A notícia que o David Dinis não quis dar

«Um jornalista nunca põe a mão no fogo por um ministro — essa é a regra número um no trabalho que fazemos. Mas tem a obrigação de ser justo, não fazendo um julgamento público com a leviandade com que se grita numa rede social ou num estádio de futebol.»


David Dinis

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Sei o que levou esta personagem para o DN do Marcelino, para o Sol e para o Observador, e chama-se Durão Barroso (não pelo efeito cunha, disso nada sei nem alvitro, mas pela osmose ideológica e cultural, pela disponibilidade para usar a carteira de jornalista ao serviço da luta política). Já não sei bem o que queriam dele na TSF, apenas suspeito, e volto a saber bem o que querem dele no Público. Querem alguém intelectualmente medíocre mas habilidoso no controlo da linha editorial. Alguém que convive sem insónias com uma postura hipócrita e cínica.

Esta ideia de que a “regra número um no trabalho” de um jornal dito de referência é nunca pôr a mão no fogo por um ministro começa por causar perplexidade. Que raio de conexão é esta? De onde vem e para onde vai? A qual, logo de imediato, se transforma em pavor: qual será a regra número dois? Não pôr a mão no fogo por um secretário de Estado? E por aí abaixo até aos motoristas, contínuos e cozinheiros ao serviço do Estado? E quanto aos Presidentes da República e Presidentes da Assembleia da República, onde meter as mãozinhas? E no que toca a juízes, aí no jornal da Sonae lavam as mãos? Estamos no reino da estupidez, claro, mas não só nem o mais importante. Para todos os efeitos, a prosa surge assinada pelo director do Público e como editorial. Ele está a falar em nome da instituição, da redacção, dos accionistas. E declara que os ministros são, entre todas as entidades públicas e privadas, aquelas que mais desconfiança devem gerar num jornalista. Porquê? Não explica, claro. Até porque não tem explicação. Mas tem um corolário, a admissão implícita de que o jornalismo tal como o Dinis o concebe admite colocar a mão no fogo por alguém desde que se garanta não ser ministro. E com isto chegamos ao fim da primeira frase da citação.

Na segunda, o director mete-se num foguete e parte para um planeta distante onde também se vende um jornal chamado Público que, felizmente, cumpre a “obrigação de ser justo” e tem asco a quem faça nas suas páginas “um julgamento público com a leviandade com que se grita numa rede social e num estádio de futebol“. Não é essa a paisagem no Público do nosso planeta, como os textos do Manuel Carvalho, São José Almeida, João Miguel Tavares, Francisco Teixeira da Mota e até do Vicente Jorge Silva exibem, entre outros menos assíduos nessa praxis. A coberto do escudo “opinião”, despacham “julgamentos públicos” com muito mais leviandade do que a daqueles monstros que gritam nas luciferinas redes sociais e nos degradantes estádios de futebol. É que esta mole de zombies berra para o vácuo e o que diz é devorado pelo esquecimento e indiferença no acto mesmo de ser expelido, enquanto as vedetas do comentariado utilizam o prestígio e poder de difusão dos órgãos onde soltam os seus ódios e perseguições, ambicionando influenciar a opinião pública e o jogo político. Daí não se calarem no vitupério contra as “redes sociais”, as quais lhes aparecem como competição desonesta no mesmo mercado, um caso de dumping na indústria da calúnia.

Testemos a duplicidade e vacuidade do Dinis com uma notícia em vez das gordurosas e impuníveis opiniões. Por exemplo, esta: Costa diz que 2017 foi um ano saboroso, Marcelo acha que é preciso haver memória. Vem assinada pela Sónia Sapage e pela Lusa, apropriadamente inserida na secção INCÊNDIOS. Quem ler a apresentação que a Sónia faz de si mesma – aqui – fica com a certeza de que a senhora, em matéria de jornalismo, sabe o que faz. Pois bem, que fez na notícia em causa? Basta a primeira linha da “notícia” para nos enterrarmos num exercício de intriga e chicana. Para a jornalista orientada pelo seu director, notícia é aquilo que permita publicar interpretações subjectivas com sensacionalismo. As suas ou as do Presidente da República, não temos forma de saber pois as afirmações citadas de Marcelo não nomeiam Costa nem referem a sua expressão. Contudo, resgatando a possível honestidade intelectual da jornalista, se ela acreditou para além de qualquer dúvida estar perante um comentário de Marcelo a uma expressão usada por Costa em Bruxelas relativa a algo que não tinha nada de nada a ver com incêndios e tragédias, então havia uma notícia a dar, de facto. Era esta: temos um Presidente da República volúvel que emprenha pelos ouvidos e fica tão descontrolado que chega a afrontar outro órgão de soberania com comentários calhordas e asininos.

7 thoughts on “A notícia que o David Dinis não quis dar”

  1. “Na segunda, o director mete-se num foguete e parte para um planeta distante onde também se vende um jornal chamado Público”

    5 estrelas…

  2. Que esperar deste Dinis! Se esta nulidade é tão estúpida que querendo fazer um livro, e fê-lo, para destruir e enterrar Sócrates acabou por lhe fazer o seu elogio histórico futuro.
    Trata-se, se repararem bem nas suas aparições opinativas na tv, de um fulano que tenta sempre ter uma ideia própria, especial, inteligente, única, profunda e que por tal e falta de verdadeiro conhecimento se torna idiota baralhado em explicações intermináveis, desconexas, contraditórias, trafulhas e desonestas, isto é, não consegue juntar as palavras do saber para criar conceitos ou ideias e acaba a produz palavreado convencido que convenceu com ideias geniais quando, na realidade, papagueia absurdos idiotas.
    É disto que os donos dos media gostam para seu serviço; idiotas que bem pagos fazem todos os fretes que lhes encomendem por mais sujos que sejam.
    Este tipo de protagonistas tratantes são, quase sempre, falhados políticos.

  3. A comparação do Vieira da Silva ao árbitro que só vê o erro depois do jogo, na tv, está bem alembrado!

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