Arquivo da Categoria: Valupi

Pulhas de sucesso

«A democracia também é destruída quando Augusto Santos Silva é eleito segunda figura da Nação. Porque ele foi a figura absolutamente essencial de suporte político naquilo que foi o maior atentado ao Estado de direito da democracia portuguesa. Um homem que foi braço-direito de Sócrates de 2005 a 2011, que foi essencial quando os jornalistas estavam a ser perseguidos, quando os bancos estavam a ser tentados tomados de assalto, e Augusto Santos Silva foi a pessoa que esteve ali ao lado dele, muitas vezes a atacar a própria comunicação social, e eu não me esqueço disso.»

Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019 e caluniador profissional no Público e na SIC

Ao lado do fulano estavam três cidadãos. Um com carteira de jornalista, outro licenciado em Direito e ainda uma das personalidades públicas com mais notoriedade em Portugal. Nenhum tugiu nem mugiu. O efeito na audiência é o de ficarem como “verdades” que dispensam contraditório, sequer explicitação, as calúnias pela enésima vez despejadas nesse programa, e por toda a comunicação social desde 2009. Calúnias contra Sócrates, contra o PS e contra a República e suas instituições políticas e judiciárias.

Atente-se ao grau máximo de diabolização pretendido:

– “Democracia destruída” com a eleição de Augusto Santos Silva para presidente da Assembleia da República. É fétida e fanática alucinação, funcionando como táctica que retira os holofotes de cima de Ventura e do Chega, branqueando os seus apelos à violência social e política.

– “Maior atentado ao Estado de direito na democracia portuguesa” consistindo em suspeitas politicamente motivadas que a própria Justiça, também ela politicamente motivada, nunca sequer conseguiu transformar em processos judiciais (embora tenha tentado). Lembre-se que na Operação Marquês, onde havia todo o interesse dos procuradores em soterrarem Sócrates no maior número de acusações possível de engendrar, a cassete dos “jornalistas perseguidos” e da “banca assaltada” não teve sequer capacidade para ser repescada.

– “Jornalistas estavam a ser perseguidos, bancos estavam a ser tomados de assalto” bolça o caluniador no conforto de um estúdio TV. Não se distingue esta estratégia de comunicação em nada dos clássicos discursos de apelo ao ódio, causadores de milhões de mortos ao longo da História, onde os alvos têm de ser caricaturados como possuidores de características inumanas. No caso, Sócrates primeiro-ministro teria ainda arranjado tempo para perseguir jornalistas e tentar tomar de assalto bancos sem que as vítimas, e as autoridades policiais e judiciais, mais o sistema político onde havia partidos e um Presidente da República chamado Aníbal Cavaco Silva, tivessem conseguido reagir, atemorizados perante a fúria da besta socrática. Mas eis que um punhado de heróis se ergueu e iniciou a resistência. Um desses heróis, e provavelmente o mais importante (é perguntar-lhe para confirmar), foi o próprio JMT, ao lado do José Manuel Fernandes e da Helena Matos. Este pequeno grupo de valentes, por estarem a defender no limite das suas forças a liberdade contra a tirania, acabou triunfador do homérico conflito com tão monstruoso inimigo.

O Tavares encheu e continua a encher o bolso à conta da perseguição canalha a Sócrates. Faz todo o sentido pois foi Sócrates quem lhe deu esta específica carreira como caluniador ao ter pedido, em 2009, que os tribunais repusessem o seu bom nome, e da sua mãe, por causa de um texto cobarde assinado por JMT. Mas enquanto este Tavares não passa de um arrivista que se deu bem no pós-Portalegre, Marques Mendes é um tubarão do regime, um cavalheiro de indústria que atravessa os corredores alcatifados das maiores empresas, dos mais poderosos gabinetes de advogados, do PSD, do Conselho de Estado, e depois ainda vai para o império Balsemão, em canal aberto, tratar da sua agenda. E Marques Mendes igualmente difunde as mesmas calúnias acerca de Sócrates, do PS e das instituições políticas e judiciárias da República.

O que me leva à seguinte conclusão: para as vedetas do negócio do ódio, arraia-miúda ou figuras gradas, a mais alta realização política a que vão chegar consiste em chafurdarem na pulhice.

Revolution through evolution

Closing Gender Gaps in Career Advancement
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Fear may lead women and men to make different decisions when choosing short-VS-long-term rewards
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Landmark study shows that ‘transcendent’ thinking may grow teens’ brains over time
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Feeling apathetic? There may be hope
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Breathe, don’t vent: Turning down the heat is key to managing anger
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Beneficios del voluntariado para la salud
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Your dog understands that some words ‘stand for’ objects
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Dominguice

A democracia nunca existiu. Nem pode existir. Porque a multidão é vária, variada e avaria. O que pode existir, com o mesmo nome, é a escolha livre de uma oligarquia. Para que essa oligarquia transitória não se transforme numa oligarquia perene, a democracia impõe a lei como garante da liberdade. A lei nada mais é do que um texto onde permanece invisível o poder da turbamulta. Poder só no verbo inteiro e pleno porque intangível, imutável.

A democracia é um ideal impossível, e o que mais possibilidades cria para as comunidades e os indivíduos.

1.169.836

O Chega tem mais deputados e mais votos do que o PAN, Livre, PCP, BE e IL juntos. Em percentagem eleitoral, está muito mais próximo do PS e da AD do que dos restantes partidos, de facto acabando com o bipartidarismo. Conquistou o Algarve e o voto emigrante. Isto não é apenas uma curiosidade histórica, é uma profunda alteração no sistema partidário que só encontra um relativo paralelo nas eleições de 1985, onde o PRD obteve 45 deputados com apenas três meses de existência.

O futuro do Chega é evidentemente imprevisível. Parece ter chegado ao seu máximo possível mas será estulto perder tempo com esse cálculo. Importa é olhar para o seu presente. 1.169.836 eleitores merecem tanto respeito democrático como os restantes que foram votar. São parte da soberania, e uma parte que tem um peso que deveria ter consequências. São pessoas que não estão preocupadas com o Estado de direito, os valores humanistas, a própria democracia. Daí terem dado poder a quem ameaça esse regime nascido de Abril. Logo, justifica-se democraticamente que o seu voto tenha um efeito político relevante por serem tantos.

Umas já começaram, com a crescente exibição mediática da qualidade política e cívica desse grupo. Outras virão das posições que forem assumindo no Parlamento. E há ainda a esfera da relação pessoal com esses concidadãos, onde os podemos ouvir, questionar e compreender. Para os aceitar como actualmente são e às suas escolhas nos idos de Março? Não, pá, isso já está garantido pela liberdade de que desfrutam. Temos é de ir falar com eles para os ajudar a perceber a merda que fizeram.

300 mil Augustos Santos Silvas

A patacoada de ter sido Augusto Santos Silva quem “fez crescer o Chega”, no cumprimento da sua responsabilidade como Presidente da Assembleia da República (2ª figura na hierarquia do Estado) a lidar com deputados arruaceiros e biltres, tem apenas racional persecutório. Os mesmos que a repetem seriam os primeiros a acusar Santos Silva de passividade e falha grave no seu dever caso ele não tivesse pedido e exigido respeito institucional a Ventura nas cenas insultuosas e injuriosas que protagonizou. Então, voltariam a dizer que tinha sido o socialista a “fazer crescer o Chega” ao aceitar e normalizar atitudes indecentes e aviltantes nas sessões parlamentares.

Mas o argumento, na sua piramidal estupidez, consegue ter graça. Dá para imaginar três fulanos a verem diariamente o Canal Parlamento em sessões contínuas na ânsia de descobrir em quem votar. Um deles inclina-se para o PSD, outro para a IL, e o terceiro tem sido abstencionista. Vão acompanhando os debates, interessam-se pela legislação proposta e aprovada, e tiram notas para avaliar qual o partido, ou coligação, que melhor defenderá os seus interesses. Nisto, apanham o Ventura no púlpito a cascar na ciganada. Que são bandidos, carimba, que é uma comunidade fora-da-lei, berra. Santos Silva interrompe-o para lhe dizer: “Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal. Solicito-lhe que continue livremente a sua intervenção, como é seu direito, respeitando este princípio.” Que efeito teve nos nossos três indecisos concidadãos o episódio? Só um, garante a pulharia: irem a correr para os braços do Chega por não suportarem o pundonor e hombridade do Presidente da Assembleia da República face a um racista.

A direita acusa o PS de ser quem “fez crescer o Chega” para apagar ter sido o PSD quem fez nascer o Ventura, Passos Coelho quem o alimentou, Cavaco e Ferreira Leite quem lhe sorriu, e Rui Rio quem o tratou como coisa benévola. A direita que anda há 20 anos a criar as condições sociológicas para o aparecimento de um partido populista de extrema-direita com eficácia eleitoral não pode, obviamente, culpar-se a si própria. Seria um haraquiri.

Mas no campeonato de se identificar quem e o quê “fez crescer o Chega” aponto, por gozo analítico, para um insuspeito influenciador: Ricardo Araújo Pereira. Ao excluir Ventura das suas entrevistas aos líderes partidários, uma provável consequência terá sido a de reforçar o poder de atracção de Ventura junto dos eleitores não politizados. A mensagem transmitida pelo ostracismo era a de Ventura ser especial, tão forte que até uma das vedetas mais importantes em Portugal lhe dava um tratamento exclusivo. O que na intenção era um castigo acabava na lógica do fanatismo por ser um prémio, a prova de que Ventura metia medo ao humorista. Num quadro psicológico susceptível a dinâmicas de culto do líder, como será nos segmentos mais jovens e com menos habilitações, o Sr. Araújo poderá ter valido 300 mil Augustos Santos Silvas aos protofascistas.

Revolution through evolution

Gender Bias Negatively Influences Ratings for Female-Led Films
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It’s not just you: Young people look, feel older when they’re stressed
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Study identifies multi-organ response to seven days without food
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A few words can instantly boost sprinting speed by 3 per cent over 20 meters
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Small class sizes not better for pupils’ grades or resilience, says study
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Happiness can be learnt, but you have to work at it – study finds
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Information overload is a personal and societal danger
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Dominguice

Uma amiga minha vive no estrangeiro há mais de dez anos. Em Novembro, disse-me que a filha ia votar no Chega. A rapariga saiu de Portugal criança e só cá veio de férias com grande irregularidade. Mas na sua casa está sempre um canal de TV português a dar notícias, para além de se manter informada sobre o País pelas redes sociais. A sua identidade como portuguesa constrói-se na proximidade com a família, na comunidade com outros portugueses com quem comunica e na aceitação da versão dos acontecimentos nacionais que os jornalistas portugueses têm produzido ao longo dos anos. Ela não pode saber o que foi o 25 de Abril e como era o regime da ditadura. Ela nem sequer sabe o que foi o cavaquismo ou entende o que causou a vinda da Troika. O discurso de Ventura surge-lhe credível pois é a repetição do que os jornalistas mostram: o caos, a corrupção, o mal à solta a oprimir e explorar os portugueses de bem. É preciso fazer alguma coisa, é urgente lutar contra tanta miséria material e moral. Felizmente, existe o Chega para solucionar todos os problemas, graças ao excepcional carácter e talentos de Ventura — alguém que talvez tenha sido mesmo escolhido por Deus para pôr isto na ordem, como apregoa.

A notícia surpreendeu-me. Pela primeira vez, intui que havia um fenómeno de moda à volta do Chega que atingia muito mais gente do que supunha. Gente que estava agora a começar o seu processo de politização, e que não tinha qualquer defesa para o poder de persuasão de uma mensagem baseada apenas no pensamento mágico e nas técnicas de culto do líder. Mas, acima e antes de tudo, alegrou-me que ela quisesse envolver-se na política, quisesse votar, quisesse pertencer à comunidade dos cidadãos. É essa a superioridade da democracia, a sua visceral beleza: ser um caminho de inclusão radical que até aceita a ignorância inerente a quem está a crescer.

Palácio em ruínas

A direita tem tanta legitimidade para governar e presidir como a esquerda, é uma lapalissada. No que diz respeito ao legado dos eleitos para Chefe de Estado, porém, os exemplos não podiam ser mais contrastantes quanto à qualidade cívica e dimensão patriótica ao serviço do bem comum e do interesse nacional. Mário Soares e Jorge Sampaio terão inevitavelmente causado antagonismo político à direita mas não fizeram nada sequer comparável com a sombra do que Cavaco e Marcelo deixam como consequência de só se terem dedicado à intriga e à megalomania.

Cavaco usou a Presidência para tentar boicotar umas eleições legislativas, alimentando a judicialização da política e a politização da Justiça. Foi um ostensivo instigador da perversão das instituições judiciais desde 2008 até ao fim dos seus mandatos. Marcelo, depois de um primeiro mandato virado para a celebração popular da sua pessoa como presidente-rei, entrou em modo rei-presidente a partir da maioria absoluta socialista e não descansou enquanto não a dissolveu em ambiente de suspeição judicial.

Mário Soares e Jorge Sampaio são dois admiráveis exemplos de estadistas. Cada um deles, com estilos bem diferentes, honrou o cargo e respeitou a missão de ser o mais alto magistrado da Nação. Cavaco e Marcelo conspurcaram os poderes recebidos, foram um factor decisivo para a degradação da democracia. Democracia que acaba de ser atingida com um golpe até há pouco tempo considerado impossível.

O próximo Presidente da República vai receber um palácio em ruínas.

Eleitor-espectador

Ventura começou por ser uma criação do PSD de Passos Coelho – aliás, do próprio Pedro. Depois, continuou a ser uma recriação dos impérios de comunicação dominados sem excepção pela direita, os quais andam há 20 anos a vender sensacionalismo, tabloidismo e populismo de direita. Quando Marcelo premiou João Miguel Tavares com um raríssimo título honorífico, em 2019, estava a consagrar oficialmente a estratégia da terra queimada, onde se associava obsessiva e sistematicamente o PS a corrupção e desgoverno. Ventura repetiu essa cassete e acrescentou-lhe o folclore do fascismo, seguindo a fórmula de Trump. O seu triunfo é histórico.

O seu triunfo é histórico mas não tem qualquer relação com as acções e respectivos resultados que os sucessivos Governos socialistas registam. Aliás, a relação entre o conhecimento da realidade administrativa e executiva do Estado e um voto no Chega será absolutamente inversa. Vota-se no Ventura, se excluirmos os fanáticos e os maluquinhos, não porque se acredite nalguma das bacoradas que ele solta, antes porque as coisas estão a funcionar na sociedade. Porque não há problemas graves para resolver na vida dessas pessoas. É o voto do eleitor-espectador.

Narcisismo e imaginação

A estratégia de comunicação do PS para estas eleições limitou-se a apostar no páreo com o PSD, fazendo da campanha uma escolha do primeiro-ministro sobrepondo-se à escolha de projectos políticos. Provavelmente, tal resultou decisivamente dos estudos de imagem que davam a Pedro Nuno Santos uma vantagem relevante sobre Montenegro em características relacionadas com a percepção pública de competências executivas.

Foi uma boa aposta? Duas respostas contrárias são aceitáveis. Sim, porque o PS quase que ganhava claramente as eleições numa conjuntura social aziaga, valendo tanto eleitoralmente como a coligação da direita tradicional. Não, porque o líder do PS fez uma má campanha ao não ter mais nada para prometer do que a si próprio. Tal falência ficou patente no debate com Ventura, onde PNS não teve intuição política para ler o momento histórico que viria a provocar um abalo tectónico no sistema partidário. A sua prestação foi não só medíocre, ao não gerar qualquer ganho de causa, como pode ser mesmo rotulada de amadora ao nem sequer ter treinado a lide com um boicotador da racionalidade argumentativa. A ocasião pedia uma lição moral a quem faz terrorismo retórico. Os 50 anos do 25 de Abril mereciam outra postura do líder do PS frente a um tartufo que insulta a democracia e a liberdade. Azar o nosso.

O actual secretário-geral do PS tem narcisismo a mais e imaginação a menos. Nada que não possa ser corrigido.

Paulo Raimundo tinha razão

"Vamos ser a grande surpresa da noite eleitoral, não tenho dúvidas disso."

Paulo Raimundo

Podemos concordar com o acerto desta profecia. Se considerarmos que o PCP só consegue ser relevante em matérias de actualidade como defensor de Putin e do putinismo, é uma grande surpresa terem mesmo assim conseguido 4 deputados — os mesmo que o Livre, partido de um homem só sem meios nem estrutura.

Infelizmente, o peso dos 103 anos de história do partido não funciona como força que atrai esperança nos amanhãs que cantam. É antes o peso da inércia, do anquilosamento, do sectarismo.

Poderia ser diferente? Exemplos europeus mostram que não, que a renúncia à ortodoxia sagrada conduz ao abandono da fé. Mas não será impossível, não se vislumbra é com quem.

Apogeu da Operação Influencer

A Operação Influencer iniciou-se em 7 de Novembro de 2023. Cinco pessoas foram detidas numa investigação a actos governativos e autárquicos de eventual corrupção, um ministro foi nomeado suspeito formal e o primeiro-ministro ficou sujeito a uma investigação separada pelo Supremo Tribunal de Justiça. Desta situação judicial resultou o pedido de demissão de António Costa, a dissolução da Assembleia da República e a marcação de eleições.

A três dias da ida às urnas, o Presidente da República voltou a utilizar a jornaleira Ângela Silva (portanto, o Expresso e a SIC, assim alcançando toda a comunicação social) para anunciar que iria impedir o Chega de entrar num Governo da AD, mesmo numa eventual substituição de Montenegro em quadro de maioria AD + Chega. Dessa forma, Marcelo comunicou directamente com os indecisos de direita e de esquerda, no calendário mais eficaz para os influenciar: na véspera de irem votar. Aos de direita hesitantes entre Chega e AD, garantiu-lhes que só o voto na AD faria sentido caso quisessem afastar o PS da governação. Aos de esquerda hesitantes entre o PS e as diversas alternativas, garantiu-lhes que não se justificava o voto útil nos socialistas visto o papão do Chega no Governo estar afastado.

Um tipo que se limite a saber o que foi tornado público acerca da Operação Influencer arrisca-se a saber tanto como os procuradores à frente da investigação: que não há sequer indícios de crime. O cenário de ter sido tudo uma mistela de incompetência e justicialismo do Ministério Público tem altíssima probabilidade de ser apenas a versão mais benigna do que se passou.