A Comissão Europeia está a obrigar os Estados membros a aplicar a taxa de IVA normal para as fraldas.
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Há quem esta noite tenha dormido descansado
DEUS REGRESSA PEDIMOS-TE PERDÃO! (Rodrigo, então os posts?)
Tira a bandeira do saco
Encavacado

(Luís Rainha e João Pedro Costa na cerimónia da Sagração da Primavera do Aspirina)
É formal: encontro-me encavacado. Farto de campanha eleitoral. Para recuperar, estou a livros. Releio com espanto “Os Testamentos Traídos” de Milan Kundera. Este livro, e as obras de George Steiner e de Cioran, têm o efeito hipnótico. O único problema é que me dão a vontade de não escrever. Eu sei que nunca conseguirei que as palavras tenham essa densidade. Nunca as frases parecerão mágicas e reveladoras de um continente perdido. Para quê tentar? Sinto-me como um boi a olhar para um palácio.
Estado em que se encontra o Super-Mário

Uma pessoa vai lá e dá com aquilo vazio de posts novos. O único comentário aos resultados parece ser o melancólico lamento de Sinatra que ali se faz ouvir. Animem-se rapazes; não estarão a levar demasiado a sério a história do “ou bien il ne faut pas en faire”?
A Ciência confirma o óbvio: hoje é o dia mais deprimente do ano
O psicólogo Cliff Arnall, da universidade de Cardiff, provou cientificamente o que já nos parecia uma evidência: o dia 23 de Janeiro vai ficar marcado a vermelho no calendário como o mais abominável do ano. O esforçado cientista usou “uma fórmula elaborada” que levou em conta o mau tempo, as dívidas pós-natalícias, as resoluções de ano novo frustradas e muitas outras variáveis similares. Só se esqueceu de incluir nos seus cálculos a vitória de Aníbal Cavaco Silva; tivesse ele dado a importância devida a este factor infausto e estaria encontrado o dia mais sorumbático da década.
CAVACO 1
Iatrofobia (1)
Sala de espera de um hospital ferrugento, estreito, inadequado. Espero por alguém que há-de sair de uma pequena cirurgia. Espero agarrado a um livro, tentando desviar os olhos dos coloridos panfletos sobre a psoríase, sobre o herpes labial, sobre um bestiário inteiro de pequenas criaturas letais que por ali devem andar em barda.
Um velhinho, com ar de padre reformado, resolve combater o medo falando. E fala, para o seu acompanhante e para o mundo em geral. Começa por perorar sobre as qualidades imprevisíveis da gravidade noutros planetas. Depois, vem a extinção dos dinossauros, a tectónica de placas, o império romano e a mecânica celeste. O pior, além do tom monocórdico do monólogo, é que o pobre e assustado homem inventa metade do que diz: o meteorito que deu conta da bicharada jurássica causou a cavidade do oceano Atlântico, os continentes trocam de posições várias vezes ao milénio e a Terra cai pelo espaço mais ou menos a metade de C. Estão a nascer ali capítulos inteiros de uma alucinada história natural alternativa, um delírio febril em forma de alocução académica.
Meio acabrunhado, escondo-me num jornal gratuito. E dou de caras com uma coluna de Nuno Júdice em que ele me garante que Colombo encontrou, em vez da almejada Índia, “os Estados Unidos” — sendo depois talvez recebido pelo presidente republicano Trovão da Pradaria.
Parece-me que o mundo inteiro acordou com uma tremenda ressaca e está ainda incapaz de dizer coisa com coisa.
CAVACO 2
Só sei que não é nada comigo
Bravo!
Tripla Derrota
Aspirina M #5 («I knew I couldn’t say that without making a joke»)
Uma vitória é uma vitória é uma vitória
O triunfo de Cavaco não se discute. Entra em Belém à primeira volta e com a direita às costas (uma coisa nunca vista), enquanto a esquerda perde em toda a linha e por culpa própria (uma coisa vista demais).
Convém, no entanto, sublinhar o óbvio: vencer com 50,6% não é a mesma coisa que ganhar com 56%. Na primeira quinta-feira de “cooperação estratégica”, José Sócrates recordará decerto ao novo Presidente esta evidência.
Espírito democrático
0,7%
E o sonho quase se cumpria. Sacana do quase.
Estado lamentável em que se encontra este blogue:
Em resumo
Como previsto, Cavaco ganhou mesmo à primeira volta. Mas nem assim deixa de ser uma nulidade política, incapaz de começar um discurso de vitória sem falar nas “lições de civismo” que damos não sei bem a quem (estaria à espera de tiros ou coisa que o valha?). Alegre provou o que queria: o PS fez a escolha errada. Soares afundou-se.
Francisco Louçã e Jerónimo conseguiram aguentar-se, ganhando algumas (poucas) dezenas de milhares de votos face às últimas votações nacionais dos seus partidos.
Duas alegrias pessoais: Alegre venceu claramente o antigo “pai da pátria” e Cavaco não logrou a hiper-validação do seu mandato que me deu maus sonhos durante três meses; desse fado, lá nos salvámos.
Enfim; podia ser pior. Mas não muito.
PS: Podia ser pior, podia. Talvez por ter a visão enublada por lágrimas irreprimíveis, tresli os números da CNE. Louçã desceu e muito.
A primeira volta do resto das nossas vidas
Até há uns minutos, continuava indeciso. Indeciso sobre se escreveria qualquer coisa mais sobre as eleições, claro está. Mas, depois de ver a malta do costume aos berros por uma vitória “à primeira” do seu candidato (sugerindo um discreto desespero: se não for à primeira volta, quem sabe o que poderá acontecer?) porque não poderia eu falar do meu voto?
Até podia lá ter chegado por eliminação de hipóteses. Não iria por certo votar num ancião amargo com a ingratidão do mundo. Nem noutro que tem como grande ideal de tranformação enchê-lo com resmas de estátuas a eternizar a sua figura lírica e corajosa.
Fora de cogitação ficou logo o ecrã em branco onde foram projectadas vagas e desfocadas legendas — mas em letras de tamanho impressionante — a berrar “competência”, “seriedade” e “experiência”, para alegria de uma plateia que fingia apreciar a profundidade da obra enquanto esfregava as mãos apenas por se sentir na iminência de “lá ter” um dos seus. Um candidato que nos foi vendido como sendo de “valores” e “personalidade”, mas que à primeira curva apertada da campanha mentiu, negou palavras suas e ainda atribuiu a culpa a inexistentes mentiras dos seus adversários.
O candidato que se assume como mera emanação de uma máquina partidária — despótica, divorciada do mundo e retrógrada, aliás — também só se arrisca a convencer os convertidos.
O candidato que sobra, ainda por cima, parece-me o único a merecer a eleição: pelo intelecto, pela personalidade, pela energia, pelo pensamento: informado, pragmático e idealista. E, acima de tudo, por ter o futuro pela frente. O seu partido não é certamente perfeito; até pode nem ser ainda uma organização homogénea e estável. Mas é um embrião de qualquer coisa que promete vir, nem que seja só no tempo dos meus filhos, a protagonizar novas ideias, novos sonhos, novas formas de fazer política.
É que a divisa de Aron que estes senhores adoptaram como lema — “Il faut gagner en politique, ou bien il ne faut pas en faire” — não me parece fazer qualquer sentido nas presentes circunstâncias (e quero ver com que cara estarão eles daqui a uns minutos…). Perderei hoje de certeza. Mas a história não acaba aqui.




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