Lénine, Marx e Bin Laden (Afinidades Acidentais)

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O Henrique Raposo tem a ambição de ser uma espécie de professor Marcelo da Blogosfera. Em vez de ler livros: enuncia títulos. Em vez de argumentar: tira conclusões. Infelizmente, a leitura das lombadas raramente nos elucida muito sobre as obras.
Hesitei bastante em escrever sobre os seus escritos : não só porque me sinto esmagado com tantas capas digitalizadas, mas sobretudo, porque tenho para mim claro que só vale a pena discutir livros com alguém que alguma vez leu os autores que crítica. Ora depois de ver a análise que ele fez sobre Negri e Zizek é obvio que o senhor Raposo não se dá a esse trabalho.
Mas a associação de Lénine e Marx ao terrorismo, e a falta de assunto para escrever, levam-me a enumerar umas tantas ideias:
1.Lénine terá os seus defeitos, mas a apologia ao grupos terroristas não faz parte deles. Vladimir Ilich Ulianov sempre denunciou os atentados terroristas como perniciosos.
A sua posição tem razões pessoais e políticas: o irmão mais velho de Lénine, Alexandre, morreu enforcado por participar numa tentativa de assassínio do Czar, o que levou o seu jovem irmão a dizer que “esse não era o caminho”; e, do ponto de vista político, o terrorismo na Rússia foi uma prática de grupos anarquistas e socialistas revolucionários a que o partido Bolchevique sempre se opôs. O líder da revolução de Outubro tem mesmo um texto crítico, escrito salvo erro em 1909, contra o assassínio do rei D. Carlos I de Portugal. Para os Bolcheviques a violência e o terror revolucionário só podiam ser exercidas no contexto de luta de massas generalizada e nunca no quadro político e técnico de atentados terroristas.
2. A rejeição por parte de Marx do terrorismo dá-se no contexto das divergências tidas com sectores anarquistas no quadro da primeira Internacional, nomeadamente em relação a Mikhail Bakunin e, episodicamente, a Netchaev (autor do célebre catecismo revolucionário), histórias que estão bastante bem narradas num livrinho muito fácil de ler, e até editado em português, e para Henrique Raposo em inglês, a biografia de Karl Marx de Francis Wheem.
3. Acerca da pseudo-ligação entre fundamentalistas islâmicos e comunistas, é sabido que os Estados Unidos da América e Israel financiaram e apoiaram o renascimento de sectores do fundamentalismo islâmico, no âmbito da guerra fria, tendo três objectivos principais: combate aos soviéticos no Afeganistão, contrariar os partidos de esquerda árabes de origem nasserista e debilitar a OLP e Yasser Arafat. São histórias mais do que conhecidas e bem ilustradas na foto publicada pelo Luis Rainha.

12 thoughts on “Lénine, Marx e Bin Laden (Afinidades Acidentais)”

  1. Tenho um livro do inspirador do Louça que fala do terrorismo e comunismo, mas a ideia do Ribeiro e Castro nada tem que ver com isto…

    O que o senhor Ribeiro e Castro pretendeu associar foram os fundamentalistas árabes a comunistas e, como é obvio, só alguém ignorante ou mal intencionado, julgo que é um misto de ambos, o pode fazer….

  2. É bom que existam explicadores do pensamento do senhor Ribeiro e Castro. Sem as doutas explicações poderíamos ter interpretações como esta, assim, ignorantes ou mal intencionadas, mas há quem vele pelo nosso espírito. Assim já entendi: ele pretendeu associar mas não o fez, certo?
    Ah! Ainda bem.

  3. Toma lá que já almoçaste, Raposo. Nuno Dixit. Foi ao Francis Wheen e às outras obras fantásticas onde até nos contam dos furúnculos no rabo que não deixavam o Marx escrever. Pois o Lénine achava o terrorismo pernicioso, provavelmente porque só atacava a perna da vítima. Bom, decidiu depois por uma coisa muito mais interessante chamada Teror Vermelho que dava cabo de grupos da oposição por atacado, com a vantagem de ser a coberto da lei e longe de ralhos. E nunca criticou Trotsky por ser um fanático defensor desse sangrento processo de intimidação colectiva da resistência. No mínimo, o Nuno, como bom democrata, deveria aceder a um empate. Visto como violência arbitrária sobre populações indefesas, o terror e o terrorismo são tanto obra da direita como da esquerda. Mais interessante seria tentar saber o papel da intriga politica que tanto obscurece a discussão deste tema. Não sou eu que irei propor ao comité que se mande o Raposo para a Sibéria. Coitado do homem.

  4. Caro Andronicus,
    O teu comentário é certeiro, informado e inteligente. Mas escamoteias que a defesa da necessidade do “terror vermelho” dá-se num contexto histórico:
    1. A discussão da necessidade de encontrar formas de combater o “terror branco” vem da revolução francesa, passa pela comuna de Paris e atravessa as duas revoluções russas.Sobretudo nas discussões teórica das razões que levaram à queda da comuna.
    2. Lénine que tinha dito textualmente que “os bombistas terroristas se definiam por não pensar” e que sobre a violência dizia que “na Rússia não será necessário matar ninguém, bastará prender os 150 mais ricos e depois libertá-los , fazendo conhecer ao povo as patifarias que tinham feito”, começa a advogar o terror vermelho (formas extremas de repressão exercidas pelo Estado bolchevique) numa situação de guerra civil, com a participação de exércitos estrangeiros, em que, por exemplo, só na Finlândia, em menos de um ano, o terror branco matou mais de 20% de todo o proletariado Finlandês.

  5. “Para os Bolcheviques a violência e o terror revolucionário só podiam ser exercidas no contexto de luta de massas generalizada e nunca no quadro político e técnico de atentados terroristas.”

    Só eram , portanto, ‘aceitáveis’ se cometidos em larga escala.

  6. Explica-me uma coisa Nuno, e desculpa a minha ignorância, continuas Leninista?

    Já agora o meu obrigado pelas tuas explicações históricas e pela paciência com que respondes a rapaziada.

    Força

  7. João,

    Isso e outras coisas igualmente inconfessáveis. Só nunca consegui acreditar que na página 445 há resposta para a questão 555 (aquela que me preocupa hoje), nem para a 554 e 556 (aquelas que me precuparam ontem e me vão preocupar amanhã).

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