Sempre o Mal

De quando em vez, lemos mais qualquer coisa sobre o Mal; assim como se se tratasse de uma quantidade — melhor, de uma personalidade — viva e independente do nosso arbítrio. Era bom, não era? Podermos repartir culpas com uma entidade simbiótica que tem por destino desviar-nos dos bons e justos caminhos. Também poderíamos fazer como os Cátaros e outros dualistas, que acreditavam na maldade intrínseca de todo universo material e na inevitável contaminação que as nossas almas sofrem mal cá entram. O resultado é a mesma litania: nós somos bons, nós somos puros, nós estamos isentos de mácula. O Mal é-nos exterior. Claro: se fomos feitos à imagem de Deus, nem poderia ser de outra forma.
Como já deu para reparar, o genocídio do Ruanda é o espelho nigérrimo a que acabo sempre por voltar, quando tento não me esquecer da verdadeira face do bicho homem. E, inevitavelmente, o Holocausto continua a esmagar as nossas memórias como o mais gigantesco monumento ao Mal que conseguimos construir (e olhem que nos temos esforçado muito).
É fácil encontrar semelhanças entre estes dois buracos negros da nossa história recente. A Alemanha nazi e os milicianos Hutus seguiram a mesma estratégia base: começar por retirar a humanidade aos inimigos, classificando-os como “untermensch” e “baratas”, respectivamente. Depois, atirar para cima destas criaturas desprezíveis e sem direito à vida todas as culpas, todas as vilezas. Por fim, escolher os mais desalmados para tomar conta das primeiras matanças; estes exemplos frutificam sempre e não tardará até que os matadores sejam legião.


Mas existem diferenças. As fábricas de morte alemãs escondiam a agonia, faziam do assassinato uma indústria remota, higiénica e discreta. Mesmo a manipulação dos cadáveres tinha de ser feita por prisioneiros descartáveis; os soldados alemães não conseguiam resistir por muito ao horror supremo da tarefa. E a cumplicidade da população, para lá do ódio aos “porcos judeus”, terá sido mais por silenciosa anuência, pelo maligno tumor da cegueira face ao que era tão visível.
No Ruanda, o sangue espalhou-se por milhares e milhares de mãos. Médicos, padres, freiras, cidadãos pacatos; todos pegaram em catanas para retalhar vizinhos, amigos, colegas. Ler qualquer artigo sobre estes massacres é forçar o nosso espírito a aceitar o inaceitável: que gente normal pode mesmo cair no abismo da brutalidade mais atroz, amputando, retalhando, esventrando. Sempre com a feroz alegria que nem imagina a ideia de pecado. Lê-se algures que um médico, ao reparar que o corpo de uma criança ainda se contorce em agonia, trespassa-o com uma espada. Um padre encarrega-se de demolir a sua igreja, repleta de fugitivos, aos comandos de um bulldozer. Quem ainda guarda dinheiro suborna os carrascos para ser morto a tiro, não a golpes de catana. As crianças feridas que se arrastam para o mato são perseguidas e acabam com os crânios esmagados contra a parede mais próxima. Por todo o Ruanda, poças vermelhas empapam o chão, em cada brisa voga o fedor a sangue e decomposição.
Por mais que tente, não consigo acreditar mesmo que tudo isto tenha acontecido. Tal como ainda não consigo encarar a crueldade industrializada e os milhões de vítimas da Shoah.
Qual destas vergonhas absolutas retratará melhor a besta humana? Não sei bem; e nem me parece que a resposta, a haver alguma, seja coisa importante.

4 thoughts on “Sempre o Mal”

  1. Excelente quadro, Luís. Relaciono esses eventos servidos por abundantes documentos visuais e testemunhos com a história para sempre perdida dos acontecimentos anteriores, desde a alvorada da humanidade. Quantas comunidades não foram dizimadas, de facto, extintas na sua prole, memória, língua? Quantos não terão sofrido a violência suprema, sido objecto da crueldade que só um ser humano é capaz de infligir a outro ser? Muitos mais do que aqueles que o século XX registou, com certeza.

    Essa impossível paleontologia do Mal pode, no entanto, ser servida por uma biologia do Bem. A gradual e sempre demasiado lenta (mesmo que demasiada rápida para a compreendermos) evolução do animal humano indica que o Bem é teleológico, pela simples razão de ser conforme ao princípio vital. A vida que fala, nós, quer continuar viva. Perguntem a uma bactéria qual é o seu maior desejo e virem-se para um humano para obter a resposta: viver para sempre.

    Então, e o Mal? Uma interrogação que atravessa o Antigo Testamento, por exemplo. Ao justo não é dada nenhuma explicação, porém. Antes se solicita uma visão de conjunto, relativizando o sofrimento na promessa de um sentido final. Esta era a resposta possível à época.

    E hoje? As Ciências Humanas não utilizam os conceitos de “mal” ou de “bem” por não serem operativos. Antes se investiga o que seja a normalidade e o seu desvio. Procura-se estabelecer o mapa das instâncias do humano e sua variável meteorologia. Admite-se que haja doenças individuais e colectivas, entende-se o dinamismo psíquico como equilíbrio sempre perecível entre Eros e Tanatos e vai-se à genética fazer a arqueologia da cultura. O Mal surge como uma disfunção enraizada no próprio movimento evolutivo da espécie – um subproduto da formação do Bem.

    E irá o Bem “ser tudo em todos”? Ninguém sabe, felizmente. Só se sabe que o Bem é sempre mais surpreendente, e mais discreto, do que o Mal.

  2. Luís,

    Muito bem escrito mas, ao fim e ao cabo, o prato do costume: verdades de fazer chorar, sim senhor, mas caldeadas com ficções ultrapassadas porque politicamente correctas. Um autêntico paradigma do equilibrio desejado pelas forças do progresso emperrado e contaminado. Do Ruanda, já sabemos e já sabiamos. Uma das muitas tragédias à la plano-imperial-fascista para manter, através da intriga politica globalista altamente especializada (a culpa é dos tribalismos, sr Daniel!) um continente inteiro a fornecer matéria prima barata que vai enchendo bolsos sem fundo aos barões gordos do costume e contentando o resto dos parvalhões como nós seguros de que gozamos um belíissimo nivel de vida e tanta, tanta liberdade que nem sequer sabemos o que havemos de fazer com ela.

    Ah, os Cátaros. Que história (o Fomenko vai certamente desculpar-me por pegar nesta ponta da meada não confirmada) tão mal contada pelos livros que falam muito do turismo provençal da Madalena mas não dizem nada do importantissimo resto. Os Cátaros da pureza cem por cento “cristã”. Na verdade cripto-judeus, descendentes dos Merovingios que puzeram e dispuzeram em grande parte da Europa durante três séculos com muita malícia e artimanha.

    Nesta questão das mortandades desalmadas a mando de papas e igrejas reaccionárias nunca se levam as colheres ao fundo dos tachos para se saber exactamente quem contra quem cometeu os crimes de que tanto nos envergonhamos como humanos e gente honesta. Com as conversões forçadas de judeus ao cristianismo, as hierarquias católicas (repara que o presente locatário do Vaticano, mau grado o que se diz neste blogue por força de hábito e amor à repetição, nem se importa que os crentes só ponham os pés na igreja quando há missa do galo!! Fiéis meus, atenção à cruz invertida que se adivinha com este relaxo!) estavam a abarrotar com judeus “conversos” mais papistas que o Santo Padre. Loiola, só um exemplo, Alumbrado basco quando jovem, antes de se aleijar, era filho de marranos e deixou uma Sociedade em herança que faria inveja ao KGB ou à CIA. Que o Silva Pais, que sabia de muitos casos de gajos que infiltravam a esquerda para fazerem o jogo de Salazar, me perdõe por não usá-lo como comparação. Moral da história: há muitas maneiras de matar hereges. Modernamente sufocam-se. Duvido que este sistema dê resultado com pulgas.

    Quanto ao resto – “as fábricas de morte alemãs” que “escondiam a agonia, faziam do assassinato uma indústria remota, higiénica e discreta (onde) a manipulação dos cadáveres tinha de ser feita por prisioneiros descartáveis; os soldados alemães não conseguiam resistir por muito ao horror supremo da tarefa. E a cumplicidade da população, para lá do ódio aos “porcos judeus”, terá sido mais por silenciosa anuência, pelo maligno tumor da cegueira face ao que era tão visível” – há que ter bastante cuidado com a maneira como se conjugam estes verbos, porque corremos o risco de entrarmos mais depressa do que pensamos na fase do orwellismo que nos congelará as mioleiras irremediavelmente.

    Porquê? Porque é da discussão que nasce a luz, ou pelo menos devia ser. E principalmente porque já há leis rigorosas de repressão à liberdade de opinião em oito países europeus (com a outrora-nazi Alemanha, muito arrependida dos seus pecados, à cabeça) onde não se pode abrir o bico palreiro da discordância em relação ao dogma e à dúvida sobre o Holocausto. Este processo já vai bastante avançado mas curiosamente pouco falado nos jornais. Quando as vozes engrossam porque há provas e razão para que elas engrossem, não se está com meias-medidas no clube dos oito: põem-se os atrevidos em cana e no banco dos réus e comunica-se à mossad para os listarem como elementos perigosos, ou potenciais promotores de actos de terrorismo. Trabalho limpinho, gradual e sem espinhas. E que nenhum português à espera desse eldorado de país de super-pides modernos atentos aos menores movimentos dos que ousam saltar a barreira do “crime pensado” se impaciente: as nossos grupos de pressão secreta e discreta devem estar em fornicoques de excitação mal contida para nos incluir no clube que administra os nossos sentimentos de culpa. Está tudo no forno, é uma questão de tempo. A recente derrota da constituição de Monsieur Giscard pode ter sido um sintoma inquietante para os protectores da nossa moral, mas não passou dum simples percalço temporário. Há, todavia, muito tempo e entusiasmo para se condir outras pomadas substitutas em Bruxelas.

    E já que estou com a mão na massa, permite-me “subverter” os inocentes que te lêm e lêm estes comentários, aconselhando-os a visitarem o site dum jornalista americano – Rense.com – que serve de tribuna a muitos para tornarem públicas opiniões diferentes e ousadas sobre o importantíssimo problema do abafamento de provas desmistificadoras em muitas áreas da politica intriguista que nos confunde. É pena ser em inglês – mas, acredito, uma “piece of cake” para quem está acostumado aos espreguiçamentos filosóficos do Valupi sem ajuda de dicionário.

    Porque apesar da concentração do capital, dos bancos, de Bush e do resto dos cowboys militares dum império prestes a afundar-se como resultado de pressões que não derivam apenas da resistência armada à repressão militar que exerce fora das suas fronteiras, a oposição verdadeiramente democrática dos USA, reduzidíssima como se constata pelos resultados de eleições e do aparvoamento quase total criado por uma media controlada por meia dúzia de tubarões espertos demais para se canibalizarem entre si, ainda dá algumas lições aos europeus, particularmente em termos de aproveitamento do exercício da Liberdade que lhe resta, que é tambem a que nos resta.

    E vou escafeder-me à pressa sem me benzer, antes que comeces a chamar-me nomes.

  3. “Cripto judeus” que tinham o Antigo Testamento por obra exclusiva do Diabo? Sim senhora; ainda me irás explicar isso melhor.
    E olha que se tem escrito e lido muito sobre essa discussões em torno da quantificação do Holocausto. Mas há que convir qque se trata de tarefa complicada, operando no terreno minado da justa culpa alemã.
    Mas porque é que te iria chamar nomes?

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