
(c) Michael J. Totten / Noah Pollak
Nos olhos e nas palavras do jornalista independente Michael Totten.

(c) Michael J. Totten / Noah Pollak
Nos olhos e nas palavras do jornalista independente Michael Totten.
Aqui em casa, no Aspirina, não há ninguém com o periúdo. Somos um blogue masculino. Exorbitantemente masculino.
Mas não somos mediúcres, julgo eu. Haverá, no máximo, quem nos ache miúpes.
A sério. Se souber de mais retorcimentos vocabulares deste tipo, informe o pessoal. Fazemos colecção. Mais: se achar que a nossa língua é «mesmo assim», diga também. Um gajo já está por tudo. Mesmo rilhando os dentes.
Há (haveria se isto fosse conversa telefónica directa e não-fiada) várias opções na resposta a uma pergunta que gostaria de fazer aos consumidores de gasosa democrática que por aqui tropeçam. Sempre é melhor que o “sim ou não” – “Deus ou Diabo” que se anda a oferecer às pessoas sobre o problema das terminações artificiais das gravidezes. Mas, estou mesmo a ver, serei eu que no fim terei de ser o respondente, e depois o respondão, porque não posso ficar para sempre à espera que me escrevam ou que a pele se erice a alguem.
Confusos e já a mergulharem no aborrimento? Há cura para isso. Basta olhar para 2006, e pensar que 2007 só pode ser mais um Ano de confirmação, um ano neo-quase-tudo-mau (fascista, negociador, conservador, disfarçador, intriguista, etc., etc), isto é, Ano que será certamente do Lacrau e possivelmente da Osga, ou da Hiena e do Papagaio, com highlights previstos no comércio de dragões em Xangai e deterioração também certa da indústria do hambúrguer humano no Iraque, e muita conversa de bruxas políticas ocidentais à volta de mesas redondas para decidirem o que já está decidido há muito tempo. Enfim, segue o misterioso quesito:
Se merecesse a pena, por onde é que acham que eu deveria começar para dar uma opinião muito pessoal de como vai o mundo – com as boas novas ou as novas pesarosas; com o sal necessário à vida ou com o podre dos cheiros enxofrentos e amoniacais; com o fel ou com o mel; com o anúncio tardio e incrível da salvação cientificamente provada e garantida para todos depois da morte física ou com o veneno persistente e teimoso que ao longo dos séculos tem preterido a verdade e postergado os direitos das maiorias sãs mas combalidas de corpo e espírito?
Pensem nisto os meninos que ainda não capitularam ao poder de aturdimento dos elixires destilados para consumo pelo cidadão maior e vacinado. O resto pode ir pensando na melhor forma de organizar a versão lisboeta da Maratona Masturbatória de Londres, um sinal de indesmentível progresso que, curiosamente, poderá revelar-se como a solução simples para evitar as despesas previstas com o aborto livre e subsidiado, muito embora nada resolva sobre o importante aspecto da falta de respeito, não direi ao feto, mas à alma eterna e voluntária que é forçada a re-planear a partir do ventre doutra mulher.
TT
No “Público” de hoje, Rui Ramos explica-nos que a ocupação do Iraque não foi bem como imaginávamos. Afinal, as armas terríveis que povoavam os sonhos da menina Rice com cogumelos atómicos não assustaram ninguém. Afinal, os horrores do regime de Saddam não impressionaram George Bush por aí além. E mesmo aquela ideia de montar no Médio-Oriente um glorioso farol da Democracia e da American Way não era para levar a sério.
Na realidade, como nos revela Ramos, o falcão Rumsfeld era sim adepto de uma mera «expedição punitiva». Só que «houve que contar com a célebre “comunidade internacional”» e esta acabou por empurrar os renitentes EUA para o calvário da ocupação.
Bem me parecia que ainda estava para aparecer uma luminária com a derradeira desculpa: a culpa de tudo isto é dos malvados europeus.
PS. Aqui, pode ler-se uma excelente resposta ao artigo de Rui Ramos que lançou as bases para o disparate de hoje.
«Queres de ti lapidar
as rosas sanguíneas
Os rubis do teu útero
quando o tempo se esquece»
Excerto de um poema de Maria Teresa Horta,“Pastora do Corpo” (a sério), integrado na “colectânea de escritos pela despenalização” a lançar hoje pelo Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. Confirma-se que nem os bons escritores se dão bem com os panfletos. E tremo só de imaginar o resto da obra. Entre isto e as declarações do ministro da Saúde, não sei bem qual será o melhor candidato a um pequeno exercício de censura profilática a bem da causa.

E pronto. Lá tratou a Apple de revolucionar aquilo a que antes chamávamos telemóveis. E, depois de tanta especulação, a coisa acabou por ficar com o nome esperado: “iPhone”.
Descobri há uns minutos o blogue do Pedro Lomba. Gosto imenso.
Meteu-se num carro conduzido por um amigo alcoolizado e teve o azar de sofrer um acidente? Pior: até aconteceu ficar paraplégico?! Não desanime! O foro pode trazer-lhe compensações: processe o fabricante do veículo, saque 18 milhões de dólares à General Motors e, no fim de tudo, divirta-se ainda com a discussão entre os advogados quanto à divisão dos honorários.
O estilo do bom graxista, como é normal nas criaturas com mais ambição do que coluna vertebral, passa por reverenciar a autoridade e tentar cuspir em quem não se adivinha préstimo. O dono do Portuguese Ass Suckin’ julga que chamar a alguém que nem conhece “monte de esterco” revela algo para lá de boçalidade e falta de cabecita. Estará no direito dele. Mas receio que esta cuspidela tenha sido enviada contra o vento; com as consequências que se adivinham.
PS: quanto ao post do Maradona que o Ass Sucker cita, estamos noutro campeonato. A argumentação parece escorreita, faltando-lhe apenas levar em conta um facto incómodo mas decisivo: a maioria das vítimas do “Luz do Sameiro” dormia quando o barco naufragou. E julgo que ninguém será obrigado a usar colete durante o sono. Isto para não especular sobre o mais que provável efeito letal da hipotermia naquelas condições, com ou sem colete. A verdadeira inconsciência terá sido, isso sim, a proximidade excessiva da zona de rebentação.
João Vacas continua a fazer de conta que não percebe onde é que meteu água. Mas eu volto a explicar: foi ao estender a todos os partidários do “Sim” uma declaração que, a corresponder ao que li, é profundamente infeliz: “para os defensores do SIM, o facto de criar uma criança sair mais caro que abortar é razão suficiente para liberalizar o aborto.”
Já está a ver a marosca? Apenas uma pessoa, o tal “cavalheiro careca, de barba e óculos” terá dito esse disparate. Não “os defensores do SIM” em geral, como lhe daria por certo jeito. Aposto que não gostaria de ler algo como “os defensores do NÃO defendem a castidade como único método anticoncepcional aceitável, publicam folhetos com fotos a escorrer sangue, mesmo que sejam de fetos com 24 semanas, mas não se coíbem de mandar as filhinhas para Londres quando o azar reprodutivo bate à porta.” No entanto, trata-se precisamente do seu método: tomar a parte idiota pelo todo, insultando de caminho todos os adversários que não foram tidos nem achados na tirada em apreço. Chama-se a essa técnica da erística “desonestidade intelectual”.
Não há bem que sempre dure nem mal que se ature … Sim, mas a enormíssima porra é que gerações sucessivas não perderam as paciências e, logo, não se livraram do Mal. De concluir, portanto: ou há paciência a mais ou o Mal já nos entrou no sangue. Merda, então, para o rifão. “Há males que vêm por bem”, outro dito com aplicção em momentos raros de surpresa contente, também aos poucos se vai insinuando como o aceitável e corriqueiro prato do dia .
Um avisozito anti-Mal antes que ele resolva acampar por aqui definitivamente entre os fotógrafos bem intencionados: é preciso muito cuidado com os funcionários ideológicos ou de sangue da Biltres, Birbantes, & Cia que orbitam esta e outras paróquias materialistas do espírito, seguindo os nossos rastos e sombras, espreitando, medindo o tamanho das críticas e a gravidade dos ditos e apartes, o comprimento, a curteza ou os defeitos das nossas línguas; moldando as nossas opiniões; passando as mãos termométricas pelas testas dos mais revoltados ou excitados; gravando os sons dissonantes e inquietantes; procurando febres e suores suspeitos e contagiosos; cheirando riscos reais e potenciais para os amigos e irmãos encapotados que lhes incumbiram tarefas conspirativas e de vigilância e exigiram deles lealdades presas a juramentos com mãos sobre livros e objectos estranhos de anti-sacristias invioláveis.
Claro que nem um cèguinho na reforma, com gota e problemas duplos de circulação porque também anda tolhidito das gâmbias, acredita em perigos imaginários criados por desconfianças do mesmo tipo. Portanto, que ninguem se assuste com a advertência acima ou ceda a nervosismos precipitados e irracionais porque tudo vai bem a oeste de Belem e Jerusalem, e que ninguem, já agora, ligue demais ao que vier a pingar desta pena-martelo também é algo que gostaria ficasse expresso para atender a todos os gostos. Eu, apesar do pé que ponho atrás mais por segurança que por desejo de dançar o bolero ou o chachachá, cá vou quando posso abrindo uma excepção descuidada para acrescentar a tantas outras que deixei nos pretéritos de ter andado a falar para o boneco, desprezando o importante aspecto mini-conspirativo, delicioso de se viver mas muito a jeito do arauto imprevidente em cuja farpela sempre gostei de me ver. Que ninguem, por isso, me imite no vestir sem primeiro se aconselhar com um bom alfaiate (há alguns à escolha no elenco desmobilizado aqui ao lado) é conselho que gostaria de deixar ficar a boiar nestas águas turvas de registo. Fala a idade, que nem sempre corresponde a calo, dum animal incompreendido.
E estou como o Valupi e outros optimistas: o ano promete tanta feeria de qualidade que até já comecei a contar as favas que irei semear quando o tempo começar a esquentar. Portanto, vamos a isto, evaristo, que anda por aí muita gente a provocar-nos a legitima vontade de criticar, a investir-nos do direito de julgar, a convidar-nos a sentenciar, mas ao mesmo tempo, e isto é que é triste, descarada e òbviamente a borrifar-se para aquilo que se disser contra eless, porque são eles que controlam o cacau político e a banha económica, e porque são eles que accionam as máquinas que preparam os molhos de cultura-progresso que depois temos de pagar com suores esforçados noutros lados . Mundo cão que tão bem organizado está.
TT
O Nuno é que os topa bem. Desde o lançamento do Presto que não se via um glutãozinho tão aplicadinho na conversão de nódoas em brancura ilimitada. Qualquer sombra de suspeita lançada sobre o nosso brilhante, impoluto, genial, proactivo e presciente Governo é logo erradicada e apresentada ao papalvo como virtude óbvia e incontornável.
Os voos provavelmente carregados de clientes para umas sessõezitas de tortura só não são vigorosamente denunciados pelo MNE pois este, coitado, apesar de todos os seus cojones, não pode “menosprezar o impacto que isso teria nos tais acordos bilaterais” e a tonta da Ana Gomes é que anda a perturbar a corajosa, astuta e mui confidencial “manobra do governo português”.
A mensagem de Ano Novo de Cavaco é, afinal, um desbragado encómio à actividade de Sócrates, o glorioso timoneiro que já nos colocou no “caminho certo”.
A crise que assola a classe média afinal não existe. A prova? Há muita gente nos centros comerciais.
E por aí afora, num autêntico festival do mais refulgente e militante graxismo.
Este rapaz vai longe, sim senhor. Ainda não lhe arranjaram um emprego na Lusa ou coisa que o valha?