Belas artes para feios tempos (6)

A nova arte chinesa é inconfundível. Partindo de uma posição exterior a qualquer campo artístico familiar, esmera-se no que por vezes aparenta ser uma busca incessante do inusitado, do chocante, do repugnante. Por isso, até há bem poucos anos artistas como Sun Yuan e Pen Yu eram vistos pelas autoridades chinesas como lixo incómodo a fechar a sete chaves no armário do underground. Mas também aqui a atracção do mercado foi irresistível: quando a cotação de alguns destes proscritos subiu em flecha no Ocidente, não tardou até que muitos deles se vissem promovidos a artistas oficiais.
A peça aqui ilustrada, Soul Killing, de 2000, é um exemplo extremo do incómodo quase físico que muitas obras chinesas contemporâneas conseguem causar. O seu elemento central é um cão, que foi esfolado e desprovido da parte superior do seu crânio. Exposto ao calor brutal de um projector de cinema, o cérebro do animal vai sendo cozinhado face aos espectadores, que têm de suportar um odor intenso para poder admirar a obra. Trata-se de uma óbvia crítica à nossa sociedade do espectáculo, onde todos se sujeitam às leis da exposição mediática por interesse ou mero exibicionismo. Mesmo que o processo frite os seus miolos ou acabe por “matar” as suas almas.
Sun Yuan e Pen Yu são autores de obras ainda mais radicais, como “Link of Body” onde são usados fetos humanos. Aliás, um outro artista chinês, Zhu Yu, originou um mito urbano que correu mundo sob a forma de emails a denunciar a prática de canibalismo em restaurantes de Taiwan; uma sua performance em que comia um feto abortado causou choque por todo o lado e justificou mesmo uma nota do governo de Taiwan…
Temas como o corpo enquanto local de transcendência e abjecção, a fugacidade das coisas humanas e também uma estranha fixação com a comida, frequente em artistas como Chen Wenbo, são alguns dos traços genéticos deste novo produto de exportação chinês. Estranhos gostos a pedir estômagos fortes.

10 thoughts on “Belas artes para feios tempos (6)”

  1. É de supor que o sucesso de artistas ocidentais com esse pendor, como Damien Hirst, tem alguma relação com essa abertura. Escatologia nas artes plásticas até gosto, mas crueldade com animais como manifestação artística é um culto abjecto que eu não gramo mesmo.

  2. Bem visto, Susana. O Hirst, em peças como o famoso “The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living” ou a peça da vaca cortada ao meio cujo nome agora não recordo, tem tudo a ver com isto.
    Quanto aos animais, não te esqueças que os cães, na China, são artigos de talho…

  3. bem visto, Luís, ;) o Hirst na Índia também não deve ter muita aceitação…
    já agora é uma constatação curiosa verificar como a escatologia artística ocidental é geralmente um pouco mais asséptica: a vaca mergulhada em formol, as fotografias do Andres Serrano…

  4. Pois, eu disse geralmente… depois ainda me fui a pensar nisso. Acho que na cultura artística ocidental há um conceito de design quase sempre muito presente. No sentido de conter alguma elegância, ou sofisticação.
    Valupi, creio que não é do Luís, nem exclusivamente do autor: é uma “linha”. Como há aqueles (aquelas!)que questionam o papel da mulher na sociedade, ou a guerra, ou o materialismo, ou o sexo. É arte intervencionista. :-)

  5. Susana,

    Essa é a eterna batalha Sinal/Ruído. Há quem prefira a Arte mais “Clear Cut”, imaculada e sem arestas mal boleadas. O Hirst, pelo menos nas assemblages, será disso um bom exemplo: tudo muito cool e clean.
    Por outro lado, para cada Mondrian surge um Pollock, para cada Moore um Kienholz. E a razão Sinal/Ruído dá sempre quantidades viáveis e por vezes até surpreendentes.
    Digo eu…

  6. Viste a Adriana Varejão, no CCB, por exemplo? O tema de alguns trabalhos é declaradamente escatológico (telas com cortes à Fontana de onde saem vísceras a granel) só que é tratado com meios da escultura. A leitura não é, provavelmente, muito diferente; a experiência, sê-lo-ia seguramente, se tivesse cheiro ou ruídos viscosos.
    bem visto, às tantas, uma prosaica exposição é como o cenário abandonado de um espectáculo.

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