Todos os artigos de Aspirina B

O fantasma do meu Natal Presente

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Os meus dias de filocomunista já lá vão. Desde que uma revista de confiança me nomeou “Director de Imagem” da campanha do Camarada Francisco Louçã, muita coisa teve de mudar aqui em casa. E o Natal também sofreu a desestalinização que há muito se impunha. É que não dá mesmo para continuar com a mesma celebração caduca, aquele hino à globalização que todos os Dezembros nos entrava pela casa. E ainda por cima sexista: a mulher placidamente deitada enquanto o tal “Deus” (de género masculino, está visto) manda naquilo tudo? Isso já era!
Começámos por reformular o presépio. Agora, temos uma caverna okupada, com graffitis contra o governo e carregada de malta com djambes e cortes à moicano. O José anda por lá, com os pastores imigrantes, a enrolar umas valentes brocas e a planear acções contra o ocupante romano. Os três reis magos dispersaram: um está a mudar de sexo e os outros dois foram casar-se a Inglaterra. A Maria saiu e anda à procura de uma clínica de abortos.
Ainda tentámos decidir em reunião familiar a retirada obrigatória de todos os símbolos religiosos do nosso Natal. Mas a criançada teve medo que isso incluísse as prendas e vetou a proposta. Valeu-nos a alternativa multicultural: agora, temos uma menorah cheia de luzes a piscar e uma deusa Shiva de ar furioso pregada à porta. Quem veio distribuir prendas foi um simpático irmão muçulmano muito parecido com alguém que já vi na TV, saco repleto de sprays de tinta, kalashnikovs em miniatura e t-shirts da ATTAC. Sem esquecer a grande prenda deste Natal: uma moratória à obrigação do banho semanal, até ao dia de Reis!
Bem; gostava de ficar aqui à conversa convosco mas tenho de levar os miúdos à ceia no McDonalds. Já tenho os bolsos do colete cheios de pedras e de cromos do camarada José Bové. Se tudo correr bem, vemo-nos mais logo, nas notícias.

Lénine, Marx e Bin Laden (Afinidades Acidentais)

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O Henrique Raposo tem a ambição de ser uma espécie de professor Marcelo da Blogosfera. Em vez de ler livros: enuncia títulos. Em vez de argumentar: tira conclusões. Infelizmente, a leitura das lombadas raramente nos elucida muito sobre as obras.
Hesitei bastante em escrever sobre os seus escritos : não só porque me sinto esmagado com tantas capas digitalizadas, mas sobretudo, porque tenho para mim claro que só vale a pena discutir livros com alguém que alguma vez leu os autores que crítica. Ora depois de ver a análise que ele fez sobre Negri e Zizek é obvio que o senhor Raposo não se dá a esse trabalho.
Mas a associação de Lénine e Marx ao terrorismo, e a falta de assunto para escrever, levam-me a enumerar umas tantas ideias:
1.Lénine terá os seus defeitos, mas a apologia ao grupos terroristas não faz parte deles. Vladimir Ilich Ulianov sempre denunciou os atentados terroristas como perniciosos.
A sua posição tem razões pessoais e políticas: o irmão mais velho de Lénine, Alexandre, morreu enforcado por participar numa tentativa de assassínio do Czar, o que levou o seu jovem irmão a dizer que “esse não era o caminho”; e, do ponto de vista político, o terrorismo na Rússia foi uma prática de grupos anarquistas e socialistas revolucionários a que o partido Bolchevique sempre se opôs. O líder da revolução de Outubro tem mesmo um texto crítico, escrito salvo erro em 1909, contra o assassínio do rei D. Carlos I de Portugal. Para os Bolcheviques a violência e o terror revolucionário só podiam ser exercidas no contexto de luta de massas generalizada e nunca no quadro político e técnico de atentados terroristas.
2. A rejeição por parte de Marx do terrorismo dá-se no contexto das divergências tidas com sectores anarquistas no quadro da primeira Internacional, nomeadamente em relação a Mikhail Bakunin e, episodicamente, a Netchaev (autor do célebre catecismo revolucionário), histórias que estão bastante bem narradas num livrinho muito fácil de ler, e até editado em português, e para Henrique Raposo em inglês, a biografia de Karl Marx de Francis Wheem.
3. Acerca da pseudo-ligação entre fundamentalistas islâmicos e comunistas, é sabido que os Estados Unidos da América e Israel financiaram e apoiaram o renascimento de sectores do fundamentalismo islâmico, no âmbito da guerra fria, tendo três objectivos principais: combate aos soviéticos no Afeganistão, contrariar os partidos de esquerda árabes de origem nasserista e debilitar a OLP e Yasser Arafat. São histórias mais do que conhecidas e bem ilustradas na foto publicada pelo Luis Rainha.

O Impossível acontece: Durão Barroso foi quase mais parvo que Ribeiro e Castro

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Há experiências enternecedoras: recentemente estive na Hemeroteca para folhear alguns jornais e tropecei no “Independente” de 27 de Janeiro de 1995, em que se publicava um artigo do camarada “Abel” (Durão Barroso), retirado do “Luta Popular” de 2 de Maio de 1975.
A singela peça tem como título: “A Vida e Obra de Estaline”. É preciso notar que o texto foi escrito há 30 anos, mas que na altura José Manuel Durão Barroso tinha mais de cinco anos de idade (pelo menos de idade legal) e uma formação que ultrapassava largamente a infantil. E, embora a redacção deste escrito teórico o pareça indiciar, não está provado que Durão Barroso tenha descoberto as pastilhas ou que tomasse regularmente ácidos.
Feitas estas advertências aos leitores, cá ficam alguns excertos deste documento histórico que espelha algumas das características intelectuais do actual presidente da Comissão Europeia.
“ Onde quer que estejamos mal se pronuncie a palavra ESTALINE (Nota do redactor (eu): o autor escreve quase sempre o pseudónimo de Josef Dugladovitch em maiúsculas) logo um poderoso campo magnético (sic) isola à direita toda a espécie de oportunistas, unindo ferreamente à esquerda os verdadeiros comunistas e os autênticos revolucionários.
Esta é uma das teses fundamentais da directiva do nosso movimento “QUE VIVA ESTALINE!”. Essa directiva é uma contribuição enorme (NR: não consigo ver mesmo nenhuma maior, talvez os Himalaias) ao património científico do Marxismo-Leninismo-Maoismo. (…)
O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos não resistiu à contraprova do campo magnético (NR: uma espécie de “o algodão não engana”); mal se falou em ESTALINE começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva. (…)
E isso acontece porque a camarada Gina (NR: parece que não é a das revistas) não ama Estaline (NR: talvez seja a das revistas) e está contra a linha política do MRPP.
E isso porque na sua crítica não toma as posições face a ESTALINE; fala dos “erros” de forma aparentemente correcta mas não diz que o camarada ESTALINE não cometeu erros estando implícito que admite que os cometeu (NR: a pontuação à Saramago é de Durão Barroso) . A camarada Gina não resistiu também à prova do campo magnético. Tentou cair no meio e foi cair ao lado dos oportunistas. E é talvez por isso que na sua crítica não se refere a esta questão, não diz que a questão de ESTALINE é a pedra de toque que demarca os Comunistas dos oportunistas.
A CAMARADA Gina faz a crítica por descargo de consciência. Não se “lembrou” que quando criticamos os outros não podemos cair nos mesmos erros que eles e por isso não estudou pacientemente a directiva “QUE VIVA ESTALINE!”.
A posição da camarada Gina é a posição (NR: é definitivamente a das revistas) daqueles que erguem a bandeira de ESTALINE para partir a cabeça dos que defendem Estaline, daqueles que sob a capa de defenderem ESTALINE, atacam-no. E Gina ataca-o porque não defende (NR: “estar vivo é o contrário de estar morto”). (…)
Devemos varrê-las do nosso seio (NR: o do Barroso) implacavelmente, “agarrar o touro pelos cornos” e não fazer tentativas hesitantes pelo flanco, tal é a posição dos Comunistas (NR: Fica por explicar qual é a posição do touro em relação aos comunistas e aos “deserdados” do campo magnético: os comunistas agarram os cornos e os outros seguram o rabo? ou pelo contrário empurram o touro? e “no meio” onde é que fica a “camarada Gina”?).
Dizer que ESTALINE foi um eminente dirigente proletário e não cometeu erros e não dizer que há erros de 1ª espécie e erros de 2ª tal é a nossa posição.” (…)
“Eu próprio não ousei criticar o camarada Saldanha Sanches, não dei à directiva “Que Viva Estaline” a enorme importância que ela tem, o que é uma manifestação oportunista e cobarde de quem não ama Estaline, de quem não defende intransigentemente os princípios do Marxismo-Leninismo-Maoismo. Por tudo isto, desde já me autocritico (NR: as chibatadas e flagelações eram à quarta feira) manifestando o desejo de ir contra a corrente e defender a vida, a obra e a actividade do grande Estaline não pactuando com todos os ataques – directos ou camuflados – que foram feitos ao grande Estaline.”

Mistérios avulso

Conta-nos o DN que foi detectado “material cancerígeno” no Palácio da Justiça. Mas a notícia não explica se tal descoberta coincidiu com uma visita de Souto Moura.
Em simultâneo, a sede do PND foi vítima de um misterioso assalto, em que só foi roubado um monitor de computador, pormenor “curioso”, nas palavras de um dirigente do patusco partido, pois havia por ali “dinheiro” e outros bens. Terão os assaltantes fugido em pânico, ao deparar com os muitos retratos de Manuel Monteiro que por certo guarnecem o interior da sua agremiação?

O Insurgente e o seu Guru

O Insurgente acaba de descobrir o seu Grande Educador nos domínios sempre traiçoeiros da Política Internacional: Ribeiro e Castro.
Aparentemente, este “considerou ontem ‘preocupante’ que haja jovens que têm como ícone Che Guevara, ‘um dos grandes assassinos do final do século XX’. O líder do CDS defendeu que ‘é importante que a esquerda se saiba libertar dessas suas referências tremendas de violência, crueldade e intolerância’.”
É claro que o bom Ernesto não foi o anjinho que a hagiografia oficial pinta. Mas, assim de repente, parece-me que talvez fosse mais importante e relevante para os dias que correm reconhecer erros recentes e ainda emendáveis. Coisas como apoiar uma invasão que nos foi “vendida” com argumentos falsificados e que já causou a morte a milhares e milhares de inocentes. Mas talvez só no século seguinte ao dos acontecimentos sábios do calibre de um Ribeiro e Castro consigam mesmo abrir os olhos.
Atenção, que ainda há mais sabedoria a derramar-se deste crânio privilegiado. Ele tem a Grande Teoria para explicar “o terrorismo contemporâneo”. Preparem-se: esse flagelo “tem origem numa deriva totalitária do pensamento marxista-leninista” e isso “tem que estar presente no consenso do combate ao terrorismo”.
Quem andava convencido de que Osama foi treinado e armado por uma certa super-potência, na altura cheia de vontade de incomodar a outra, está a leste. Quem alimentava delírios sobre fortunas sauditas (mais malta de esquerda, suponho) a financiar redes de terroristas islâmicos faria melhor em acordar para a realidade: os terroristas de hoje são sim fãs de Marx e Lenin.
Mas, pensando bem, professar admiração por esta espécie de “pensamento” fica bem a um blogue que ainda há pouco denunciou a condição de milionário de Fidel Castro. Citando um resumo de um artigo mas esquecendo-se (ai, estas cabeças…) de ler como é que a isenta Forbes calculou a suposta fortuna do ditador cubano: “In the past, we have relied on a percentage of Cuba’s gross domestic product to estimate Fidel Castro’s fortune (coisa bem científica, portanto). This year we have used more traditional valuation methods, comparing state-owned assets Castro is assumed to control with comparable publicly traded companies.” Pois. Aquele delicioso e mui rigoroso “is assumed” diz tudo; menos, claro está, a quem nada quer ouvir.

Belas artes para feios tempos (6)

A nova arte chinesa é inconfundível. Partindo de uma posição exterior a qualquer campo artístico familiar, esmera-se no que por vezes aparenta ser uma busca incessante do inusitado, do chocante, do repugnante. Por isso, até há bem poucos anos artistas como Sun Yuan e Pen Yu eram vistos pelas autoridades chinesas como lixo incómodo a fechar a sete chaves no armário do underground. Mas também aqui a atracção do mercado foi irresistível: quando a cotação de alguns destes proscritos subiu em flecha no Ocidente, não tardou até que muitos deles se vissem promovidos a artistas oficiais.
A peça aqui ilustrada, Soul Killing, de 2000, é um exemplo extremo do incómodo quase físico que muitas obras chinesas contemporâneas conseguem causar. O seu elemento central é um cão, que foi esfolado e desprovido da parte superior do seu crânio. Exposto ao calor brutal de um projector de cinema, o cérebro do animal vai sendo cozinhado face aos espectadores, que têm de suportar um odor intenso para poder admirar a obra. Trata-se de uma óbvia crítica à nossa sociedade do espectáculo, onde todos se sujeitam às leis da exposição mediática por interesse ou mero exibicionismo. Mesmo que o processo frite os seus miolos ou acabe por “matar” as suas almas.
Sun Yuan e Pen Yu são autores de obras ainda mais radicais, como “Link of Body” onde são usados fetos humanos. Aliás, um outro artista chinês, Zhu Yu, originou um mito urbano que correu mundo sob a forma de emails a denunciar a prática de canibalismo em restaurantes de Taiwan; uma sua performance em que comia um feto abortado causou choque por todo o lado e justificou mesmo uma nota do governo de Taiwan…
Temas como o corpo enquanto local de transcendência e abjecção, a fugacidade das coisas humanas e também uma estranha fixação com a comida, frequente em artistas como Chen Wenbo, são alguns dos traços genéticos deste novo produto de exportação chinês. Estranhos gostos a pedir estômagos fortes.

Diálogos presidenciais

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– Você não é um homem dialogante.
– Eu sou uma pessoa que toda a gente diz que é de palavra.
– Você não é simpático: todos os meus amigos europeus o dizem.
– Já li muitas memórias de líderes, em que eles escrevem que eu sou o máximo.
– Você só sabe de aritmética.
– Eu tenho um sinal que, a uma determinada luz, me dá muito charme.
– Você recusa-se a falar do futuro.
– Você só quer falar do passado.

Serviço Público: A melhor crónica do grande arquitecto

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(Foto roubada ao “no meu umbigo”)

Esta crónica ao inconfundível estilo Saraiva, foi retirada de um blog infelizmente finado, chamado Umbigo.

Como diria EPC, que em breve esperamos contemplar, os textos do Grande Arquitecto são marcados por uma lógica discursiva desarmante na sua linearidade binária. Para escrever um texto como o Grande Arquitecto, precisa apenas de misturar com água, com muita água, os seguintes ingredientes:
1º – maniqueísmo: contrapor, a golpes de frase curta (e uma frase/um parágrafo), duas realidades, de preferência inesperadas (o locus classicus nesta matéria é a inesquecível crónica de António Pinto Leite no «Semanário» dos anos 80 com o título «Eanes e Stéphanie», ainda hoje analisada, sem sucesso, nas melhores escolas monegascas de ciência política e de jornalismo);
2º – umbigo: tropo literário que se caracteriza pelo uso frequente de expressões do tipo «como já escrevemos nesta coluna…», «há dois meses, dizia…» (= «é triste ter razão antes do tempo» ou «oh, o que custa, rapazes, ser um visionário neste adormecido Portugal!» ou ainda «tenho este ar permanentemente chateado não por causa de ser hirsuto que nem um cacheiro e possuir sobrancelha única, mas porque ninguém dá ouvidos à clarividência dos meus avisos»);
3º – remate – o texto deve terminar com uma frase que dê o ar que se está perante um esmagador tratado de lógica, ou seja, que não se trata de uma opinião pessoal do Grande Arquitecto mas antes de uma conclusão extraída através de processos dedutivos usados nas mais selectas escolas austríacas e inglesas de filosofia analítica. Uma conclusão que, modesto, o Grande Arquitecto se limita a anunciar urbi et orbi.

Um exemplo prático. Exercício nº 1:

Siameses

A semana que passou foi marcada por dois grandes acontecimentos.
Em Singapura, a operação de separação das gémeas iranianas fracassou.
Em Portugal, continuou a falar-se da possível candidatura a Belém de Mário Soares e Cavaco Silva.
Ora, como tenho defendido nesta coluna, considero que Soares e Cavaco são gémeos falsos.
Não são gémeos siameses.
Cavaco é filho de um gasolineiro de Boliqueime.
Soares é filho de um ministro da I República que se converteu em pedagogo e fez um Atlas Geográfico Universal que teve, pelo menos, 23 edições.
Cavaco estudou em Inglaterra.
Soares ensinou em França.
Cavaco gosta de trepar em coqueiros.
Soares gosta de montar tartarugas.
Cavaco é um asceta.
Soares é um sibarita.
Cavaco é um cara-de-pau.
Soares é um cara-de-bolacha.
Cavaco gosta de bolo-rei.
Soares gosta de ser o rei do bolo.
Cavaco escreveu a sua própria biografia (e saiu uma bela merda).
Soares preferiu escrevê-la através de uma idiota útil que meteu perguntas simuladas pelo meio e no final assinou o nome.
Cavaco é magro.
Soares é gordo.
É por isso que, como tenho sustentado nesta coluna, Cavaco Silva e Mário Soares não são irmãos siameses. E, como não são siameses, não precisam de ir a Singapura.
¶ 1:24 AM

Espada em Madrid

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Decorreu esta semana em Madrid, por iniciativa do Professor Eduardo Nolta e da FAES (Fundacion para al Analisis y los Estudos Sociais), instituição que para além de tudo é conhecida pelo o uso de gravatas garridas italianas e a confecção de excelente scones, uma conferência comemorativa do bicentenário do nascimento de Sir Alexis de Tocqueville. O Hotel, que me arranjaram, era muito em conta e estava situado na Calle Mayor, no atrío polulavam os fellows em alegres concílios, sempre com a dignidade que se exige, a excelência que se procura, e claro, fatos a condizer: você já repararam o ar distinto das casacas, mesmo quando não usadas em Wimbledon?
Entre os temas abordados esteve a concepção de liberdade em Tocqueville, que deve ser distinguida claramente de Rosseau e, ainda que menos vincadamente ( a mim as pregas não me ficam muito bem), da de John Stuart Mill. Como por coincidência, recordei aqui no sábado passado, Rousseau (embora não tenha conseguido falar-lhe ao telefone) não aceitava o indivíduo enraizado em qualquer particularismo – dizia-me com muita graça Sir Karl Popper: “Spading (ele tratava-me assim) isso são sinais e faça o favor de me ir buscar o carro” –, como os seus interesses privados, a sua família, o seu negócio ou a sua igreja ( em Messajana há uma particularmente conseguida). Esta hostilidade contra todos os “attachments” particulares (em mails e fora deles), para usar da expressão de Michael Oakeshott, que carteia no bridge como poucos, esteve na origem do jacobinismo e do comunismo, que como todos sabemos não sabem fazer o nó da gravata e não apreciam a Zara e a liberdade.

(Qualquer parecença com a crónica do professor João Carlos Espada, de hoje e de sempre, é casual)

Sempre o Mal

De quando em vez, lemos mais qualquer coisa sobre o Mal; assim como se se tratasse de uma quantidade — melhor, de uma personalidade — viva e independente do nosso arbítrio. Era bom, não era? Podermos repartir culpas com uma entidade simbiótica que tem por destino desviar-nos dos bons e justos caminhos. Também poderíamos fazer como os Cátaros e outros dualistas, que acreditavam na maldade intrínseca de todo universo material e na inevitável contaminação que as nossas almas sofrem mal cá entram. O resultado é a mesma litania: nós somos bons, nós somos puros, nós estamos isentos de mácula. O Mal é-nos exterior. Claro: se fomos feitos à imagem de Deus, nem poderia ser de outra forma.
Como já deu para reparar, o genocídio do Ruanda é o espelho nigérrimo a que acabo sempre por voltar, quando tento não me esquecer da verdadeira face do bicho homem. E, inevitavelmente, o Holocausto continua a esmagar as nossas memórias como o mais gigantesco monumento ao Mal que conseguimos construir (e olhem que nos temos esforçado muito).
É fácil encontrar semelhanças entre estes dois buracos negros da nossa história recente. A Alemanha nazi e os milicianos Hutus seguiram a mesma estratégia base: começar por retirar a humanidade aos inimigos, classificando-os como “untermensch” e “baratas”, respectivamente. Depois, atirar para cima destas criaturas desprezíveis e sem direito à vida todas as culpas, todas as vilezas. Por fim, escolher os mais desalmados para tomar conta das primeiras matanças; estes exemplos frutificam sempre e não tardará até que os matadores sejam legião.

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Um quadro

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Quando era pequeno, ir a casa dos meus avós era uma aventura fantástica: passava pelas salas, em que a lareira crepitava, e em que se sentia também o cheiro do couro dos livros. Abria as portas e subia umas escadas em que os quadros se amontoavam. No cimo de tudo, antes da enorme vista para o Tejo, estavam dois quadros de Mário Eloy: este e um outro em que a mesma mulher surge na mesma posição, mas vestida. Uma espécie de exercício de Goya, entre Maya vestida e Maya desnuda.
O meu avô, que era ateu graças a deus (reparem na minúscula), não comemorava o Natal, apenas assinalava o ano novo.
Infelizmente, nenhum dos meus avós é vivo: talvez por isso, mais do que pela indiscritível musiquinha, esta época me irrite tanto.