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A notícia que o David Dinis não quis dar

«Um jornalista nunca põe a mão no fogo por um ministro — essa é a regra número um no trabalho que fazemos. Mas tem a obrigação de ser justo, não fazendo um julgamento público com a leviandade com que se grita numa rede social ou num estádio de futebol.»


David Dinis

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Sei o que levou esta personagem para o DN do Marcelino, para o Sol e para o Observador, e chama-se Durão Barroso (não pelo efeito cunha, disso nada sei nem alvitro, mas pela osmose ideológica e cultural, pela disponibilidade para usar a carteira de jornalista ao serviço da luta política). Já não sei bem o que queriam dele na TSF, apenas suspeito, e volto a saber bem o que querem dele no Público. Querem alguém intelectualmente medíocre mas habilidoso no controlo da linha editorial. Alguém que convive sem insónias com uma postura hipócrita e cínica.

Esta ideia de que a “regra número um no trabalho” de um jornal dito de referência é nunca pôr a mão no fogo por um ministro começa por causar perplexidade. Que raio de conexão é esta? De onde vem e para onde vai? A qual, logo de imediato, se transforma em pavor: qual será a regra número dois? Não pôr a mão no fogo por um secretário de Estado? E por aí abaixo até aos motoristas, contínuos e cozinheiros ao serviço do Estado? E quanto aos Presidentes da República e Presidentes da Assembleia da República, onde meter as mãozinhas? E no que toca a juízes, aí no jornal da Sonae lavam as mãos? Estamos no reino da estupidez, claro, mas não só nem o mais importante. Para todos os efeitos, a prosa surge assinada pelo director do Público e como editorial. Ele está a falar em nome da instituição, da redacção, dos accionistas. E declara que os ministros são, entre todas as entidades públicas e privadas, aquelas que mais desconfiança devem gerar num jornalista. Porquê? Não explica, claro. Até porque não tem explicação. Mas tem um corolário, a admissão implícita de que o jornalismo tal como o Dinis o concebe admite colocar a mão no fogo por alguém desde que se garanta não ser ministro. E com isto chegamos ao fim da primeira frase da citação.

Na segunda, o director mete-se num foguete e parte para um planeta distante onde também se vende um jornal chamado Público que, felizmente, cumpre a “obrigação de ser justo” e tem asco a quem faça nas suas páginas “um julgamento público com a leviandade com que se grita numa rede social e num estádio de futebol“. Não é essa a paisagem no Público do nosso planeta, como os textos do Manuel Carvalho, São José Almeida, João Miguel Tavares, Francisco Teixeira da Mota e até do Vicente Jorge Silva exibem, entre outros menos assíduos nessa praxis. A coberto do escudo “opinião”, despacham “julgamentos públicos” com muito mais leviandade do que a daqueles monstros que gritam nas luciferinas redes sociais e nos degradantes estádios de futebol. É que esta mole de zombies berra para o vácuo e o que diz é devorado pelo esquecimento e indiferença no acto mesmo de ser expelido, enquanto as vedetas do comentariado utilizam o prestígio e poder de difusão dos órgãos onde soltam os seus ódios e perseguições, ambicionando influenciar a opinião pública e o jogo político. Daí não se calarem no vitupério contra as “redes sociais”, as quais lhes aparecem como competição desonesta no mesmo mercado, um caso de dumping na indústria da calúnia.

Testemos a duplicidade e vacuidade do Dinis com uma notícia em vez das gordurosas e impuníveis opiniões. Por exemplo, esta: Costa diz que 2017 foi um ano saboroso, Marcelo acha que é preciso haver memória. Vem assinada pela Sónia Sapage e pela Lusa, apropriadamente inserida na secção INCÊNDIOS. Quem ler a apresentação que a Sónia faz de si mesma – aqui – fica com a certeza de que a senhora, em matéria de jornalismo, sabe o que faz. Pois bem, que fez na notícia em causa? Basta a primeira linha da “notícia” para nos enterrarmos num exercício de intriga e chicana. Para a jornalista orientada pelo seu director, notícia é aquilo que permita publicar interpretações subjectivas com sensacionalismo. As suas ou as do Presidente da República, não temos forma de saber pois as afirmações citadas de Marcelo não nomeiam Costa nem referem a sua expressão. Contudo, resgatando a possível honestidade intelectual da jornalista, se ela acreditou para além de qualquer dúvida estar perante um comentário de Marcelo a uma expressão usada por Costa em Bruxelas relativa a algo que não tinha nada de nada a ver com incêndios e tragédias, então havia uma notícia a dar, de facto. Era esta: temos um Presidente da República volúvel que emprenha pelos ouvidos e fica tão descontrolado que chega a afrontar outro órgão de soberania com comentários calhordas e asininos.

Apesar dos pulhas, a democracia ainda é a mais bela flor da liberdade

No final do mês passado, assistimos a um episódio no Parlamento que deixou sem reacção o comentariado nacional (mas posso estar a errar, agradecendo a correcção). Ocorreu com Jorge Lacão, o qual viu o seu nome chumbado pela segunda vez numa votação para o Conselho Superior de Segurança Interna. O que torna esse resultado especialmente significativo é a existência de um acordo entre PS e PSD para a sua eleição. Não obstante, em 225 votantes, 76 deputados entregaram o boletim em branco e 18 tiveram a presença de espírito, e a criatividade, para transformarem o papelucho nalguma coisa que teve de ser considerada nula. Aparte: adorava que se conseguisse fazer um livro com a história dos votos nulos no Parlamento, para descobrir se os deputados nesses transes anárquicos também grafam insultos e caralhadas, à mistura com hipertrofiados Zé Bastos, ou se deixam citações de Cícero, Maquiavel e Churchill (ou Marx, Estaline e Mao Tsé-Tung).

Ora, 18 deputados equivale ao grupo do CDS, registe-se a coincidência. E 89 menos 76 prováveis refractários deixa eventuais 13 deputados do PSD que respeitaram o acordo feito pelo líder da sua bancada; no caso de terem estado lá todos (faltaram 4 deputados no total dos grupos parlamentares, pelo que talvez tenham sido apenas 9 os deputados laranjas com respeito pela orientação de voto). Trata-se de uma especulação, pois o voto é secreto, mas no caso é uma especulação sem margem para dúvidas. A direita quis humilhar Lacão. E porquê? As notícias que relataram a votação não apresentam qualquer laivo de causalidade, sequer comentários anónimos com testemunhos ou hipóteses sobre o fenómeno. Os jornalistas portugueses não tiveram pachorra para perder tempo com tão desprezível defunto ou foram avisados para não fazerem perguntas, terceira opção excluída.

Acontece que não existe nada na biografia e currículo de Lacão que o torne impróprio para cumprir funções na CSSI. Será ao contrário, dada a vasta experiência parlamentar e governativa deste deputado. Pelo que somos obrigados a ir buscar a única explicação que oferece racionalidade no contexto: Lacão foi excluído de forma cobarde (no caso, o secretismo do voto é instrumento de canalhice) dado ser alguém sem medo de dizer o que pensa. Aconteceu-lhe, em Fevereiro deste ano, ter posto em causa a versão de Cavaco sobre o pedido de resgate em 2011 tal como aparece no livro “Quinta-Feira e Outros Dias”, mais acrescentando que estávamos perante um exercício de devassa por causa do relato de conversas privadas entre Cavaco e Sócrates. A vingança demorou 9 meses a nascer.

Há várias manifestações de perseguição e puro castigo sobre Sócrates, camaradas de partido e governação, e ainda qualquer um que seja apanhado no âmbito da “Operação Marquês” mesmo que não tenha tido cargos políticos. Uma das mais espectaculares é a de João Miguel Tavares sobre Domingos Farinho, estando o caluniador pago pelo Público em campanha para tentar prejudicar gravemente a vida particular do seu alvo ainda antes de este ser dado como acusado seja do que for – e perante a passividade, a inércia, a cumplicidade geral. Mas muitos outros jornalistas e publicistas fazem coro no mesmo sentido, dizendo-se indignados, escandalizados, por haver uns tipos que foram vistos ao lado de Sócrates e ainda andam por aí, inclusive no Governo e nas televisões. Se isto é assim às descaradas, o que não será na sombra, né?

Não podemos alegar surpresa ao contemplarmos a vingança como força motivadora no devir político e social. Vingança como expressão de uma prepotência sem nome e rosto ou como instrumento de comercialização do nome e rosto. Mas igualmente não devemos esquecer quem assim utiliza poder político e poder mediático. Especialmente nos casos, patéticos, em que aqueles que desprezam e violentam o Estado de direito ainda se macaqueiam como “liberais”. Estas pessoas não merecem castigo nem provar do mesmo remédio que espalham e vendem, merecem outro tipo de confronto. Basta que consigamos imitar o espírito democrático, apanágio dos que colocam a liberdade acima dos egoísmos e tribalismos, que as palavras de Lacão deixaram para quem tenha a sorte de poder admirá-las:

Declaração de Jorge Lacão, minuto 2:18

Revolution through evolution

Women Get Less Credit Than Men in the Workplace
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Common psychological traits in group of Italians aged 90 to 101
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How social networking keeps people healthy
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Disagreements can be a healthy antidote for biases
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Are societies more or less violent today than they were thousands of years ago?
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Action games expand the brain’s cognitive abilities, study suggests
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New research shows that blurring the boundaries between work and personal life can lead to exhaustion
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A direita portuguesa é isto, e isto é decadente

«A política é suja. Não é para meninos. Vencem os campeões da retórica. Ganha quem mais consegue brincar com as palavras.

E quando se trata de tentar explicar o inexplicável, o melhor é mesmo puxar de todos os truques. Três meses depois do roubo de material de guerra de um paiol de Tancos ainda tudo está por esclarecer.

Azeredo Lopes tem sido mais do que inábil a tentar justificar como é possível passar tanto tempo sem que haja uma pista, um culpado, um responsável. Mas tem sido muito hábil em lançar a confusão sobre o que se passou. ‘No limite, pode não ter havido furto nenhum’, chegou a ser uma das suas jogadas.»


João Vieira Pereira, 26 de Setembro de 2017

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O ministro não disse nada disso, Sr. Pereira. O ministro não lançou confusão nenhuma sobre o que se passou, sr. Director-adjunto do Expresso. Foi precisamente ao contrário. Mas para quem concebe a política como uma actividade suja tudo é projecção. Os outros, aqueles que não se grama, que assustam porque andam ao mesmo, transformam-se de adversários em inimigos. São políticos, logo sujos, e serão muito mais sujos do que nós dado nos estarem a querer tirar não sei o quê. Os outros é que fazem truques, os amigos e colegas do sr. Vieira não, coitados. É um grupo de santos e heróis que sofrem estoicamente os golpes sujos dos porcalhões, quase todos socialistas (todos mesmo, não sejamos económicos com a verdade).

Este passarão do império Impresa queria que o ministro da Defesa encontrasse “uma pista, um culpado, um responsável” pelas suas próprias mãos e num prazo que não beliscasse a sua impaciência. Se em Setembro se atrevia a expor em público uma estupidez deste calibre, temo que em meados de Dezembro, continuando o País à espera que as investigações das polícias civil e militar apresentem resultados, o sr. João ande de moca de Rio Maior na mão à caça de Azeredo Lopes.

Há uma direita decente, inteligente e corajosa. Infelizmente, não a conseguimos encontrar no PSD e CDS, apenas em ilhas discretas na comunicação social ou na academia.

Têm boas, excelentes, razões para estarem apavorados

Ver PCP e BE a serem críticos do Governo e do PS mantendo o apoio que permite a governabilidade é o melhor espectáculo serviço que a democracia portuguesa oferece desde que me considero um ser político. Para além das consequências de tal conjuntura, há um trabalho intenso de negociação nos bastidores que trará uma alteração cultural do lado de bloquistas e comunistas. A República, isso que é nosso, pede uma democracia onde os sectarismos estejam reduzidos à expressão mínima ou desapareçam. Afastado o sectarismo, o qual se alimenta de fanáticos e seus delírios obsessivos, fica a negociação como arte da política, argamassa da coesão comunitária.

Não admira que à direita, a qual tem apostado tudo desde 2008 no radicalismo violento e castigador onde a política se reduz ao ódio, haja um estado de completo pavor perante a perspectiva de termos PS, PCP e BE em condições de repetirem esta união de responsabilidades nas próximas legislaturas.

Revolution through evolution

LGBQ* Women’s Sexual Desire Particularly Impacted by Social and Cultural Pressures
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Prehistoric women had stronger arms than today’s elite rowing crews
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Mindfulness meditation can offset the worry of waiting
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Humble sponges are our deepest ancestors: Dispute in evolutionary biology solved
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In first, 3-D printed objects connect to WiFi without electronics
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Storytellers promoted cooperation among hunter-gatherers before advent of religion
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Copy of ‘Jesus’ secret revelations to his brother’ discovered by biblical scholars
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Política da terra queimada

Está a acontecer na Califórnia algo similar ao que aconteceu em Portugal em Junho e Outubro: incêndios cuja tipologia devastadora, com uma velocidade de expansão muito maior, resulta de alterações climáticas para as quais ninguém, nem os americanos, se preparou, e perante os quais ninguém, especialmente os americanos, sabe como se preparar.

Em Portugal, oposição à direita e comunicação social de referência (passe a anedota) cavalgaram a onda da fúria emocional e da culpabilização dos malandros do costume. Primeiro, por causa do contexto eleitoralista, no caso de Pedrógão, depois, por endémica miséria moral inerente a quem se limita a ladrar quando passa a caravana. Mas a degradação maior foi ter visto o Presidente da República a usar as vítimas e os prejuízos dos incêndios para se deleitar na jogatana palaciana. É pedagógico reler os elogios que recebeu por um dos mais espectaculares e sofisticados exercícios de manipulação afectiva ao serviço de um cinismo que é destino.

Aquilo que foi considerado como erro crasso de Costa, a sua reacção executiva e expressiva aos incêndios, tem um reverso. O de ter sido ele o exemplo perfeito da recusa em usar o fogo para agradar à plateia e aos camarotes.

Exactissimamente

«E, para fechar a lista dos derrotados com a eleição de Mário Centeno, há um autoderrotado absolutamente incompreensível: Marcelo Rebelo de Sousa. De facto, desde a primeira hora em que a possibilidade se tornou real (ao contrário do que alguns, soberbamente, ridicularizaram), o Presidente não escondeu toda a sua animosidade à ideia. E, mesmo sabendo nós que o seu espírito analítico viaja várias galáxias à frente do nosso, não ignorando que o homem nunca dorme em serviço nem fora dele, é difícil, para não dizer impossível, entender tanto mal-estar. Terá Marcelo medo ou ciúmes do prestígio internacional do Governo? Terá achado que era altura de dar uma mão aos derrotados da direita, mesmo que para isso se tenha encostado à posição da extrema-esquerda? Francamente, não sei e não entendo.»


Miguel Sousa Tavares

Diabólico

Em entrevista à SIC, no dia em que apresentou a moção de estratégia com que se recandidata à liderança do PSD, Pedro Passos Coelho foi questionado se tiraria ilações caso a estratégia orçamental do Governo resultasse, depois de lhe ter feito duras críticas.

"Ah, com certeza passaria a defender o voto no PS, BE e PCP, se pudéssemos todos devolver salários, pensões, impostos e no fim as contas batessem todas certo, seria fantástico", afirmou Passos Coelho, questionando porque é que o ex-primeiro-ministro José Sócrates não se lembrou desta estratégia em 2011 em vez de pedir ajuda externa.

Passos, Março de 2016

"Precisamos de políticos corajosos que digam a verdade", prosseguiu.

Sobre o Governo do PS - apoiado por "dois partidos da extrema-esquerda [BE e PCP]", Maria Luís sublinhou que a reversão de reformas estruturais tem vindo a fazer cair a "confiança e credibilidade" de Portugal, nomeadamente na "imprensa internacional, agências de 'rating' ou fazedores de opinião".

Maria Luís, Setembro de 2016

Exactissimamente

«Porquê não usar a mensagem escrita à Assembleia? Porque está todos os dias a falar com o país inteiro através da televisão. Ele foi o primeiro Presidente eleito pela televisão, numa campanha que durou mais de uma década através de intervenções semanais. Além de que, neste momento, o professor Marcelo Rebelo de Sousa está a exercer o seu mandato presidencial através das televisões. Esse é o maior poder que se pode ter.»


Freitas do Amaral

Revolution through evolution

Holding infants – or not – can leave traces on their genes
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Radiologists detect injury patterns of intimate partner violence
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What does it mean for the husband when his wife keeps her own surname?
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A fear of getting dumped kills romance and commitment
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Smiling human faces are attractive to dogs, thanks to oxytocin
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Dogs mouth-lick to communicate with angry humans
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Conspiracy thinking less likely with greater news media literacy, study suggests
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E esta, hein?

«Hoje a grande força justiceira da sociedade é a comunicação social. Muitos criminosos, incólumes no sistema judicial, vêem-se arrasados na imprensa, sentindo-se o público vingado pela difamação. Só que, se muitas vezes essa é a única forma de justa punição, o método tem problemas evidentes, representando uma linha muito perigosa de organização social.

O primeiro defeito vem directamente da finalidade conceptual do sistema jornalístico, que não é servir a justiça, mas informar ou, crescentemente, divertir. Sob a capa de vingador de inocentes, esconde-se frequentemente a simples ganância de espectáculo, alimentada pela inveja, coscuvilhice e crueldade. A saga mediática de José Sócrates, sobretudo no Correio da Manhã, é um bom exemplo dos extremos a que chega tal dinâmica. Por muitos crimes que possa ter cometido, nada justifica a obsessiva perseguição, devassa da vida e obscenas mexeriquices. Livres das regras judiciais de protecção de arguidos, os jornais, autonomeados justiceiros, dizem o que lhes apetece, sem decoro ou dignidade, para não falar de isenção e profissionalismo. Isso é injustiça.»


João César das Neves

Vamos lá a saber

Se Belmiro tivesse perdido o conflito judicial com a família de Afonso Pinto de Magalhães, ou se tivesse optado pelo negócio da construção civil, ou se tivesse preferido abrir um restaurante e aí fazer a sua fama, ou se tivesse sentido o apelo religioso e fosse de Tuias para o seminário em Braga, Portugal hoje estaria pior, melhor ou na mesma?

Original é estar perto da origem

Com os jornais a terem edições digitais – estamos a falar de algo que começou nos anos 90 – as edições em papel tornam-se inúteis do ponto de vista noticioso. Tal como as rádios e as televisões igualmente o tinham feito do ponto de vista informativo, remetendo o jornal em papel para a sua inevitável obsolescência. Só para dar uma ilustração histórica, o incêndio no Chiado de 1988 foi um triunfo jornalístico da rádio, especificamente da TSF, pela mobilidade e imediatez do meio; mas hoje tal feito já não seria possível, pois haveria milhares de fontes de informação à disposição. Num outro território, os canais televisivos especializados em notícias chutam os jornais para uma periferia de impacto e relevância por via das audiências e do poder audiovisual. Com a ubiquidade digital, nesta era da Internet no bolso, os jornais repetem as informações, repetem a maioria das notícias uns dos outros, e apenas podem usar as secções de opinião para se diferenciarem e/ou notabilizarem. Isto porque desistiram de fazer reportagens de profunda investigação, dados os custos ou os constrangimentos políticos impostos pelos accionistas. Daí a hibridização dos jornais nos canais digitais, usando o som e o vídeo para publicarem conteúdos noticiosos e opinativos. Problema: não dá para concorrer com a TV (i) e as secções de opinião não chegam para puxar a carroça (ii). Ou se faz como no Correio da Manhã, Sol e Observador, onde as próprias notícias são formas ostensivas de veicular opiniões, e daí aparecer quem queira pagar para ter essas fontes de influência e propaganda, ou os sistemas mistos que vemos no Expresso e no Público, e em parte no DN – onde as linhas editoriais se preocupam em definir territórios de opinião em vez de salvaguardarem uma independência profissional como missão de serviço público – apenas servirão para ir gastando o tempo até ao fecho da torneira.

Explicitando o que é uma banalidade com anos e anos, havendo excesso de oferta informativa (os factos), e cada vez menos recursos noticiosos (produtores das narrativas sobre os factos), as opiniões (interpretações com ou sem factos) ficarão para sempre reféns da segmentação e aleatoriedade da audiência. Tendo sido durante séculos instrumentos de recolha e divulgação de informações em formato de notícia e embrulhadas em opiniões, os jornais precisam de se transformar em instrumentos de formação cívica e desenvolvimento cognitivo. Ou seja, a promessa de terem novidades não justifica que se queira dar dinheiro por aquilo que se tem à borla, ou que já se paga a outros operadores, por estarmos numa civilização digitalizada. E a promessa de serem o farol da liberdade, um garante da democracia e o quarto poder que denuncia e mantém na ordem os malandros dos políticos e dos ricalhaços é para rir – mas não seria se fôssemos capaz de nomear um, bastava um, órgão de comunicação social que estivesse obsessiva e fanaticamente decidido a cumprir o código deontológico dos jornalistas.

Prometam tornar o cidadão mais inteligente, mais poderoso, e verão o dinheirinho a correr abundante como antigamente. Foi sempre este o modelo do negócio, só que agora é preciso ir além da mama de despachar notícias e opiniões.

Sublime jornalismo

António Guerreiro é um dos mais interessantes opinantes na indústria da opinião. Porque lê, porque pensa, porque pensa no que leu e partilha connosco as descobertas. É disto que se fazem os intelectuais, os tais seres que sobem ao mundo das ideias com a missão de regressarem ao reino das sombras para contarem o que viram. Os agrilhoados à ignorância, às aparências, não gostam dos intelectuais à pala da mania de se armarem em sabichões. E porque os intelectuais incomodam, lançam suspeitas, fazem perguntas parvas e foleiras, querem que os outros à sua volta sejam como eles sem terem o trabalho, e a glória, de se libertarem, subirem, contemplarem a imutável verdade e decidirem largar essa perfeição iluminada pelo Bem para voltarem ao convívio com os brutos. Tudo características que causam muita chatice a quem estava sonolento a olhar para uma parede. Não é fácil ser intelectual.

Em Agosto, tivemos a surpresa de ler um dos mais interessantes textos deste tão interessante intelectual – Os comentários dos leitores. Trata-se de um exercício onde se pretende dizer coisas acerca das “redes sociais” e sua incrustação nas páginas das edições digitais dos órgãos da imprensa. AG advoga que se fechem as caixas de comentários alegando que o jornalismo não resiste ao convívio com as opiniões da populaça. É uma tese que justifica recorrendo ao simplismo e ao reducionismo a mata-cavalos para efeitos de publicação da prosa, isso de haver quem vá para as caixas de comentários fazer “a exibição pública da injúria e da agressão”. Se fosse obrigado a fundamentar recorrendo a argumentos e a dados a legitimidade das suas declarações, esse nexo de causalidade entre os comentários dos leitores e a qualidade do jornalismo nesses órgãos, rapidamente ataria um lenço branco a um pau e rogaria para o deixarem em paz.

A ideia de que as caixas de comentários tinham como função apriorística a promoção de “um verdadeiro debate” é fixe, mas é concomitantemente uma candidata ao Nobel da ingenuidade, se não for o da alucinação. É preciso ter passado ao lado da invenção da World Wide Web (1994) para aterrar em 2017 com esse choradinho. De lá para cá, na academia e fora dela, já muito se escreveu sobre as dinâmicas psicológicas e sociais que se encontram invariavelmente nesses espaços de comunicação. To make de long story ultra-short, os comentadores imitam a jactância, explícita ou implícita mas inevitável, dos autores que comentam. Calhando não terem a literacia e aparato de informação e formação desses fulanos cujos textos supostamente estão a comentar (e nunca têm, nem a bilionésima parte, pois se tivessem não estariam a perder o seu precioso tempo nessas catacumbas), usam o que têm e o que são. E o resultado é esse espectáculo de “injúrias” e “agressões”, do ponto de vista do alvo, ou de “liberdade” e “expressão”, do ponto de vista do autor dos comentários. Mas qual é a finalidade? Será a da humilhação, achincalho, das vedetas na montra por aqueles que rebolam e resfolegam no armazém? Nada de nada disso, pese a antropologia das emoções e as disfunções cognitivas. O que os comentadores pretendem é tão-só conseguirem ter leitores. Exactamente o que os profissionais da opinião, e os jornalistas, pretendem. Andam todos ao mesmo, e é esse o problema que aflige o Guerreiro et alia.

Todavia, se fosse apenas por estas banalidades, o seu texto não seria um dos mais interessantes que já lhe li, sequer interessante. Acontece que deixou no parágrafo final um testemunho estupendamente insólito. Nele dirige-se a alguém que assinou um comentário com o pseudónimo “Liberal”, comentário esse que o deixou indignado. Tudo nesta passagem é extraordinário, a começar pela futilidade do teor do comentário em causa e a acabar na confissão de descontrolo afectivo, passando pela convocação do IPMA para reclamar vitória. A postura mental do famoso articulista foi tão similar à dos comentadores que invectivou nos parágrafos anteriores que o resultado, lógico, foi o de ter a caixa cheia de paixão dialógica: 96 comentários até ao dia e hora em que teclo, o que compara com a média de 3 ou 4 nos seus restantes textos. Que lhe terá corrido mal, ou bem? Sugiro que tenha sido algo como isto. Ao levar para o palco o contributo de um elemento da assistência, AG premiou esse indivíduo que é, simultaneamente, uma entidade substantivamente literária – é uma personagem. Não há forma de saber, apenas recorrendo ao meio onde se comunica, se o tal “Liberal” é mulher ou homem, com 18 ou 81 anos, ateu ou crente em Fátima, hetero ou bi ou homossexual, votante em Cavaco ou na Carmelinda Pereira, genial ou estúpido que nem um calhau, na posse de uma lucidez implacável ou a delirar por causa da medicação. Logo, estar a reagir emocionalmente a algo que essa entidade diz implica reconhecer que se está num mesmo espaço de interacção, e que se aceita o poder dessa personagem para influenciar o drama. Estes processos são aqueles que, inclusive no reino animal, estabelecem toda e qualquer “rede social”. Levar o “Liberal” para um texto do Guerreiro corresponde a consagrar as caixas de comentários como parte legítima e bondosa da produção intelectual de um dos nossos mais interessantes intelectuais. Ironia hilariante.

Os jornais não sabem o que fazer às caixas de comentários por burrice. Poderiam aproveitar essas assembleias – sempre microscópicas, mutáveis, efémeras e anódinas – para fazerem serviço cívico. Para tal, só tinham de começar por lhes dar atenção, premiando os contributos mais valiosos, agradecendo a presença desses pobres de espírito e espalhando um sentimento de pertença a uma comunidade maior e melhor. Fazer teatro, esse sublime jornalismo.

Amnésia selectiva, modo de usar

Já se esqueceram do que aconteceu ao aumento salarial de 2,9% decretado pelo governo de José Sócrates em 2009? Resultou em cortes salariais de 3,5 a 10% dois anos depois. Quem tudo quer tudo perde. Seria de esperar que as diferentes corporações e as pessoas que delas fazem parte tivessem memória, mesmo que a memória seja curta, não há como ter esquecido o que aconteceu no início desta década.

Paulo Baldaia – 26 DE NOVEMBRO DE 2017

Questionado se no curto prazo não são necessárias mais medidas de austeridade, respondeu: "Eu espero que não sejam. As instituições internacionais sabem que Portugal já vive há muito tempo com um clima de austeridade muito apertado."

"Eu sou professor de economia e tenho uma noção muito clara do que é que o país hoje precisa. O país não precisa de mais promessas de impostos e de mais sacrifícios só porque o Estado não faz aquilo que deve."

Passos Coelho espera que não sejam necessárias mais medidas de austeridade – 1 DE ABRIL DE 2011

Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.

Cavaco – 9 DE MARÇO DE 2011

"A governação socialista vai parecer-se com a de José Sócrates, dar tudo a todos, sem olhar ao futuro"

Adolfo Mesquita Nunes – 26 DE NOVEMBRO DE 2017

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Uma das primeiras medidas que o Governo de Sócrates tomou foi a do congelamento das carreiras dos funcionários públicos, em Agosto de 2005. Quando se decidiu o aumento dos 2,9%, em 2008 e com o apoio de Ferreira Leite, a Função Pública estava desde o ano 2000 a perder poder de compra. A inflação prevista para 2009 era de 2,5%, o que significava que o ganho seria de 0,4%, muito longe de conseguirem regressar ao nível de rendimentos anteriores. Essa decisão foi eleitoralista? Só devia ser autorizada a resposta a quem respondesse a estoutra: o congelamento de carreiras, que se prolongou durante 3 anos, foi também eleitoralista? Se não foi, como é que se deve pensar no assunto? E não serão os ciclos eleitorais e a própria democracia um antro de inevitáveis e sistémicos eleitoralismos? Assunto tratado de forma primária, mentirosa e demagógica pelo Baldaia.

Na sua fábula para totós, a ambição, o pecado da gula, terá castigo certo e infernal. Vejam o que aconteceu em 2009, lembra com caracteres cavernículas. Por causa dos 2,9% dados aos malandros da Função Pública tivemos em 2010 uma crise das dívidas soberanas com origem na Grécia e que se espalhou na Europa como um incêndio à portuguesa. Acaso? Coincidência? Não, defeito de carácter. “Quem tudo quer tudo perde”, sem vírgula que é para dar uma lição a esses gastadores malvados. Mas o pináculo do ridículo do seu ridículo texto está no apelo à memória.

O que Sócrates fez, em várias áreas, foi usar a sua maioria absoluta para reduzir os gastos do Estado. Ao mesmo tempo, apostou na requalificação de outras dimensões da estrutura económica, de que o investimento na ciência, a educação de adultos e as políticas de exportação são bandeiras. Na altura que antecede a crise de 2008, e mesmo até à crise de 2010, era impossível antecipar o que iria acontecer na Europa – e a evidência está em que ninguém o adivinhou, onde se inclui toda a oposição. Portugal tinha crédito internacional, seria irresponsável não o aproveitar para fazer o que os Governos devem sempre e sempre tentar fazer: investir e distribuir riqueza. Porém, assim que a conjuntura mudou, assim mudou a política governativa em Portugal de acordo com a Europa – ou seja, investindo mais para evitar a depressão em 2009, e aplicando medidas de austeridade a partir de 2010 por imposição europeia. Estes são os factos. E não há outra memória sobre os mesmos, apenas diferentes graus de distorção se a intenção for a de vender banha da cobra.

A prova de que a governação socialista foi austera logo deste 2005, e sempre se manteve equilibrada, foi dada pelo comportamento e declarações da oposição à direita e à esquerda ao longo dos anos, culminando no derrube do Governo por uma coligação negativa que chumbou o PEC IV. Quem quiser rever o que os deputados responsáveis pelo afundanço do País disseram nesse dia, vai encontrar um Parlamento onde se chicoteou o Governo por querer conter a despesa pública e enfrentar uma situação inédita na História de Portugal, e inédita na História da União Europeia. Mas havia um acordo com as instituições europeias que teria evitado o resgate de emergência e a devastação que se seguiu. Será que o Baldaia se recorda?

As citações não carecem de explicação. A direita tem lançado um discurso dúplice, onde tanto ataca o PS por ser estróina como por ser avaro. É uma técnica que resulta, pois na sociedade cada indivíduo selecciona a parte que for do seu agrado e não penaliza a contradição. Quem assim faz política apenas está interessado no poder pelo poder. Essa, infelizmente, tornou-se uma marca diferenciadora entre a direita e a esquerda. Esqueça-se disso quem quiser ser enganado.