Num país perto de si

Ouvinte belga, hoje, em declarações a uma estação de rádio, onde um painel de políticos justificava a ruptura das negociações para o orçamento: “Parem de discutir. Não estamos em altura de respeitar princípios. Elaborem o orçamento e esqueçam os princípios.”

Estas frases traduzem bem o que se passa hoje em dia em grande parte da Europa. Cada vez mais países têm de encontrar soluções governativas sob a espada de Dâmocles dos especuladores. Os partidos de esquerda, de facto, estão perante o dilema de 1) manterem intactos os princípios que subjazem aos seus programas eleitorais, sob pena de os militantes e simpatizantes não se reconhecerem nas respectivas lideranças, ou 2) de os abandonarem, ainda que aos poucos e a contragosto, sendo acusados de indiferenciação em relação à direita.

Na Bélgica, com uma dívida próxima dos 100% do PIB, mas gozando, por enquanto, de uma boa situação económica, as negociações para a formação de uma coligação governativa apenas se concluíram ao cabo de mais de um ano após as eleições, mas, enfim, concluíram-se. Agora, negociava-se o orçamento para 2012, sem o qual não haverá (e bem) governo empossado. O resultado revelou-se um fracasso. Sem acordo possível, o hipotético futuro primeiro-ministro bateu com a porta e apresentou a demissão ao rei.
O problema qual é? São vários. O problema de fundo é que esta coligação foi formada contra o partido mais votado na Flandres, a NV-A, que, por ser independentista, ficou de fora, ao boicotar sistematicamente as primeiras negociações para a coligação. Unia-os, portanto, um inimigo comum. No entanto, quando encetam a primeira acção conjunta, que consiste na elaboração do orçamento, as divergências emergem, como não podia deixar de ser. Os socialistas acusam os liberais de quererem acabar com o sector público (hospitais, educação, prestações sociais) e de não aceitarem, por outro lado, taxar as grandes fortunas. Os liberais dizem que não. Já assistimos a isto.
Nos países em que a cizânia se instala (convém dizê-lo – porque a esquerda ganhou), os eleitores, fartos, têm vontade de mandar calar os políticos e de dar uma oportunidade aos técnicos de contas. Para terem um pouco de silêncio?

Assim se vai corrompendo a democracia por força dos “mercados”. Podemos daqui tristemente concluir que o mundo financeiro, após a crise de 2008, ganhou ainda mais poder. Assim, num país perto de si, e porque a falta de dinheiro do Estado, real ou demagogicamente exagerada, assusta toda a gente, ouvirá fatalmente, por estes tempos, onde quer que se desloque, falar no novo modelo de governos tecnocratas como o último grito em governação. Para já, por diferentes motivos, a população parece estar receptiva. É uma novidade. Pena ser só para alguns. Mais adiante se verá. Os juros não parecem estar a baixar nem na Itália, nem na Grécia, nem em Espanha, nem em Portugal, sob o comando de Gaspar. Os tempos são de grande expectativa e impotência. Aqui, na gaiola do euro.

28 thoughts on “Num país perto de si”

  1. A minha única dúvida é porque raio se temos governos tecnocratas continuamos a ter partidos, programas políticos e eleições e não cadernos de encargos e concursos públicos.

  2. Pois pois …

    Quem nos meteu na Comunidade Europeia? Mário Soares PS.
    Quem nos meteu no Euro? António Guterres PS.

    Princípios? No PS?
    Mário Soares meteu o socialismo na gaveta (Soares dixit).
    Os que lhe sucederam, meteram o socialismo no caixote do lixo, e, pelo caminho, meteram no bolso tudo quanto puderam (desde tachos em todos os lugares possíveis, a fundos comunitários), e deixaram o país no charco.

    Já me esquecia: quem lançou a lei sobre o trabalho precário (vulgo contratado a prazo?)
    Mário Soares, who else?

    A propósito: Sócartes já concluiu o curso na Universidade de Ferrero Rocher?

  3. Este povo está muito chocho,§, já perdeu a capacidade de manifestar a sua indignação, desta vez pelo facto de lhe estarem a ir não só ao dinheiro, mas ao Estado de Direito y la democrazia, pues…Esgotaram as baterias nos seis anos anteriores…
    Foi isto que escolheu, é isto que merece.

  4. Teresa: Os chamados tecnocratas não são desprovidos de ideologia, a maioria das pessoas nem pensa nisso. Os que já entraram em funções na Europa são vassalos da sra. Merkel, ou não estariam lá. Para já, ninguém os elegeu. Para já, acredita-se que são transitórios. Os que, mesmo asim, foram eleitos só se manterão enquanto não desafiarem a orientação central.

  5. complicado, penelope, muito complicado! os mercados sabem que os politicos teem medod e fazer essas politicas, e ai carregam nos juros para puxar a água ao seu moinho! começo a achar que mais valia nao termos entrado para este hospicio chamado UE

  6. E se o rei Alberto pegasse nos belgas e os levasse para a Grécia e o rei Constantino pegasse nos gregos e os levasse para a Bélgica?

    De uma só cajadada, eram mortos dois coelhos.

    Sr Barroso, aprenda!

  7. Por detrás destes governos tecnocratas esconde-se uma entidade que está a ganhar um poder incomensurável: A GOLDMAN SACHS. Todos os tecnocratas que têm estado a ser pescados, e que estão nos novos governos da Grécia e da Itália, já trabalharam, em lugares de destaque, para este Banco. A actual política que prosseguem visa uma estratégia de ataque aos métodos democráticos de governo, e criação de governos inspirados pelo grande capital, com ou sem apoio de partidos políticos. Assim se vão enfraquecendo as democracias na Europa e, possívelmente, se destruirá o Euro, que é o que interessa aos senhores da Goldman Sachs. Os povos europeus! Parece que estão todos anestesiados.
    É óbvio que o final desta hecatombe haverá uma nova guerra mundial, com o seu cortejo de miséria fome e dor. Mas que interessa isso aos senhores do capital, se conseguem assim ganhar colossais fortunas, numa concentração de riqueza inimaginável.

  8. Onde não há crise é em Cascais. O Estoril-Sol Residence, empreendimento de super-mega-luxo construído no lugar onde estava o Hotel Estoril-Sol, com três torres de 14 andares e 110 apartamentos, já foi praticamente todo vendido. Dois terços dos andares foram comprados por portugueses, muitos deles para segunda habitação. Os preços variavam entre 950.000 e 3.800.000 euros. Antes e durante a construção ficaram vendidos 90 por cento dos andares. Os dois ou três que restam são os mais baratinhos. Há uma pechincha, um T1 por 625.000 (se calhar, já usado), se vos interessar. E para quem viva do seu duro labor diário, há lá andares que se arrendam a cerca de 10.000 euros/mês.

    Um conhecidíssimo político e empresário do partido laranja terá comprado dois andares dos mais caros. O nome dele não digo, porque ouvi essa boca numa tasca.

    O Estoril-Sol Residence deu que falar há dias, quando se soube que o presidente do Banco Espírito Santo de Angola, agora a contas com a justiça portuguesa, estava implicado num desvio de 48 milhões do Banco Nacional de Angola e tinha comprado de uma vez seis andares lá no empreendimento. Ainda por cima tem bons vizinhos!

    Como eu gostava de conhecer a lista dos compradores portugueses…

  9. Só não percebo porque os parlamentos eleitos pelo povo se vergam aos mercados e suas imposições de tecnocratas. Não são os parlamentos que legitimam os governos????
    Será porque lá como cá se limitam a andar a tratar da vidinha e tem medo que lhes tirem os direitos adquiridos? Só pode….

  10. Zebedeu Flautista: Neste momento, não há dinheiro para podermos dizer “Tchau, mercados, passem bem”. A menos que algum governo decida deixar o euro e assumir e gerir as consequências, que são enormes e muito, muito desagradáveis. Mas um dia, talvez não muito distante, as desvantagens de nos mantermos no euro serão semelhantes às de sairmos.

    Sapo Cocas: Esse edifício horrendo, completamente desenquadrado? Só mesmo para novos ricos ou possuidores de petrokuanzas…

  11. aqui não tenho net em casa Edie (olá Teresa, também :). Vai dar convulsão na Europa mediterrânica em 2012 sim, que mais pode dar? É pegar faísca e lá vai. Mas eu não digo isto com alegria, mas como inevitabilidade da mecânica térmica, para não falar que os neutrinos já passaram a perna aos fotões. ´té manhã & bjos

  12. Quê, já foste xonex? Era só para dizer que a coisa vai ser decisiva, histórica, radical entre o dia 12 DE novembro e o dia 12 de Dezembro de 2012 (é uma bolinha de cristal que eu tenho aqui no gabinete de bruxa). FAVOR REGISTAR, VAL.

    §,
    quando voltares à net, recebe lá beijocas em troca e não esquecer que somos nós que estamos a construir o que vai acontecer…agora, a preocupação do povo é mais o subsídio de Natal, depois, vai ser :”como é que mudámos de registo civilizacional? Então agora tenho de escolher entre o dinheiro para subsistir e a democracia??”

    Nessa altura, conto pensar muitos dos discursos anti-Sócrates, como peças arqueológicas.

    Dorme bem.

  13. (não dá para dançar, a maravilha disto é que podem sempre não ouvir (9) ou dizer que está desactualizado, afinal já foi há muuuuito tempo…1968.

  14. (“how the fuck am I going to sleep after Revolution 9?” diz um comentador depois de ouvir isto…Isso já não é problema nosso, né? Faz-se o que se pode…

  15. O problema deste blogue é que às vezes uma pessoa tem a sensação de ser dj vaza pistas.

    Deixo um excerto do Palácio da Lua, de Paul Auster: “Agora trabalhava só para si,livre finalmente das opiniões dos outros.(…).O verdadeiro objectivo da arte não era criar objectos belos. Era um método para chegar à compreensão do mundo, para penetrar nele, para ser possível descobrir nele um lugar para viver. Quaisquer que fossem as qualidades estéticas de uma tela em particular, só podiam ser o subproduto do empenho pessoal naquele esforço, o esforço de penetração no âmago das coisas.”

  16. bzzzzzzzz :)

    Recorda-se que o valor no sentido semiótico é o valor como diferença que organiza cognitivamente o mundo focalizado (FONTANILLE e ZILBERERG, 2001) e que o sentido é, em primeiro lugar, uma direção, pois dizer que um objecto ou uma situação tem um sentido é dizer que tende a algo (FONTANILLE, 2007).

  17. Tá bem, ou me dizes que a situação não tem sentido por não tender a algo. Ou devEmos ser prescientes da situação como etapa? (desculpa lá acordar-te, eu própria já não estou muito)

  18. Hum? Olha o Mediterrâneo, a margem Sul incendiou por conta da imolação de Bouhazizzi ou lá como se chamava o rapaz. Nós na Europa somos muito mais pusilânimes e egoístas, já se imolaram alguns em França e nada, nem uma manif ou greve de protesto. Vai fazer torniquete no Irão, e cavitar a montante desde Espanha à Grécia e vai ser já em Janeiro, cá para mim. Mas deixa pra lá, quem dera estarmos antes a beber uma água de coco e falar da beleza da selva e do amor como fundamento da vida, sem morissocas!, que eu ando numa de Sebastião das morissocas, não sei é se escreve assim.

    Pois e eu também estou a fechar a porra do artigo numa de net emprestada, mas tava ali mesmo uma a calhar :)

  19. “arabesque” , escolher entre “plié” dinheiro “jetés” para subsistir “marché pas” e democracia “pirouette” representativa , é “promenade” fácil. vamos ser sempre “fouette” se um “battu” não fizermos ao “pás de deux” e não nos “elevation” ” devant” ao “pas de quatre ” de outra forma de dança que não o “contretemps” das cadeiras à esquerda e direita do plateau pote comprado a crédito para patinho feio sempre “en croix” pagar.
    prontos , já dei um pezinho de danças, dj.

  20. já me fizeste rir, pontas! Se queres que te diga acho que o baile vai ficar fora de controlo, embora cheio de dispositivos controladores. O Jorge de Sena falou da turba em O físico prodigioso. Agora é que é xonex.

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