Por este andar, disse-me há dias um velhinho reformado, na mais feliz das hipóteses e sem dramatizar excessivamente a teatrada, as lutas por aumento de salários ou contra o desemprego, por melhores condições de trabalho, impostos mais baixos e outras bagatelas menores penduradas nas barracas da grande feira da reivindicação ainda serão daqui a mil anos a norma permitida e oficialmente encorajada pela assembleia dos justos, a isca e engodo que nos impedem de começar a considerar a verdade primeira dum planeta que cada vez mais nos parece ser, em todos os aspectos e sentidos, resultado do esforço dessintonizado duma mente colectiva influenciável, compulsòriamente afastada das áreas fundamentais do conhecimento, pescando apenas o que lhe ensinaram a pescar, para gáudio dos inescrupulosos detentores dos arcanos milenários.
E continuou, o velhote : já são horas de se tocar alguns sinos de rebate, já é tempo para os menos parvos ou iludidos começarem a interrogar-se sobre se não haverá infantilismo político a mais na ideia de se pensar que as anseios da Humanidade podem ser eternamente acalmados com mais um ou dois euros por hora de vez em quando para alegrar o olho ao papá e habilitar o menino a mais um ou dois gelados por altura dos banhos, ou com uma greve-geral de vinte em vinte anos. Concordei plenamente.
Mas, que fazer? Isso também eu gostaria de saber ao certo, eu e o velhote do lar de esperar pela morte. Todavia, sugestões merecedoras de alguma consideração não faltam por aí, a pingarem de bocas ou a bailarem em cabeças com boas intenções. Que tal, por exemplo, a proposta honesta dum tal Eurico da Labareda para se ultrapassar com urgência a mentalidade reivindicadora e materialística dos pobres e remediados, cujo resultado imediato, e esperado porque premeditado por quem a tolera e cultiva, é o de sancionar, justificar e assegurar aos ricos a enorme fatia que lhes cabe? Ou a ideia nada má de que seria aconselhável fugirmos para bem longe, e quanto mais cedo melhor, das gratuitas e bolorentas explicações oficiais para “o que somos?” e “donde viemos?” que nos vendem ou impõem com a ajuda de ciências a soldo de políticas que se estão, no fundo, marimbando para nós? Que tal aceitar que há, no desafio que se apresenta no futuro a toda a gente de carne e osso, vantagem em incluir a participação activa da Alma e do Espírito que fomos ensinados a desprezar, única forma de nos reposicionarmos harmoniosamente em relação ao cosmos, de nos limparmos das lamas de mentira, de revogarmos decretos inspirados em filosofias de atrito entre classes, de negarmos direitos de arbitragem às administrações centrais que nasceram da iniciativa de dúzia e meia de abutres políticos a quem ninguém encomendou o sermão?
Até que alguém nos ilumine sobre essas ou outras sugestões mais capazes ou menos chocantes para o pusilânime mas satisfeito troglodita, uma simples passagem da nossa mão pela crista do galo politico que nos acorda todos os dias às seis da manhã com ordens para continuarmos o trabalho da Repetição servirá, no mínimo, para nos lembrar que o segredo supremo do Mal – a Manutenção e Congelamento da História Que Nos Ensinaram– continua a não dar mostras de querer revelar-se ou abrir-se voluntàriamente, apesar de tanta testa franzida, de tanto reparo por parte dos curiosos e preocupados inquiridores. Vê-se que o Senhor Mal ainda sabe a força que tem, provavelmente soma controlada das energias de todos os seus aliados
Mas há um obstáculo de difícil transposição atravessado no caminho do Mal e dos seus vassalos. É que a História, se bem que com tendência a coincidir nalguns aspectos do seu desenrolar não confirmado e por confirmar, só se repete nos sonhos e nas imaginações optimistas dos que pretendem falsificá-la ou escrevê-la a seu bel-prazer. A essa gente escapa-lhes a importante necessidade de não se esquecer que tudo tem um prazo para se consumir, sob pena de se causar enjoo ou repulsa ao consumidor. As coisas ou são frescas para poderem enganar ou espirituais para poderem perdurar.. O uso prolongado dum método de convencimento expressamente criado para criar ignorância torna evidente o caracter perecível e degradante da política que o utiliza. Tais métodos, quando batidos e gastos, são passiveis de promoção a lixo, senão redundam em desastre. E os desfechos últimos de registo histórico, mesmo se isso fosse, que não é, considerado fundamental e importante para uma solução final com base no Amor e Compreensão, dependerão sobretudo das reacções avisadas ou naturais do duplo elemento Humano-Espiritual. E é por isso que já começa a notar-se que esta não é das melhores épocas para se fazerem prognósticos fáceis usando as réguas e compassos do sistema antigo – uma enorme dor de cabeça para a irredutível, enganosa e enganada filosofia do Poder, para os Planeadores Gerais e para as Elites a soldo do Mal.