Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 695

Carles Riba – o «horror do êxodo» traduzido por Marta López Vilar

No dia 5 de Agosto de 1941 Carles Riba (1893-1959) escreveu em Montpellier a 12ª das «Elegias de Bierville» que tinha iniciado em 6 de Abril de 1939 na cidade francesa onde se refugiou depois da ocupação fascista da sua cidade natal de Barcelona. As outras elegias foram escritas em Bordéus e na Ilha de Adam, perto de Paris.

Carles Riba exilou-se com sua mulher (a também escritora Clementina Arderiu) em 1939 e a 1ª edição das «Elegias de Bierville» surgiu em Buenos Aires (1942) tendo a 2ª edição sido publicada em Santiago do Chile (1949).

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Vinte Linhas 694

México 1970 – mas Garrincha não estava lá

As recentes manifestações populares contra o anunciado encerramento da Linha do Oeste ao trânsito de passageiros (ficando apenas com as mercadorias) motivaram dois artigos de opinião no jornal «Gazeta das Caldas» – edição de 25-11-2011.

Como antigo utente habitual da Linha do Oeste desde os seis aos vinte e dois anos e sempre no percurso Caldas – Lisboa, fiquei interessado. Os dois textos são assinados por Dina Paulo e Paulo Vaz. A primeira recorda os comboios de Lisboa, já os inter-cidades, pejados de «estudantes, magalas e gente crescida que por lá trabalhava». O segundo refere em memória «os mágicos Pelé e Garrincha no Mundial do México de 1970».

Ora os jogadores brasileiros na final do Mundial de 1970 foram os seguintes: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Os quatro golos contra a Itália foram marcados por Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto. Fizeram parte da convocatória os seguintes jogadores suplentes: Ado, Baldochi, Dario, Edú, Fontana, Joel, Leão, Lima, Marco António, Roberto e Zé Maria. Garrincha não estava lá porque deixou de jogar em 1966 no Mundial de triste memória para o Brasil. Depois de vencer a Bulgária mas ter perdido Pelé por lesão (uma entrada violenta de Voutzov), o Brasil perdeu com a Hungria e, no jogo contra Portugal, o treinador colocou a jogar oito novos elementos que nunca tinham jogado juntos. Mas o pior foi ter apostado num Pelé ainda não recuperado da lesão do jogo com a Bulgária. O «tudo ou nada» não resultou nem podia resultar. Alguns palermas ainda hoje escrevem que Morais lesionou Pelé em 19-71966 quando Pelé já estava lesionado desde 12-7-1966. Mas isso é outra história.

Vinte Linhas 693

José Rodrigues Miguéis – abençoados os alfarrabistas do Metro e da CP

José Rodrigues Miguéis é um escritor hoje raro nas nossas livrarias. Fruto da disputa numa herança, livro como «A escola do paraíso», «Páscoa feliz», ou «Saudades para Dona Genciana» não se encontram por mais que se procurem. Em boa hora editou «O Independente» o livro «A amargura dos contrastes», um conjunto de crónicas inéditas em livro. Figuras como Raúl Brandão e Raúl Proença, Nikias Skapinakis e Jorge Barradas, a vida e a arte, o homem e a cidade, tudo nestas 173 páginas é o fascinante reencontro com um mestre da literatura portuguesa. Vejamos um excerto de 1928:

«Lisboa reflecte a nossa falta de ideias gerais, de humanismo, de mediana cultura estética, de preocupações superiores e a instabilidade dos nossos nervos. É, arquitectonicamente, a capital duma nação de saloios, analfabetos e medíocres. A Lisboa, claro está, posterior ao Pombal; porque a dele e a outra, a dos descobrimentos e conquistas, é uma lembrança e uma saudade apenas. À boçalidade, incultura, indisciplina e mau-gosto dos edis têm correspondido, em geral dignamente, os cidadãos formando, ao sabor dos seus caprichos, esse caos estético a que chamamos «bairros novos». A Lisboa moderna não saiu da imaginação de artistas, arquitectos ou engenheiros; nem seque o carácter, a sobriedade duma concepção geométrica, fria, científica, como a dos novos bairros populares das cidades da Alemanha. Foi cozinhada, um pouco com os mesmos temperos intelectuais não do liberalismo nem do republicanismo mas da exploração política, industrial, dessas correntes de opinião. Percebe-se uma íntima correlação moral entre a organização das mesas eleitorais e a da arquitectura urbana… Acampamento erguido à pressa por uma legião de construtores gananciosos, bárbaros, ignaros: os tomareiros!, a malta bestial de cabouqueiros guindados a orientadores da estética da capital, a ditadores da urbs nova!»

(Recolhido e divulgado por J.C.Francisco)

Vinte Linhas 691

Dissertação para o homem da bicicleta preta na Rua da Madalena

Trazes no rosto e misturas no teu olhar uma dupla inscrição. Simples e ingénuo, rústico e espontâneo, como a olaria que produzes na tua oficina. Tal como os obscuros artistas do barro em Niza e Miranda do Corvo, Barcelos e Estremoz, Guimarães e São Pedro do Corval, fazes sair da tua mão objectos de terracota, grés e argila, produtos a meio caminho entre a beleza e a utilidade, entre o prazer do olhar e a justa função. Há uma roda pedaleira que ninguém vê da porta da tua oficina debruçada sobre o Mar da Palha. Mas é essa invisível roda que imprime o movimento à massa ainda sem forma do barro em bruto. As tuas mãos ágeis, a tua paciência sem limites e a frescura da água – tudo isso se conjuga para desenhar, em alguns minutos, uma peça que, por ser única e irrepetida, se torna ainda mais valiosa.

Quando surges na Rua da Madalena na bicicleta preta, já não é a roda de madeira que te empurra para a festa do barro; é a roda metálica que te leva para a cidade com a tua mochila com peça novas em velhos jornais como os que o teu pai ajudou a construir. E o teu sorriso teima em acreditar quando à tua volta se ergue a desconfiança. Nos dias da cidade a Rua da Madalena é a Rua da Esperança. Mesma quando te chamo artesão resolves dizer que és apenas oleiro. E eu não acredito mas fico emocionado com a tua humildade. Porque para mim o oleiro é um artista como o tanoeiro, o ferreiro, o abegão, o homem do alambique, o poeta, o mestre do lagar de azeite. Todos levantam do chão da terra a massa informe das palavras e das coisas para erguerem uma peça útil, uma alegria, um sabor, uma canção. Como tu afinal, quando surges sem ninguém esperar, na bicicleta preta a descer a Rua da Madalena. Veloz e sorridente, a acreditar na vida que todas as manhãs nasce de novo no teu olhar.

Um livro por semana 265

«Já não vem ninguém» de Sidónio Bettencourt

Depois de «Deserto de todas as chuvas» e «A balada das baleias», Sidónio Bettencourt (n. 1955) surge com «Já não vem ninguém». O título do volume vem do poema homónimo que parte de uma solidão extrema («ninguém veio este ano com medo do mau tempo») e da metáfora de um mundo em desencontro («há muitos anos que já não vem ninguém») mas onde os elementos («o forno, a lenha, o lume, o calor») levam o homem a dizer uma esperança: «que a noite seja santa e o menino renasça numa manjedoura qualquer que o coração transporta».

O poema é a voz do homem entre a Ilha e o Mundo: «é aqui neste pequeno lugar de fajãs adormecidas e apelos escondidos que se sente o tamanho do mundo. E, Álamo de Oliveira, são jorge vista de cima é a exclamação do silêncio. O homem ali não passa de um sonho descalço». Porque o amor que liga as orações é o mesmo que cimenta os poemas: «quem não ama o lugar onde nasceu, a terra onde viveu, os sítios por onde passou?» Porque só no amor o homem se percebe em três gerações: a sua, a dos filhos (« Hoje sei o que é ser pai e ser pai, pai, dói muito») e a dos avós. Seja a avó Leonor («partiste numa tarde temperada de sol / levaste o beijo na terra e fugiste / sozinha») seja o avô Manuel Moniz («Nunca me deixaste olhar os meus olhos nas águas do poço de maré»).

A viagem é também uma forma de poema pois liga pontos separados pela distância e pelo esquecimento. Como Genuíno Madruga, solitário navegador do Mundo: «nunca saberemos quase nada do mundo que baila dentro de ti, nunca saberemos porque partes e chegas e chegado voltas a partir». Tal como a música colectiva: «trazem nos lábios o gosto da terra, nas mãos a arte das sementeiras e no andar a cadência de todos os rituais do silêncio. Caminheiros da devoção, ao sol, à chuva, ao vento». Mesmo sabendo que «partimos todos para lado nenhum», o avô («onde está o avô?») pode dormir descansado: «Estão todos encaminhados. Aprenderam que não há frutos sem trabalho, nem reconhecimento sem honra e humildade».

(Editora: Ver Açor, Prefácio: Daniel de Sá, Capa: Fernando Resendes, Design: Hélder Segadães)

Teu nome (sobre foto de Paulo Sousa)

Eu andei dois meses à procura

De uma chave capaz de decifrar

Teu nome em hebraico é amargura

E nada tem a ver com a voz do mar.

Oposto a Maria que vem de água

Teu nome vem da terra e das estradas

O hebraico marah fixa a raiz da mágoa

O peso dos soluços e lágrimas abafadas.

Noemi, sogra de Ruth, entra em Belém

Mas o seu nome sofre uma alteração

O Todo-Poderoso, Ele e mais ninguém

Trouxe nova amargura ao seu coração.

Como ela mudou o nome no momento

Tu podes desmentir o velho significado

Rejeitas o teu nome em pensamento

E levas as gotas de mar a todo o lado.

Vinte Linhas 690

As gralhas, as falhas e outras batalhas (a Joaquim Camacho)

Corria o ano de 1991 quando uma arreliadora gralha caiu numa crónica de Júlio Conrado publicada no Jornal de Letras: em vez de «minúcia» surgiu a palavra «música» a definir os Ingleses. Na crónica seguinte Júlio Conrado, com algum humor, desabafou: «Ainda se fosse o cricket, o golf, os cavalos, o Times, vá que não vá, mas agora a Música, My God!».

No passado dia 13 de Novembro o Diário de Notícias publicou na sua página 48 uma notícia e excertos de uma entrevista com a escritora Isabel Allende. Aqui já não será uma gralha no sentido mais clássico da palavra. Será outra coisa. No perfil da autora está escrito «É filha de Tomás Allende, funcionário diplomático e primo direito de Salvador Allende». No corpo da notícia lá está «Se Salvadro Allende defendeu o Chile com a vida, Isabel Allende, sua sobrinha, defende-o até hoje com as suas palavras». Temos aqui uma falha – a senhora não pode ser, ao mesmo tempo, prima em segundo grau e sobrinha. Filha de um primo significa «prima em segundo grau». Sobrinha é a filha de uma irmã ou irmão. É outra coisa.

No dia a seguir ao Portugal – Bósnia o jornal METRO publicou uma ficha do jogo com apenas 10 jogadores titulares mais três suplentes utilizados. A saber: Rui Patrício, João Pereira, Pepe, Bruno Alves, F. Coentrão, J. Moutinho, Raúl Meireles (R. Micael 63m), Miguel Veloso, Nani (Quaresma 83m), Hélder Postiga (Carlos Martins 84m). Faltou aqui o Cristiano Ronaldo; dito de outra maneira – alguém borrou a pintura. Porque ninguém leu de novo, porque é tudo à pressa e o serviço precisa de ser feito haja o que houver e custe o que custar. São gralhas, são falhas, são batalhas. Batalhas perdidas, claro. Porque até há uns senhores que dizem «então agora os computadores já fazem esse serviço de revisão». O triste resultado está à vista.

Um livro por semana 264

«Abitureiras – a Terra e o canto» de Alípio Canaverde

Este livro contraria o Boletim da Junta de Província do Ribatejo de 1940 que afirma na sua página 515: «Abitureiras – Folclore, Trajos e costumes – incaracterísticos». Em 1992 arrancou o Rancho Folclórico desta Freguesia e este trabalho escrito resulta da pesquisa efectuada na localidade junto dos habitantes mais antigos nos aspectos que dão título ao volume – A Terra e o canto. Ou seja: a memória de um tempo, a geografia e a história, o trabalho e o descanso, os costumes e as tradições, as refeições e os trajos: «A localização geográfica de Abitureiras aproxima-a de outras regiões, quer a Norte quer a Oeste. O contacto com estas zonas foi comum através da visita de vendedores ambulantes e trapeiros oriundos de Minde, Mira d´Aire e Alcobaça. Traziam consigo os mais diversos tecidos como os serrobecos, as mantas de tear e de lã, fazendas também de lã, chitas, lenços, xailes, riscados e popelinas».

De um lado a Terra e o trabalho: «Conseguir trabalho era uma busca constante. Percorriam-se estradas e carreiros, alqueives e cabeços, aldeias e os mais diversos lugares, na expectativa de o conseguir. Uns, conseguiam-no ao pé de casa, outros nas praças, outros ainda eram falados à porta, para trabalhar nos mais diversos locais, desde o Oeste até aos campos da Lezíria».

Do outro a Festa e o baile: «Num dos cantos da sala colocavam-se os homens e os rapazes; no outro as mães e as moças, estas sentadas à sua frente. Não se permitiam, assim, grandes contactos íntimos, resumidos estes à troca de olhares e à dança propriamente dita». Daí a canção: «A casa da brincadeira / É caiada até ao chão / Por causa das raparigas / É que os rapazes lá vão».

No meio, entre trabalho e festa, surge o canto que engloba os cânticos religiosos (no Natal e nas Romarias) e as cantigas ou danças: bailarico, fado, fadinho, vira, fandango, moda de roda, giraldinha, passo largo, moda de dois passos, xotiça e pas de quatre. Para quem pense o Ribatejo apenas como Lezíria e Charneca, aqui está o Bairro no seu devido lugar.

(Edição: Junta de Freguesia e Grupo Folclórico de Abitureiras, Prefácio: Aurélio Lopes, Pautas e textos musicais: Bertino Martins, Posfácio: Ludgero Mendes, Nota Prévia: Francisco Moita Flores, Nota Editorial: José Ilídio Fonseca Freire)

Balada da Serra de São Mamede

Ai que prazer estar pedido / Na Serra de São Mamede

Onde há sempre uma ribeira / Que só de olhar mata a sede

Onde há sempre um caminho / À espera de ser andado

E onde o branco das casas / Faz contraste no telhado

Ai que prazer estar perdido / Na Serra de São Mamede

Onde o relógio não corre / E pára se a gente pede

Onde o tempo dura mais / E o olhar tem amplitude

Onde o andar não desgasta / E o cansaço é mais saúde.

Ai que prazer estar perdido / Na Serra de São Mamede

Onde se pescam os sonhos / Sem ser preciso usar rede

Onde o sol mais se demora / Onde a luz chega mais cedo

Mas o peso do silêncio / Não se transforma em medo

Ai que prazer estar perdido / Entre Esperança e Nave Fria

Surgirá sempre um olhar / Capaz de dar luz de dia

A quem se perdeu na noite / Que envolveu seu coração

Mas se encontrou de novo / A caminho de São Julião.

Ai que prazer estar perdido / Entre Caia e os Mosteiros

Porque os fumos das chaminés / São os sinais mais certeiros

Duma vida mais junto à terra/ Mancha verde a multiplicar

Entre o apelo do Mundo / E o meu desejo de ficar

Ai que prazer estar perdido / Entre os Besteiros e a Parra

Para encontrar uma capela / Com o som de uma guitarra

Ai Serra de São Mamede / Grande desgosto que eu tenho

Não ser eu das tuas aldeias / Não ser também eu serrenho.

(JCF in Suplemento Fanal nº 16 de O distrito de Portalegre)

Vinte Linhas 689

Todos os sete leões de ontem jogaram nestes dois campos

Minutos depois do fim do jogo contra a Bósnia (e também contra uma repugnante equipa de arbitragem) lembrei-me desta imagem captada do velho jornal (1922) do Sporting Clube de Portugal. Já sem balizas e com os miúdos de malas aviadas para jogarem em Rio Maior (iniciados), Óbidos (juvenis) e Sarilhos Pequenos (juniores), os dois campos relvados eram uma saudade no momento do flash do repórter fotográfico. Não está assinada a foto; só por isso não refiro o seu autor. Mas voltemos ao jogo. Jogaram Rui Patrício, Miguel Veloso, João Moutinho, Cristiano Ronaldo, Nani, Ricardo Quaresma e Carlos Martins. Particularidade: todos os referidos sete jogadores andaram na escola de futebol do SCP e todos jogaram nestes dois relvados. No da esquerda vi o Carlos Martins fazer um jogo fantástico contra o União de Tomar, ainda juvenil já brilhava nos juniores. No da direita ouvi o queixume do Ricardo Quaresma, iniciado, no dia em que não foi o «10» mas sim o «16» porque ficou a tomar conta da pequenina irmã na Costa de Caparica. No da esquerda vi o Cristiano Ronaldo mandar o Fábio Ferreira para a frente enquanto ele facturava sem parar como segundo ponta de lança. No da direita vi o João Moutinho e o Miguel Veloso fazerem prodígios e ganharem todos os 28 jogos da época 1999-2000 (com 195-6 de saldo em golos) para no fim não os deixarem ser campeões nacionais de iniciados. Nos dois campos vi jogar e entrevistei Rui Patrício ao lado de Ruben Gravata (sorte grande/aproximação) e percebi a teimosia de João Couto em Luís Carlos Cunha (Nani) quando mais ninguém acreditava que os documentos de identidade iam aparecer. Ao pé desta emoção o jornal METRO hoje com uma equipa portuguesa com apenas dez jogadores é uma brincadeira de mau gosto. Esqueceram-se do Ronaldo…

Um livro por semana 263

«A escrita a postos» de Júlio Conrado

Júlio Conrado (n.1936) além de crítico literário é romancista, poeta e dramaturgo. Publica desde 1963 e neste livro da colecção «Ponte Velha» juntou a novela «Era a Revolução» (1977) e a peça de teatro «O corno de oiro» (2009) além de uma selecção de ensaios dos livros «Ao sabor da escrita» (2001) e «Nos enredos da crítica» (2006).

Começando por falar de si («Fiz crítica por puro prazer, sem nunca ter deixado de produzir ficção e até alguma poesia e teatro. Sempre me sussurraram que isso era contra-natura») Júlio Conrado acaba por criticar o trabalho dos lobbys que «criam uma relação espúria entre edição, televisão, jornais, prémios literários, saltando por cima da opinião crítica responsável, suplementos nos jornais onde a literatura é subalternizada pelo cinema, pelas exposições de artes plásticas, pela dança, etc, pouco cuidado e muitos equívocos na promoção de autores nacionais emergentes, racismo de idades, best sellers de nulidades que trabalham na televisão, coisas assim».

A novela «Era a Revolução» parte de uma discordância pessoal («Nós não acreditamos em indivíduos, acreditamos na História») e desenvolve-se no social: «manifestações em cadeia, petardos, tiros, greves, desavenças entre irmãos, ajustes de contas, velhos ódios de súbito acesos». Há por ali (1974-1975) muito oportunismo («O A. Perneta jamais pôs os pés numa assembleia sindical durante os fascismo») mas alguma esperança: «Odeio todos os déspotas. Por isso, os campónios, revejo-os de carabinas melancólicas nas mãos espiando a materialização da esperança – quem se recorda?»

«O corno de oiro» é uma comédia em 3 actos sobre o tema do marido enganado que junta sete figuras saídas de livros: Ana Karenina, Dom Casmurro, Madame Bovary, O amante de Lady Chatterley, Resposta a Matilde, O primo Basílio e Dona Flor e os seus dois maridos. Depois de recolher ensaios sobre John le Carré, Hélder Macedo, Jorge de Sena e Fiama Hasse Pais Brandão, esta miscelânea conclui: «Língua e literatura não são, todavia, batatas. A personalidade europeia conquista-se a partir da sábia gestão das diferenças e não de harmonizações mais ou menos congeminadas por burocratas nos gabinetes de Bruxelas».

(Edição: Escrituras Editora, Organização e prólogo: Florinao Martins, Capa: Carola Trimano, Direcção: Raimundo Gadelha)

Vinte Linhas 688

Dissertação para uma fotografia a verde e branco (a Mário Lino)

Em 1954 não havia já o Relvão da Doca mas o amor à camisola continuava na «mais bela pequena cidade do Mundo» – como escreveu, para sempre, o poeta Pedro da Silveira. Havia três clubes de futebol na cidade da Horta: Fayal Sport Clube, Atlético da Angústias e Sporting da Horta. A rivalidade no campo era uma semanal tempestade de emoções. Vejamos os nomes dos rapazes. No primeiro plano da esquerda para a direita: Manuel Lima, Fernando Morisson, João Rodrigues (cap.), Manuel Gaspar e Eduíno da Costa. No segundo plano e da esquerda para a direita: António Almeida, Manuel Maria, Josué Canário, João Cardoso; Antero Lino, António Jorge e Mário Baptista. Havia o atletismo, o hóquei em patins, o teatro, a música, os espectáculos de variedades. Cada figura uma história. Antero Lino é o irmão Mário tal e qual. Dois anos depois os dirigentes do Lusitânia compraram a carta de desobrigação de Mário Lino por 15 contos e Antero desejou-lhe felicidades num abraço apertado. As viagens eram de barco, tudo era longe e Mário Lino viria a desfilar na pista com o estandarte dos verdes de Angra na inauguração do estádio José Alvalade em 1956. Passada a Instrução primária da Horta, completado o Liceu em Angra, Mário viria para a Universidade de Lisboa. Universidade do futebol, entenda-se, com direito a pós-graduação, mestrado e doutoramento.

Que será feito dos sonhos destes rapazes de 1954? Entre emigração, cabo submarino, escritórios e oficinas, quem sabe da monotonia dos dias quebrada pelos desafios de domingo à tarde? Quem os guardou, quem escondeu os sonhos dos rapazes da camisola verde e gola branca? Onde está a Zézinha e as meninas do Liceu da Horta com os ramos de flores à espera dos campeões? Quem mandou o telegrama a anunciar que podem chamar as filarmónicas?

Um livro por semana 262

«Averbamento» de Paulo da Costa Domingos

Em 1986 assinei na Revista Seara Nova o artigo «Poesia Portuguesa anos 80 – algumas direcções» no qual me referia a Paulo da Costa Domingos e à sua poesia. Tal como em Asfalto, 4, Patchwork e Violeta Náutica, a sua poesia actual não hesita em chamar as coisas pelos seus nomes: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar, inscrever num partido/ arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder / estudar, casar, arranjar emprego».

Quem escreve «deportado pelo novo regime ortográfico» sente-se «expulso do coração da fala» e só pode repudiar as «Hordas despojadas de privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome / à espera de acolhimento / num patrão».

Quando o real não anda nem desanda («A igualdade não fez de nós / indivíduos: transformou-nos numa frota») então a única saída é quando «Julga-se que a lógica é / salvar os ricos e esperar/ que eles deixem cair / dos seus sacos a abarrotar / de dinheiro, algum / na praça pública.» Ou dito de outra maneira: «Talvez por decreto d´óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado.»

Impresso na cor e nas linhas do velho papel selado, o livro exercita um contraponto da prosa perante a poesia: «Pouco ou nula lealdade nos obrigamos ou nos é exigida fora de recintos (e selectivamente) como a pátria, o clube desportivo, o apego à família. As epidemias talvez passem ao lado: o emprego, garante máximo do futuro, resta assegurá-lo sem fazer ondas.»

(Editora: & etc)

Vinte Linhas 687

Dissertação sobre a memória dolorosa de um tempo que passou

Cheguei muito cansado ao alto desta calçada depois de uma manhã passada à procura de raridades na Feira da Ladra. São coisas que ajudam a entender uma certa memória do meu tempo de jovem. São revistas, programas de teatro, jornais, fotografias de artistas de cinema desse tempo, uma memória de papel. Recorto e colo em cadernos.

Mas há outras memórias. São fortes como quistos, são negras como papilomas, agarram-se à pele e fazem sofrer. Eu tinha sete anos de idade. Um dia na Rua da Verónica estava um grupo de rapazes a jogar à bola. Passavam poucos automóveis, era o tempo da II grande guerra, a gasolina estava racionada e havia táxis a gasogénio. Essa era a alcunha de um jogador que veio dos Açores para o Benfica e, visto ao longe, parecia um automóvel com o seu depósito de gasogénio. Era o Teixeira. Estava eu distraído com o jogo quando um polícia apareceu e me levou para a esquadra. Os miúdos foram dizer ao meu pai e, passados alguns minutos, lá apareceu ele. Identificou-se perante o agente da PSP que lhe fez continência e me deixou em paz. Não houve multa. O meu pai era militar de carreira e o polícia não quis alimentar conversas. Passado poucos dias eu cheguei à Escola e disse ao director: – «Bom dia senhor director!» A resposta da cavalgadura foi uma estalada que me deixou marcas no rosto até ao fim do dia. O canalha queria que eu fizesse a saudação nazi com o braço levantado. Era o tempo da guerra e aquele porcalhão era germanófilo. O meu pai soube do caso por uma vizinha mas não fez nada. Ao contrário do polícia (um pobre diabo) o director da Escola (um pulha) ficou sem punição. Hoje subo a calçada e olho para esses momentos dos meus sete anos com um repúdio feito de ódio, rancor e ressentimento. Não lhes posso perdoar.

Vinte Linhas 686

Kiki Lima – entre a esperança e o futuro

Num tempo e num mundo de grandes confusões e de pequenas perspectivas, o que este quadro de Kiki Lima nos propõe é algo insólito porque novo, inesperado e surpreendente.

Percebe-se o envolvimento. O homem velho está pregado ao sofá a olhar a televisão, o homem de meia-idade está pregado ao emprego instável, faz tudo para o não perder.

A menina é o tamanho de todas as esperanças e a janela de todos os futuros.

Do passado sobeja apenas o par de sapatos do pai, o pequeno ponto de ligação entre a geração da menina e a geração interior.

O futuro está nas suas mãos cheias de verde, na vontade convocada da menina, entre água e terra, entre as duas cores – a do vestido e a do horizonte.

As mãos da menina desenham os dias da esperança e o som do futuro, uma canção que se ouve – primeiro como rumor e depois como gramática de harmonia. É uma canção com palavras capazes de fazer acreditar e uma melodia que não se esquece facilmente.

É um caminho novo, não tem sinais nem rotas definidas, só os sapatos são antigos, tudo na menina e no seu olhar tem peso específico e é luminoso.

Ela avança em direcção ao futuro por um caminho de esperança. A cor das suas mãos é o verde e nada a detém. A esperança tem uma gramática que lhe é inerente no seu peso e espessura porque está articulada com um novo tempo que está a chegar.

Olho a menina. Os seus passos, entre a lentidão e a firmeza, são uma poderosa alegria convocada, uma praia azul onde o iodo faz milagres, uma terra nova onde o passado não tem lugar e só o futuro se justifica nos caminhos da manhã.

Vinte Linhas 685

As gralhas de Romana Petri e as outras (imagem de Carlos Silveira – A Horta antiga)

No livro «Que paisagem apagarás» de Urbano Bettencourt na página 20 pode ler-se «Quando me despedi de Johnson, ele falava ainda nos seus projectos, com um entusiasmo a que já não era totalmente alheia a garrafa de aguardente de figo posta à nossa disposição pelo senhor Amílcar (Romana Petri talvez preferisse um copinho de angélica como ela tontamente insiste em escrever).

A palavra correcta é angelica (com acento de pronúncia no «i») mas a senhora não compreende tal como não percebe a diferença entre sapateia e sapateira. Passadas algumas horas li um livro com algumas gralhas parecidas com as de Romana Petri. Vejamos algumas que não sabemos se são da autora se da revisora do livro:

Não se pode chamar bisavó a um homem, é bem bisavô. Não se pode escrever que as oliveiras são regadas, é absurdo. Não se pode confundir Coimbra com Canha – a localidade de Águas de Moura fica entre Setúbal e Canha. Não se pode escrever o povo aluiu, é bem o povo afluiu. Não se pode escrever Draco; o nome é bem Drago. Não se pode confundir opinião abalizada (competente) com avalizada (aval numa letra descontada).

Não se pode confundir o dia soalheiro (sol) com solarengo (de solar). Não se pode esquecer o itálico em sui generis. Não se pode esquecer que as bombas são usadas nos poços para tirar água, as outras bombas são da guerra. Os títulos dos livros e os nomes dos jornais devem aparecer em itálico.

Fiquemos por aqui. Dizem os pessimistas que um livro sem gralhas é como um jardim sem flores. Mas será mesmo?

Um livro por semana 261

«Linha de cabeceira – contos de Futebol» de Pedro Gomes

Manuel Pedro Gomes (n. 1941) foi jogador do Sporting Clube de Portugal ao longo de 17 anos e conquistou 3 Taças de Portugal, 3 Campeonatos Nacionais e uma Taça das Taças. Além do SCP treinou várias outras equipas: Académica, Oriental, Farense, Marítimo, União de Leiria, Os Belenenses e Rio Ave.

Ao publicar estes 11 contos de Futebol, estreia-se numa actividade diferente e embora a capa anuncie «Doping – Sexo – Corrupção» estas histórias também integram coragem, honestidade e esperança. Afirma o autor na pagina 45 «O futebol não se aprende nos livros» mas é pelo livro que passa a sua mensagem ao recordar histórias passadas. Por exemplo esta: «Quando um dos melhores presidentes que já tivemos te abordou, questionando-te se ao colocar-lhe juniores na equipa, os seniores correriam o risco de desmoralizar, podias ter evitado a resposta seca de que ele estava a passar-te um atestado de incompetência psicológica e de acrescentar: «Se o presidente queria ser treinador não precisava ter-me contratado».

Ou então esta: «A comunicação social é uma empresa e como tal visa o lucro, as notícias são direccionadas a um público-alvo que compra e lê o que lhe interessa. Os jornais são o biberão que alimenta o ego infantil e clubista dos fanáticos leitores. Nesta sociedade mercantilista é mais importante uma fofoca da vida do clube afecto aos sócios compradores que um feito notável a nível internacional de outro clube, cujos adeptos não compram esse jornal. Esta política economicista não está interessada em entrevistar aqueles que não vendem e quem não está na ribalta é completamente ignorado.» O herói do conto ouve uma adversativa séria: «Deves ir longe com esse cândido conceito de vida». Mas a história já circula por aí…

(Editora: Padrões Culturais, Capa: Nuno Pedro e Fernando Pedro Silva Gomes)

Vinte Linhas 684

A bota de ouro de Cristiano Ronaldo e a corrida de Aurélio Pereira

Horas depois da entrega da Bota de Ouro a Cristiano Ronaldo em Madrid cruzei-me com Aurélio Pereira na Quinta das Conchas. Nem a chuva lhe interrompeu a corrida. Parte do ouro da Bota em 2011 deve-se aos argumentos de Aurélio Pereira em 1997 junto de Simões de Almeida no Sporting. Tratava-se explicar a um vice-presidente que valia a pena apostar num miúdo de 12 anos em troca de um pagamento que o Nacional da Madeira tinha que satisfazer para com o SCP devido à formação desportiva de um jogador do Odivelas oriundo dos «leões». Outras pessoas tinham atestado a categoria do miúdo como Osvaldo Silva e Paulo Cardoso. O relatório é muito objectivo e aposta num caminho – inscrever. Outras pessoas tinham facilitado a sua vinda como o magistrado Marques de Freitas e o padrinho, senhor Fernão. Outras pessoas tudo fizeram para o acarinhar no Lar como Isabel Trigo de Mira, uma espécie de «mãe» dos meninos. Outras pessoas ajudaram a sua integração pessoal e desportiva num mundo mais complicado do que o meio madeirense de onde Cristiano Ronaldo era originário – como Leonel Pontes (não por acaso madeirense também) e Paulo Cardoso (que já o conhecia dos primeiros testes). Ambos dirigiam o Lar do Jogador em 1997. Havia alguns homens do futebol leonino que conheciam o valor do miúdo (Luís Dias, Mário Lino, Juca, Fernando Mendes e Alexandre Paiva) mas foi Aurélio Pereira que conseguiu demover a Direcção leonina a aceitar a permuta – receber um miúdo de 12 anos em vez de 5 mil contos. Mais tarde em Outubro de 1999 num jogo em Pina Manique, quando Ronaldo se sentiu mal devido a uma taquicardia, o enfermeiro Fontinha deu-lhe uma injecção e Aurélio Pereira estava junto do delegado Atanásio. Algum do ouro da bota de Ronaldo é trabalho de Aurélio Pereira.

Vinte Linhas 683

A casa, o rio e o campo na Ribeira de Santarém

O meu pai não tinha sandálias de vento mas, em 1957, pedalava na sua bicicleta noventa quilómetros semanais entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de ligeiros e pesados passando pelo Alto da Serra, Rio Maior e São João da Ribeira. Trazia batatas, pão e azeite na cesta da bicicleta preta e comprava chicharros no mercado da cidade. Queria poupar no custo das refeições e por isso não as comprava feitas – era ele próprio a cozinhar os almoços e os jantares no fogareiro do quarto cedido pelo dono da escola de condução ali ao lado do automóvel desmontado para as lições de mecânica. Tempos difíceis em que as mulheres da nossa aldeia guardavam os ovos das galinhas para os trocarem na mercearia do senhor Ernesto por açúcar, arroz, massa, café e sabão – ora azul para a roupa ora amarelo para o soalho.

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Vinte Linhas 682

Tomás frente ao jardim ao som de «La línea scura» de Ludovico Einaudi

Cabe no teu olhar uma herança invisível que é a de seres o filho mais velho, um pequeno pai para o teu irmão Lucas na permanente preocupação de que ele esteja sempre bem. Que nada lhe falte e nada o assuste – seja em casa, seja no jardim ou seja à beira do mar.

Tens apenas cinco anos, nasceste em 2006 e só agora em 2011 percebes o que é ser o irmão mais velho de alguém, essa obscura tarefa de infinitas preocupações e cuidados, esse trabalho invisível e sem horário pois não se entra às nove para sair às cinco da tarde. É para sempre.

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