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How low can you go?

“É uma matéria que neste momento é objecto de polémica político-partidária e quando as coisas chegam a esse ponto o Presidente da República não deve fazer comentários públicos”, respondeu Cavaco Silva, quando questionado pelos jornalistas em Jacarta (à margem de uma visita de Estado que realiza à Indonésia) sobre a polémica que envolve o ministro dos Assuntos Parlamentares.

Fonte

Assim prega frei Rangel, não ligues ao que diz mas ao seu papel

Nada de julgamentos sumários, que não são próprios das democracias.

Paulo Rangel, servindo-se do caso Relvas para educar o povo

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“Eu queria denunciar aqui aquilo que se está a passar em Portugal neste momento, onde é claro que a comunicação social trouxe à luz um plano do Governo para controlar os jornais, para controlar estações de televisão, para controlar estações de rádio”, disse Rangel no início da sessão plenária do Parlamento Europeu que se prolonga até quinta-feira.

Para o eurodeputado do PSD, que pediu a palavra no período de declarações de um minuto, a situação em Portugal “põe em causa a liberdade de expressão”.

Rangel deu o exemplo do “jornalista muito conhecido, Mário Crespo” que “viu censurada uma crónica sua, também por sugestão, ou aparente sugestão, do primeiro-ministro”.

O deputado europeu afirmou que o primeiro-ministro, José Sócrates, “tem de dar explicações substanciais ao país”, nomeadamente “explicar que não está a dominar, a censurar a liberdade de expressão em Portugal”.

“Pela forma que estamos a andar, Portugal já não é um Estado de direito. É um Estado de direito formal, onde o primeiro-ministro se limita a formalidades, a procedimentos, a formalismos e não quer dar explicações substanciais”, disse, acrescentando que, para Portugal quer “um estado de direito material”.

Paulo Rangel, de pé e aos berros em Estrasburgo, a defender a pátria e a civilização contra os inimigos das crónicas do Crespo

Marcelino pan y vino

O DN quer que Sócrates seja interrogado a respeito das declarações de Alan Perkins, o qual disse ter ouvido a Charles Smith isto e aquilo. Charles Smith, por sua vez, é quem está a ser julgado por acusação de tentativa de extorsão dos promotores do outlet de Alcochete. Assim, o DN atribui mais credibilidade a um relato em segunda mão de um suspeito de mentir para roubar do que aos milhões de euros que já foram gastos em Portugal e Inglaterra a investigar Sócrates e família ao longo de 7 anos. Ou talvez o DN esteja a sugerir aos seus leitores que estamos perante novas informações, e que até os cartazes lançados em 2009 pela JSD com o Pinóquio a toda a extensão dos 8×3 se referiam a um outro Pinóquio que não este, a uma outra calúnia que não esta.

Não, não há nem pode haver coincidências: um jornal que actua como braço armado de Passos&Relvas será um exacto reflexo de Relvas&Passos.

Ó Miguel Noronha, arrebita

Ah, o que seria da blogosfera sem esta cultura de intervalo escolar e suas frenéticas actividades infantis? Não aguentaríamos andar por cá e muitos até começariam a ler livros e tudo para fugir ao desespero. Ora, o Miguel Noronha de há muito que me tem brindado com a sua preclara atenção de conservador da velhinha guarda. Sempre cuidadoso, volta agora a enviar-me nova avaliação inserindo-me num grupo de ilustres escribas que leio com pleno proveito e prazer: Foi preciso mudar o governo mas (finalmente) chegaram lá

Vou aproveitar o ensejo para recomendar um texto de um seu colega de blogue, o qual comprova que ainda há esperança para a direita nacional caso deixem estas vozes ganhar share à legião de decadentes: A Crónica Hipocrisia da Direita Instalada

Quanto a ti, Miguel, chega cá. Estive a pensar um bocadinho nas tuas generosas palavras e, afinal, constato que tens razão. Realmente, nunca até Maio de 2012 eu tinha soltado um único murmúrio que fosse a respeito da problemática das interferências governamentais na comunicação social quando feitas com ameaças de boicote de ministros e devassa da privacidade de jornalistas. A razão para nunca o ter feito antes, sabes bem, resulta dos cheques vindos do Rato, dos tachos em jornais e televisões durante 6 anos e das ofertas de trabalho em tudo o que foi ministério e organismo público. Tu sabes disso, eu sei disso, Sócrates sabe disso, e tu sabes que Sócrates sabe que tu sabes. Mas, e apelo para a tua incomparável honestidade intelectual, é provável que o povoléu que nos lê com devoção não entenda essas ponderosas casualidades. Pelo que te pedia o grande favor de combinarmos a seguinte versão: eu passo a dizer que acordei agora para tal problemática porque é a primeira vez que o País se confronta com problemática tal e tu farás uma exposição dos crimes cometidos pelo engº Pinto de Sousa contra a liberdade de imprensa.

No final, porque já sabemos que vais arrasar dada a colossal informação disponível mais aquela que vais descobrir entretanto, prometo que me irei penitenciar para as cercanias da Assembleia da República. Aí por volta das 13h30. Vestido imaculadamente de branco, claro, o que implica cueca e meia branca. E segurando um cartaz onde se poderá ler: “Graças ao Miguel Noronha, acordei p’rá vida e p´ró amor”.

Volta Santana: estás perdoado, recuperado e desejado

A informação publicada a respeito do que se passou entre Relvas e o Público não deixa uma única dúvida: o Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares do XIX Governo Constitucional de Portugal ameaçou boicotar um órgão de comunicação social e devassar a privacidade de uma jornalista. É isto que tem sido repetido pelo Conselho de Redacção e pela Direcção do jornal, tendo até um parecer jurídico interno, pelo que já não há recuo para nenhuma das partes. Do lado de Relvas, houve assunção de responsabilidade na forma de um pedido de desculpas de que se desconhece o teor, culpa reforçada por até agora não se ter oposto judicialmente contra a versão do Público sobre o acontecido.

A tomada de posição do Primeiro-Ministro, negando com a leveza dos celerados as evidências, dá bem conta do que está aqui em jogo: o futuro político de ambos, porque Relvas não vai cair sozinho. Alguém que se permite ter feito aquilo de que é acusado não tem mais lugar no mundo partidário, muito menos no governativo, e todos os que com ele fizeram caminho, juntamente com esse caminho, passam a ficar contaminados. Mas o episódio reabre o caso imediatamente anterior, porque se Relvas, por frieza ou desvario, se permitiu expor-se a esta reacção do jornal, então a única razão para tamanho risco tem de estar enterrada na sua relação com Silva Carvalho e a investigação respectiva que pretendeu evitar.

Estamos face a algo completamente novo na história das relações entre o poder político e a imprensa em democracia – seja lá qual for o ponto de vista e o desfecho da situação. Perante a gravidade, e o fedor moralmente putrefacto, do episódio, as tropelias do menino guerreiro passam automaticamente a ser recordadas com nostalgia. A recordação de um tempo feliz em que os governantes social-democratas, mesmo se dados a lendárias peripécias pícaras, ainda mantinham módica sanidade mental.

Revolution through evolution

Why Women Chose Bad Boys: Ovulating Women Perceive Sexy Cads as Good Dads
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Parents Are Happier People
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Older Adults Prize Accuracy More Than Speed
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Clayton Christensen On How To Find Work That You Love
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Too Much or Too Little Noise Turns Off Consumers, Creativity
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A Walk in the Park Gives Mental Boost to People With Depression
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You Are What You Eat: Why Do Male Consumers Avoid Vegetarian Options?
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Looks Matter More Than Reputation When It Comes to Trusting People With Our Money
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People See Sexy Pictures of Women as Objects, Not People; Sexy-Looking Men as People
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Mixed Bacterial Communities Evolve to Share Resources, Not Compete
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When You Eat Matters, Not Just What You Eat
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Religion Is a Potent Force for Cooperation and Conflict, Research Shows
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Female Terrorists’ Bios Belie Stereotypes
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Listening to Chickens Could Improve Poultry Production

Perguntem ao Cavaco, ele sabe como se faz

Apareceram algumas figuras a dizer que Relvas não poderia ter feito aquilo de que está duplamente acusado – primeiro pelo Conselho de Redacção, depois pela Direcção Editorial do Público – porque essas personalidades eram amigas do homem e afiançavam que ele era um gajo impecável, sério, talvez um bocadinho desbocado, mas um porreiraço, e seriamente sério à séria. Há tanto para dizer sobre esta linha inane de argumentação que o melhor é nem dizer nada. Eu só gostaria que esses que tais dessem a sua opinião a respeito destas palavrinhas do seu grande amigo:

“Eu quero chegar a casa, depois de ganhar as eleições, todos os dias e quero que a minha filha tenha orgulho daquilo que está a ser feito”, disse o porta-voz do PSD, acrescentando: “Eu no lugar do engenheiro Sócrates tinha vergonha, eu se fosse parente do engenheiro Sócrates escondia que era parente dele”.

Que tipo de perfil psicológico podemos desenhar de quem faz estas declarações em público – nunca tendo pedido desculpa a ninguém dos vários ofendidos e dos muitos insultados – para mais sendo-se secretário-geral e porta-voz do PSD e estando a discursar para estudantes? Que indícios, que traços, que pistas esta incursão na vida familiar de um adversário político, e apontando directamente aos seus filhos menores, podemos recolher para atestar das pulsões e compulsões do indivíduo? Enfim, como avaliar a violência destas declarações?

Relvas já devia ter sido demitido pelo modo leviano e enganador como tratou os deputados da comissão parlamentar na audição a respeito da sua relação com Jorge Silva Carvalho. Acontece que para tal ser possível era necessário que o Primeiro-Ministro tivesse existência própria, e não a tem. Passos e Relvas são exacta e literalmente as duas faces da mesma péssima moeda. Se Relvas cair, Passos não se aguenta. Assim, Relvas não pode cair. Isso levanta uma questão fascinante: sendo impossível não atribuir credibilidade à posição do Público, o modo como se vai manter Relvas no Governo será um capítulo historicamente novo na política nacional. E o que Seguro então fizer, ou não fizer, será igualmente definidor do seu destino no PS.

Ridículos e rocambolescos

Talvez a manifestação mais ridícula que aconteceu em Portugal nos últimos 30 anos tenha sido a dos 40 foliões que se juntaram durante a hora de almoço do dia 11 de Fevereiro de 2010 em frente à Assembleia da República, como lembra abaixo o Vega9000. O encontro de reaças e comunas, para além da diversão folclórica, celebrava a calúnia como unificador político. Demonstrava-se que um monárquico católico, por exemplo, podia tranquilamente abraçar-se a um estalinista ateu, outro exemplo, se daí viesse prejuízo para um inimigo comum. Velhos hábitos, sempre renováveis pela força dos circunstantes.

O texto que aquele grupo de guerreiros pela liberdade assinou sem vergonha não apresenta um só facto que suporte as acusações desfraldadas e ainda faz gala em usar escutas como matéria política. Que os comunas e os reaças se babem por escutas é algo que a História confirma invariavelmente em diversos países, que o tenham feito em Portugal com o século XX já enterrado fica como esplendoroso retrato sociológico e moral de uma parte significativa da comunidade.

Acaso alguma daquelas inteligências acha que com a comunicação social ao tempo nas mãos de Balsemão, Belmiro, Controlinveste, Cofina, capitais angolanos esdrúxulos para o arquitecto brilhar, casal Moniz e Renascença, a que se juntam os quadros da RTP e RDP de cores políticas plurais, e tendo Sócrates angariado tantos e tão desvairados inimigos, tendo esses inimigos lançado as mais venenosas campanhas de assassinato de carácter alguma vez vistas em Portugal, seria possível ter existido um único caso de ilegalidade ou imoralidade de governantes ou dirigentes socialistas que pudesse escapar à denúncia pública? A hipocrisia destes bravos é tamanha que se negam a reconhecer as evidências e mamam sôfregos os números de Moura Guedes a delirar-se a ocupar a agenda secreta do Rei de Espanha ou do Crespo a debochar em grande com a oportunidade de achincalhar deputados no Parlamento e de usar um primeiro-ministro para fazer uma peixeirada ao serviço do lançamento de um livro.

Os ridículos encontram finalmente a paz nas alarvidades dos rocambolescos. É uma lei da sua natureza.

Ó Relvas, ó Relvas… demissão à vista!

Fantástico, o nosso Relvas. Conseguiu partir um jornal ao meio. E começa-se por achar impossível que tal cena tenha acontecido. Porque é demasiado escabrosa. Acima e antes de tudo, porque é demasiado estúpida. Mas os telefonemas existiram, Relvas confirma. As ameaças existiram, Relvas volta a confirmar ao pedir desculpa ao jornal. Inacreditável. Inacreditavelmente estúpido.

Sócrates também fazia telefonemas. Fazia pressão. Um deles, o mais famoso porque detalhadamente chibado, durou hora e meia. De que se queixa Monteiro? Do tom, dos berros que o magoaram tanto, coitadinho. Sócrates foi mal-educado, e isso configura uma pressão avassaladora quando estamos à frente do Expresso e instalados na fortaleza Balsemão, diz-nos o crocodilo chorão.

Outros jornalistas contaram histórias semelhantes, descrevendo um Sócrates muito rápido na marcação de números de telefone e invariavelmente a ferver em pouca água. Os relatos, consoante a agenda política, iam da hipócrita indignação à humorada lembrança. Também corriam boatos que metiam cinzeiros a voar e achaques vários. Sim, Sócrates é sanguíneo, não conseguindo dominar as reacções emocionais com a facilidade de um estóico, o que foi explorado como sendo uma falha de carácter, a manifestação de uma natureza violenta. Ora, como qualquer grupo de dois neurónios poderá conferir entre si, essa força era a mesma que o levava a entregar-se apaixonadamente às discussões, fosse no Parlamento ou numa entrevista. E o que ele mostrava era genuíno e, para humilhação dos adversários, convincente e admirável. Sócrates impunha-se pelo carisma e ocupava o centro – o PSD estava à beira da extinção, por isso fabricaram as campanhas e golpadas mais canalhas da história da democracia portuguesa.

Uma hora e meia com alguém ao telefone? Não terá sido para ameaçar divulgar detalhes da vida privada de jornalistas, com certeza, pois tal pulhice faz-se em segundos e depois já não dá para continuar a falar. Nesse episódio de Sócrates, e nos restantes similares, o que transparece é uma intimidade entre duas classes de profissionais em inevitável binómio de conflito-simbiose: políticos e jornalistas. Se há ali alguma moral a retirar, será a constatação de uma eventual ingenuidade do governante que acreditava conseguir convencer um poderoso jornal somente recorrendo às suas razões. E também ficou provado, pelo próprio Monteiro, que Sócrates não violou a lei nem a ética. Apenas a fina sensibilidade dos seus tímpanos.

Cineterapia


Tabu_Miguel Gomes

Rafa_João Salaviza

Fevereiro foi mês de holofotes apontados ao cinema nacional graças aos prémios que Tabu e Rafa obtiveram no Festival de Berlim. De imediato, a bandeira nacional foi desfraldada em prosas encomiásticas, cuja enorme maioria nem sequer tinha como falar dos filmes porque os seus escribas não os tinham visto. E, realmente, era o que menos importava. Ganhar qualquer coisa num festival artístico qualquer é o mesmo que ganhar um jogo de futebol, o que conta é o resultado. Todo o marketing vive desta falácia por associação.

Veio Abril, veio Maio. Estreou Tabu, estreou Rafa. Para onde foi o cortejo festivo? Para a crítica institucional, claro, e para uns poucos de espontâneos com genuíno ou copiado entusiasmo. Se da curta de Salaviza, até por o ser, não se esperavam grandes voos, do filme de Miguel Gomes antecipavam-se raptos cinéfilos inauditos, tamanha a expectativa justificada pelas anteriores obras do realizador. Mas para os cinéfilos amadores, amantes ingénuos e infantis das imagens paradas em movimento, a experiência é de desilusão ou indiferença.

Salaviza fez um exercício tecnicamente meritório que desemboca numa banalidade desconcertante. Miguel Gomes assina um dos melhores filmes portugueses de sempre, mas o qual expõe cruelmente as limitações narcísicas do seu mentor e realizador. Ambos se comprazem em percorrer os corredores dos labirintos criativos onde nunca se encontra uma saída para o exterior. Na verdade, essa verdade feita de luz e sombras, estes autores não querem sair dos espaços que habitam e onde recebem as visitas dos amigos. É para eles que filmam, os únicos seres que conhecem.

Cantaremos vitória, aconteça o que acontecer

Somos tão bons a dar conselhos aos outros porque nessas situações não se trata de um problema nosso. É isso que permite vê-lo com objectividade, tratá-lo com lógica, inseri-lo em padrões de sentido onde ganham novos e benévolos contextos. Daí os psicólogos cognitivo-comportamentais treinarem os seus pacientes nessa técnica de despersonalização dos problemas pessoais, assim lhes reduzindo as componentes emocionais tóxicas e aumentando a atenção para as capacidades da inteligência do indivíduo na alteração do sentido das suas experiências.

É precisamente isso que podemos e devemos fazer em relação à crise na Europa. As omnipresentes interpretações neuróticas repetem que isto é tudo muito mau, uma desgraça, uma tragédia. Têm a sua razão, pois aumentou a pobreza em vários países europeus, o que apenas tem sido motivo de festa ali para os lados da Lapa. Porém, se conseguirmos escapar ao melodrama jornalístico e comentarista, se olharmos para a realidade de um ponto de vista histórico, aquilo a que estamos a assistir é grandioso: um momento crucial da construção europeia. E quem é que disse que iria ser fácil? Onde é que já se tentou levar a cabo uma união tão complexa e improvável, agravada pela complexidade e imponderáveis da ordem económica mundial? A Europa, devassada pelas maiores guerras de que há memória, apenas há 50 em ruínas, depois esmagada entre duas superpotências, tem vindo a criar um dos mais belos capítulos da civilização. Algo tão completamente original que, também por aí, se falhar, ou precisar de muito mais tempo para crescer, nem para os analfabetos será uma surpresa.

Por isso, de repente, a Grécia volta a ser o berço da democracia, suprema e dolorosa ironia. Num certo sentido, se acontecer o pior poderá ser o melhor; isto é, se o Syriza vier a governar, e se mantiver o intento de não respeitar as dívidas e sair do Euro, a incomensurável confusão daí resultante tanto para a Europa como para o Mundo será sempre um minúsculo preço a pagar pela glória de ver a vitória de um modelo político que é a mais consumada realização do génio humano que os bípedes implumes conseguiram, e conseguirão, fazer nascer das suas misérias. A história da Europa, muito mais do que o palco principal do cristianismo ou da génese e desenvolvimento da ciência, é essencialmente a gesta da liberdade.

Manifestem-se, então

O Manifesto para uma esquerda livre tem o grande mérito de enfrentar a besta logo à cabeça dos seus objectivos principais:

UMA ESQUERDA MAIS LIVRE, com práticas democráticas efetivas, sem dogmas nem cedências sistemáticas à direita, liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa. Uma esquerda de cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o país recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária.

Sem dúvida que o vocábulo mais importante dos 51 que constituem o parágrafo é este: sectarismo. Donde vem o sectarismo? Quem o cultiva? Quem depende dele para manter a sua identidade? As respostas vão dar todas ao BE e ao PCP. Recorde-se o patético do BE a querer antecipar-se ao PCP na moção de censura em 2011, depois do BE ter feito o mesmo ao PS com Alegre para as presidenciais e já antes para o desgaste do Governo maioritário. Um líder desvairado, ofuscado pelas luzes do palco e a imaginar-se o grande comandante da esquerda grande sem ter ninguém no partido para lhe fazer frente, sequer chamá-lo à terra. Recorde-se o conservadorismo religioso do PCP, absolutamente imune a qualquer tentativa de aggiornamento e, como consequência, cristalizando o discurso nas barricadas de um patriotismo reactivo e fóbico. Recorde-se o encontro do BE com o PCP no período eleitoral de 2011, depois de terem contribuído para as condições em que a vitória da direita seria inevitável e com os futuros aproveitamentos da crise que se anteciparam à exaustão, e de como essa reunião não passou de uma triste farsa que nem os próprios se esforçaram para esconder.

De facto, não será sensato esperar das cúpulas do PCP e BE, e sua legião de fanáticos, qualquer ponte com o PS, sequer entre si. É aqui que o parágrafo, como o Manifesto ele próprio, entra em imediata contradição, pois a expressão “cedências sistemáticas à direita” é a fórmula pela qual a retórica da esquerda verdadeira trata o socialismo democrático. Como é que os proponentes e signatários pretendem resolver o imbróglio? Quem é que vai definir os limites das cedências legítimas ou assistemáticas? Aliás, o que será exactamente uma cedência? Lendo e relendo o Manifesto, olhando para o elenco pensante, rigorosamente ninguém saberá responder a estas perguntas. Estamos tão-só perante um conjunto de lugares-comuns do que seja a esquerda enquanto largo território ideológico, generalidades que não resistem a uma primeira discussão sobre qualquer acto governativo concreto sem que tal cause fatal dissensão no maralhal.

Inútil, então, esta iniciativa? Para começar, por ousar colocar o problema do sectarismo no centro do impasse da esquerda em Portugal, não. Mas se contemplamos apenas um fogacho saído da frustração e cansaço de alguns ou se testemunhamos o começo de um movimento onde a inteligência e coragem dos seus líderes seja capaz de reunir cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o País recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária, isso só o tempo poderá revelar. Tendo em conta o modo como várias das vedetas signatárias alinharam no boicote e demolição dos Governos socialistas, juntando-se a campanhas de assassinato de carácter produzidas pela escória dos direitolas, os prognósticos são muito, muito, mas mesmo muito reservados.