Um livro por semana 265

«Já não vem ninguém» de Sidónio Bettencourt

Depois de «Deserto de todas as chuvas» e «A balada das baleias», Sidónio Bettencourt (n. 1955) surge com «Já não vem ninguém». O título do volume vem do poema homónimo que parte de uma solidão extrema («ninguém veio este ano com medo do mau tempo») e da metáfora de um mundo em desencontro («há muitos anos que já não vem ninguém») mas onde os elementos («o forno, a lenha, o lume, o calor») levam o homem a dizer uma esperança: «que a noite seja santa e o menino renasça numa manjedoura qualquer que o coração transporta».

O poema é a voz do homem entre a Ilha e o Mundo: «é aqui neste pequeno lugar de fajãs adormecidas e apelos escondidos que se sente o tamanho do mundo. E, Álamo de Oliveira, são jorge vista de cima é a exclamação do silêncio. O homem ali não passa de um sonho descalço». Porque o amor que liga as orações é o mesmo que cimenta os poemas: «quem não ama o lugar onde nasceu, a terra onde viveu, os sítios por onde passou?» Porque só no amor o homem se percebe em três gerações: a sua, a dos filhos (« Hoje sei o que é ser pai e ser pai, pai, dói muito») e a dos avós. Seja a avó Leonor («partiste numa tarde temperada de sol / levaste o beijo na terra e fugiste / sozinha») seja o avô Manuel Moniz («Nunca me deixaste olhar os meus olhos nas águas do poço de maré»).

A viagem é também uma forma de poema pois liga pontos separados pela distância e pelo esquecimento. Como Genuíno Madruga, solitário navegador do Mundo: «nunca saberemos quase nada do mundo que baila dentro de ti, nunca saberemos porque partes e chegas e chegado voltas a partir». Tal como a música colectiva: «trazem nos lábios o gosto da terra, nas mãos a arte das sementeiras e no andar a cadência de todos os rituais do silêncio. Caminheiros da devoção, ao sol, à chuva, ao vento». Mesmo sabendo que «partimos todos para lado nenhum», o avô («onde está o avô?») pode dormir descansado: «Estão todos encaminhados. Aprenderam que não há frutos sem trabalho, nem reconhecimento sem honra e humildade».

(Editora: Ver Açor, Prefácio: Daniel de Sá, Capa: Fernando Resendes, Design: Hélder Segadães)

2 thoughts on “Um livro por semana 265”

  1. “A morte do camponês”

    Sentindo o camponês a morte já no peito
    os filhos reuniu em volta do seu leito
    e em tom grave lhes diz: Meus filhos vou morrer…
    Os anos que vivi, vivi-os sem viver,
    pois desde que nasci que outra coisa não faço
    do que amanhar a terra e ao esforço do meu braço
    qual a compensação?… se pela vida fora
    só canseiras ganhei, as que vos deixo agora!

    Sabeis o que é a vida? Eu sei que não sabeis…
    Porque a vida não é isto que vós viveis.
    Fiz de vós cavadores, honrados e leais,
    também fui cavador e o foram já meus pais.
    Vós que nunca saístes aqui da nossa terra
    ignorais o que há p’ra além daquela serra!
    Existe um mundo imenso onde vai lado a lado
    o que é bom e o que é mau pois é de braço dado
    que a luz e a escuridão, a vileza e a bondade,
    o honrado e o ladrão, a mentira e a verdade,
    e que muito produz e aquele que explora,
    unidos como um só vão pela vida fora,
    mas quem se verga e sofre a mais cruenta lida
    é quem semeia o pão que é quem não vive a vida!

    Mal desponta a manhã e já lá vai a gente
    a terra revolver lançando-lhe semente,
    sob o frio e o calor e com canseira tanta,
    num desumano afã… quanta amargura, quanta?
    E tudo para quê? Se não foge à pobreza
    enquanto que o patrão multiplica a riqueza
    pois quem nada produz é quem tudo amealha
    e olha como um cão aquele que trabalha
    e o pobre cavador sem reforma, sem nada…
    Ou morre a trabalhar ao peso da enxada
    ou quando mais não possa, irá, que triste sorte!
    Esmolar de porta em porta e encontrará a morte
    na valeta da estrada onde apodrece o pó!
    e quem o explorou não tem remorso ou dó
    porque já tem no peito a alma corrompida!
    Isto é verdade meus filhos e isto não é vida.

    Mas mesmo para além da Serra que ali está
    p’ro pobre que trabalha a existência é má…
    Muitos pedem trabalho e como não lhe o dão
    têm que mendigar porque não tem pão!
    De um homem para o outro a vida se contrasta,
    a terra é p’ra uns mãe e p´ra outros madrasta!
    Uns esbanjam na orgia o dinheiro à mão cheia
    e outros que nada tem vão-se deitar sem ceia!
    Enquanto um deita fora aquilo que não come,
    outro que não tem pão agoniza de fome!
    E a corrupção que grassa pelo mundo
    faz desta vida bela um chavascal imundo!
    Gente que mata até por ódio e por cobiça
    e a força espezinhando a razão e a justiça!
    Órfãos de pai e mãe chorando os seus pesares,
    mulheres de pouca sorte enchendo os lupanares,
    mães solteiras sem lar, velhinhos sem guarida…
    Tudo isto existe sim, mas não é isto a vida!

    O mundo é vasto e bom, fecundo e tem beleza,
    a sua vastidão é a maior riqueza
    e o pão que a terra dá dividido por todos
    chegava a toda a gente e sobraria a rodos…
    Porém esta riqueza está mal dividida
    e a terra, bem comum, por uns quantos repartida
    tem vastas vedações de muros e valados,
    uns herdam quase o mundo, outros são deserdados,
    são poucos que produzem e muitos os que comem
    e a exploração do homem pela homem
    gera a ira, a revolta e todo o mal da terra
    por isso o mundo vive em permanente guerra!
    Que belo não será este mundo que amamos
    quando um dia afinal não existirem amos!
    Assim se faz do homem a fera fratícida…
    O mundo é isto sim, não é isto a vida!

    Por vezes me quedei, quando nascia o Sol
    e ia de enxada ao ombro em busca de trabalho,
    a fitar encantado as pérolas de orvalho
    que às pétalas oferece à tarde o arrebol,
    a campina em flor tão linda a despertar,
    a água no regato alegre a murmurar…
    Num êxtase escutava a doce sinfonia
    dum alado a saudar o dealbar do dia.
    Corria p’los trigais prenhes de trigo loiro,
    como se o campo fosse um vasto manto de oiro
    e à tarde ao regressar enfim a nossa casa
    fitando o pôr-do-sol, como uma enorme brasa,
    que aos poucos se apagava ao longe no poente,
    eu de novo vivia, eu voltava a ser gente…
    Sentia então em mim a revolta incontida
    porque o nosso viver é tudo menos vida!

    Porém o mundo é vosso e está na vossa mão,
    uni-vos como um só e filhos tereis pão!
    Encerrai as prisões e abri muitas escolas,
    a luz também é pão e acabam-se as esmolas.
    Aos amos esteriões dai-lhes feroz batalha,
    que a terra sempre foi e é de quem a trabalha,
    num mundo sem patrões não há exploração,
    dividindo-se os bens acaba-se a ambição,
    fazei um mundo igual e acabarão as guerras
    e fecundem depois os campos e as serras,
    porque o progresso está no ventre das campinas,
    nas fábricas, nos mares, nos campos e nas minas…
    Depois filhos vereis toda a beleza infinda!
    Do pão, da liberdade e desta vida linda!
    E a voz do camponês, já muito enfraquecida,
    a morrer ainda diz… – Sim… Isto é que é a vida!

    Poemas da madrugada
    José Rosa Figueiredo
    Dezembro de 1952

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