Balada da Serra de São Mamede

Ai que prazer estar pedido / Na Serra de São Mamede

Onde há sempre uma ribeira / Que só de olhar mata a sede

Onde há sempre um caminho / À espera de ser andado

E onde o branco das casas / Faz contraste no telhado

Ai que prazer estar perdido / Na Serra de São Mamede

Onde o relógio não corre / E pára se a gente pede

Onde o tempo dura mais / E o olhar tem amplitude

Onde o andar não desgasta / E o cansaço é mais saúde.

Ai que prazer estar perdido / Na Serra de São Mamede

Onde se pescam os sonhos / Sem ser preciso usar rede

Onde o sol mais se demora / Onde a luz chega mais cedo

Mas o peso do silêncio / Não se transforma em medo

Ai que prazer estar perdido / Entre Esperança e Nave Fria

Surgirá sempre um olhar / Capaz de dar luz de dia

A quem se perdeu na noite / Que envolveu seu coração

Mas se encontrou de novo / A caminho de São Julião.

Ai que prazer estar perdido / Entre Caia e os Mosteiros

Porque os fumos das chaminés / São os sinais mais certeiros

Duma vida mais junto à terra/ Mancha verde a multiplicar

Entre o apelo do Mundo / E o meu desejo de ficar

Ai que prazer estar perdido / Entre os Besteiros e a Parra

Para encontrar uma capela / Com o som de uma guitarra

Ai Serra de São Mamede / Grande desgosto que eu tenho

Não ser eu das tuas aldeias / Não ser também eu serrenho.

(JCF in Suplemento Fanal nº 16 de O distrito de Portalegre)

7 thoughts on “Balada da Serra de São Mamede”

  1. Livro de Poemas do Rodela:
    Introdução:
    Aproveitei estes versos do livro que o Rodela anda a escrever e com autorização dele para os publicar aqui no meu blogue. São vários, por isso seleccionei alguns. Também aproveito para publicar o prefácio que serve como uma luva ao autor dos versos. O Rodela merece que seja publicado para memória futura dos Freamundenses.

    Prefácio

    Foi com gosto e assaz prazer que aceitei o desafio para escrever o prefácio do livro a sina dum revoltado, do poeta Rodela. E considero um desafio porque, depois de vários livros editados e prefaciados por pessoas que privam de perto com o autor e que o conhecem de outras andanças, será difícil ser original e não cair na repetição. Assim sendo, escreverei através dos seus versos convicta de que, desta forma, traçarei um retracto perfeito deste homem por muitos conhecido e que para mim é o Toninho da Sra. Esmeraldina, pois foi assim que o conheci e é assim que continuará a ser.
    Segundo os cânones literários o autor encaixa-se na categoria de poeta popular, e é como o próprio se define: “sou um poeta do povo, \ escrevo só o que gosto” (Escola da Vida, 1988, p.10). Será esta característica fulcral que faz dele um poeta peculiar e que confere à sua escrita originalidade e a individualidade do eu encanto escritor / poeta e que o coloca ao serviço da criação artística.
    O Toninho que eu conheço é um homem singelo mas de ideias inabaláveis «quem me dera mostrar, em cada quadra, /O sangue derramado que contém / O ideal por quem quero combater!” (Labaredas, 1992, p.34, é um Homem que não esquece os seus sonhos que transforma em poesia “A poesia é o sol da minha vida / que me alimenta a alma dia a dia.” (A sina Dum Revoltado, 2010). É pelo sonho e em sonho que ele caminha “Dediquei sempre aos meus sonhos /os momentos mais risonhos, / que esta vida me ofertou, /e nunca me arrependi…” (O solar dos oprimidos.2007, p 63). O Toninho é um lutador, por isso é frequente os seus poemas versarem temas de caris social em que o autor nos mostra a sua visão do mundo e a sua posição face ás desigualdades e á injustiça “Um bocadinho de pão /Dado ao pobre em pequenino, /Poderá ser a razão /de ser pobre o seu destino.” Labaredas 1992, p.20), “Quanta camisa lavada /encobre a fome malvada / dum bocadinho de pão.”O solar dos oprimidos, 2007, p.64). “na hora de repartir,/Tanta gente a dividir /o suor do camponês.”Escola da Vida, 1988, p.40) É, também, através das suas palavras que o autor mostra a sua pertença a uma poesia popular de que muito se orgulha e de que se alimenta”A fome espiritual /é fruto duma paixão /que mesmo sendo infernal / não se mata só com pão,”Nacos de vida, 1977, p.28), assim, a sua poesia é a liberdade da palavra transformada em poema, é um desfiar de pequenas grandes coisas que despertam no leitor o desejo insaciável de prosseguir a leitura e de senti-lo presente”Hei-de estar sempre presente / Nos versos do meu conforto /Ao lado da minha gente \ quer esteja vivo ou morto.” (A sina dum revoltado, 2010)
    A sina dum revoltado é, uma vez mais, o desabafo de um Homem que não se resigna e se mantém fiel aos seus princípios e valores e que não se sente intimidado pelos valores dos outros. Permito-me terminar este prefácio com a citação de uma estrofe do poeta Miguel Torga que, apesar de não ser um poeta popular, se tornou popular entre os portugueses e que me ajuda a definir o nosso poeta:

    E apesar de tudo, sou ainda o Homem,
    Um bípede com fala e sentimentos!
    Ao cabo de misérias e tormentos,
    Continua
    A ser a minha imagem que flutua
    Na podridão dos charcos luarentos!
    (in O cântico do Homem, inventário)

    Um bem-haja ao Toninho e que continue, pois “Os poemas não morrem, são Nacos de alma.”
    Carminho

    “A sina dum revoltado”

    A sina dum revoltado
    Não é mais que a minha sina,
    Por sempre ter renegado
    Aceitar uma doutrina.

    Eu também tive uma mãe
    E que bem que me educou.
    Até fez de mãe e pai,
    Mas o fruto não vingou.

    Pelas suas próprias mãos
    Ninguém se faz, meus irmãos,
    E eu nasci p’ra ser assim:

    Acompanhado ou sozinho,
    Deixem-me ir p’lo meu caminho,
    Não tenham pena de mim!

    “As sombras do nada”

    Gostava de cavar a sepultura
    onde eu hei-de viver eternamente!
    Desinfectá-la bem com aguardente,
    que é o perfume da minha criatura

    Mas não tenho dinheiro, nem vontade,
    p’ra comprar e matar os meus desejos!
    Ela só é de borla p’ros despejos
    não contaminarem a caridade.

    Só lá serei burguês, como os burgueses,
    quer sejam Espanhóis ou Portugueses,
    Nada me vai faltar, nada preciso.

    Nem de missas tão pouco! Nada! Nada!…
    Vai-se entreter comigo a bicharada,
    De mim não vai sobrar nem o juízo.

    “Minha vida de versos”

    A poesia é o sol da minha vida,
    que me alimenta a alma dia a dia.
    Traz-me a paz e os momentos de alegria
    nas horas mais difíceis desta lida.

    Cada verso que eu faça é uma luz
    que vem iluminar o meu caminho,
    que não passa dum espaço dum cantinho
    onde eu vou carregando a minha cruz!

    Dou tudo quanto tenho de melhor
    p’ra matar a paixão da minha dor,
    nem que p’ra isso tenha que puxar

    as orelhas às musas desta fonte,
    p’ra que, depois de mim alguém vos conte
    os versos que eu ao mundo vim cantar!

    “À roda desta fogueira”

    Nunca ninguém vai julgar
    meus versos à revelia,
    enquanto o mundo pagar
    os luxos à burguesia.

    Hei-de estar sempre presente,
    nos versos do meu conforto,
    ao lado da minha gente,
    quer esteja vivo ou morto.

    E deixem os cães ganir
    que vão deixar de se ouvir
    no dia em que o povo queira.

    Depois vai ser uma festa
    vê-los andar ao que resta
    à roda desta fogueira.

    “Este dom que Deus me deu”

    Fundiu-se no meu pedaço
    este dom que Deus me deu,
    mas cada verso que eu faço
    tem sempre um pouco de meu.

    É nos braços da loucura
    que vivo a cada momento
    e os versos são a doçura
    que me atenua o tormento.

    Quem nasce versejador
    não passa dum sofredor
    como o Deus crucificado.

    Versejador que se veja
    só na cantiga da igreja,
    não passa dum pau mandado.

    “A força do vinho”

    As minhas musas são as canequinhas,
    sejam de branco ou tinto, pouco importa,
    embora o branco fique sempre à porta,
    desde que do tinto haja umas pinguinhas.

    Se deixo de beber, ando doente!
    E, às vezes, as saudades já são tantas,
    que eu , só , bebo por mil e uma gargantas
    e aí eu já não sou tão exigente.

    Com vinho, saro as mágoas da amargura!
    Com vinho, vejo o sol na noite escura!
    E, com vinho, dou asas à caneta!

    Sem vinho, sou um ser mais que apagado
    sem vinho ,sou um pobre complexado!
    Sem vinho, se sou não seria poeta!…

    “Sermões do Aleixo”

    Aleixo, poeta de Deus,
    meu irmão e do demónio,
    valem mais dois versos teus
    que o mundo e o seu património.

    Quem contigo canta, amigo,
    já mais deixa de cantar!
    Traz-te no peito consigo
    enquanto a vida durar.

    Inspirado nos teus versos
    é que vou cavando os terços
    para as minhas orações.

    E quando tenho vagar,
    passo os dias a pregar
    os teus bonitos sermões.

    “Caminhos da liberdade”

    Sou de Maio, sou de Abril,
    sou do povo e sou Manel,
    bebo por este cantil
    e só a ele sou fiel.

    Corro atrás deste ideal
    como o Adão p’ro paraíso.
    Só que ele portou-se mal,
    mas eu tenho mais juízo.

    Deixem passar quem deseja
    não os empurrem p’ra igreja
    só porque querem passar.

    Se não sujeitam-se, um dia,
    a ter a igreja vazia
    e Abril com medo de entrar.

    “P’lo concelho de Freamunde”

    Lutem por este concelho!…
    Nem sequer por brincadeira
    se vejam mais ao espelho
    do de Paços de Ferreira.

    E p’ra quem cá do torrão,
    deseje lá pertencer,
    acho bem!…Mate a Paião,
    mas que vá p’ra lá viver.

    São horas da gente dar
    As mãos e virmos lutar
    Por muito que vá doer!

    Aos «Vasculhos» cá da terra:
    é p’lo concelho esta guerra
    e vamos ter que a vencer.

    “Deixem o Rodela em paz”

    Deixem o Rodela em paz
    neste canto de ninguém,
    porque ele não é capaz
    de prejudicar alguém.

    Tudo o que ele quer, na terra,
    é que todos tenham pão
    e se ponha fim à guerra
    entre o sério e o ladrão.

    Por causa destas figuras,
    é que o mundo, criaturas,
    continua a ter patrões.

    E todos sabemos bem
    que ele não é de ninguém,
    mas vai sendo dos ladrões.

  2. Um abraço Manuel Pacheco, seja bem aparecido! Todos os pretextos são bons para divulgar a poesia da nossa terra. Obrigado!

  3. Que coisa mais feia a forma visual como este teu poema surge no post, jcf. Espaçamento duplo e barras oblíquas em vez de mudança de verso… Era suposto sair assim? Lembro-me que, no início, era o primo que publicava as tuas entradas. Isso mantém-se? Em caso afirmativo, isso é ainda mais grave pois já seria tempo de aprenderes a mexer com o Worpress, caramba. Vê lá isso, jcf.

  4. Peço desculpa ao João Pedro e a todos mas foi erro meu. Para não fazer um texto mais extenso e pensando que ia resultar fiz assim. Não repetirei o erro crasso. JCF

  5. Um purista das barras oblíquas dá-te uma porrada e tudo por causa do melhor poema que aqui publicaste até hoje. Mesmo tendo em conta que é uma porrada estética e internética que ganda galo oh JCF! Afinfa-lhe com um daqueles insultos com que me costumas brindar, a mim e a mais o anonimo e a mais os outros que te dão na tola quando mereces. Porque hoje não, não é o caso. Agora vou-me embora. Já comi a canjinha. Vou dar corda aos calcantes rumo ao B.B. e depois ala para Alcântara que é sexta-feira e noite da terceira idade. Adeusinho oh Francisco que hoje foste injustiçado.

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