importa menos o inevitável choradinho da maioria do que a vontade individual de se expor, condição para participar. É um aspecto político que a sociedade não promove, esse de desenvolvermos técnica e artisticamente a fala, e que levaria a outros ganhos intelectuais.

    Xatoo

    És um chato.

  19. Valupi:
    Acontecem parágrafos, a cada um de nós, que, sendo o que são, valem um mundo.
    Já se deu conta da tertúlia espantosa que aqui aconteceu, à volta dum seu parágrafo? Muito mais interessante e rica do qualquer congresso de ‘especialistas’!
    Saudações, pois!

  20. Aqui fica a prova daquilo que queria dizer com o meu primeiro comentário:

    Seria improvável que numa discussão verbalizada fosse possível introduzir na conversa,tantos factores de ponderação e de modo tão elaborado como aqui o foram.

    Parabéns aos comentadores com destaque para o jorge que apimenta estas discussões sempre com um interesse acrescido e um saber curioso.

  21. Alto aí, José!
    Não tome palavras minhas como prova das suas asserções. Porque eu não concordo com elas, pelo menos integralmente.
    Mas isso era outra tertúlia, porque esta… será que vai durar?

  22. jagudi:

    Não sei se dura ou não. Sei que não tomei as palavras de ninguém como prova do que escrevi. Aliás, o que escrevi contradiz-se, se formos a reler.

    Mas é exactamente por isso que vinquei que esta discussão seria a prova de que em modo escrito é possível passar ideias de modo diferente e mais preciso do que em modo verbal.
    Era só isso que queria dizer, mas reconheço que se os oradores forem de gabarito superior, as palestras ganham alma própria.
    É raro, muito raro. Mas basta pensar nos professores que tivemos e que nos impressionaram pelo conhecimento e pela habilidade em no-lo transmitir.
    Quem teve a sorte de ter professores assim, pode dizer que teve uma sorte grande.

    Por outro lado, esta tertúlia afinal será o máximo que nos blgos generalistas que eu conheço se consegue chegar.
    É pouco? É.
    Por isso, ando por aí à procura. De vez em quando aparece um jorge, ou um jagudi ou um outro ou outra qualquer que me dão a ideia que isto não está tudo perdido.

  23. José

    O meu primo João Pedro da Costa já teve a amabilidade de evocar a tradição mistagógica do helenismo, onde a oralidade poderia ser veículo sapiencial exclusivo, nisso cumprindo as suas raízes arcanas. Or so they say. Para desanuviar um ambiente com esoterismo a mais para esta freguesia, chamo Aristóteles, o qual obedeceu à tradição em regime de inovação: escrita horizontal, democrática porque universalista, num outro tipo de acesso ao real onde se caminha com os pés bem assentes na Terra. Enfim, peripatetices — dirá um platónico ferrenho como eu.

    Quanto à contenda letra/fonema, dizer que é falsa. A escrita não precisa de apologias, obviamente e sem discussão, e a oralidade ignora, intocável e sobranceira, os ataques contra a sua fluida pessoa. Mas, tanto para a oralidade como para a escrita, há a precedência de um sujeito falante. Por isso me interessa o fenómeno do Fórum, e outros que tais de fala pública, onde o corpo se faz verbo: a voz, a pose, o olhar, a temperatura, a tensão arterial, a electricidade neuronal, isto, aquilo e aqueloutro que molda uma interioridade conceptual no acto mesmo de a manifestar sanguínea.

    Os participantes do Fórum, na sua grande maioria, não serão exemplos de intelectualidade original, complexa, elegante. Limitar-se-ão a despejar lugares-comuns, reducionismos espúrios, preconceitos de classe, afectividades superficiais, efémeras, pervertidas. Pois. Mas esse é o lado para onde todos podem, e devem, dormir melhor. Seja lá como for e como lhes sair, cada um deles está a ser protagonista de uma pura experiência política. Os benefícios dessa exposição ficam, na sua melhor parte, para o orador. Contudo, a comunidade também beneficia da experiência individual dos seus membros, ficando mais coesa através da Língua; logo, ficando mais civilizada. E dizer civilizada é dizer participada, politizada, literária, artística, culta.

    Repare-se na comoção associada às intervenções, os agradecimentos “à TSF”, os elogios ao moderador, à estação, os cumprimentos “ao auditório”, a necessidade de frisar estar a ser a “primeira vez que participo”, a emotividade dos discursos, a genuína paleta sentimental que se consegue auscultar em tanta dessa gente que está a dar o melhor de si em menos de 1 minuto. Esse acontecimento de se imaginarem em ligação com toda a comunidade é uma fonte imarcescível de saúde. E pode ser catalisador de processos de auto-desenvolvimento intelectual, eis a minha tese.

  24. Ora bem. Abandonando por momentos, a peleja nas arenas de outras caixas de comentários aí acima, volto à carga também, neste assunto.

    O modo como escrevo aqui- ou noutro lado- propicia o disparate, porque é de uma escrita quase automática que se trata.
    No meu caso concreto, o que penso sobre isto ou aquilo, geralmente fica atropelado se o tento exprimir em palavras.
    Dito de outro modo, os dotes de oratória não são gerais e extensíveis a todos os que querem. Falar bem é um dom, voilà.
    Logo, quem fala em público ou mesmo para interlocutores privados,pode exprimri o que pensa e sente de determinada forma e ser consequente e explícito naquilo que quer dizer.
    Mas existe também uma aspecto da linguagem que é importante quando se pretende passar ideias definidas: o poder de persuasão e de facilidade em se fazer entender nos assuntos complexos.
    Nestes, parece-me mais fácil tentar dizer as mesmas coisas por escrito.
    Se tal se fizer como costumo fazer, por escrita automatizada e quase ao mesmo tempo que as ideias surgem, há a possibilidade de corrigir em fracções de segundo, aquilo que verdadeiramente se pretende dizer, tendo ainda a vantagem de se poder usar uma panóplia de imagens e estilos que podem enriquecer o discurso e tornar a linguagem naquilo que muitas vezes poderia ser: uma metalinguagem, um modo de exprimir coisas em “layers” e com referências várias que podem ser descodificadas por que o souber e tiver a respectiva chave.

    No entanto, há uma coisa em que concordo plenamente consigo:

    As discussões que congregam pessoas para falar em público, têm uma vantagem: despertam quem o faz para o prazer de o fazer e principalmente para a utilidade em valorizar e serem “catalisador de processos de auto-desenvolvimento intelectual”, como diz e muito bem.

    Mas também há o seguinte aspecto:
    Sendo extremamente agradável encontrar alguém que fala bem e com saber, é extremamente chato ouvir um chato que repete lugares comuns ou se fica pelo prazer de se poder ouvir a si mesmo, na lenga lenga estafada. E convirá que em números redondos, estes superam aqueles.

  25. valupi,

    já reparei que é feita uma selecção do tipo e teor das intervenções que, geralmente, são as que interessam ao governo.nem sempre, é verdade, mas, no geral é assim.quem ouvir o programa muitas vezes e ao longo dos anos nota esse tipo de escolhas.escolhas pró PS.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.