Arquivo da Categoria: Valupi
É oficial: o Público assume-se como um pasquim
Vicente Jorge Silva assinou um artigo – Constâncio e a cultura do lava-desculpas – onde declara que Vítor Constâncio podia ter impedido Joe Berardo de aumentar a sua participação accionista no BCP. Não explica qual seria a argumentação a usar dado o contexto da época, e ainda menos identifica o quadro legal que permitiria a inaudita e extraordinária decisão. A partir desta tese, caracteriza Constâncio como irresponsável, criminoso, revoltante. Também estabelece um nexo causal entre o empréstimo da CGD a Berardo, no valor de 350 milhões de euros e obtido em 2007, e as cativações de Centeno e demais dificuldades no cumprimento dos compromissos orçamentais de Portugal desde 2008 até ao presente.
Este senhor tem 73 anos e desconheço por completo qual seja o estado da sua saúde física e mental, pelo que apenas me irei circunscrever à saúde moral para tentar entender a miséria onde se enfiou. O que o seu texto apresenta como mais notável e relevante é o apagamento do que o Público fez no passado dia 7 de Junho: publicou uma notícia falsa. O impacto dessa falsidade foi fulminante na comunicação social e no sistema político – e devastador para o bom nome e honra de Constâncio. Ao nada dizer a esse respeito, fica cúmplice do acto e do dano. Ao usar a notícia falsa e suas consequências perversas para atacar a vítima da mentira, Vicente Jorge Silva não está só a promover uma escandalosa e canalha violação do código deontológico do jornalista, está no mesmo passo a levar intencionalmente o jornal que fundou para a indústria da calúnia.
Este caso, como bem o adjectivou Francisco Assis, tem provocado uma torrente imparável de verborreia demagógica. A estupidez das desvairadas e rancorosas acusações, porém, consegue ser ainda mais triste do que vermos caído na pulhice aquele que foi até ontem um dos nomes que dignificavam a classe jornalística portuguesa.
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Coisas do Carvalho

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O Público tem um director capaz de escrever um editorial onde declara que Vítor Constâncio deve ser alvo de investigação policial por ter feito parte de “uma operação criminosa que visava o controlo do poder financeiro“, por ser o “mais incompetente servidor público das últimas gerações” e, em cúmulo jurídico, por ficar como “um dos principais cúmplices da trapaça financeira que tanto nos custa a pagar“. Garante ter a prova irrefutável que lhe permite “desde já estabelecer a sua responsabilidade e a sua culpa profissional e ética.” O Carvalho investigou, concluiu, lavrou a sentença, publicou o édito. Está aqui: A falta de memória é a falta de vergonha de Constâncio
Ora, a tal prova na posse do Carvalho consiste no título de um artigo saído, por maravilhosa coincidência, no mesmo jornal onde é director: “Constâncio deu aval a crédito ruinoso da CGD a Berardo e omitiu ao Parlamento“. Não se sabe a que horas o Carvalho tropeçou nesta parangona, posto que ela foi publicada logo pelas 6 da matina e o seu fuzilamento do Constâncio ocorre 12 horas depois, mas podemos ter a certeza de que o implacável escriba não chegou a ler o conteúdo da notícia. É que o material exposto na montra não corresponde ao que está no armazém. Como a emoção tomou conta dele ao imaginar o bandido do Constâncio a dar o aval ao bandido do Berardo, abraçados à gargalhada e com os Cohibas em frenética combustão num luxuoso compartimento secreto do Banco de Portugal, teve primeiro de se sentar afectado pela tontura do ódio que o assaltou. Nunca mais lhe ocorreu que talvez fizesse sentido perceber o que se estava a passar, falha que se compreende e aceita tendo em conta que ficaria muito mal a um director duvidar dos títulos que aparecem no seu jornal. Se ele não pudesse confiar no que o Público publica então isso queria dizer que ele era um mau director, péssimo, daqueles que se despedem com justa causa. Só que, foda-se, se há coisa que o Carvalho sabe, e de ginjeira, é que ele é não só um excelente director como também é, antes e acima de tudo, um dos mais valentes directores na categoria “empenhado na defesa do interesse público“. Donde, não havia tempo a perder. Assim que recuperou do estado catatónico causado pela súbita revelação do que o Constâncio tinha feito, agarrou-se a um teclado e deu tudo o que tinha na alma e nos dedos para que “nos seja possível viver de cabeça levantada por termos sido capazes de ajustar as contas com esse passado trágico e vergonhoso.“
Acontece que Constâncio não deu aval ao empréstimo da CGD obtido por Berardo porque tal não era sequer uma possibilidade ao seu dispor de acordo com a lei, primeiro, e porque esse empréstimo já tinha sido contratado à data que o Público alega que o mesmo foi discutido como possibilidade no Banco de Portugal, para final de conversa. Na verdade inquestionável e literal, o que realmente se discutiu nesse reunião foi outra coisa, isso sim da competência do Banco de Portugal: o legítimo pedido de Berardo para reforçar legitimamente a sua posição no BCP e a correspondente avaliação da sua idoneidade. A notícia do Público, portanto, é falsa. Uma falsidade que se espalhou incendiária ao longo do dia na comunicação social. Os comentários acima, retirados do Observador, ilustram o efeito pretendido e o nível cognitivo dos seus autores. Convido qualquer um a esquecer-se do estilo e comparar o que as alimárias revelam da sua percepção e entendimento da realidade com o que o grande Carvalho expõe de si próprio quando trata Constâncio de criminoso para baixo. Irá demitir-se? Irá pedir desculpa? Irá sequer reconhecer que enganou os leitores? Era só o que faltava, a culpa é do Sócrates.
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E aqui temos um delicioso exercício ad hominem e calunioso de um futuro líder do PSD (por favor, ó deuses, metam este pândego a mandar na barraca!) que nos convida a ouvir o Pedro Silva Pereira. De facto, a não perder. Como sempre.

Como ofender os portugueses com três palavrinhas apenas
No dia 23 de Janeiro descobrimos que o Presidente da República escolheu o Dr. João Miguel Tavares para presidir à comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A decisão gerou avulsos e efémeros protestos de terceiras vozes na esquerda, latidos nos talibãs de serviço contra essa esquerdalha insolente, e um maremoto de silêncio e aparente indiferença no comentariado nacional. Mas tal como no começo do Blue Velvet de Lynch, onde num relvado suburbano composto de belas e viçosas flores o jardineiro pode cair redondo no chão sem que isso afecte o humor de bebés e cães brincalhões, se afundarmos o olhar até às raízes de tanta placidez premonitória vamos encontrar minúsculos-enormes monstros que se devoram uns aos outros.
Para se compreender o que está em causa na decisão de entregar o 10 de Junho a um caluniador profissional temos de recuar 8 dias ainda em Janeiro. No dia 15, o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Primeiro-Ministro, a Ministra da Justiça, o Procurador-Geral da República, o Bastonário da Ordem dos Advogados e o Cardeal Patriarca (pois, não me perguntem porquê), entre outras excelências, reuniram-se, alguns paramentados, no Supremo Tribunal de Justiça. A ocasião intitula-se “Abertura do Ano Judicial” e nela os nossos melhores discursam solenemente sobre o pilar mais poderoso da República e da nossa democracia. Aquilo sem o qual não há comunidade, apenas guerra civil. A instituição Justiça que garante e aplica a Lei livremente consubstanciada e definida pelo Soberano na Assembleia da República – por nós, os eleitores. Dá ideia, a avaliar pelas fotografias, que se trata de um acontecimento anual muito importante, de uma cerimónia especialmente relevante na arquitectura do regime; ainda mais fulcral tendo em conta as disfunções judiciais que tolhem a economia, pervertem as disputas políticas e ameaçam, quando não violam, a liberdade das pessoas. A ser verdade que a coisa é de arrebimbomalho institucional, o discurso do mais alto, primeiro, supremo magistrado da Nação numa alocução política densamente litúrgica e sacramental tem um valor incomparável para qualquer cidadão amante da cidade. Em 2019, foram estas as palavras do Chefe de Estado acerca da Justiça. Tranquilamente, estamos perante os 9 melhores minutos que já ouvi a Marcelo Rebelo de Sousa. É uma intervenção que comenta e censura directamente a campanha para a continuação de Joana Marques Vidal como PGR e também a exploração mediática dos casos judiciais, fazendo uma pedagógica e inequívoca apologia do Estado de direito como se estivesse perante uma turma do 1º Ciclo. A salubridade do seu discurso pode medir-se com exactidão ao se procurar reacções na comunicação social e nos partidos. Pista: não existem. A estratégia de violação do Estado de direito pela direita e seus impérios mediáticos, reforçada pela indiferença da esquerda e seu proveito em ver o PS a ser perseguido e emporcalhado, gerou um apagamento completo sobre o repto lançado pelo Presidente da República num salão nobre da cúpula da Justiça portuguesa. 8 dias depois ficávamos a saber que essa censura tinha sido a decisão mais adequada ao número de revista levado à cena no único evento público que reúne todos os representantes dos poderes soberanos do Estado.
João Miguel Tavares é o caluniador profissional de maior sucesso em Portugal. Mete muito dinheiro no bolso a fazer precisamente o contrário do que Marcelo advogou como necessidade urgente na comunidade que somos. Alimenta-se das capas da indústria da calúnia, faz condenações na praça pública ainda antes de sequer haver acusações, explora crimes cometidos por agentes da Justiça e órgãos de comunicação social, celebra a violação da privacidade e dos direitos fundamentais dos seus alvos, é sectário na perseguição ao PS e obsessivo no linchamento de Sócrates e terceiros relacionados, cultiva uma atitude messiânica em relação à santa Joana e ao providencial Pedro. Mas vai mais longe. Do alto do poder mediático e da influência social ao seu dispor, faz campanha para a diminuição dos direitos dos arguidos e das defesas, promove a inversão do ónus da prova, avalia a eficácia da Justiça exclusivamente pela quantidade de políticos presos e espalha sobre todas as instituições soberanas da República, as tais que se encontram obrigatoriamente uma vez por ano para dignificarem e elevarem a Justiça, uma acusação de corrupção. A corrupção mais grave que é possível encontrar, porque estrutural, declara. Este ser infantilóide e narcísico repete, por escrito e de viva voz, a cassete dos fogareiros e dos jarretas, dos broncos e dos trastes: “Andam todos a roubar! As leis são feitas só para andarem a roubar!”. O seu catastrofismo taberneiro, alucinado e asinino até há uns anos não teria lugar na outrora dada a mínimos deontológicos imprensa de referência mas o descalabro dos impérios financeiros da direita, juntamente com a decadência intelectual e política em que se encontra, alterou as regras do jogo. No vale tudo das campanhas negras e golpadas envolvendo responsáveis das polícias e da Justiça, que começou em 2004 com Santana Lopes e se agudizou a partir de 2008 com Ferreira Leite e Pacheco Pereira a serem títeres de Cavaco, a direita desistiu de tentar vencer o PS pelo mérito das propostas e capacidade de persuasão positiva do eleitorado. O mais velho ataque político do mundo em sistemas democráticos, a calúnia, passou a ser o instrumento favorito de quem domina o ecossistema mediático e partes do Ministério Público. O produto oferecido por esta triste figura que assina as suas verrinas como “jornalista”, a exibição impante da sua superficialidade e facciosismo, o espectáculo do seu liberalismo de pacotilha e da sua hipócrita moral mercenária, o culto do seu fascínio consigo próprio e do delírio de se conceber como o regenerador da Pátria, isto e pior tinha e tem compradores. Com o convite de Marcelo para ser o protagonista do feriado favorito do Estado Novo, para além do dinheiro ganha agora um prémio que nem nos seus mais desvairados sonhos teria imaginado alguma vez obter: a consagração oficial pelo regime em agradecimento dos serviços como verdugo do monstro Sócrates.
No espaço de uma semana, o actual Presidente da República mostrou habitar em duas realidades paralelas. Numa delas, jurou, pela sua honra, desempenhar fielmente as funções em que ficou investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa. Pela sua voz, com mais logos do que pathos, representou na plenitude esse juramento no local e momento adequados. Na outra, é o “Presidente Eleito pela TV” que está a utilizar o Estado para promover o programa onde actua o seu assessor para a cultura e a maior estrela mediática da oposição ao Governo e ao PS (RAP), é o “Presidente Rei” que utiliza a Constituição para se substituir ao Parlamento e forçar equilíbrios e desequilíbrios contranatura num semipresidencialismo que não concebe a Presidência como agente de disputa política, é o “Presidente Sol” que convoca o lastro salazarista do 10 de Junho, esse “dia da raça”, para oferecer à direita um comício onde o populismo será levado para o palco e donde se pedirá a cabeça de Sócrates numa bandeja, dessa forma se tentando condicionar o trabalho de Ivo Rosa e demais juízes que venham no futuro a decidir sobre a “Operação Marquês”. Marcelo Rebelo de Sousa entregou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas a um fulano famoso apenas por ser um pulha bem remunerado, não ostentando qualquer outro mérito conhecido, na comunicação social ou em qualquer área de actividade humana. Alguém que se vangloria de não ter de ler, nem estudar, nem investigar, apenas de ser habilidoso em dar aos ignaros o que os ignaros gostam de papar. O Presidente de Portugal, portanto, oferece-nos uma excelente ocasião para descobrirmos se somos filhos de boa gente. Se somos portugueses.
Vamos lá a saber
Quem é que gostavas de escutar?
«Leio, no Expresso, que "há 14 mil telemóveis sob escuta". Se cada um dos seus utilizadores tiver 15 interlocutores no período de tempo em que essas escutas estiverem ativas, haverá cerca de 210000 cidadãos que terão, sem o saberem, as suas conversas gravadas e, tantas vezes, ilegalmente publicitadas. Esta verdadeira devassa justificar-se-á pelos resultados obtidos na prevenção e investigação criminal? É a análise que está por fazer.»
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Não só essa análise está por fazer como nem sequer me parece a questão principal. Em Portugal temos agentes da Justiça que cometem crimes sistemáticos de violação do segredo de Justiça onde os conteúdos mais valiosos são precisamente aqueles obtidos em escutas e outras formas de violação da privacidade das pessoas apanhadas na máquina policial. A impunidade reinante é não só aceite como “normal”, aparece ainda defendida pelas próprias autoridades supremas da República para a anomia ser institucionalizada. O Presidente da República que ameaça fazer cair o Governo por causa das alterações climáticas, e que sai à rua em pijama se um ligeiro de passageiros vindo da Calçada da Ajuda amolgar a traseira de uma furgoneta do pão estacionada na Junqueira, está-se a marimbar para a criminalidade que enche de gozo e dinheiro a Cofina et alia. Joana Marques Vidal, interrogada sobre o número de violações ao segredo de Justiça e a incapacidade absoluta para sequer se descobrir quem as faz, riu-se e e declarou que não lhe parecia ser um assunto importante visto que os deputados não legislavam para tornar esse crime mais grave. O seu riso compreende-se e fiquei a admirá-la para sempre por ter conseguido responder sem se ter afogado em gargalhadas. É que o primeiro partido que sequer ameaçasse ir começar a pensar em tal seria acto contínuo esmagado pela indústria da calúnia, pelo sindicato dos magistrados e pelos restantes partidos que não iriam perder uma miraculosa oportunidade de ficarem ao lado do valente povo que não precisa de tribunais nem de leis quando as capas do esgoto a céu aberto fazem a verdadeira justiça: imediata, implacável e sem se perder tempo com os atrasos e recursos da bandidagem.
Mas pensemos. Se há agentes da Justiça que se sentem completamente à-vontade para entregarem a jornalistas informações que vão ser usadas para o sensacionalismo, os assassinatos de carácter e as campanhas negras, e isto apesar da notoriedade máxima dos casos, o que é que eles não farão em casos onde não há qualquer atenção mediática? Quão difícil será conseguir usar as polícias e a Justiça portuguesa para fazer espionagem empresarial, ou para satisfazer pedidos secretos de entidades criminosas estrangeiras? Se o Ministério Público não sabe quem é que faz dezenas ou centenas de crimes num processo que envolve um ex-primeiro-ministro, crimes que começaram ainda antes de haver arguidos constituídos, como poderá saber dos outros eventuais casos? Por exemplo, será que existe um mercado onde se podem encomendar escutas por particulares sobre particulares? E de partidos sobre partidos? Os factos sugerem que sim.
A extra ordinária Operação Marquês
Depois de 4000 páginas de despacho acusatório, 53 000 de investigação, 77 000 de documentação anexa, 8 000 de transcrições de escutas telefónicas, 13,5 milhões de ficheiros informáticos, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas, o que será mais extraordinário na “Operação Marquês”? Haverá respostas para todos os gostos, agendas e ódios, mas duvido que alguma ultrapasse em espanto e relevância esta: não se ter constituído como arguida Maria Adelaide de Carvalho Monteiro e não se ter constituído como arguido qualquer outro elemento dos XVII e XVIII Governos para além do respectivo primeiro-ministro. Isto é, as pontas da suposta investigação – que supostamente começou com a denúncia de dinheiro recebido da sua mãe por Sócrates na CGD e que terminou com uma acusação onde se diz terem existido supostos crimes cometidos em Gabinetes Ministeriais e Conselhos de Ministros – não constam no processo.
Algo similar aconteceu no “Face Oculta”. Num caso construído sem provas e baseado no relato em segunda mão de Ana Paula Vitorino, alegou-se que Mário Lino acedeu a um pedido ilícito de Vara mas o ex-ministro alegadamente cúmplice nem sequer foi constituído arguido. Porquê? Porque se calculou que, sem provas, sem prejuízo para o Estado, sem mais nada a não ser uma conversa que se diz ter existido com um certo sentido subjectivo, não seria possível fazer-se a Lino o que se ia fazer a Vara – nem se podia fazer a Vara alguma coisa sem por tabela Lino ter de levar igual ou até pior. O temor e tremor de acusar e prender um ex-ministro exclusivamente com provas indirectas e sem qualquer possibilidade de o relacionar com algum proveito material, ou outro, arriscava boicotar a vingança destinada ao asqueroso socialista que tinha ousado ir para o BCP como administrador depois do caos para onde o banco foi arrastado por Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto.
Num certo dia de um certo mês de 2013, Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal encontraram-se, a sós ou acompanhados por outros procuradores, e decidiram que era desta que o inimigo nº 1 da oligarquia portuguesa ia ser apanhado, linchado e enterrado. Nessa reunião, adivinho, tomaram decisões sobre a mãe de Sócrates e sobre os ministros e secretários de Estado ligados a Sócrates. Seria possível deter a frágil senhora, levá-la algemada para ser interrogada pelo Carlos Alexandre e de lá ter de mandá-la na ramona para uma prisão feminina qualquer? Isso causaria demasiado ruído mediático, correndo-se o risco de gerar antipatia contra a PGR e simpatia a favor de Sócrates. Pelo que se decidiu logo ali, imagino, que a pessoa que se iria apontar como tendo sido cúmplice principal de uma transacção fraudulenta no mais grave caso de suspeita de corrupção da História de Portugal iria ficar de fora do processo. E quanto às dezenas de ex-governantes que iriam ser apontados também como cúmplices de decisões supostamente vendidas por milhões vindos do Grupo Lena, do BES ou de quem a acusação se lembrasse de inventar? Idem, aspas, não haveria logística para serem investigados e nem tal era preciso, antes pelo contrário. A aventura seria triunfal mesmo que apenas decapitasse uma das cabeças da Hidra, a mais apetecida. Aumentar o número de arguidos com responsabilidades nos Executivos socráticos traria mais atrasos, mais dúvidas, mais riscos de se perceber que toda essa gente estava a ser presa para ser investigada, devassada e assassinada política e socialmente. Ter Sócrates como troféu de caça, mesmo que dali por não sei quantos anos ele acabasse condenado apenas por fraude fiscal, era só o que interessava garantir. A “Operação Marquês”, logo a partir da sua detenção para ser interrogado, iria ser a sua condenação instantânea sem ser preciso ficar dependente dos volúveis juízes. Os restantes alvos seriam atingidos por associação e contágio.
A “Operação Marquês” iria ser excepcional, algo nunca antes visto na Justiça portuguesa quanto aos recursos disponíveis e quanto ao caudal criminoso das violações do segredo de justiça e dos direitos fundamentais. A PGR só iria avançar se tivesse a certeza de conseguir blindar a acusação mesmo antes de se poder saber qual viria a ser o seu conteúdo. Aceitar arquivar o inquérito caso a investigação nada encontrasse não era uma opção. O suspeito teria de ser tratado como condenado a partir da sua constituição como arguido; a matéria de facto era um tópico quase indiferente, algo se iria apanhar de certezinha absoluta, e o trânsito do dinheiro já chegava para o gasto. O que importava era o simbolismo, o choque e pavor, a exibição da presa derrotada, ferida de morte. Para tal era necessário garantir não só a cumplicidade como a activa colaboração do juiz a quem competia a defesa das liberdades e garantias dos cidadãos. Carlos Alexandre era perfeito para esse papel de carrasco – e não havia alternativa, não havia risco de calhar um juiz que tivesse a mania de querer ser isento. O Ministério Público da santa Joana olhava à volta e via o Presidente da República, o Governo e a maioria parlamentar a pedirem acção impiedosa contra o monstro que os apavorava e que não admitiam ver como candidato à Presidência, via a comunicação social dominada pelos impérios da direita pronta para iniciar um fogo de barragem épico com a sua ubíqua indústria da calúnia, via o magistrado judicial responsável pelo Tribunal Central de Investigação Criminal a arder de desejo para ser a arma divina que limpa o mundo do pecado e dos políticos demoníacos, via um ano eleitoral a chegar para umas legislativas onde era preciso debilitar ao máximo um PS que tinha trocado o manso Seguro pelo bravo Costa. Era desta, 40 anos depois do 25 de Abril voltaríamos a poder assistir a um regime de excepção para julgar criminalmente opositores políticos.
É tentador ver na entrevista que Carlos Alexandre deu à SIC, em Setembro de 2016, o maior escândalo alguma vez protagonizado por um juiz em funções. Nela, ouvimos referências directas a um arguido num processo ainda sem acusação onde o próprio era juiz de instrução – ou seja, onde se tinha comprometido com o Estado a defender a Constituição e os códigos legais para respeitar os direitos desse mesmo arguido. Para além de ser o processo mais importante na história da Justiça portuguesa por estar em causa uma suspeita de corrupção sobre um primeiro-ministro, o registo usado para violar o dever de reserva a que os juízes estão obrigados misturava a intenção de publicitar a culpabilidade de Sócrates com o culto da sua augusta e proba pessoa de Mação, que ficava como bastião popular e rural contra os corruptos da elite e da cidade. Infelizmente, essa estouvada e torpe manifestação de soberba está longe do que é o supremo escândalo relativo à sua figura e papel na “Operação Marquês”. A suspensão do Estado de direito começou logo após a detenção dos suspeitos quando decretou a prisão preventiva de Sócrates e declarou ter pena de não poder impor uma pena ainda mais grave logo naquela fase inicial e sem sequer se saber quais os eventuais crimes em causa. Continuou com o prolongamento da prisão em Évora, concordando com Rosário Teixeira no deboche de se considerar demasiado arriscado passar Sócrates ao regime de prisão domiciliária sem o uso humilhante de uma pulseira electrónica – e isto apesar do Tribunal da Relação já ter excluído o perigo de fuga. Culminou com uma entrevista à RTP onde considerou uma farsa o sorteio informático que designou Ivo Rosa como o magistrado que liderará a fase de instrução criminal, assim despejando sobre todo o sistema da Justiça portuguesa uma calúnia maximamente agravada pelo seu estatuto. Pelo meio, conseguiu a mudança do Tribunal Central de Instrução Criminal do Campus de Justiça para as instalações da antiga sede da Polícia Judiciária, cuja leitura tanto pode ser vista como gesto político e/ou sintoma de paranóia, e ainda disparou ameaças genéricas para outros magistrados não identificados alertando ter uma excepcional memória. Last but not least, descobrimos que a relação com um certo amigo e o seu dinheiro, numa mixórdia de promiscuidades incríveis tendo em conta que ambos são magistrados, era um bocadinho diferente do que tinha apregoado na TV quando quis condenar na praça pública um cidadão à sua guarda.
A extraordinária responsabilidade, complexidade e cautela exigidos numa investigação com as consequências da “Operação Marquês” pedia um juiz com este perfil pacóvio, justiceiro, megalómano e estúrdio? Ao contemplarmos o modo como o seu desprezo pela Lei e pelos direitos de outrem foram validados pelo Conselho Superior da Magistratura, e ao percebermos que esse órgão é uma entidade corporativa onde a Assembleia da República e o Presidente da República se demitem estrategicamente da sua soberania quando há comunhão de vontades contra o bem comum, ficamos na posse de um retrato onde é todo o regime que apoia e protege Carlos Alexandre. Um retrato onde é cristalino o desprezo pela descoberta dos factos e a condenação dos eventuais criminosos, caso contrário jamais se deixaria de fora uma cidadã sem a cumplicidade da qual não teria existido a descoberta do crime (dizem eles), e ainda menos se deixaria sequer sem investigação as dezenas de governantes que tomaram decisões apenas para que Sócrates enriquecesse de modo ilícito (dizem eles). Em que outros casos cidadãos dados como coniventes em actos ilegais ficam impunes por causa da idade, sexo ou relação familiar com outros delinquentes? Por que raio a mãe de Sócrates, designada como a ponte entre Carlos Santos Silva e Sócrates para a lavagem de dinheiro vindo da corrupção, nem sequer como arguida foi constituída? E se o Ministério Público acha que existiu um Governo em Portugal que manipulou negócios de milhares de milhões de euros, envolvendo centenas de decisores entre responsáveis executivos, administradores bancários e accionistas da PT e do BCP, só para que um primeiro-ministro pudesse ir para Paris estudar e ficar numa casinha com um soalho ao seu gosto, como é que essa inominável e indescritível perversão da República Portuguesa fica sem investigação e condenação judicial?
A “Operação Marquês” nasceu de uma legítima suspeita a respeito da circulação de dinheiro usado privada e ocultamente por Sócrates, a qual teria de ser investigada necessariamente. Porém, a violação do Estado de direito marca os antecedentes e desenvolvimento da investigação, onde há igualmente legítimas suspeitas de espionagem ilícita sobre Carlos Santos Silva e Sócrates, legítimas suspeitas sobre abusos de poder no Ministério Público antes da abertura formal do processo, legítimas suspeitas sobre manipulação ilícita do sistema de Justiça de modo a garantir que fosse Carlos Alexandre a conduzir o processo até à acusação, legítimas suspeitas de actos criminosos cometidos pela equipa de procuradores de Rosário Teixeira ao violarem o segredo de Justiça, legítimas suspeitas da inexistência de integridade em Carlos Alexandre ao aceitar ser juiz num caso em que à partida já considerava culpado o arguido sem lhe conceder o direito a um processo justo. Tendo em conta que este caudal de violências foi festejado e reclamado como triunfo supremo por parte de Passos Coelho e Cavaco Silva aquando da campanha para a continuidade da sua Procuradora-Geral da República, a heroína a quem fizeram uma estátua de elogios e agradecimentos, fica evidente que a dimensão de linchamento e assassinato de um inimigo político não só supera como torna irrisória a dimensão judicial de se averiguar se um certo cidadão cometeu actos ilegais, seja lá qual for a sua gravidade. Neste sentido, a “Operação Marquês” é o maior triunfo da direita decadente desde o estabelecimento do Cavaquistão. Ver o PS e a esquerda a colaborarem com este festim sórdido e odiento exibe um regime onde é necessária a destruição de Sócrates por razões de Estado.
Para que serve o Estado de direito? A Netflix explica
No arneiro da Celeste

ARTV, por causa da crise (que é também deontológica) da imprensa e por causa da decadência da direita portuguesa, é o canal televisivo mais importante para a cidadania. Nele podemos ver e ouvir os protagonistas parlamentares, governativos, institucionais e qualquer cidadão com a obrigação de responder ao Soberano. Há muito e variado para descobrir sobre o centro político da República, e talvez o registo das comissões de inquérito seja o conteúdo mais valioso posto à disposição de todos na sua vertente documental. Por um lado, as questões tratadas nas comissões de inquérito são inerente e especialmente graves. Por outro, essa gravidade é inerente e invariavelmente palco de polémica e baixa política, quando não chicana ou pura canalhice. A radical diferença está em se dar tempo aos cidadãos na berlinda para se explicarem sem serem interrompidos – isto é, permite-se que se exerça o direito à palavra e ao bom nome.
Apesar da abundância de informação da maior relevância política, esperar que a programação e matérias deste canal suscitem sequer uma ensonada referência junto do bom e sofrido povo é do foro das patologias delirantes. Só jornalistas de política, outros políticos e uma mão-cheia de malucos (como aqui o pilas) é que aceitariam perder três horas, cinco minutos e trinta e dois segundos para descobrir o que foi dito na audição de uma senhora com vasto currículo ao serviço do CDS e do regime. As pessoas normais não o fazem, por excelentes razões: têm bem mais e muito melhor onde gastar o seu precioso tempo. Preferem pagar o preço de ignorarem voluntariamente o acontecimento, ou ficarem involuntariamente na ignorância por ninguém falar dele, ou levarem com interpretações distorcidas de fragmentos tirados do seu contexto. As pessoas normais, na normalidade de serem tratadas como borregos por uma comunicação social que na sua enorme maioria actua como extensão de partidos e grupelhos da direita (inclusive na RTP), fazem construções lógicas a partir de premissas maradas. Uma das ideias indiscutíveis mais populares, também porque difundida e festejada televisivamente por um ilustre Conselheiro de Estado braço-direito de um popularíssimo Presidente da República, é a de que Armando Vara foi condenado sem provas num processo de sucata&robalos para assim poder ser castigado pelo que esse ilustre Conselheiro de Estado declara que o bandido fez na CGD e no BCP. Será verdade que Vara era o “todo-poderoso” na CGD, capaz de dominar os restantes administradores e directores de forma a servir o seu mestre diabólico de nome Sócrates? Poderia alguma vez ter sido verdade esta demente fantasmagoria repetida de forma maníaca por bostas e papada por broncos?
Não era necessário esperar pela audição de Celeste Cardona para sabermos que uma pulhice é uma pulhice. Vamos na 2ª comissão de inquérito parlamentar à Caixa e ainda não apareceu ninguém que tenha deixado a menor das dúvidas acerca da legalidade e controlo administrativo dos processos internos, inclusive nas decisões de crédito no centro das explorações políticas. Aspectos questionáveis existiram, existem e existirão sempre neste banco e em todos no Mundo, mas um cenário de manipulação criminosa por um Governo socialista de uma entidade também nas mãos do PSD e do CDS é bojarda insana. Como explicar, então, que se continue a usar a calúnia para encher o espaço mediático dominado pela direita? Ouvir Celeste Cardona e depois ir à procura dos ecos e efeitos das suas declarações é uma lição a respeito do fenómeno. Os editorialistas, colunistas e políticos que andam há anos a berrar contra o alegado uso da CGD pelo PS de Sócrates para tomar o controlo do BCP ficaram calados. Naquilo que se chama a “opinião” não se inscreve o que Celeste Cardona jurou ter testemunhado e assumido. Problemazito: o que ela revela prova estarmos perante um crime, sim, mas não cometido por Vara. E não há quem se atreva a desmentir a sua palavra.
Quando à direita a política se reduz à mais obscena e raivosa calúnia, e quando à esquerda se pactua com essa calúnia por razões ideológicas (os bancos, o dinheiro, o capitalismo e os “falsos socialistas” não prestam, cantarolam PCP, BE e quejandos), esperaríamos do PS, o alvo sistémico, e do Presidente da República, o suposto garante da integridade da democracia e da decência na República, uma intervenção célere e corajosa na defesa do Estado de direito. Estão em causa as instituições Justiça e Parlamento, será coisa pouca? Acontece que Palácio de Belém, São Bento e Rato pretendem deixar que Vara e Sócrates continuem a ser linchados mesmo que se torne crescentemente patético tentar conciliar os interesses subterrâneos do regime com o princípio da razão suficiente. Aparentemente, neste momento todos os agentes políticos com fáctico poder ganham com este circo onde dois bodes expiatórios vão servindo para entreter a turbamulta e os profissionais da canalhice que a açulam. Resta, no espaço público onde somos comunidade, esse oásis da ARTV para qualquer um que prefira passear-se neste planeta sem ser enganado por aldrabões e seus patrões.
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Extroverts enjoy four key advantages according to science; here they are
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Serviço público
Rui Rio é estúpido?
Rui Rio quis liderar o PSD após a catástrofe económica e social da responsabilidade principal de Passos e Portas. Quis enfrentar o PS a governar num inaudito quadro de apoio parlamentar e com estrondoso sucesso económico e social, liderado eficazmente por António Costa. Não temos de conhecer as razões que o levaram a escolher este calendário, mas cresce a convicção de que a sua escolha nasceu de uma fraqueza. Arriscar o menos possível, ganhar o partido à primeira tendo este batido no fundo. E continuar sem nada querer aprender.
Na campanha eleitoral para o PSD e tempos seguintes, Rio pôde sentir na pele a colossal energia guerreira que a temática da Justiça armazena e espalha sistemicamente. Tal resulta de 15 anos de judicialização da política e de politização da Justiça que culminaram na “Operação Marquês”, uma investigação que se transformou em bandeira política reclamada oficialmente por Cavaco Silva e Passos Coelho. A mera expressão de avulsas e óbvias críticas ao Ministério Público de Marques Vidal valeu a Rio ataques ferozes da direita decadente, na qual se destacou Marques Mendes (em representação do regime) que chegou ao ponto furibundo de colar Rio a Sócrates – no que ficou como ostensiva, debochada, chantagem pública. Se Rio continuasse por esse caminho, arriscando pôr em causa o sucesso pleno da vingança em curso e a tentativa de atingir o PS com dano máximo, então iria ser destruído com base em difamações e calúnias.
A chantagem resultou. Aquele que era o maior trunfo de Rio, a manifestação de uma coragem singular numa sociedade cúmplice da violência que constitui a essência da “Operação Marquês”, foi abandonado, com isso perdendo a sua imagem de integridade e abdicando de construir um posicionamento político capaz de disputar o eleitorado mais comprometido com a decência e a segurança na cidade. Para as Europeias, escolheu um profissional da baixa política que fez uma campanha inane, sem qualquer ideia e a cuspir ódio sempre que abriu a boca. O próprio Rio assumiu a calúnia como arma eleitoral, destruindo de vez a sua credibilidade. Fez tudo exactamente ao contrário do que devia ter feito, perdeu uma ocasião histórica para deixar o seu nome na História.
Vem aí o Verão, as férias, os incêndios, e depois teremos umas semanas de berreiro partidário até às legislativas. A única coisa sobre o actual presidente do PSD que resta descobrir é esta: é estúpido ou apenas falho de inteligência política?
PANegírico
O equívoco daqueles que falam em equívoco no resultado do PAN está em pensarem que a fatia principal dos votos veio de pessoas com preocupações ecológicas. Desconhecendo qualquer estudo sociodemográfico e psicográfico sobre os 168.501 eleitores em causa, mas registando que o voto foi maioritariamente urbano, intuo que a motivação pode ser múltipla e convergente:
– Dependência afectiva e relacional de animais de estimação.
– Iliteracia e alienação política.
– Desejo de intervenção cívica.
Neste retrato imaginado não existe qualquer preocupação com a ecologia, muito menos a transformação dessa eventual problemática numa decisão eleitoral informada e analítica. A decisão de ir votar, e de votar no PAN, encontra antes a sua lógica e dinâmica como solução para a dificuldade cognitiva em assimilar as mensagens das restantes forças políticas e para a dificuldade emocional em suportar a retórica hostil, bélica, litigante que preenche obsessivamente os espaços de discussão e propaganda política.
Aposto também que o PAN terá conseguido contribuir para o aumento do número de votantes face às últimas eleições, sendo uma excelente opção para abstencionistas de longa data. A ser verdade, e independentemente da sua imprevista evolução interna e externa como partido com representação parlamentar, o seu papel no sistema partidário e no regime é altamente benéfico pois estará a formar eleitores. Eleitores que poderão mudar o sentido do seu voto numa qualquer outra ida às urnas, ou não, assim cumprindo perfeitamente o ideal democrático.
O julgamento de Nuremberga vai parecer uma brincadeira
«José Sócrates sempre foi muito próximo politicamente dos líderes socialistas da América Latina, como Lula da Silva e Hugo Chávez. Isso gerou oportunidades de negócio para as empresas portuguesas mas também gerou fortes suspeitas de corrupção internacional que têm sido detetadas nas investigações da Operação Marquês e do caso BES. O Brasil, Portugal e um futuro governo democrático na Venezuela deviam investigar essas ligações a fundo com uma equipa de cooperação judiciária especial?»
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O talibã está feliz da vida. Um juiz que judicializou umas eleições presidenciais para alcançar poder político, o qual acumula com ser ministro da Justiça de um presidente adorador de tiranos, voltou a Portugal para continuar a exibir o seu desprezo pelo Estado de direito. É isto que enche de alegria o talibã, poder abraçar-se ao seu ídolo e usá-lo para escoucear o princípio da presunção de inocência e fazer a apologia das perseguições políticas a partir da Justiça.
Como podemos ler acima, a direita decadente pode não ter votos mas tem uma utopia. Trata-se de montar uma força policial internacional onde Sócrates continue a ser linchado nos próximos 20 a 30 anos. Para já, o talibã apenas avança com a sugestão de reunir três países, mas é óbvio que está a ser modesto e que se podem juntar muitos mais. Basta ver a listagem das suas viagens ao estrangeiro como primeiro-ministro e depois incluir esses países, mais aqueles com que tenham fronteiras (porque os corruptos internacionais são uns saltitões, é uma chatice), na entidade judicial mundial que vai investigar Sócrates, Lula e Hugo Chávez (para este último bandido, a eventual sentença será aplicada por seres com asas e vestes imaculadamente brancas).
A madraça lá conseguiu mais um título para alimentar os seus borregos. Que teriam para dizer caso não fizessem da pulhice o seu modelo de negócio? Mistério que nenhuma coligação internacional, ou que fosse planetária, conseguiria desvendar.
Europeias 2019, o Pedro explica
"Ah, com certeza passaria a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Se pudéssemos todos, sem dinheiro, devolver salários, pensões, impostos e no fim as contas batessem todas certo, isso seria fantástico."
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Ou seja, apesar de ter aparecido na campanha do PSD para carimbar os socialistas como “ilusionistas”, arte onde o Pedro revelou ser mestre sem rival na campanha para as legislativas de 2011, às escondidas o saudoso líder andou a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Como explica na entrevista, estamos perante um milagre e há que pôr a cruzinha respectiva para o assinalar.
Agora só resta esperar que o Pedro volte daqui a uns meses para continuar a magnífica obra que antecipou logo em 2016. A direita está patrioticamente a tentar ajudar a governação e as contas públicas. A fórmula passa por se agarrarem ao Sócrates, ao Vara, ao Berardo, à CGD, aos familiares até ao décimo quinto grau, ao Carlos Alexandre, à santa Joana, aos cómicos engajados, assim evitando terem de sequer simular que possuem uma ideia, uma que seja, que mereça a atenção do eleitorado. E resulta, as pessoas compreendem e reagem em conformidade.
Como se gritou nos comícios onde o brilhante Paulo Rangel pôs a chicana e o ódio na ventoinha, número em que é especialista: “O povo não esquece que a culpa é do PS”. É isso, a culpa é do PS. ‘Tá feito. A direita, esta direita decadente, não precisa dizer mais nada para ajudar a malta. São uns queridos.
Revolution through evolution
Unlike men, women’s cognitive performance may improve at higher room temperature
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Discrimination against older people needs attention
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Study identifies dog breeds, physical traits that pose highest risk of biting children
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‘Imagine…’ – our attitudes can change solely by the power of imagination
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Walking and strength training may decrease the risk of dying from liver disease
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People in higher social class have an exaggerated belief that they are better than others
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Initially threatened by change, people adapt to societal diversity over time
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Um servicinho público
A série Teorias da Conspiração é um fenómeno. Quem perder o seu rico tempo a ler o pouco que saiu aquando do lançamento vai descobrir que a promoção pelo autor, realizador e jornalistas amigos prometia um vendaval de reacções políticas, especialmente por parte do PS. O tema indicado era o da crise que tinha levado ao resgate de emergência em 2011, tendo-se criado a ideia de ser esta série o espelho de uma investigação, um docudrama ou docuficção, a partir do livro de Paulo Pena Jogos de Poder. Muito bem, fixe, pensou o ingénuo telespectador e pagador de impostos.
Vem o primeiro episódio. O registo é de telenovela da hora de almoço. Estranheza inicial: não há nomes reais. Temos de tentar descobrir quem é quem através dos contextos, caricaturas, insinuações e convocação lateral ou analógica de factos históricos. Apesar das incertezas, algumas figuras são inquestionavelmente reconhecíveis: José Sócrates, Joe Berardo e Jardim Gonçalves. Resumo dos 40 minutos: Sócrates, Joe Berardo, CGD, Maçonaria e aquele que se revelará um psicopata assassino uns episódios à frente, sendo que neste já se exibe como assassino involuntário, conseguem afastar Jardim Gonçalves recorrendo a uma ameaça à sua vida; Jardim Gonçalves, apesar de ter feito umas merdas no BCP que cheiram mal, é uma pessoa seriíssima e com muito valor, tendo pegado em bancos falidos e criado o maior banco privado português. E prontos, estava despachada a primeira fatia de um bolo com 18 episódios.
Lá para o 7º ou 8º episódio, depois da confusão dos nomes alternativos e dos desvarios ficcionais ir em crescendo para quem não domine todas as cifras identificativas, faz-se uma luz, uma luz negra. Ocorre quando se atribui ao primeiro-ministro, o nosso Sócrates – já devidamente retratado como irascível, prepotente e maquiavélico em versão Chelas anos 80 – o caso das casas do Cavaco. Sim, descreve-se a trafulhice cavaquista mas retrata-se na personagem socrática o seu protagonismo. O mesmo se fez com o caso dos submarinos e até dos vistos Gold. Não só Sócrates aparecia como o vilão diabólico que absorvia e espalhava todo o mal da Nação como o calendário da ficção deixava de ter relação com o calendário real onde esses casos ficaram inscritos. Passava a valer tudo, assim se concretizando numa narrativa delirante a moral da perseguição e linchamento de Sócrates realmente operada política, mediática e judicialmente logo a partir de 2004.
O silêncio que se abateu sobre esta série merecia uma investigação académica. Por um lado, é uma homenagem à sua qualidade paupérrima como objecto televisivo de ficção. De facto, custa chegar ao fim quando estamos a ser ofendidos na nossa inteligência. Por outro lado, o silêncio manifesta a intenção do regime em condenar Sócrates à maneira do massacre dos Távoras. Assim, a administração da RTP não terá de dar a mínima explicação sobre os critérios que levaram à aprovação deste projecto e qual a razão para ter 18 penosos episódios. Para se entender o que está em causa, pensemos se seria possível fazer algo similar sobre o BPN ou os efeitos das políticas de Passos Coelho. A resposta é uma óbvia negativa, há nomes intocáveis. Porém, acerca de acontecimentos, casos e questões que estão em aberto, que são alvo de polémicas políticas, que não tiveram da Justiça o seu devido esclarecimento, pode-se achincalhar, deturpar, inventar e alucinar sem freio porque se trata de Sócrates e do PS.
Teorias da Conspiração é uma série criada para informar o público, de modo divertido, que existiu um primeiro-ministro que teve como cúmplice do seu plano mefistofélico de poder um advogado assassino, entre outros escroques. Os autores apresentam referências directas à realidade factual para comporem e ilustrarem a sua narrativa. A televisão pública comprou este projecto, promoveu-o, e fez com que apanhasse o calendário eleitoral e chegasse ao último episódio nas vésperas da votação para as Europeias. Fica cúmplice da sua natureza caluniosa e doentia – ou seja, faz de nós todos cúmplices da decadência moral e anomia da vingança em curso.