Vinte Linhas 687

Dissertação sobre a memória dolorosa de um tempo que passou

Cheguei muito cansado ao alto desta calçada depois de uma manhã passada à procura de raridades na Feira da Ladra. São coisas que ajudam a entender uma certa memória do meu tempo de jovem. São revistas, programas de teatro, jornais, fotografias de artistas de cinema desse tempo, uma memória de papel. Recorto e colo em cadernos.

Mas há outras memórias. São fortes como quistos, são negras como papilomas, agarram-se à pele e fazem sofrer. Eu tinha sete anos de idade. Um dia na Rua da Verónica estava um grupo de rapazes a jogar à bola. Passavam poucos automóveis, era o tempo da II grande guerra, a gasolina estava racionada e havia táxis a gasogénio. Essa era a alcunha de um jogador que veio dos Açores para o Benfica e, visto ao longe, parecia um automóvel com o seu depósito de gasogénio. Era o Teixeira. Estava eu distraído com o jogo quando um polícia apareceu e me levou para a esquadra. Os miúdos foram dizer ao meu pai e, passados alguns minutos, lá apareceu ele. Identificou-se perante o agente da PSP que lhe fez continência e me deixou em paz. Não houve multa. O meu pai era militar de carreira e o polícia não quis alimentar conversas. Passado poucos dias eu cheguei à Escola e disse ao director: – «Bom dia senhor director!» A resposta da cavalgadura foi uma estalada que me deixou marcas no rosto até ao fim do dia. O canalha queria que eu fizesse a saudação nazi com o braço levantado. Era o tempo da guerra e aquele porcalhão era germanófilo. O meu pai soube do caso por uma vizinha mas não fez nada. Ao contrário do polícia (um pobre diabo) o director da Escola (um pulha) ficou sem punição. Hoje subo a calçada e olho para esses momentos dos meus sete anos com um repúdio feito de ódio, rancor e ressentimento. Não lhes posso perdoar.

9 thoughts on “Vinte Linhas 687”

  1. oh meu! andas armado em deolindo do estado novo? vai aldrabar para outro lado, se nasceste em 1951 e se tinhas 7 anos como apregoas, a treta que cantas, a ser verdadeira, tem uma década adiantada e nos capítulos anteriores o teu pai era motorista da pide.

  2. Não dá para perceber, amigo Zé. Isto é ficção ou História? Fomenko não é de certeza e o vento não bate assim. O texto, apesar de dogmático e generalizante, está muito bonito e cheio daquela simplicidade que agrada a quase toda a gente e a alguns brutos como eu. E digo “brutos” porque conheço dezenas de catraios desses tempos e nunca nenhum deles me contou ter levado assim um tabefe sem mais nem menos, mais a mais depois dum bom-dia, de canalhas e cavalgaduras à espera de saudações nazis.

    Mais cruz, menos cruz, mais foice menos martelo, a pintura podia ter saído dum kolkos ou dum kibutz. Coisas que os políticos aprenderam com a Coca Cola e a General Motors.

  3. Caro amigo Kalimatanos – dá para perceber porque se trata de um texto meu sobre uma realidade de outra pessoa. O meu livro «Os guarda-redes morrem ao Domingo» está todo escrito na primeira pessoa do singular e eu nunca joguei futebol. E não tinha 7 anos em 1942…Um abraço JCF

  4. efabulações de um deolindo com umbigo tipo 7 cidades, pouca freguesia e mal aconselhado. podias fazer uma join venture com o kamandros, cagas umas postas, o teu amigo do peido transforma em metano e vendem à cristas para iluminar o ministério.

  5. E o Sporting lá foi buscar 800 mil dólares por um saco de 4 bolas, a Angola.

    Dizem alguns “pretos” que continuam a ser explorados pelos “brancos”.

    Na realidade o sporting do angolano Peyroteo na faria a figura que fez agora com aquele avançado…como se chama mesmo?

    Por essas e outras, tornei-me ateu.

    Eu tinha 7 anos em 1945 quando caiu a Bomba Antonia, era assim que os garotos ouviamos.

    Nesse tempo se um director da escola, eu só conhecia a professora que me puxava as orelhas aquela sacana, se esse director me batesse queixava-me a Cristo, A Salazar ou ao Carmona que estavam na parede da escola.

    Mas essa criança vítima do faxismo com essa idade, com tal curriculo deve ter chegado longe na vida.

  6. Caro consócio – diplomacia oblige. Eu estava lá em Alvalade quando aconteceu aquela vergonha (para eles, claro) do jogo Portugal-Angola. Foi das coisas mais repugnantes que vi em tantos anos de futebol de 1988 a 2006. Naquele tempo não havia faxes por isso não havia faxismo – havia sim fascismo a sério que eles não brincavam em serviço. Veja-se José Dias Coelho e Humberto Delgado por exemplo.

  7. Caro consócio, lembro-me daquelas cenas daquele jogo em Alvalade, embora andasse por outras paragens.

    Mas o Sporting, e Benfica evidentemente, era e penso que ainda é um clube muitissimo respeitado por aquelas paragens, e é uma vergonha sujeitar-se a goleadas seja em Luanda ou Madrid ou Barcelona.

    Sobre o fascismo sei o que era o salazarismo e não confundo alhos com bogalhos.

  8. História interessante e caraterizadora de uma época que pensava longe de se repetir.
    Claro que há canalhada que nunca andou obrigatorimanete de farda com 10 anos de idade, a quem o braço estendido em continência não diz nada, que até defende a política do “bico calado que aqui mando eu”, que reclamam pelo Otelo falar em golpes de estado, mas não reclama com os que foram dados na Grécia e na Itália, enfim…
    Quanto ao fascismo que era diferente do salazarismo, geralmente vem de gente que nunca teve familiares em Peniche, para quem o Tarrafal seria uma colónia de férias, que pensa que ordenar aos pobres militares que na India se viram com mausers, lee-enfields ou metrelhadoras dreyse para afrontar aviões e carros de combate receberem ordens de combater até ao último cartucho e que no regresso foram apelidados de cobardes e traidores, que as pessoas que caíam de janelas ou eram assassinadas pelos esbirros da Pide só levavam por não terem estado quietos, que a exoneração sem direito a pensão de diplomatas, militares e funcionários públicos era coisa de pouca monta, que a repressão policial que se abatia sobre a população nas cidades e da GNR nos campos, com mortos e estropiados são contos da carochinha.
    Talvez se esqueçam que nos países onde os mortos foram superiores e as vítimas mais abundantes, existiram guerras, umas civis outras de ocupação.
    Tentar dar um banho de cal ao fascismo nacional apelidando-o de salazarismo é o mesmo que dizer que a DGS era diferente da PVDE.

  9. Meu Caro Teófilo tem toda a razão mas os meus comentários são contra o branqueamento – o maluco não conta para o totobola. Os outros comentadores escreveram faxismo e eu logo espingardei – não esqueço o quadrilátero da vergonha – Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal. Ainda há pouco tempo num texto sobre o Horóscopo de Delfos se falou nisso – pessoas que caíam à rua das janelas das casas.

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