Vinte Linhas 686

Kiki Lima – entre a esperança e o futuro

Num tempo e num mundo de grandes confusões e de pequenas perspectivas, o que este quadro de Kiki Lima nos propõe é algo insólito porque novo, inesperado e surpreendente.

Percebe-se o envolvimento. O homem velho está pregado ao sofá a olhar a televisão, o homem de meia-idade está pregado ao emprego instável, faz tudo para o não perder.

A menina é o tamanho de todas as esperanças e a janela de todos os futuros.

Do passado sobeja apenas o par de sapatos do pai, o pequeno ponto de ligação entre a geração da menina e a geração interior.

O futuro está nas suas mãos cheias de verde, na vontade convocada da menina, entre água e terra, entre as duas cores – a do vestido e a do horizonte.

As mãos da menina desenham os dias da esperança e o som do futuro, uma canção que se ouve – primeiro como rumor e depois como gramática de harmonia. É uma canção com palavras capazes de fazer acreditar e uma melodia que não se esquece facilmente.

É um caminho novo, não tem sinais nem rotas definidas, só os sapatos são antigos, tudo na menina e no seu olhar tem peso específico e é luminoso.

Ela avança em direcção ao futuro por um caminho de esperança. A cor das suas mãos é o verde e nada a detém. A esperança tem uma gramática que lhe é inerente no seu peso e espessura porque está articulada com um novo tempo que está a chegar.

Olho a menina. Os seus passos, entre a lentidão e a firmeza, são uma poderosa alegria convocada, uma praia azul onde o iodo faz milagres, uma terra nova onde o passado não tem lugar e só o futuro se justifica nos caminhos da manhã.

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